sábado, 8 de outubro de 2011

O Menelick 2 Ato


Há tempos que eu venho reclamando da chatice que a Revista Raça se tornou (leia AQUI) e da falta de veículos de informação, seja na mídia escrita, televisionada ou virtual, voltados para um público preto, jovem, urbano e antenado produzido por gente do mesmo naipe.  Os grandes jornais e revistas ainda continuam com uma mentalidade retrógrada que estabelece uma representação de preto/as como não consumidores, pouco sofisticados e destituídos de demandas diferenciadas em relação a jovens de outros perfis raciais. Pois bem, “até agora você não disse nada de novo, Márcio Macedo”, a sua pessoa deve estar pensando. Infelizmente, é verdade.  Mas surpresas acontecem…

Ano passado, ao visitar o Brasil, peguei uma pequena revista informativa em algum show, loja de disco ou lançamento que fui em São Paulo. Sou daqueles que vai jogando as coisas na mochila e deixa pra ler depois. Apenas folheei a revistinha que mais se parecia a uma versão mais arrojada, bonita e bem produzida dos velhos fanzines. Mas eis que a dita cuja da revistinha se perdeu no meio da bagunça em que vivo em NYC e, a essa hora, deve estar jogada em algum canto de um depósito do Queens onde guardo minhas coisas durante as visitas de férias e/ou trabalho ao Brasilzão.  Mas coincidências também acontecem. No meio deste ano novamente em visita a terrinha peguei vários números da tal da revistinha em algum lugar de SP que não me lembro e depois fui presenteado com mais um exemplar da mesma por minha amiga Valéria Alves que assina um texto no último número de O Menelick 2 Ato: Brasilidades e Afins.
 

O nome é inspirado em um jornal - O Menelick – vinculado ao que se convencionou chamar de “Imprensa Negra” e que circulou em São Paulo nos anos 1910. Seu idealizador à época foi o poeta Deocleciano Nascimento. Atualmente, quem está por detrás da empreita do 2 Ato do Menelick é o jornalista e fotógrafo José Nabor Jr. que de 2007 a 2010 desenvolveu o projeto da agora revista impressa num blog homônimo.

Dos seis números lançados até agora devo ter uns quatro. A proposta do projeto é interessante justamente por não se fechar em nenhuma manifestação cultural ou artística específica, mas sim querer da conta do universo das manifestações culturais afro-brasileiras e da diáspora negra como um todo. Contudo, mesmo que esse seja o objetivo, pela leitura dos textos fica claro (ou escuro!) uma predileção por temas mais relacionados as manifestações negras da cidade e do estado de São Paulo, o que acho um ponto positivo da revista. Outro ponto visível ao folhear os números, obedecendo a sua cronologia, é um arrojamento e melhoria dos textos – assinados em sua maioria por jornalistas, artistas e cientistas sociais em geral – e do projeto gráfico.

  EDIÇÃO #06

Por outro lado, penso que ainda falta uma revista eletrônica negra decente e que seja alimentada diariamente por textos de diferentes escritores discutindo assuntos polêmicos, apresentando novidades, fazendo resenhas de livros, discos, exposições de arte além de explorar temas políticos relacionados a população negra e jovem sem a caretice de textos militantes. Um bom exemplo disso pode ser visto na revista Clucth (visite AQUI o site dos caras e leia AQUI um post meu sobre a revista). O Menelick 2 Ato segue um bom caminho, mas pode se expandir e melhorar ainda mais. Hoje à noite rola o lançamento do seu oitavo número em SP. Se você não tiver nada pra fazer e se interessar pela parada cola lá. Mais informações no flyer abaixo ou no blog O Menelick 2 Ato.

Muita Paz!

Comentários (4)

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Já conhecia esse trabalho, a irmã de um conhecido faz parte também. É um trabalho maravilhoso.
Olá Kibe, não o conheço pessoalmente, mas a Valéria Alves fala sempre muito bem de você. Gostei muito da consideração que fez sobre nossa revista que é um esforço conjunto sob a direção do Nabor Júnior, profissional competente e empenhado. Seus comentários realmente nos farão amadurecer as idéias e incorporar novas. Um grande abraço,
Alexandre Araujo Bispo
Membro do Conselho Editorial da Revista Omenelick 2 ato, afrobrasilidades e afins
Que bom ver a revista fomentando a discussão sobre o que é oferecido na mídia sobre a para negros e mestiços, urbanos, periféricos ou não.
A revista está engatinhando, porém cada pauta é discutida entre todos os membros do conselho e estamos atentos às demandas dos leitores, à preocupação de apresentar uma cena atual, arrojada, não estereotipada.
Vamos em frente e que frutifiquem ideias como esta, temos que ter a disposição um vasto leque de revistas similares a esta.
Renata Felinto
idem Alexandre Bispo ;)
Salve Márcio,

pertinente post. os anseios da revista passam por muitas linhas dos seus comentários.
agradeço o espaço e a possibilidade de discutir esta nova imprensa negra do século XXI. globalizada tal qual o mundo de hoje.
parabéns pelo blog.

NABOR

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