sexta-feira, 27 de julho de 2012

Sangue no Zóio!


Sangue no Zóio!
Para meu amigo João Batista Félix


José Birula era tido como um militante radical, essencialista e que defendia  unilateralmente a autonomia da população negra. Crescera crente e corinthiano, virara punk nos anos 1970 e nessa mesma época adentrou as fileiras do movimento negro. Todos aqueles que conheciam Birulão, como era popularmente chamado, tremiam só de pensar em dividir uma mesa de debate com o figura. O homem era implacável, não deixava pedra sobre pedra e humilhava brancos e pretos pouco informados sobre ele e contrários as suas posições político/ideológicas. Enfim, Birulão se enquadrava naquilo que era conhecido no meio da negrada como o “negrão sangue no zóio”. Negrões “sangue no zóio” são aqueles pretos que exalam raiva e cujo os olhos ficam inchados e vermelhos antes dos mesmos partirem para o ataque. Assustador!

Segundo consta, há vários negrões “sangue no zóio” na história da humanidade: Marcus Garvey, Malcolm X, Otelo, Nego Dito, Serginho Chulapa, Muhammad Ali (foto), Exu, Frederick Douglas, Pato N’água, Tobias do Camisa, Branca de Neve, Rei Salomão, Notorious BIG, a Família Brown (James Brown, Mano Brown, Sheila Brown, Boby Brown e outros brownies), Xangô, Tupac Shakur, Saci Pererê, Neguinho Pastoreio, Hailé Selassie, Mike Tyson, Birulão dentre outros. Há também a categoria das “nega sangue no zóio”: Marli, Chica da Silva, Nina Simone, Maria Padilha, Angela Davis, Dandara, Rainha de Sabá e outras.

Birulão era o cara. Quando o seu Fusca vermelho com uma porta e capô preto sem pintura – que ele nunca tratava de arrumar – eram avistados nas quebradas do Bairro do Limão até o tom da rodas de conversa mudavam. As mães, quando queriam fazer as crianças se comportarem, apenas diziam algo como “Ah moleque, vou chamar o Birulão pra ter uma conversinha com você, viu?” e o problema se resolvia. Apesar de sua fama de severo, radical, inflexível, politicamente engajado e general, pouco se sabia da vida pessoal de Birulão. Pouquíssimas pessoas já haviam adentrado o interior da sua casa e os que fizeram contribuíam ainda mais para o folclore relacionado aquela figura do bairro do Limão. Alguns diziam que todas as paredes da casa eram cobertas com estantes cheias de livros e que não havia nem um móvel se quer, outros afirmavam que a casa era uma bagunça e cheia de garrafas de cachaça vazias espalhadas pelo chão, alguns afirmavam que havia despachos em todos os cantos da imóvel e outros ainda juravam que havia fotos nas paredes da casa que mostravam Birulão com uns trajes meio estranhos e segurando cobras nas mãos.

Mas o mistério sobre nosso pretão “sangue no zóio” era acompanhado de outros aspectos que deixavam todos ainda mais confusos. Birulão media quase dois metros de altura, possuía um corpo musculoso e os braços tatuados com símbolos enigmáticos. Geralmente usava um black perfeitamente arrumado com laquê, cavanhaque milimetricamente feito e um brinco de argola dourado na orelha esquerda. No dias de sol o homenzarão saía de casa todo estiloso usando Ray Ban aviador na cara, camiseta regata, calça boca de sino e bota preta engraxada a ponto de refletir imagens na sua superfície. Seus dentes chegavam até brilhar quando o pretão falava emitindo sua voz gutural com o típico sotaque paulistano e os irritantes “a nóis vai”, “a nóis vem”, “meu” e “ora” enquanto movia um palito de dentes no canto da boca. Todo domingo Birulão vestia uma camiseta de lã preta com o brasão do Corinthians e ia assistir os jogos do Timão no Pacaembu.

Havia estórias e mais estórias sobre Birulão... Uma de que ele havia batido em três policiais armados da ROTA, outra de que um sujeito tentou assaltá-lo na quebrada e que ele tomou a faca do infeliz assaltante cortou um dedo do rapaz e o comeu o pedaço de carne a sangue frio e outra que Birulão tinha sido boxeador e ganhado um campeonato estadual na categoria peso pena antes de passar a integrar as fileiras do movimento negro. Havia também comentários de que Birulão freqüentava um pé sujo na quebrada do Limão e ficava horas e horas tomando pinga e comendo pimenta malagueta como petisco: o pretão comia a pimenta e tomava a pinga num copo grande de suco pra dar uma refrescada. Mas a mais extraordinária história de todas era a de que Birulão era mestre de capoeira que jogava uma modalidade chamada rangonal – mistura de regional com angola – e que havia viajado para um país africano onde teria participado de um programa intensivo de guerrilha tendo como parceiros de curso militantes do Black Panthers Party, O Fruto do Islã (a guarda dos Muçulmanos Pretos), um pessoal da Torcida Jovem do Santos, outro da Gaviões da Fiel e a FRELIMO (só a elite dos “negrão sangue no zóio”) no qual iniciou os patrícios gringos nesse tipo de capoeira. Rambo, perto de Birulão, era um peidinho, diziam.

Outro lugar que Birulão podia ser freqüentemente visto era nos ensaios da Vai-Vai no Bexiga. O negrão tocava surdo e todo ensaio era necessário dar um instrumento novo pro figura já que Burilão destruía a parada devido a força com que batia no mesmo. Alguns diziam que Birulão batia no surdo imaginando que o instrumento fosse um branco. Mestre Tadeu, folgado como ele só, se virava para o patrício de quase dois metros e dizia enjuriado: “Porra negrão, você é foda hein?! Só dá prejuízo, caralho!”. O sonho das negas era ver Birulão na comissão de frente da escola mostrando o seu corpinho. Mas Birulão se negava, dizia que lugar de negrão que é negrão mesmo era com os “curvas de rio” da bateria (e haja curva de rio!). Pois é, Birulão, Birulão e Birulão... O terror da brancaiada e o fetiche da mulherada. Pois bem, aí que começava o problema.

Havia muita especulação sobre os motivos que haviam feito José Birula se tornar Birulão, ou seja, passar de um neguinho qualquer a um ativista radical. Por mais que ele sempre esclarecesse a todos que sua energia e luta não era dirigida contra os brancos, mas sim contra o racismo, e que “radical” não fazia referência a alguém extremista ou essencialista, mas a um indivíduo que focava as causas primárias dos problemas nas discussões uma vez que “radical” vinha de raiz, a maioria das pessoas o associavam a um imaginário de ódio aos brancos. A história mais disseminada para explicar esse suposto posicionamento era de que Zé Birula, ainda no início de sua juventude, havia sofrido uma desilusão amorosa com uma loira escandinava que o abandonara quando ele se encontrava perdidamente apaixonado. A partir daquele momento Birula teria prometido lutar contra todos os brancos, já que eles seriam a causa maior de seu sofrimento. Nascia então Birulão, o negrão sangue no zóio... Contudo, essa história era rebatida pela maneira cordial que o ativista radical tratava branc@s em geral, principalmente aquele/as que ele denominava branc@s aliad@s. Em suas falas ele explicava que o racismo deveria ser entendido como relação de poder disseminada na sociedade e  reproduzida tanto por negros como brancos, mas que favorecia brancos em detrimento de negros. Sendo assim, seria incorreto falar em negros racistas, já que negros não teriam o poder. Eles poderiam ser preconceituosos, mas não racistas. Mas como pouca gente entendia o palavreado cheio de “ismos” de Birulão – anarquismo, afro-marxismo, culturalismo, trotskismo, lenilismo, individualismo, corporativismo, estruturalismo, etcéteraismos – o termo “racismo às avessas” era logo associado ao pretão e Birulão era tido como um grande NEGRÃO RACISTÃO!

Mais controvérsia surgia pelo fato de que Birulão nunca era visto em companhia feminina algo que, ao mesmo tempo, fazia com que outros fuxicos surgissem como o de que Birulão era um gay enrustido que, por falta de coragem de assumir sua homossexualidade, canalizava seu ódio contra os brancos e exacerbava sua virilidade. O resultado era uma confusão só já que Birulão era temido e ao mesmo tempo desejado por branc@s e pret@s, heteros e homos. Birulão, o negrão sangue no zóio e símbolo sexual!

Toda a controvérsia sobre Birulão aumentava de forma vertiginosa. Havia apostas disseminadas entre todo o movimento negro e os brancos sobre se o negrão sangue no zóio seria gay, namoraria ou seria casado com um/a branc@. Mas algumas pessoas estavam decididas a desvendar os segredos do negrão e armaram uma espécie de cilada para o figura. O ativista foi convidado para falar numa mesa sobre a importância das mulheres negras e a questão da sexualidade no período da escravidão. Todos os participantes da mesa foram aconselhados a levarem suas namorad@s, esposas ou companheir@s já que a mesa se dava justamente num 12 de junho, dia dos namorados, e na seqüência haveria uma baile em comemoração a data.  O tema da mesa era sugestivo: “Por Todas as Formas de Amor Livre de Preconceito”. Birulão fora convidado a falar sobre a possibilidade de amor entre negros no período da escravidão e aceitou a proposta sem pestanejar ou desconfiar da verdadeira intenção dos organizadores.

