sábado, 27 de fevereiro de 2010

Religião e Sociologia: Mistura Interessante!

Não sei quanto aos leitores, mas tenho uma relação ambígua com religião. Primeiro, é sempre difícil imaginar um mundo onde todas as coisas são analisadas de forma desencantada, racional. Dias atrás uma das pessoas que sigo no Twitter enviou uma frase ótimo de Millôr Fernandes com a qual morri de rir e que resume de forma magistral o meu ponto: "O sujeito só é inteiramente ateu quando está bem de saúde". Ao mesmo tempo conheço pessoas que remetem todas as ações e conquistas pessoais a algo ligado ao sobrenatural, comportamento que também me incomoda. Mais: vári@s de meus/minhas amig@s vem se convertendo a igrejas que estabelecem códigos de conduta chatos e moralistas. Deixam de beber, não saem na balada e remetem tudo o que acontece de ruim em suas vidas como uma obra do nosso trutão Diabo. É uma forma simples e reducionista de resolver os problemas se isentando de culpa ou responsabilidade.

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Fui, assim como boa parte dos leitores, criado numa família católica. Frequentei catecismo, fiz primeiro comunhão, fui coroinha (algo que me rende boas piadas até hoje!) e fui crismado. Entretanto, já faz anos que não frequento uma missa (algo que considero extremamente chato) e vou a igreja somente assistir casamentos de amig@s. Também odeio o dogmatismo da Igreja Católica em relação a temas complexos como aborto e uso de preservativos. Mas estar na América (deles!) força você a olhar para a religião de uma outra forma, realizar um certo estranhamento em relação a esse fenômeno social. Os Estados Unidos, assim como o Brasil, é um dos países mais religiosos do mundo e há uma infinidade de credos religiosos que são manifestados em cada esquina dessa nação. Mas há muitas diferenças na forma como americanos e brasileiros vivenciam sua fé.

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Podemos discutir as diferenças e similaridades em outro post. Contudo, o que irei fazer nos próximos textos do blog são curtas resenhas de como os pais fundadores da sociologia - leia-se Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber - interpretaram o fenômeno religião de forma geral. A melhor explicação que tive sobre como um sociólogo deve se portar em relação a fé religiosa me foi dada pelo meu ex-professor Reginaldo Prandi numa aula ainda na graduação. Respondeu ele ao ser questionado sobre a existência de Deus disse: "Para um sociólogo não se coloca a questão da existência ou não de Deus, interessa sim que os homens acreditam nela e agem em função dele". Uma ótima resposta weberiana pela qual me guio até hoje!

Aguardem os próximos posts e não deixem de visitar a página dos quadrinhos Um Sábado Qualquer, de onde foi retirada a charge no início do post, um ótimo exemplo de como Deus, Adão, Eva, o Diabo e outras figuras bíblicas podem virar motivo de piada sem ofender o credo religioso de ninguém...


Muita Paz!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Rappers Orfãos: Hummer se Foi!

http://www.soniavihar.com/news/wp-content/uploads/2009/08/hummer.jpg

Não é preciso dizer que carros fazem parte da cultura e do estilo de vida norte-americano. Na verdade, a história dos veículos está associada a história dos EUA. Vamos por partes, já diria Jack...  Todo o imaginário do que se convencionou chamar modernidade, processo que ascende definitivamente na virada do século XIX para o XX, está em parte associado a um modo de vida urbano e o avanço tecnológico incorporado em novas formas de transporte: trens a vapor, metrôs, carros e, mais tardar, o avião.

No caso dos EUA, os carros passaram a fazer parte de uma imagem de nação moderna e industrializada. Não é preciso ir longe para se ligar que nomes como Ford, General Motors (GM) e Cadillac foram e são (mesmo com a última crise econômica e o "pacotão" para salvar as montadoras) representantes do poder norte-americano. Até mesmo a idéia de "American dream" (uma família nuclear feliz com casa própria de jardim com grama a ser aparada e situada no subúrbio) envolvia, implicitamente, a necessidade de um carrinho para o papai se deslocar ao local de trabalho, levar os catarrentinhos à escola e a família no shopping mall da vida e/ou igreja aos domingos. Desse modo, sendo tão entranhados na cultura americana, não é de se estranhar que carros também sejam uma obsessão dentro do hip-hop.