O dia chegou. Pontualmente Birulão estacionou seu Fusca vermelho, com capo e porta pretos, em frente a Associação Mãe Preta localizada numa quebrada da Casa Verde. Vinha sozinho no seu carro o que despertou a atenção das pessoas que o receberam na entrada do prédio fitando seu rosto protegido pelos óculos escuros Ray Ban aviador. Ninguém disse absolutamente nada sobre a ausência de sua companhia, mas todos os olhares eram de cumplicidade e dúvida. Birulão parecia tranqüilo. Os outros participantes da mesa já haviam chegado sendo uma ativista negra lésbica, um branco gay e uma branca feminista. O negrão sangue no zóio cumprimentou todos de forma amigável e tomou seu lugar na mesa. A platéia era diversa: homens, mulheres e crianças das mais diversas raças e etnias. Negros, brancos, asiáticos, judeus ortodoxos, muçulmanos, evangélicos, candomblecistas, umbandistas, católicos entre outros, um zoológico só. Havia um certo frenesi na audiência, mas Birulão não notara nada de diferente na mesma em relação as outras que já enfrentara. Pelo contrário, aquela, sabia-se lá por qual motivo, parecia-lhe extremamente simpática. O branco gay foi o primeiro a falar e expôs a problemática de ser homossexual e ter relacionamentos como pessoas do mesmo sexo numa sociedade homofóbica expondo sua experiência de vida. Em seguida falou a branca feminista que trouxe números que evidenciavam a desigualdade de gênero entre homens e mulheres e como só se poderia haver relacionamentos verdadeiros quando as relações de gênero fossem mais igualitárias. Na seqüência falou a negra lésbica falando da especificidade das mulheres negras dentro de uma sociedade racista, machista e patriarcal. Ainda havia no caso dela a dificuldade de ser homossexual e enfrentar a homofobia da sociedade conjunta a opressão de gênero e raça. Birulão foi o último e falou de amor entre negr@s usando um texto de bell hooks. De acordo com ele, o amor tinha sido algo negado aos negros por conta da escravidão onde vínculos consangüíneos entre pai, mãe, filhos, marido e mulher eram quase impossíveis de serem estabelecidos. Mesmo com o fim da escravidão, o amor era visto como um privilégio em meio a necessidade de subsistência e essa dificuldade de amar continuava a existir devido ao processo de desumanização que negr@s haviam sofrido por conta do racismo. A possibilidade de amar plenamente para negros estava vinculado ao combate as formas de opressão vigentes não só no racismo, mas também na homofobia e no patriarcalismo. Ao final da fala dos palestrantes a platéia foi convidada a fazer perguntas e o debate durou por mais uma hora. Todos acompanhavam as perguntas e respostas com atenção. Por volta da 22 horas a mesa foi dada como encerrada e todos foram convidados a tomar parte do baile conduzido por um equipe de black music.

As simplórias cadeiras de metal meticulosamente dispostas na sala foram rapidamente retiradas deixando o espaço vazio para que o baile acontecesse. O disc-jóquei, após alguns testes no microfone e na aparelhagem, soltou a primeira melodia que suavizou ainda mais o ambiente descontraído. O rapaz gay segurava a mão de seu companheiro, a militante feminista parou ao lado de um homem que parecia ser seu marido e a ativista negra lésbica abraçava sorridente a sua esposa, uma mulher negra na casa dos 30 anos. Birulão havia sumido e novamente o olhar de dúvida e curiosidade invadiu os olhos dos presentes. Da mesma forma que desaparecera o negrão sangue no zóio reaparecera dessa vez segurando um copo americano cheio de cachaça e com um sorriso que exibia seus dentes imaculadamente brancos cujo brilho ofuscava a visão de seu rosto retintamente preto. O reflexo de seus dentes também fez com que somente após alguns minutos os presentes notassem que havia outro corpo atrás de Birulão. Um braço do corpo entrelaçava a cintura do negrão, mas era apenas o que se conseguia ver. A notícia começou a correr o salão e muitas senhoras mais velhas, após ouvirem a fofoca do que ocorria, sussurrada de ouvido em ouvido em voz baixa, faziam o sinal da cruz e saiam do salão de maneira discreta.

Uma hora se passou e Birulão continuava no canto do salão, bebericando sua cachaça e com o braço do corpo desconhecido circundando sua cintura. O salão começava a esvaziar. Foi nesse momento que um dos organizadores criou coragem e resolveu se dirigir até onde Birulão estava parado sorrindo e bebendo. Os passos do senhor branco de meia idade eram hesitantes e por mais de uma vez ele pensou em desistir de sua intenção, mudar de direção e se dirigir a outro lugar do salão. Porém, após não mais do que dez passos, ele se encontrava praticamente de frente com Birulão e no momento que ensaiava as primeiras palavras para a figura de quase dois metros de altura foi paralisado pela visão que teve. Um corpo idêntico ao de Birulão surgiu a sua frente como se o negrão houvesse se duplicado. O homem ficou aterrorizado e sua pele, levemente rósea, avermelhou-se. A boca meio aberta deixava explícito seu espanto e terror e, depois de alguns segundos olhando para as duas imagens a sua frente, o homem notou algo de diferente: um salto alto sustentava os pés nus de unhas pintadas de vermelho, a calça de lycra preta marcando as pernas volumosas, uma bata vermelha de seda combinando com os enormes, brincos, colares e pulseiras pretas que adornavam o corpo que tinha quase a mesma altura de Birulão. Meio sem jeito e procurando uma palavra que amenizasse a confusão que seus pensamentos haviam mergulhado o homem de meia idade disse de forma quase involuntária e com os olhos arregalados... “Porra Birulão, você é radical memo hein negrão?... Até sua muié é preta, caralho!”

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Di Melo, O Imorrível!



Cena 1: Início do mês de abril, dias antes de visitar o Brasil numa viagem rápida, estava eu a caminhar com meu amigo Ernesto Carvalho, fotógrafo e estudante de doutorado em antropologia na New York University (NYU), pela rua 14 quando ele respondeu a uma de minhas indagações - e sempre faço "indagações" a Ernesto - cantando uma letra de música que eu descreveria de, no mínimo, peculiar. Abri um sorrisso e perguntei que porra era aquela de música que ele estava cantando ao que meu amigo respondeu, "Di Melo, cara! Você nunca ouviu Di Melo?" Diante de minha negativa veio toda uma história sobre o autor de Kilarió...

Cena 2: Início do mês de maio. Encontro com Ernesto depois de voltar para Nova Iorque e pergunto: "E aí mano, cadê o DVD do documentário do Di Melo?", "Esqueci, mas trago amanhã..."

Cena 3: Mês de junho. Novo encontro. "E aí Ernesto, traz o DVD pra mim amanhã?", "Pô amanhã sem alta eu trago. Desculpa aí! Hoje quando chegar em casa vou colocar o esquema dentro da mochila e não tem como esquecer, ok?"

Cena 4: Mês de julho. Mais um encontro... "E o DVD, Ernesto?...", "Puta merda, cara!"...


Assim é meu truta Ernesto, só não esquece a cabeça por que está grudada. Mas enfim, naquele primeiro papo sobre Di Melo em abril, meu brother explicava que o cantor é uma celebridade da Brazilian/soul/MPB (música preta brasileira). Nos anos 1970 esse pernambucano radicado em São Paulo conseguiu lançar um disco após tocar por um tempo na noite paulistana. O LP sairia pela EMI-Odeon tendo a participação de celebridades como Hermeto Pascoal e Heraldo do Monte e algumas canções como Kilariô, A Vida em Seus Métodos Diz Calma e Se o mundo Acabasse em Mel tiveram uma boa repercussão. Contudo, após algum tempo tanto o LP como o cantor cairam na obscuridade.


A retomada se deu nos anos 1990 a partir de DJs ingleses que começaram a tocar suas músicas tendo uma delas, A Vida em Seus Métodos Diz Calma, sido incluída na coletânea Blue Brazil 2 da gravadora de jazz Blue Note e o cantor chegou a fazer uma participação no vídeoclipe da canção Don't Stop the Party do grupo Black Eyed Peas. Seu primeiro e único álbum foi relançado, em CD, em 2002, dentro da coleção Odeon 100 anos, coordenada por Charles Gavin. Além do disco de 1975, estima-se hoje que o cantor/compositor possua mais de 400 músicas inéditas criadas ao longo dos últimos 35 anos. O DVD que fiquei a pedir insesamente para meu amigo esquecido é o do documentário Di Melo: O Imorrível (2011), dirigido por Alan Oliveira e Rubens Pássaro (amigos de Ernesto), que retrata a vida do cantor a partir de depoimentos de amigos, músicos e entrevistas com o próprio artista. Chega de conversa... Baixe o disco de Di Melo AQUI e assista o trailer do filme que eu ainda não assisti logo abaixo. Mas Ernesto me prometeu que trará o DVD amanhã... *rs*
Muita Paz, Muito Amor!

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Meus 10 Livros “Mais Mais” de 2011: Post Número 10