Low riders (carros, geralmente modelos Cadillac dos anos 1960/1970, adaptados com suspensão especial) eram a sensação do começo dos anos 1990 quando rappers, em sua maioria de Los Angeles, tomaram a cena das grandes gravadoras. Com o tempo a ênfase se deslocou para carros de luxo como Lexus, Mercedes, Ferraris, LamborghinisBMWs e as enormes SWVs do tipo Cadillacs Escalade. Foi nessa época, começo dos anos 2000, com a gasolina a preço de banana, que esses modelos passaram a fazer sucesso entre rappers e aparecer nos vídeos como símbolo de ostentação, luxo, hedonismo e consumo conspícuo. Um dos modelos que mais agradava a negraiada do hip-hop era o Hummer (foto no início do post e abaixo).

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Originalmente projetado como um jipe de guerra, o Hummer se tornou o pupilo de todo rapper ou artista de R&B bem sucedido. Basta assistir os clipes do mijão R. Kelly ou da imitação vagabunda de Michael Jackson, Usher, para ver esses verdadeiros tanques sendo dirigidos pela rapaziada levando a sua turma para alguma balada ou rolêzinho básico. Sociólogos como o inglês Paul Gilroy e o francês Loïc Wacquant, especialistas em temas de cultura negra e sociologia urbana, defendem a tese de que a popularização do Hummer entre a juventude pobre urbana faz parte do processo de militarização dos centros urbanos que se iniciou nos anos 1990.  Assista video abaixo explicando o carrinho...



Mas em 2008 a crise econômica chegou de vez e o preço da gasolina, que já vinha registrando altas há pelo menos dois anos antes, foi parar nas nuvens. Hoje as SWVs e os modelos monstro tipo Hummer se tornaram indesejáveis devido ao alta relação custo/benefício. Esses carros tem a oferecer comforto e segurança, mas são uns beberrões de combustível sem vergonha.  No vídeo abaixo, o tiozão que trabalha para uma empresa que aluga esses carros para eventos, explica quem contrata os serviços da compania e mostra no que a rapaziada transformou o interior de  um Hummer limousine: um clube ambulante! Detalhe: o aluguel do carango custa 400 doletas a hora.



Dias atrás nossos trutas gringos ficaram orfãos de vez. A GM, responsável pela marca Hummer, anunciou o fim do modelo (leia artigo em português AQUI ). A montadora tentou negociar a venda da marca a uma empresa chinesa, mas o governo do capitalismo vermelho não autorizou a transação ciente do trambolho que ia pegar. Afinal, em tempos de crise, quem quer ter um carro que é necessário possuir um posto de gasolina para manter? Nem os rappers ostentadores, eu acho!... Entretanto, como afirmava a campanha de venda do veículo: "Um Hummer não é (ops, era!) para qualquer um!"

Muita Paz!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O Bispo, o Sexo e a Camisinha!

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Hoje é um dia frio e neva pesadamente na Big Apple. Minha aula foi cancelada e me sinto com uma criança cursando a segunda série que recebe a notícia que não precisa ir a escola. Delícia! Estou aquecidinho no meu quarto assistindo o debate sobre health care entre Obama e senadores. O neguinho está mandando bem e lembra até o Obama da campanha presidencial rebatendo os argumentos desses republicanos assholes (desculpa aí se você é republicano!).

Seguinte, nossa campanha de orgulho negro continua, quase 30 leitores já deram o seu voto entre as opções de nome e rolou uma sugestão de trilha sonora e até camisetas. Vá lá no post  O Amigão Beiço!  e deixe o seu voto e comentário. Vamos mostrar o orgulho de sermos pret@s e branc@s aliados mostrando o BEIÇO!

Pois bem, no meio da vagabundagem de hoje, checando o Twitter, vi uma mensagem citando o blog do truta Bispo Edir Macedo (que não é parente meu, diga-se de passagem) onde o mesmo fala diretamente com os fiéis de sua religião, a Igreja Universal do Reino de Deus. O mais interessante é ver o bispo respondendo dúvidas sobre comportamento sexual. Por exemplo, ele não aprova o sexo anal, pois, de acordo com seu argumento, é uma prática que vai contra a natureza humana. Afirma ele que "No sexo anal, o reto é agredido com uma introdução estranha à sua natureza. Ele não está na função de receber, mas de expelir. Expelir o quê? Fezes, excremento ou cocô. As fezes são o lixo do corpo humano. Usar o ânus como objeto de prazer é o mesmo que degustar um belo jantar a dois no meio do lixão. Não faz sentido. É questão de higiene, de saúde e, sobretudo, de inteligência" (leia mais AQUI )


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Well, não é uma posição com a qual eu concorde, afinal, sexo envolve consentimento de ambas as partes e dentro desta perspectiva as pessoas devem ter o direito de fazer o que bem entenderem com seus corpos. Entretanto, diferente da Igreja Católica que se recusa terminantemente a se engajar em campanhas que estimulem o uso do preservativo, o bispo tem uma atitude diferente em relação a isso em um dos seus posts. Nas suas palavras do bispo, "No início do meu casamento, a Ester fez uso da pílula anticoncepcional durante quase um ano. Mas sentiu-se muito mal e teve de interromper. Como não havia a vasectomia, parti para o sacrifício: comecei a usar camisinha". De certa forma, Macedo tem uma perspectiva positiva em relação ao uso da camisinha em seu texto apesar de se referir a atitude como um "sacríficio", apenas focar o uso como método contraceptivo (assim sendo deixando a utilização como algo opcional) e não falar absolutamente nada de doenças sexualmente transmissíveis e como o uso de preservativo pode evitá-las.

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Pois é, dois passos para a frente e um para trás!

Fique com o vídeo super divertido que recebi de meu amigo e ex-parceiro no curso de ciências sociais na USP, Giorgio Momesso.

Muita Paz e Sexo "Gotozinho" com Fé e Camisinha!!!!!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O Amigão Beiço!

O NewYorKibe está lançando um nova campanha de orgulho negro. Depois do sucesso dos já datados "Black is Beautiful", "Quem é é, quem não é cabelo avoa!", "100% Negro", "Preto/Preta Original" e outras coisas mais, vem aí a campanha é baseada no melhor amigo de um/a negrão/negona: o amigão BEIÇO!

Já tive seríssimas discussões com meus amigos USPior (Vando "Marcha Lenta",  Flavião "Jay Z" e Batistão "Sangue no Zóio"), especialistas em futilidades negritudiais, e chegamos a conclusão que deveríamos fazer uma campanha de valorização do corpo negro sem sacanagens (ou estereótipos, com dizem os mais "intelectualizados"). Sendo assim, nada de bundas, cor de pele, tamanho de pênis, cabelo, mas sim... o BEIÇO!

http://static.blogstorage.hi-pi.com/photos/bossa-mag.spaceblog.com.br/images/gd/1227725392/Morre-em-Paris-em-1993-o-ator-e-letrista-e-grande-amigo-Grande-Otelo.jpg

O garoto propaganda da campanha será nada mais nada menos do que o ilustríssimo da foto acima: o mais que grande, digníssimo Grande Othelo (1915-1993), um dos maiores atores que o Brasilzão já teve.  Othelo era detentor de um charmoso, belo e sexy beiço (como pode ser observado na imagem acima). A idéia é simples: no próximo dia 13 de Maio vamos demonstrar o orgulho de ser um/a pretão/pretona (aceitaremos também adesões e apoios simbólicos de brancos aliados) colocando uma imagem valorizando nossos protuberantes, deliciosos e lindos beiços nos profiles dos Facebook, Orkut, Twitter da vida!

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Não há um nome definido para a campanha, mas a decisão virá do público leitor do blog que escolherá um título dentre as cinco opções abaixo:

1- QUEM É MOSTRA!

2- O BEIÇO É NOSSO!

3- BBB: BEIÇO BONITÃO À BEÇA!

4- BABA BABY BEIÇO!

5- BLACK IS BEIÇO!

Então, vota aí e deixe um seu comentário pra nóiz!

Para dar um estímulo a campanha segue a foto de dois pretos vagabundos beiçudos: Flávio Francisco (o famoso Jay Z [sem dinheiro, obviamente!]) e Márcio Macedo (vulgo Kibe).



Muita Pazzzzzzz e Beijos Gostosos em Beiços Sobressalentes!!!!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Cigarrinho e Breja com Jesubaldo!

Imagem de Jesus Cristo segurando um cigarro e uma lata de cerveja ilustrado no livro-texto

Sou um novo homem! Não, não encontrei Jesus... Na verdade fiz no último sábado, 20/2, meu exame de 8 horas de duração e tenho no momento "meia" sensação de dever cumprido ("meia" porque falta o resultado!).  Sendo assim, estou liberado para voltar a escrever no NewYorKibe sem peso na consciência por estar gastando um tempo que poderia estar estudando. No sábado à noite dividia umas Brooklyns - cerveja novaiorquina - com meu amigo Frank Hurley que também havia feito o dito cujo do exame e meu truta agia como se fosse uma criança que havia chegado ao final do ano escolar. "Shit man, I am so happy I don't need to study anymore!", dizia ele.  Bem, não é para tanto, mas que estou me sentindo mais leve, ah isso estou!