10- Black Sexual Politics: African Americans, Gender and the New Racism (2005). Patricia Collins. Routledge. New York. US$ 33.57 (em média). Minha última leitura preferida de 2011 foi o livro de Patricia Collins, uma famosa socióloga negra feminista afro-americana. No Brasil Collins é mais conhecida por outro livro intitulado Black Feminist Thought (1999) e no qual ela traça um quadro histórico e teórico do pensamento negro feminista nos EUA. Já em Black Sexual Politics, Collins foca sua atenção a questões relacionadas a gênero, sexualidade e a representação dos negros na mídia e na cultura popular norte-americanas. De acordo com Coolins, a sexualidade dos negros é em geral retratada como “wild” (selvagem) e “out of control” (fora de controle). Ao dedicar atenção especial aos marcadores de gênero (na verdade, uma abordagem inter-seccionada das categorias raça, classe, gênero e sexualidade), a autora se capacita a afirmar que desde da época de Sarah "Saartjie" Baartman (1790-1815), a mais famosa das Vênus Hotentotes, e Josephine Baker (1906-1975), o corpo das mulheres negras tem sido visto como elemento de diferenciação racial e objeto de desejo sexual. Atualmente, cantoras de R&B como Jennifer Lopez, ou as integrantes da antigo grupo de Beyoncé Knowles, o Destiny’s Child, além de rappers femininas como Missy Eliot e outras celebridades da cultura popular negra tem explorado mais e mais em suas canções ou no conteúdo de seus mais diversos produtos culturais tópicos relacionados ao formato e tamanho de seus próprios corpos e preferências sexuais. Canções como Bootylicious (2001), do Destiny’s Child, Get Your Freak On, de Missy Elliot (2001), e o fato de Jennifer Lopez ter segurado suas nádegas em um milhão de dólares seriam claros exemplos de como a sexualidade é explorada na indústria musical e no aparato midiático estadunidense. Collins afirma que há um “novo racismo” nos Estados Unidos contemporâneo que é, em grande parte, fruto de três diferentes mas inter-relacionadas mudanças na estrutura da sociedade norte-americana. Primeiro, há o estabelecimento de um novo capitalismo global que separa a sociedade entre dois grupos de indivíduos: 1) aqueles vinculados a corporações internacionais e/ou elites econômicas e políticas com alto poder de mobilidade e acesso a informação e 2) uma classe de indivíduos pobres, em sua maioria negros, com empregos precários, pouco ou nenhum poder de mobilidade e ausente de informação. Ao mesmo tempo, há uma mudança na estrutura política da sociedade norte-americana que destitui os cidadão de vários direitos, mesmo quando ele aparentam estar incluídos.  Por fim, no contexto do novo racismo, o aparato midiático cresce em importância e tem um papel chave na reprodução e disseminação de idéias que legitimam e justificam o novo racismo que é explicado através de falsos argumentos culturalistas.  Nas palavras da autora, “os filmes, revistas, vídeos de música, shows de televisão do entretenimento global, a publicidade e as novas indústrias que produzem super estrelas como Jennifer Lopez ajudam a forjar o consenso que faz o novo racismo parecer natural, normal e inevitável” (Collins, 2005: 34). Nesse sentido (e de forma paradoxal), os EUA são um lugar onde sexualidade, em geral, e sexualidade negra, em particular, tem alta visibilidade mas, ao mesmo tempo, são uma sociedade repressiva onde se evita o engajamento em discussões sobre sexualidade em perspectivas políticas e educacionais. O resultado imediato desse processo é uma ausência de debate sobre sexualidade fazendo com a que a mesma seja normativamente entendida (sem questionamentos) como heterosexismo e levando a que outras práticas e orientações sexuais sejam vistas como tabu e consideradas desviantes. O silêncio do “política afro-americana em questões de gênero e sexualidade” cria um cenário onde descrições estereotipadas da sexualidade negra são normalizadas/naturalizadas e entendidas como desviantes. Um dos grandes méritos da análise de Collins nesse livro é mostrar como as questões de gênero afetam tanto homens como mulheres (gênero não é uma “questão apenas de mulheres”, como muitos acreditam), sejam ele/as hetero, homo ou transexuais. Para aqueles que se deliciam com a cultura popular negra vista em ritmos musicais (hip hop, R&B, funk, soul, jazz, etc.), filmes (blaxploitation, hood movies e comédias românticas negras), stand ups de comediantes e séries de TV com personagens negro/as, o livro é uma oportunidade única de ver essas manifestações esmiuçadas numa análise sociológica complexa e bem feita. Em suma, depois de ler livro você vai entender porque algumas mulheres afro-americanas se referem a si mesmas ou a colegas femininas como bitches , porque alguns afro-americanos se auto-definem ou se referem a amigos próximos como dogs, porque negros gays são vistos como negando a identidade negra ao assumirem sua homossexualidade dentre outras questões polêmicas.
Muita Paz, Muito Amor!

terça-feira, 24 de julho de 2012

Racionais MC's: "Politics is Cool!"


Assistindo ao mais novo vídeo do grupo de rap Racionais MC's lembrei de um trecho do livro Hip Hop America (1999), escrito pelo jornalista afro-americano Nelson George, na qual o autor descreve a novidade trazida por um dos grupos de rap mais importantes da história do hip hop mundial: Public Enemy. De acordo com George, a trumpe liderada por Chuck D foi, na virada da década de 1980 para 1990, responsável por fazer com o que o engajamente político se tornasse algo divertido e hype. Em suma, Public Enemy transformou a política em algo cool, um termo que no limite não pode ser traduzido, pois é entendido como "legal", mas faz referência a algo maior próximo de "descolado". Ao assistir o vídeo "Mil Faces de um Homem Leal (Marighela)", faixa do próximo álbum dos Racionais, senti isso... Ou seja, como os Racionais conseguiram colocar a história de guerrilheiro Carlos Marighela numa perspectiva "cool" e o aproximar da imagética de líderes negros da diáspora africana. Aliás, essa rapaziada de São Paulo volta a suas primeiras influências uma vez que a estética do vídeo está muito próximo da estética vista nos clipes do grupo de Long Island durante o seu período de apogeu. A letra de Brown é boa, mas o letrista está longe de sua melhor forma quando a mesma é comparada com perólas do tipo "Capítulo 4 Versículo 3" ou "Tô Ouvindo Alguém me Chamar". Mas Brown é Brown: ele é o cara e politics is cool!
Muita Paz, Muito Amor! 

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Meus 10 Livros “Mais Mais” de 2011: Post Número 9


9- Malagueta, Perus e Bacanaço (2004). João Antonio. Cosac Naify. São Paulo. R$ 49 (em média). Durante muitos anos tentei ler João Antonio (à direita na foto, de barba), mas sei lá porque motivo sempre travava nas primeiras páginas e acabava deixando a leitura de lado. Ano passado, no dia de meu aniversário, consegui comprar a edição mais recente de Malagueta, Perus e Bacanaço lançada em 2004 pela Cosac Naify. Os livros são extremamente bonitos e com enxertos de textos inéditos do autor, comentários críticos de especialistas além de uma introdução de nada menos do que Antonio Candido. Não quero dizer que tudo isso foi necessário para me convencer da importância desse autor paulistano que se colocou como uma continuação da literatura feita por Lima Barreto, mas retratando o cotidiano dos bairros populares, classe média baixa ou trabalhadora e da malandragem paulistana dos anos 1960 e 1970. João Antonio é um autor que há muito tempo conquistou seu lugar na literatura brasileira e serviu de inspiração para uma grande leva de autores, inclusive aqueles vinculados ao que hoje se convencionou chamar de “literatura marginal”. Entretanto, diferente desses Antonio possui uma espécie de prosa que o aproxima ao mesmo tempo da linguagem falada como da poesia: sua maneira de escrever é ritmada, próxima de um samba caipira como aquele cantado por um sambista contemporâneo seu, Gilberto Filme (se não sabe quem é, googa aí e baixa os discos!). A poesia que nasce do estilo e das histórias de João Antonio é tão forte que Candido afirma que Malagueta... é uma espécie de clássico de um “regionalismo urbano”, algo próximo do que Os Sertões, de Guimarães Rosa, representou para a escola regionalista da literatura brasileira. As personagens do livro de estréia de João Antonio são figuras sofridas da selva de pedra chamada São Paulo que nos anos 1960 já mostrava traços do crescimento desordenado, da desigualdade social, da violência policial e de vários outros problemas sociais que só pioraram com o passar das décadas. Entretanto, lendo os contos do livro é possível captar uma nostalgia de lugares que guardaram os nomes – Lapa, Barra Funda, Pinheiros, Centro e outros –, mas que mudaram de forma radical. Há no livro um retrato apurado de prostitutas, pequenos funcionários públicos com seu trabalho entediante e da malandragem que resolvia suas pendências na base dos socos e navalhas, jogava bilhar e contava histórias de “celebridades” do mundo da rua numa época que a droga mais conhecida era maconha. Morrer de “tiro” ou ser baleado era algo somente para poucos bandidos mais célebres. João Antonio fala de uma época em que a miséria urbana era a regra, mas ao mesmo tempo era possível fazer dela uma espécie de poesia sofrida e melancólica que alentava a vida das pessoas, algo perfeitamente captável no sambas do mestre Cartola no contexto do Rio de Janeiro. Décadas depois, a escalada da violência tiraria essa possibilidade, algo que poderia facilmente buscar uma analogia entre a troca das navalhas pelos “três oitão” para resolver as “tretas” dos malandros. Na violência não existe poesia, só sangue e dor! Leia João Antonio...
Muita Paz e Muito Amor!

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Meus 10 Livros “Mais Mais” de 2011: Post Número 8


8- Bonequinha de Luxo: Breakfast at Tiffany’s (2006). Truman Capote. Companhia das Letras. São Paulo. R$ 43 (em média). Sou um grande fã de Truman Capote. Nos tempos de graduação li Música Para Camaleões (1980), tendo o estilo desse livro sido denominado pelo autor de "romance de não-ficção", e, desde então, virei um desse sofisticado escritor norte-americano assumidamente gay nos anos 1950/1960, amigo íntimo de mulheres da alta roda nova-iorquina e detentor de uma literatura afiada. Ok, todo mundo sabe que o clássico de Capote é A Sangue Frio (1966) e, seguindo o estilo desse livro, Música... pode ser entendido como uma espécie de continuidade. Capote era extremamente vaidoso e pouco ortodoxo na forma de conseguir informações para as suas histórias (assista o filme Capote e saberá do que estou falando). Bonequinha de Luxo, por incrível que pareça, é um livro cuja estilo é bem diferente e um pouco distante do que seria consagrado em A Sangue Frio.  Quando escreveu Bonequinha... Capote já era relativamente conhecido, mas buscava aperfeiçoar seu estilo buscando um tipo de escrita menos prolixa e mais direta. A faceta biográfica, que seria consagrada em Música..., já é explorada em Bonequinha... mas não de forma totalmente declarada. Quem afirma isso é o crítico Sam Wasson no livro Quinta Avenida, 5 da Manhã: Audrey Hepburn, Bonequinha de Luxo e o Surgimento da Mulher Moderna (2011) – uma espécie de “biografia” da obra (filme, livro, discos), gênero que vem se consagrando há tempos nos EUA – que explora os bastidores da produção do filme Bonequinha de Luxo (1961), filme que consagrou a carreira da atriz Audrey Hepburn. O livro de Capote, por sua vez, é um coleção de três contos ("Uma Casa de Flores", "Um Violão de Diamante" e "Memória de Natal") e uma novela que leva o nome de "Bonequinha de Luxo" ("Breakfast at Tiffany’s" no original em inglês) tendo sido adaptada para o cinema. O papel central da  novela  é composto por uma prostituta de luxo que foi incorporada por Hepburn no filme e, de acordo com Wasson, foi inspirado na mãe do escritor. Capote teve uma infância e adolescência solitária, já que a mãe estava sempre envolvida em algum relacionamento o que a fazia colocar as necessidades e atenção do filho em segundo plano. Wasson afirma que a progenitora de Capote era uma mulher originária do sul dos EUA que sonhava com o glamour de Nova Iorque vista em filmes clássicos de Hollywood. Por conta disso e de relacionamentos fracassados, desde cedo o escritor sofreu e, com o passar do tempo, se acostumou a não ser o centro das atenções da mãe que deixava o filho de lado para frequentar festas e dar atenção a seus amantes. O que impressiona é como Edward Blake, diretor do filme Bonequinha de Luxo, conseguiu transformar uma novela cujo personagens são uma prostituta e um homossexual aspirante a escritor sustentado por uma amante rica num filme que apresentou uma representação de mulher moderna a sociedade norte-americana dos anos 1950. Tudo isso é explorado por Sam Wasson em seu recente livro. Mas fica a dica: para entender bem o livro do crítico é necessário ler o livro de Capote e assistir o filme de Blake. Li Quinta Avenida, 5 da Manhã em janeiro, mas ele só vai ser resenhado por aqui ano que vem... *rs*
Muita Paz e Muito Amor! 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Vovó Betina


“Minha bisavó era uma índia bugre e foi caçada no laço pelo meu bisavô!”, disse a garota morena de olhos verdes e dentes bem delineados que denunciavam o uso por vários anos de aparelho ortodôntico. Júlio sorriu e tomou mais um gole de sua cerveja. Noite de sexta-feira e o típico esquema de matar a última aula da faculdade para ir para o bar situado nas redondezas da universidade rolava novamente. “Meu avô era mais preto que você, Julião. Parece que ele era filho de escravos no sul de Minas, tá ligado?”, dessa vez havia sido o rapaz ruivo com sardas no pescoço que seguia o caminho natural da conversa do grupo de jovens universitários ao colocar a cor da pele de Júlio como mote do bate papo regado a cervejas e porções de batata frita. “Vovó Betina era loira dos olhos azuis e veio da Alemanha tentar a vida no Brasil!” Toda a mesa, constituída por uns cinco jovens, olhou surpresa para Júlio. “Nossa, que legal, cara! E ela casou aqui?”, perguntou alguém. “Sim, casou com meu avô que também era alemão e já estava no Brasil há algum tempo antes dela.” “Mas eles são os seus avós por parte de mãe ou de pai?”, perguntou outra voz. “Mãe. Da parte de pai minha ascendência é italiana!”. Silêncio. Júlio tomou mais um gole da cerveja que esquentava em seu copo enquanto observava olhares de dúvida e incerteza. “Legal Julio! Mas... Bem... Então...” ameaçou alguém. “Bicho, não sabia que você era adotado”, finalmente lançou corajosamente um deles. “Adotado? Não, sou filho biológico. Por que você acha que eu seria adotado?”, respondeu Júlio com uma expressão de dúvida no rosto. A mesa estava pasma, mas o universitário não parecia se importar. “Estou querendo tirar minha dupla cidadania, mas tô na dúvida se peço a alemã ou italiana. O que vocês acham?” A conversa parecia tomar contornos surreais pelo olhar de todos os jovens presentes na mesa do boteco. O único que parecia à vontade era o rapaz dono da pele cor de chocolate amargo. “Mas e aí, alemã ou italiana?”, insistiu o jovem abrindo um sorriso de prazer. “Alemã!”, disse uma voz feminina vacilante. “Acho que você tem razão”, disse Júlio com um sorriso, “Sempre quis assumir minhas raízes alemãs!”. Silêncio sepulcral em minutos que pareceram horas... “Pois é... E o Corinthians, hein? Viu o jogo de anteontem?”, emendou o rapaz ruivo meio sem jeito enquanto fazia sinal para o garçom pedindo mais uma loira gelada. “Não fode, pô... Eu sou palmeirense, caralho!” Disse Júlio com cara feia e batendo o copo vazio na mesa.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

É Tudo no Teu Nome, Jesus!


É Tudo no Teu Nome, Jesus!

“Aleluia irmão, o sangue de Jesus tem poder!”, gritava o homem de terno e gravata modestos no microfone fazendo toda congregação tremer de júbilo. Toda tarde voltando do trabalho Pé de Porco passava em frente a igreja evangélica e ficava por umas dezenas de minutos pensando em entrar. Olhava o pastor, filmava os fiéis, mas não tinha coragem. Pensava, olhava para os lados, mas acabava seguindo seu caminho de volta para casa.

Num belo fim de tarde de primavera Pé fazia seu caminho habitual e passou em frente a igreja como de rotina. O pastor, parado ao lado da porta, convidou o garoto esguio e de boné do Santos na cabeça a entrar e ouvir a palavra de Deus. Pé olhou desconfiado num primeiro momento, mas foi seduzido pelo convite e acabou adentrando o templo sem dizer uma palavra. O dia estressante e a notícia que fora demitido do trabalho, recebida horas antes, também pesaram na decisão. Durante o culto que se seguiu, o pastor olhava para o garoto com uma expressão de satisfação até que em determinado momento dirigiu a palavra ao rapaz perguntando se ele estava pronto para dar seu testemunho e aceitar Jesus. O garoto titubeou mas acabou se levantando, deixando a mochila que trazia a marmita cair no chão, e fitou a congregação que naquele final de tarde contava com uns dez ou doze fiéis entre homens e senhoras já idosas. Num movimento rápido Pé de Porco levantou a camiseta larga da Torcida Jovem e sacou de um revolver calibre 38 bem velho ao que foi logo gritando...“TESTEMUNHO O CARALHO! TODO MUNDO NO CHÃO AGORA, PORRA!”, e se dirigindo ao pastor com um olhar de prazer, “E VOCÊ TIOZÃO, PASSA ESSE MICROFONE SEM FIO PRA CÁ JÁ, ANTES QUE A CHAPA ESQUENTE PRO SEU LADO E VOCÊ VÁ TROCA IDÉIA COM JESUS EM PESSOA, TÁ LIGADO?”...

E foi assim que Pé de Porco se tornou o primeiro MC da quebrada a ter um microfone sem fio nos idos dos anos 1990 causando, inveja na nova e velha escola do hip hop paulistano.

"Da Hip Hop Hood MódaFóca Stories Series!"

terça-feira, 26 de junho de 2012

Meus 10 Livros “Mais Mais” de 2011: Post Número 7


7- Malcolm X: A Life of Reinvention (2011) de Manning Marable. Viking/Penguim. New York City. US$ 10.98 em média. Malcolm X foi assassinado a tiros em 21 de fevereiro de 1965, minutos depois de dar início a uma fala pública em um salão de baile localizado em Washington Heights, região norte da ilha de Manhattan e extensão do Harlem, numa tarde de inverno nova-iorquina. Quarenta e seis anos nos separam desse trágico evento, mas ainda relativamente pouco se sabe sobre as circunstâncias que levaram três homens a abrirem fogo contra Malcolm silenciando uma das mais polêmicas e populares lideranças negras que os Estados Unidos já tiveram. O lançamento de Malcolm X: A Life of Reinvention, de autoria do historiador norte-americano Manning Marable (1950-2011), promete, entretanto, uma reavaliação do caso e da vida do carismático líder negro. Leia o restante de minha resenha, que foi publicada numa revista acadêmica em dezembro último, clicando AQUI... (livro eleito pelo jornal The New York Times com um dos dez melhores livros lançados nos EUA em 2011).
Muita Paz, Muito Amor!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Meus 10 Livros “Mais Mais” de 2011: Post Número 6


 6- Vultos da República: Os Melhores Perfis Políticos da Revista Piauí (2010). Humberto Werneck (org.). Companhia das Letras. São Paulo. R$ 49 (em média). Desde o seu estabelecimento em 2006 a revista Piauí vem se firmando como o que há mais interessante no jornalismo brasileiro dos últimos 20 anos. Com textos longos de jornalistas, intelectuais e especialistas de várias áreas (mas sem ser pretensamente intelectual, como o falecido suplemente Mais!, do jornal Folha de São Paulo), tendo um tamanho grande que lembra bastante um jornal e se aventurando por várias áreas como política, literatura, artes e outras paradinhas mais, Piauí tem dado um chacoalhada no mercado de revistas mensais no Brasil (algo pra lá de chato!). Enfim, a Piauí se especializou no estilo criado pelo jornalista e escritor norte-americano Gay Talese: o jornalismo literário. O livro Vultos da República como o subtítulo explica reúne “os melhores perfis políticos da revista Piauí” publicados em edições entre 2006 e 2009. O legal dos perfis é que eles fornecem olhares peculiares sobre figuras importantes da política brasileira. Em minha leitura, as descrições que mais me impressionaram foram de FHC, José Dirceu e o caseiro Francenildo dos Santos – foto acima, pivô da queda do então ministro da fazenda Antonio Palloci (e também o único não famoso, político ou alto burocrata da seleta lista do livro). Ainda constam José Serra (um chato de galocha!), Marina Silva (comprometida politicamente e correta, mas pouco carismática), a atual presidenta Dilma (que não deu entrevista pro jornalista encarregado de elaborar seu perfil), o ex-ministro da justiça Márcio Thomaz Bastos além do o ex-sindicalista e atual presidente da BrasilPrev, Sérgio Rosa. O que se ressalta dos textos é um grande panorama da política e do poder no Brasil nos últimos 15 anos com suas manobras, artimanhas, histórias de ascensão, queda e ostracismo. Deliciosa leitura para os que amam e/ou odeiam política, mas que tem noção de que ela ainda é essencial.
Muita Paz, Muito Amor!