Pois bem, vamos mudar a conversa. Você se lembra daquele rap antigaço, mais conhecido como o rap do xerere? "Eu tava lá na esquina fumando um cigarrinho ko chegado/Chegou uma baratinha rapidinho me levou pro delegado..." Pois é, nosso truta Jesus entrou na roda lá na India sendo retratado na balada de breja (ruim, diga-se de passagem, pois a lata parece ser de Budweiser) e cigarrinho na mão. Okay, para não usar nome santo em vão e cair em sacrilégio (não quero queimar no fogo do inferno!) chamaremos o nosso amigão aí de cima de Jesubaldo. A imagem apareceu num livro didático (não estou de sacanagem, leia a parada AQUI ) da terrinha de Gandhi (1869-1948) e gerou indignação na comunidade católica. Compreensível, afinal, essa não é a melhor maneira de representar um ícone religioso pra molecada. Entretanto, tá difícil de Jesus ter sido esse sujeito loiro e olhinhos azúis aí, né não?

Pois é, no Brasil dos anos 1950 os ativistas negros Abdias do Nascimento e Guerreiro Ramos (1915-1982) criaram polêmica ao promover um concurso através do Teatro Experimental do Negro (TEN) que premiaria a melhor imagem de um Cristo Negro. A rapaziada ficou "P" da vida com os dois intelectuais que visavam questionar a imagem de um Jesus europeizado. Vendo essa imagem de Jesubaldo, resolvi dar uma fuçada aqui na santa web para ver os Jesus negrões que achava. Vai vendo aí...

Começamos com um Jesus negrão black power saído direto das quebradas do Harlem nos anos 1960...

http://hesedweemet.files.wordpress.com/2009/11/290px-negrojesus.jpg

Passamos então a outro Jesus negrão boa praça, mas vindo do Caribe, Jamaica para ser mais preciso, com direito a dreadlocks...

http://craiglaurancegidney.files.wordpress.com/2009/07/blackjesus.jpg

Outro Jesus negrão de dreadlock mas desta vez sem camisa (com outras imagens menores de seu martírio), sexy demais para uma igreja, não ladies???

 http://img.photobucket.com/albums/v21/trae_z/Black-Jesus-birth-death-etal.jpg

 Esse aí debaixo é um Jesus mais conservador na apresentação, estilo negrão classe média que trabalha como advogado...

 http://www.southdacola.com/blog/wp-content/uploads/2008/11/b_black_jesus.jpg

Outro Jesus rastaman, a maneira preferida de retratar os bêlo comprido do Jesus "Zorópa", desta vez carregando a coroa de espinhos...

http://sathyasaibaba.files.wordpress.com/2008/07/blackjesus.jpg

E, finalmente, meu Jesus negrão predileto, na mais pura versão soulman Isaac Hayes (1942-2008) com óculos escuros na cara e de boca aberta ensaiando uma canção de amor...

blackjesus.jpg black jesus image by xXnickdonXx

Jesus pode não ter sido um irmão de cor, mas que é divertido imaginá-lo assim, ah é isso é!

Muita Paz!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Gildo Fará Falta...

Foi com tristeza e pesar no coração que recebi na terça passada a notícia do falecimento do professor do Departamento de Ciência Política da USP Gildo Marçal Brandão. Não sou cientista político, mas tive o prazer de fazer dois cursos com Gildo: Política I e Pensamento Político Brasileiro (informalmente conhecido como Política IV).

 

Em meu primeiro ano de USP, 1997, Gildo havia acabado de retornar de um estágio de pós-doutoramento nos EUA e foi dar aula para os pentelhos do primeiro ano como eu. Ainda lembro de minha primeira pergunta dirigida a ele. O professor explicava a diferenciação feita por Max Weber no clássico texto Ciência e Política: Duas Vocações entre as éticas da convicção e da responsabilidade e tentei enfiar Malcolm X na conversa. Gildo foi extremamente simpático e respondeu dizendo que na autobiografia de X é possível visualizar vários momentos em que o ativista negro agiu baseado numa ética da responsabilidade, mas que seu compromisso religioso esteve subordinado a ética da convicção. Assim era Gildo, por maior que fosse a besteira que os alunos falassem ele conseguia, elegantemente e esbanjando erudição, colocar dentro do contexto do que estava sendo discutido.