domingo, 24 de junho de 2012

Meus 10 Livros “Mais Mais” de 2011: Post Número 5


5- O Homem Comum (2006). Philip Roth. Companhia das Letras. São Paulo. R$ 36 (em média). Philip Roth - foto acima - é um escritor que ganhou notoriedade nos anos 1970 nos Estados Unidos ao trazer o lado mais obscuro (e até aquela época evitado de se falar em público) da classe média norte-americana. Seus temas preferidos giram sempre em torno de adultério, sexo, decadência, solidão, morte e conflitos familiares. O Homem Comum segue essa cartilha ao descrever a trajetória de um homem no alto dos seus sessenta anos que faz um longo e doloroso exercício de auto-reflexão sobre sua vida. Fracassos, alegrias, tristezas, traições, infortúnios, sonhos não realizados, mediocridade e desejos reprimidos se escondem atrás do cotidiano desse ex publicitário morador da ilha Manhattan que se culpa por ter sufocado seu sonho de se tornar um pintor abstracionista em busca de segurança financeira. A estabilidade em termos monetários não seria acompanhada por um casamento feliz que ele se sente responsável pelo fracasso. O livro de Roth fala de decadência – seguindo a linha de Nadime Gordimer no livro dela descrito há alguns posts atrás - e morte, temas que não são muito agradáveis de serem desfrutados mesmo num livro relativamente curto como O Homem Comum. Minha recomendação é: não presentei ninguém com mais de sessenta anos com esse livro. Boa escrita, mas o tema e a estética de Roth trazem tristeza e depressão ao/a leitor/a. E olha que eu nem cheguei nos quarenta ainda...
Muita Paz, Muito Amor!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Meus 10 Livros “Mais Mais” de 2011: Post Número 4


4- Murilo Rubião – Obra Completa (2010) de Murilo Rubião. Companhia das Letras. São Paulo. R$ 25 (em média). Murilo Rubião (1916-1991) - foto acima - foi talvez o grande representante brasileiro da escola literária que se convencionou chamar de realismo mágico ou literatura fantástica. É impossível não notar similaridades nos escritos e vida de Rubião com os mestres desse estilo, a saber: Franz Kafka, Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. As histórias de Rubião são marcadas por sua experiência biográfica: mineiro, formado em direito, funcionário público durante toda a vida e católico devoto. Nessa edição da Companhia de Bolso está reunida toda a produção do autor publicada de forma esparsa durante toda a vida em livros que foram traduzidos para várias línguas. Os contos de Rubião são de uma qualidade excepcional e tratam de temas filosóficos, religiosos, existenciais e amorosos. Contudo, a leitura de todos os textos nessa antologia completa pode cansar um pouco leitores menos avisados ou familiarizados – um deles este que vos escreve - com o estilo do autor. O que salta aos olhos em vários dos contos é a vida extremamente monótona e sem atrativos do funcionalismo público ou das cidadezinhas interioranas onde se passa boa parte das histórias. Relacionamentos também são uma obsessão do autor. Em geral, as mulheres que aparecem nos contos parecem ter um certo aspecto maligno, que muito lembra a produção de Nelson Rodrigues (1912-1980). Marca registrada de Rubião são as epígrafes dos seus contos compostas sempre por passagens bíblicas que lançam alguma espécie de rumo moral/filosófico a história a ser contada. Ótima leitura embora torne-se meio chatinha com o avançar das páginas: Rubião é um ótimo escritor, mas muito coroinha pro meu gosto! E olha que eu fui coroinha quando criança... 
Muita Paz, Muito Amor!

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Meus 10 Livros “Mais Mais” de 2011: Post Número 3

3- Rape New York (2011) de Jana Leo. The Feminist Press. New York. US$ 15.92 (em média).  Jana Leo é arquiteta, artista, professora e filósofa nascida na Espanha. Em meados dos anos 1990, após defender sua dissertação de mestrado em arquitetura na Princeton University, ela se mudou para Nova Iorque onde, junto com o namorado, alugou um apartamento no Harlem. Foi ali, em sua casa e na sua própria cama, que Leo foi estuprada. É sobre essa dolorosa experiência que reside a força de Rape New York, lançado nos EUA ano passado (uma primeira edição do livro saiu por uma editora inglesa). O relato é chocante. A escritora revela detalhes de como se deu a ação do estuprador, dos contornos raciais e de classe que o crime tomara (ela e seu namorado à época eram visto como gentrifiers, ou seja, brancos educados de classe média/alta vivendo num bairro majoritariamente negro enquanto que o estuprador era negro, pobre e com educação básica), da engenharia social que ao coordenar de forma cruel elementos de gênero, classe e raça faz com que o estupro seja tratado como um crime menor uma vez que é perpetrado majoritariamente contra mulheres (ainda fala-se muito timidamente sobre estupro contra homens), de como se deu a investigação, prisão e processo contra o estuprador. Esses são detalhes que passam despercebidos a nós homens, mas que se sobressaem de forma vivida e dolorosa no relato de Leo. Exemplo disso se dá quando a escritora revela os ferimentos que uma penetração vaginal forçada, violenta e sobre coerção podem causar devido ao fato da vítima estar nervosa e, conseqüentemente, não lubrificada ou ainda do fato de que o livro antes de ser publicado desagradava algumas ativistas feministas devido ao fato do estupro de Leo não corresponder ao imaginário popular dessa forma de violência sexual (violento e ocorrido em lugares esmos sobre total coerção) o que dificultava sua utilização como arma política: Leo explica que teve chance de negociar o seu estupro  o que teria tirado o poder simbólico de sua experiência (“menos agressiva” com muitas aspas aqui) a ser usada como arma política por movimentos feministas. Tive o prazer de conhecer e ouvir Jana Leo falar numa aula do curso do professor Terry Williams na New School. A autora é uma mulher espetacular e o livro merece a atenção de todo/as aquele/as engajado/as com o ideal de uma sociedade mais justa, igualitária e livre de violência contra mulheres, gays, negro/as, crianças e outros grupos destituídos de poder.
Muita Paz, Muito Amor!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Meus 10 Livros “Mais Mais” de 2011: Post Número 2


2- Beethoven era 1/16 Negro e Outros Contos (2009) de Nadine Gordimer. Companhia das Letras. São Paulo. R$ 37 (em média). Nadine Gordimer (foto acima) faz parte de uma categoria bastante interessante de escritores sul-africanos, a saber: literatos pertencentes a classe branca dominante do país que hoje é conhecido como “rainbow nation” (algo eu deve se deve ser ajustado para a escritora, já que Gordimer é “branca”, mas judia). Nesse sentido, as histórias de Gordimer exploram uma faceta que também é vista nos escritos do também sul-africano e branco J.M. Coetzee: a decadência. Os personagens que surgem das páginas dos livros desses dois autores que já faturaram o Nobel de literatura são geralmente figuras que buscam se reinventar juntamente com a nova sociedade sul-africana que emerge no período pós apartheid. Tenham eles contribuído ou não com o sistema de segregação racial anteriormente vigente, todos se beneficiavam com o mesmo pelo fato de serem brancos. Contudo, os privilégios vivenciados na África do Sul anterior aos anos 1990 já não existem mais para esse grupo que agora precisa renegociar seu espaço social e status com uma nova classe média e burguesia negra, a chegada de novos imigrantes e enfrentar muitas vezes a experiência de declínio social e decadência. Mas mesmo a decadência tem o seu charme e é desse modo que ela surge nas histórias de Gordimer. Um de meus contos preferidos no livro é “Sonhando com os mortos” no qual ocorre um encontro fictício entre Edward Said, Susan Sontag, Anthony Sampson e ela num restaurante da vizinhança do SoHo, Nova Iorque. “Finais Alternativos” é um grupo de três contos que fecham o livro de Gordimer e que descrevem três histórias de adultério onde cada traição é descoberta através de um sentido (visão, audição e olfato). A fineza com que a escritora elabora essas três histórias finais é dilacerante, mesmo ela não dando conta dos cinco sentidos: ficam faltando dois contos que dariam conta do paladar e tato. Fiquei curioso em saber o porquê da omissão da autora, se ela os escreveu um dia e, finalmente, de como eles seriam. O conto que dá título ao livro descreve um professor universitário branco de meia idade numa viagem em busca de suas origem negra deliberadamente apagada pela família. Eis aí a analogia com os 1/16 de “sangue” negro de Beethoven. Gordimer é, definitivamente, uma escritora a ser lida.

Muita Paz, Muito Amor!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Meus 10 Livros “Mais Mais” de 2011: Post Número 1

Esse post tem um irmãozinho mais velho nascido ano passado, em meados de janeiro daquele ano, quando escrevi sobre todos os livros que havia lido por diversão em 2010. É claro que li mais de dez livros durante o ano de 2011. Entretanto, diferente do que ocorreu ano passado, não quero me estender numa lista longa de pequenas resenhas (sendo alguns livros muito pouco interessantes, diga-se de passagem). Sendo assim, escolhi as dez obras mais legais – na minha humilde opinião – que tive o prazer de desfrutar da leitura em 2011. Escreverei sobre um livro a cada dia. Vamos lá…


1- Black Skins White Masks (2008 [1952]) de Frantz Fanon. Grove Press. New York. Preço de US$ 14.33 (em média). Frantz Fanon (1925-1961) - foto acima - não precisa de apresentações, mas caso você ainda não tenha ouvido falar nesse psiquiatra, filósofo e revolucionário martiniquense vale a pena comprar esse livro (que possui tradução para o português) e lê-lo de cabo a rabo. Peles Negras Máscaras Brancas publicado em 1952 é fruto da tese de doutorado reprovada de Fanon. Sim, ela foi reprovada quando apresentada a banca e, anos depois, Fanon publicou o texto na íntegra em forma de livro. O texto traça um panorama psiquiátrico das relações entre negros e brancos mostrando como as duas categorias são construções sócio-políticas que possuem uma relação dialética e afetam/conduzem a ação dos indivíduos no que diz respeito a interações das mais diversas, informando a construção de desejos (sexuais e outros), expectativas, hesitações, pré concepções etc. Fanon estabelece um diálogo entre teorias psiquiátricas com a tradição do marxismo francês forjando críticas ao movimento de escritores negros francófonos (negritude) e despindo as engrenagens de funcionamento do colonialismo na sua terra natal, a Martinica. Nesse movimento ele constrói um diálogo crítico com a obra do também martiniquense Aimé Césaire (1913-2008), seu ex-professor e mentor intelectual, ao mesmo tempo que elabora os primeiros passos teóricos do que viria a ser os estudos pós-coloniais que tem como alguns dos livros fundadores (além de Peles Negras) Os Condenados da Terra (1961), também de autoria de Fanon, e Orientalismo escrito por Edward Said em 1978. Os escritos de Fanon, especialmente Condenados... e Toward the African Revolution (1964), foram fontes de influência para a ideologia vigente nos grupos radicais afro-americanos dos anos 1960 como o Black Panthers Party por discutirem a relação classe, raça, exploração econômica e uso da violência como estratégia política e meio revolucionário. Por fim, para Fanon tanto “negro” como “branco” são categorias que devem ser implodidas no caminho de um novo humanismo, pois as mesmas tiranizam tanto negros como brancos em suas inter-relações ao estabelecer uma inferioridade negra correspondida por uma superioridade branca. Um grande exemplo de como a proposta de Fanon presente em Peles Negras... continua contemporânea pode ser visto no livro Entre Campos: Nações, Culturas e o Fascínio da Raça, onde o sociólogo britânico Paul Gilroy tenta conciliar os conceitos de Fanon de crítica a noção de raça e busca por um novo humanismo com as propostas trazidas pelo filósofo francês Michel Foucault sumarizadas em categorias como biopoder, técnicas disciplinares e o aspecto discursivo da racialização vigente no mundo contemporâneo. Fanon faleceu prematuramente vítima de leucemia em 1961 nos EUA - país que se negava terminantemente a visitar, devido sua posição imperialista - onde veio tratar de sua doença e após tornar-se revolucionário no processo de independência da Argélia.

Muita Paz, Muito Amor!

terça-feira, 29 de maio de 2012

Mostra África Hoje


domingo, 27 de maio de 2012

Feminismo é...

sábado, 26 de maio de 2012

Gordon Parks: 100 Anos


Gordon Parks é o mais famoso fotográfo afro-americano de todos os tempos. Seu talento também se estendia ao cinema onde, como cineasta, foi responsável por imortalizar o detetive durão John Shaft (Richard Roundtree) nas telas. Se estivesse vivo (faleceu em 2006) estaria completando 100 anos. Em sua homenagem está sendo realizada desde o último dia 18 uma exposição intitulada Gordon Parks: 100 Years no International Center of Photography aqui em Nova Iorque.  A exposição se estende até janeiro de 2013.  Ano passado Parks foi tema de um número da revista Studium, periódico vinculado ao Instituto de Artes da Unicamp, por conta de sua polêmica passagem pelo Brasil nos anos 1960 (leia mais AQUI)  Fica a dica!


Paz!

domingo, 13 de maio de 2012

Ironia das Datas!

Feliz Dia das Mães ou Feliz 13 de Maio?


sábado, 12 de maio de 2012

Jesus é Preto...


"I know that Jesus is black because you can't wear no hat for thirty years in the desert and stay white." (Eu sei que Jesus é preto porque você não pode não usar nenhum chapéu no deserto por trinta anos e continuar branco) - Redd Foxx (1922-1991), humorista afro-americano.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Black Like Me


To fling my arms wide
In some place of the sun,
To whirl and to dance
Till the white day is done.
Then rest at cool evening
Beneath a tall tree
While night comes on gently,
              Dark like me-
That is my dream!

To fling my arms wide
In the face of the sun,
Dance! Whirl! Whirl!
Till the quick day is done
Rest at pale evening...
A tall, slim tree...
Night coming tenderly
               Black like me.

Dream Variations - Langston Hughes

terça-feira, 3 de abril de 2012

O Que é Literatura Afro-Americana?

Literalmente adoro esse texto de Gerald Early (foto abaixo) que me foi indicado por minha amiga Fabiana Lima há uns dois ou três anos atrás. Early faz um mapa bem interessante e preciso do surgimento do que vem sendo conhecido como ghetto fiction ao mesmo tempo em que mostra a estruturação do conceito e do canône incorporado ao que se convencionou chamar de literatura afro-americana evidenciando seus autores clássicos e contemporâneos. Prato cheio para quem curte literatura! O texto original leva o título em inglês What's African-American Literature? e foi publicado numa revista do departamento de estado norte-americano podendo ser acessado clicando AQUI Sem mais delongas, leia e aprecie!


O Que é Literatura Afro-Americana!
O surgimento de uma nova pulp fiction negra pode indicar a maturidade, e não o declínio, da literatura afro-americana.

Gerald Early é professor da Cátedra Merle Kling de Letras Modernas na Universidade de 
Washington em St. Louis, Missouri, onde é diretor do Centro de Humanidades. É especialista em literatura americana, cultura afro-americana de 1940 a 1960, autobiografia afro-americana, prosa não-ficcional e cultura popular. Autor de diversos livros, entre eles o premiado The Culture of Bruising: Essays on Prizefighting, Literature, and Modern American Culture [A Cultura da Contusão: Ensaios sobre as Disputas por Prêmios, Literatura e a Moderna Cultura Americana] (1994), Early foi organizador de diversas antologias e consultor dos documentários de Ken Burns sobre basquete e jazz.


O escritor afro-americano Nick Chiles ficou famoso por sua crítica severa ao mercado editorial, às jovens leitoras negras e ao estado atual da literatura afro-americana em seu artigo controverso de 2006 no New York Times, intitulado “Their Eyes Were Reading Smut” [Seus olhos liam lixo]. (O título do artigo é, claramente, uma paródia do clássico romance de Zora Neale Hurston de 1937, Seus Olhos Viam Deus, obra feminista fundamental do cânone da literatura afro-americana, considerado por muitos literatos um dos grandes romances americanos de sua época.) Embora Chiles se mostrasse satisfeito com o fato de que grandes livrarias como a Borders reservassem um espaço considerável em suas estantes para a “literatura afro-americana”, ficou mais do que pasmo com o que era considerado “literatura afro-americana” pela livrarias e pelo mercado editorial. “[Tudo] que se viam eram sobrecapas de livros sensacionalistas exibindo todos os tipos de pele morena, geralmente seminus e em alguma pose erótica, com frequência acompanhados de armas e outros símbolos da vida do crime”, escreveu Chiles. Esses romances têm títulos como Gutter, Crack Head, Forever a Hustler’s Wife, A Hustler’s Son, Amongst Thieves, Cut Throat, Hell Razor Honeys, Payback with Ya Life e similares. Seus famosos autores são K’wan, Ronald Quincy, Quentin Carter, Deja King (também conhecido como Joy King), Teri Woods, Vickie Stringer e Carl Weber. Dedicam-se a um gênero chamado ficção urbana ou hip-hop, trabalhos ditos realistas sobre a vida no centro da cidade, com muito sexo, drogas e crime, playas, gigolôs, dough boys (ricos traficantes de drogas) e violência; consumo desenfreado justaposto à vida em conjuntos habitacionais. Em alguns casos, as obras não passam de romances sobre o mundo do crime entre os negros do ponto de vista do criminoso; em outros, são romances românticos negros em um cenário urbano exacerbado. Em todos os casos, são um tipo de pulp fiction; a despeito de sua reivindicação de realismo, na verdade tratam de fantasia, pois seus leitores tentam compreender sua realidade ao mesmo tempo que procuram escapar dela. A maioria dos afro-americanos jovens, especialmente as mulheres, gênero do qual é formada a maior parte do público americano leitor de ficção, lê esses livros, cuja publicidade é direcionada exclusivamente a essa clientela. Alguns desses romances vendem o suficiente para que alguns autores não tenham necessidade de um "bico” para viver, o que é bastante raro na profissão de escritor.

A existência desses livros revela três aspectos da mudança na literatura afro-americana em relação ao que era, digamos, há 30 ou 40 anos. Em primeiro lugar, a despeito dos problemas de alfabetização e do desolador índice de evasão escolar no ensino médio entre os afro-americanos, existe um público leitor de massa composto por jovens negros de uma proporção tal que um autor negro tem a possibilidade de escrever exclusivamente para esses leitores, sem ter de se preocupar com soar intelectualizado ou literário ou com atingir os brancos. Em segundo lugar, o gosto das massas é distinto do gosto da elite – e a incomoda – em grande medida porque esta já não controla a direção e o propósito da literatura afro-americana; ela é hoje, mais do que nunca, uma literatura orientada para o mercado, e não uma forma de arte apadrinhada e promovida por brancos e negros cultos como no passado. O fato de que duas das editoras desses livros, Urban Books e Triple Crown, terem sido abertas por negros ressalta a natureza empresarial e populista desse tipo de literatura racial: feita por negros e para negros. Em terceiro lugar, a literatura afro-americana já não precisa mais ficar obcecada com o peso ou a expectativa de protesto político, ou com uma reivindicação especial pela humanidade da raça ou com o valor de sua história e cultura como era o caso no passado (com isso, não se quer sugerir que a literatura afro-americana tenha abandonado essas preocupações. Elas são mais evidentes na literatura afro-americana para crianças e adolescentes, que é, frequentemente, como esperado, bastante didática.) Além disso, não se pretende argumentar que os livros que Chiles deplora tenham algum valor neoliterário ou extraliterário que compense o fato de serem romances sem valor e mal escritos. Mas esses livros de fato revelam algumas das complicadas raízes da literatura afro-americana e da formação do público afro-americano.


Os filmes blaxploitation do início dos anos 1970 — como o clássico independente de Melvin Van Peebles, Sweet Sweetback’s Badass Song; Coffy, Foxy Brown e Sheba, Baby, com Pam Grier; Hell Up in Harlem, Black Caesar, That Man Bolt e The Legend of Nigger Charley, com Fred Williamson; Superfly; os filmes Shaft, com Richard Roundtree — formaram o primeiro público negro jovem para a pesada arte negra urbana de aparência realista, voltada para vigaristas, drogas, prostituição e política antibranca (nos filmes, os brancos – principalmente gângsteres e policiais – destroem a comunidade negra). As raízes literárias desses filmes tiveram origem em duas correntes dos anos 60. As figuras mais intelectualizadas da esquerda e da corrente literária dominante endossaram esse tipo de literatura não ficcional sobre prisões negras, como The Autobiography of Malcolm X; a coleção de ensaios de Eldridge Cleaver Soul on Ice; Poems from Prison, compilados pelo detento e poeta Etheridge Knight, que inclui “Ideas of Ancestry”, de Knight, um dos poemas afro-americanos mais famosos e estimados dos anos 1960; e Soledad Brother: The Prison Letters of George Jackson. Todos esses livros passaram a fazer parte do cânone da literatura negra e são frequentemente lidos em vários cursos de literatura universitária, redação criativa e sociologia. No contexto da ficção populista e sensacionalista do final dos anos 1960 e início dos anos 1970 encontravam-se os romances do ex-cafetão Iceberg Slim (foto acima) e do usuário de drogas e preso Donald Goines — inclusive Trick Baby, Dopefiend, Street Players e Black Gangster. Esses romances são antecessores diretos dos livros que Chiles considerou tão desalentadores em 2006. Representavam uma porção pequena, mas obrigatória, da produção de literatura negra nos anos 1970. Muitos os consideravam sob uma perspectiva muito mais política na época; hoje, esses livros dominam a literatura afro-americana, ou parecem fazê-lo. Na época, assim como hoje, havia uma forte crença entre muitos negros — pobres, da classe trabalhadora e intelectuais burgueses — e também entre muitos brancos de que a vida urbana violenta representa a “autêntica” experiência negra e uma cultura de “resistência” verdadeiramente dinâmica do ponto de vista político.

Chiles provavelmente teria preferido que a Borders e outras livrarias não rotulassem os romances urbanos ou de hip-hop como “literatura afro-americana”. “Seria melhor para o público leitor se livros desse tipo fossem chamados de “literatura afro-pop”, “ficção negra urbana” ou “ficção negra de massa”. Nesse caso, a categoria de “literatura afro-americana” poderia ser reservada para os livros e autores que fazem parte do cânone: autores que vão do final do século 19 ao começo do 20, como o romancista Charles Chesnutt, o poeta e romancista Paul Laurence Dunbar e o poeta e romancista James Weldon Johnson, figuras dos anos 1920 ao Renascimento do Harlem, no início dos anos 1930, como o poeta e autor de ficção Langston Hughes, o romancista e poeta Claude McKay, as romancistas Jessie Fauset e Nella Larsen e o poeta e romancista Countee Cullen, incluindo as grandes figuras que fizeram a ponte entre o universo negro e branco dos anos 1940 aos anos 1960, como o romancista e ensaísta James Baldwin, o romancista e autor de contos Richard Wright, o romancista e ensaísta Ralph Ellison, a romancista Ann Petry, a poetisa e romancista Gwendolyn Brooks e o romancista John A. Williams, e autores da época das Black Arts, como a poeta e escritora de livros infantis Nikki Giovanni; o poeta, dramaturgo e escritor de ficção Amiri Baraka e o poeta Haki Madhubuti (Don L. Lee), até escritores pós-anos 1960, como os romancistas Toni Morrison, Alice Walker, Gloria Naylor, Walter Mosley, Colson Whitehead, Ernest Gaines e Charles Johnson; o poeta e romancista Ishmael Reed e os poetas Yusef Komunyakaa e Rita Dove. Algumas outras figuras, como os dramaturgos Lorraine Hansberry, Ed Bullins, Charles Fuller e August Wilson, e alguns escritores da diáspora, como o romancista e dramaturgo Wole Soyinka, o poeta Derek Walcott, os romancistas Chinua Achebe, Gearge Lamming, Jamaica Kincaid, Zadie Smith, Junot Díaz e Edwidge Danticat, também poderiam ser acrescentados.


Os rappers Mos Def, Flavor Flav e Chuck D (foto acima, da esquerda para a direita) são forças propulsoras do hip-hop socialmente consciente. São performers, músicos e compositores de letras de rap: mensagens em pares de versos rimados num compasso de 4/4. Mos Def também é ator célebre e participou da peça de Suzan-Lori Parks Top Dog, Underdog, vencedora do Prêmio Pulitzer, substituindo Don Cheadle na produção da Broadway. O hip hop, que teve início em comunidades urbanas afro-americanas e latinas na Nova York dos anos 70, exerceu influência não só sobre a música e o cinema, mas também sobre a pulp fiction negra (Foto: Jason DeCrow/AP)

A preocupação de Chiles com o suposto declínio da literatura afro-americana reflete o medo da elite de que a ascensão do hip hop e do ethos “urbano” geralmente represente um declínio da vida cultural negra urbana. Os “fatos urbanos”, por assim dizer, parecem um vírus destruidor dos padrões artísticos negros e de uma meritocracia negra. Atualmente existe apenas uma baboseira puramente orientada pelo mercado e direcionada aos gostos mais baixos e destituídos de cultura. Esta é claramente a posição de alguém como o romancista e crítico de cultura Stanley Crouch. A sensibilidade a esse respeito não é, de forma alguma, totalmente, ou mesmo em parte, uma questão de esnobismo. A literatura afro-americana levou muito tempo para atingir um nível de respeitabilidade geral, até que fosse reconhecida como digna de ser lida pelo público em geral e como digna de reconhecimento pelo establishment literário. Hoje, para muitos negros, os próprios negros parecem estar denegrindo-a ao inundarem o mercado com romances ordinários em nada melhores do que Mickey Spillane. Não é de forma alguma surpreendente que os negros, um grupo perseguido e historicamente degradado, sintam que seus produtos culturais são sempre suspeitos, precários e facilmente voltados contra eles na condição de caricaturas no mercado.

Uma outra forma de olhar para a situação seria considerar que a literatura urbana democratizou e ampliou o alcance e o conteúdo da literatura afro-americana. De algumas formas, a literatura urbana pode revelar a maturidade, não o declínio, da literatura afro-americana. Afinal, a literatura afro-americana é a mais antiga de todas as literaturas produzidas por minorias éticas identificadas de maneira autoconsciente nos Estados Unidos, remontando a uma época tão distante quanto 1774, data de publicação do primeiro livro de poemas de Phyllis Wheatley, e às narrativas sobre a escravidão do período pré-Guerra Civil, que produziu clássicos como The Narrative of the Life of Frederick Douglass (1845) e Incidentes da Vida de uma Escrava, de Harriet Jacobs (1861). Os afro-americanos têm pensado há muito mais tempo e com muito mais força do que outras minorias étnicas americanas na importância da literatura como ferramenta política e cultural. O Renascimento do Harlem foi um movimento de negros, com a ajuda de patronos brancos, para obter acesso e respeitabilidade cultural produzindo literatura de primeira qualidade. A ascensão da literatura urbana não representa um repúdio ao passado literário negro, mas sugere outras formas e meios de produzir literatura negra, bem como outros fins para ela. Ademais, alguns autores da literatura urbana estão longe de serem picaretas: Sister Souljah, ativista política viajada e romancista, é uma escritora e pensadora mais do que capaz, por mais provocante que possa ser. O mesmo pode ser dito do romance solitário do compositor musical Nelson George, Urban Romance (1993), que claramente não é um romance sem valor. Alguns dos livros de Eric Jerome Dickey e K’wan também valem a pena ser lidos. Uma figura de peso dividida entre o romance negro e a literatura urbana é E. Lynn Harris, escritora popular cujos livros tratam de relacionamentos e outros assuntos importantes para os negros, especialmente para as mulheres negras, na atualidade.

Quando comecei a trabalhar na Bantam Books há dois anos para me tornar editor-chefe de duas séries anuais — Best African American Essays [Os Melhores Ensaios Afro-Americanos] e Best African American Fiction [As Melhores Obras de Ficção Afro-Americana] —, queria me certificar de que os livros teriam um apelo a vários segmentos do público leitor negro; assim, convidei Harris para ser o editor convidado de Best African American Fiction de 2009, primeiro volume da série. Considero esses volumes uma oportunidade não só para apresentar o melhor das letras afro-americanas para o público leitor em geral — de escritores mais jovens como Z. Z. Packer e Amina Gautier a vozes estabelecidas como as de Samuel Delaney e Edward P. Jones —, mas também para forjar uma espécie de casamento entre vários tipos de literatura afro-americana. Eu quis utilizar a abrangência de E. Lynn Harris para trazer literatura negra séria a um público que talvez não tenha ciência de sua existência ou nem mesmo a deseje. É cedo demais para afirmar se a tentativa será bem-sucedida, mas o mero fato de tentar já demonstra um reconhecimento do nível de complexidade da literatura afro-americana e da profunda extensão da segmentação de seu público, o que mostra que a experiência afro-americana, a despeito da forma como é transformada em arte, tem uma profundidade e um alcance, um tipo de universalidade, eu ousaria dizer, que na verdade indica um belo futuro para esta literatura, e talvez para todas as literaturas de minorias étnicas americanas.

sábado, 24 de março de 2012

O Som Das Ruas Vintage!


Adoro essa foto/capa do disco O Som Das Ruas lançado pela equipe/gravadora Chic Show em 1988. Junto com outras duas coletâneas - Hip Hop Cultura de Rua (Eldorado)  e Consciência Black Volume 1 (Zimbabwe) -, também postas na rua no mesmo ano, ela forma a tríplice aliança (ou santíssima trindade!) que deu o pontapé inicial e formal no hip hop/rap brasileiro. Nesse disco foram lançadas figuras como Metralhas, Sampa Crew, N Dee Naldinho e Dee Mau. E dá uma olhada no naipe da rapaziada... A crew tá mais pra uma quebrada aqui do Bronx, Harlem ou Brooklyn do que SP. Isso mesmo: rap nacional vintage! Seria bem legal fazer uma remontagem contemporânea da foto com MCs/rappers atuais: fica a idéia!

Muita Paz Muito Amor!

sexta-feira, 23 de março de 2012

Edição 8 de O Menelick 2º Ato


Num post de novembro falei/escrevi sobre a revista O Menelick 2º Ato (leia AQUI) ao mesmo tempo que divulgava a festa de lançamento de um novo número do periódico. Os figuras estão de volta com um novo número e o lançamento - que se desdobrará em três - acontecerá na próxima semana. A propósito, fui convidado pelo pessoal da revista a escrever um texto para essa edição de número 8. Foi assim que saiu o artigozinho "Transgressão e Arte: o Brasil e o seu lugar na street art global", uma pequena discussão sobre as relações entre grafite e pixação na cidade de São Paulo. A revista é distribuida gratuitamente nos lançamentos e em lugares previamente estipulados. Contudo, se você está muito na fissura de acessar os textos é possível lê-la online clicando AQUI  Confira no convite abaixo os locais agendados para os lançamentos.



Muita Paz Muito Amor!

quinta-feira, 22 de março de 2012

Million Hoodies for Trayvon Martin!

 
Ontem, 21 de março, foi o Dia Internacional de Luta Para Eliminação da Discriminação Racial. Em NYC aconteceu uma marcha de um caso que é emblemático dessa dolorosa realidade: o assassinato de Trayvon Martin. No dia 26 de fevereiro Martin saiu de sua casa, numa pequena cidade no estado da Flórida, para comprar doces e refrigerante. Ele vestia um casaco de moleton com capuz (hoodie) e foi visto como suspeito por George Zimmerman que ligou para a polícia. Zimmerman foi instruído pelo telefonista da polícia a não perseguir e/ou abordar Martin, mas ele fez justamente o contrário.  Não só perseguiu Martin como o abordou e disparou sua arma contra o garoto de 17 anos que morreu no local. Detalhe: Zimmerman alegou legítima defesa e não foi indiciado por nada. Caso não houvesse mobilização popular, o caso passaria batido. Veja algumas fotos tiradas tiradas por mim durante o protesto clicando AQUI


Justiça Para Trayvon Martin e Sua Família!

Muita Paz e Muito Amor (na medida do possível)!

domingo, 18 de março de 2012

Robert Glasper e Seu Black Radio

Um amor antigo é sempre testado no decorrer de nossa trajetória. Há momentos - especialmente naqueles de crise - em que você se pergunta qual foi o motivo que o levou a se apaixonar por tal coisa ou pessoa. Minha relação com o hip hop é uma relação de amor antigo: há momentos que duvido que ainda estou apaixonado ou tenho sentimentos por essa expressão artística, cultural e política. Daí é preciso voltar ao final dos anos 1980 e início dos 1990 para me lembrar de como um adolescente negro vivendo numa cidade caipira do interior de São Paulo se derreteu de amor ao começar a frequentar bailes black  ali ouvir pela primeira coisas como Public Enemy, Bismarck, Run DMC, Naughty By Nature, N.W.A., MC Jack, Thaíde e DJ Hum, Racionais e outros mais. Você se sente aliviado ao (re)ouvir parte desses grupos e lembrar que foi ali que tudo começou. Entretanto, tem momentos que é bem difícil de gostar da parada. Um desses momentos tem rolado agora, com tantas porcarias (tipo Drake, Nick Minaj, Lil Wayne entre outros) fazendo sucesso principalmente no mercado norte-americano. Não diria que o hip hop, que é muito maior do que o rap, está em crise. O mal estar do rap corresponde a um momento de transição que a música pop como um todo vive nos últimos quinze anos. Ninguém sabe muito bem para onde a parada vai devido as mudanças tecnológicas e o poder cada vez menor (graças a Deus, se ele existir!) das grandes gravadoras.
 
Uma surpresa boa no meio desse lamaçal é o lançamento de Black Radio, álbum que é uma reunião de artistas organizada pelo músico de jazz Robert Glasper batizada por ele de Robert Glasper Experiment e contando com a participação de Erykah Badu, Musiq Soulchild, Lupe Fiasco, Yasiin Bey (Mos Def), Chrisette Michele, Bilal, Stokely, King, Shafiq Husayn, Ledisi, Meshell Ndegeocello e Lalah Hathaway.  Glasper, de 33 anos, colecionou todas essas amizades no decorrer dos últimos anos. Nascido e criado em Houston seu background é invejável. Sua família frequentava igrejas em que gospel e R&B eram os gêneros musicais que davam ritmo aos cultos. Na adolescência Glasper estudou numa escola de ensino médio com ênfase em artes e famosa por produzir jovens músicos de jazz e R&B, alguns nomes ligados a escola são Jason Moran (jovem pianista com contrato com a Blue Note, mesma gravadora de Glasper) e nada menos do que a senhora Carter: Beyoncé Knowles.
 
Fiquei sabendo da existência de Black Radio de forma inusitada. Semanas atrás, ao entrar em um dos prédios de minha universidade, vi um mural onde estava pregada a reportagem The Corner of Jazz and Hip Hop (leia AQUI) publicada no jornal New York Times de 24 de fevereiro último. O texto fala do lançamento do novo álbum de Glasper e de sua carreira. A propósito, a reportagem do NYT estava pregada no mural de minha universidade porque o músico é ex aluno da The New School for Jazz and Contemporary Music (escola de música da universidade onde faço meu doutoramento em sociologia). Mas daí vem a pergunta: o que o álbum possue de tão especial?


A questão é digna de nota uma vez que essa fusão (crossover) entre hip hop e jazz não é algo novo. Os anos 1990 registraram uma série de discos que se embrenaram nesse caminho como o projeto JazzMatazz do falecido rapper Guru com seu parceiro DJ Premier além dos primeiros discos do Gangstar (o grupo dos dois), o produtor Eazy Mo Bee que usou riffs de Miles Davis para dar uma roupagem contemporânea a música do astro do jazz, os dois álbuns do grupo Digable Planets, os discos do catado de grupo US3, os dois discos do projeto do músico de jazz Brandford Marsallis intitulado Buckshot LeFonque além das produções do falecido J Dilla para grupos que emergiram nos anos 1990 como De La Soul, A Tribe Called Quest e Common. Pois bem, o que faz a diferença no disco de Glasper é a facilidade com que o músico faz a ponte entre jazz acústico, R&B, neo-soul e hip hop. Há algum tempo o músico se tornou amigo de várias figuras importantes da cena musical negra contemporânea devido aos comentários boca a boca das apresentações de seu quarteto de jazz. Apesar de fazer jazz, as apresentações do grupo de Glasper começaram a reunir um audiência majoritariamente jovem e afro-americana, algo inusitado para músicos de jazz geralmente mais apreciados por um público branco e estrangeiro. O motivo para o interesse da molecada pelo som de Glasper era justamente a pegada diferente que o músico dava as suas apresentações trazendo um "Q" de contemporaneidade, balanço e peso ao jazz. Isso se deve em muito aos contatos de Glasper com J Dilla, DJ e produtor oriundo de Detroit falecido em 2006, que foi um dos primeiros artistas de hip hop a fundir jazz em suas produções no início dos anos 1990. Sem mais, recomendo o álbum Black Radio para o/as leitore/as do NewYorKibe.  Injeção de dinamismo e contemporaneidade ao hip hop e jazz! Ouça abaixo a faixa "Afro Blue" que conta com a participação de Erykah Badu.



Muita Paz Muito Amor!

quinta-feira, 8 de março de 2012

Parabéns Mulheres!

Há um longo caminho a ser percorrido para que alcancemos a igualdade de gênero. O que mulheres almejam, e homens inteligentes devem almejar também, é uma sociedade onde mulheres sejam tratadas como seres humanos livres de violência (física, sexual e simbólica), discriminação e tenham seu trabalho tão valorizado e remunerado quanto o de seus parceiros homens. Parabéns Mulheres Pelo Seu Dia!

A imagem acima é de Zora Neale Hurston (1891-1960). Hurston foi antropóloga e escritora. Nos anos 1920 trabalhou como assistente de pesquisa de Franz Boas (1858-1942) - um dos pais fundadores da antropologia moderna - além de Ruth Benedict e Margaret Mead, todos lecionando na Columbia University onde Hurston fazia seu bacharelado. Morando no Harlem no começo do século passado, Hurston teve oportunidade de tomar parte do Harlem Renaissance, um movimento artístico, estético e político que buscava reconfigurar a representação da população afro-americana. De certa forma, os intelectuais e artistas envolvidos com o Harlem Renaissance como W.E.B. Du Bois, Claude McKay, Langston Hughes dentre outro/as, estavam dando os primeiros passos no sentido de fornecer as linhas mestras de uma (à época ainda incipiente) cultura afro-americana. Em 1937 Hurston publicou Their Eyes Were Watching God (há uma tradução para o português) considerado um clássico da literatura norte-americana e o manifesto feminista da literatura afro-americana. Nos 1930 ela fez extensivos trabalhos de campo em países do Caribe e da América Central.

File:Hurston-Zora-Neale-LOC.jpg

Em 1948 Hurston foi falsamente acusada de molestar um garoto de dez anos de idade. Apesar de conseguir provar sua inocência - ela estava em Honduras na época do ocorrido - o caso teve uma repercussão tão negativa que prejudicou tanto sua vida pessoal como profissional. Hurston viria posteriormente se manter financeiramente trabalhando como escritora free lance de revistas. Em momentos críticos ela foi obrigada a aceitar trabalhos como professora substituta e empregada. No final da vida continuaria enfrentando dificuldades financeiras o que se agravaria por conta de seu estado de saúde, o que a obrigou a se internar num asilo onde faleceu após sofrer um AVC em 1960.  Durante vários anos seus restos mortais ficaram numa sepultura sem nenhuma referência no cemitério Garden of Heavenly Rest in Fort Pierce, Florida. Foi somente em 1973 que a escritora Alice Walker e o estudioso de literatura Charlotte Hunt, ao visitar o cemitério, acharam um túmulo sem referência numa área comum e decidiram marcá-lo como sendo o de Hurston.

Muita Paz e Muito Amor a Todas às Mulheres!