Anos depois fiz um curso de pensamento político brasileiro com ele. Lemos Visconde de Cairú, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes,  Celso Furtado, Oliveira Vianna dentre outros. Confesso que, diante da aula de Gildo, pensei em seguir carreira na ciência política. Era fenomenal ver aquele tiozão, que tinha idade para ser pai de todo mundo na classe, usando argumentos de Rousseau, Locke, Hobbes, Marx, Gramsci dentre outros pensadores clássicos para evidenciar o sentido, forças e fraquezas dos argumentos dos autores que líamos.

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Enfim, Gildo irá fazer falta a USP, a acadêmia e as ciências sociais brasileiras que ficaram mais pobres na segunda passada. De minha parte, vou sempre me lembrar do senhor barrigudinho, vestindo calça jeans, camisa, um coletinho - desses das imagens clássicas dos antropólogos fazendo campo em algum lugar distante - e óculos de aro grosso andando pelo prédio da Ciências Sociais/Filosofia. Assista vídeo com ele abaixo no qual o professor discorre sobre as mudanças ocorridas na esquerda brasileira. O tom às vezes irônico de sua fala era típico do professor.



Abaixo texto que saiu na Pesquisa Fapesp Online com uma foto de Antonio Gramsci (1891-1937), pensador italiano que Brandão era especialista.

Descanse em Paz, Gildo!

Notícias
A morte de Gildo Marçal Brandão
Aos 61 anos, o cientista político da USP morreu na segunda-feira, dia 15/02

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Casa di Caboclo

E segue a rima no berço do hip-hop brasileiro, minha querida São Paulo. Casa di Caboclo representa muito bem a nova escola com o vídeo da música Tempo. Roubei esse clipe lá do Miss Milissima.

Muita Paz!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Terminando Bróder e Higienizando Emicida!



Hoje de manhã recebi um tweet de minha amiga Mila Felix e li no celular, ainda deitado na cama e bêbado de sono, a reportagem no Estadão sobre o filme de meu amigo Jeferson De que terá hoje sua primeira exibição oficial e que ocorre no Festival Internacional de Filmes de Berlim. Intitulado Bróder o filme se passa e foi filmado no Capão Redondo, bairro da zona sul paulistana que ficou famoso pelos versos de Mano Brown e sua trumpe. O ator principal do filme é Caio Blat que chegou até a morar no bairro para conhecer a região, conhecer melhor a vida das pessoas que encarnaria no papel e ganhar legitimidade. Assista abaixo entrevista de De ao UOL em 2008.



Estou feliz por Jeferson De, afinal, o conheço desde os tempos de faculdade na USP e sei a dureza que é ser cineasta no Brasil não sendo oriundo de famílias tradicionais, com grana e/ou influência. Mas a reportagem do Estado é estranha...  (leia AQUI ) A mesma começa com a descrição de De junto ao supervisor da trilha sonora do filme, João Marcelo Boscoli, pedindo para que o músico retirasse o termo "Hitler" presente na letra da música Triunfo do rapper Emicida (vídeo abaixo).  A resposta do diretor para ta atitude foi: "Como o filme vai passar na Alemanha, acho que não vai pegar bem falar em Hitler".



O resto da matéria é aquela papagaiada sobre relações raciais branco/negro tupiniquim que todo mundo já conhece e tá cansado (e em alguns casos, como o meu, irado!) de ouvir: "Existe racismo, mas também tem branco pobre." Aí vem uma pérola de Blat que ao ser convidado para fazer o papel respondeu a De: "Obrigado, eu sempre quis ser negro." Certo cara pálida, eu nunca quis ser branco...

De é audacioso e cutuca dizendo que nenhum filme da nova geração de películas nacionais não retratou a periferia de SP de forma apropriada incorporando toda a sua complexidade.  Okay man, puxou a responsa para si e estou ciente que na feitura de um filme como esse há muito mais outros interesses envolvidos (mais importantes e poderosos) além do meu posicionamento político. Exemplos disso são o orçamento do filme, estimado em 3 milhões de reais, e os parceiros empresariais. Entretanto, nego véio, cuidado com as conceções. Afinal, Bróder é um filme que pretende retratar uma periferia maciçamente negra/mestiça com um personagem principal branco e, por mais que vá (assim seja) se diferenciar em qualidade das outras películas que retrataram a periferia, será, com certeza, alocado no rótulo "favela movie"! E olha que nem falei nada da higienizada do Emicida. Desejo toda sorte e sucesso a Bróder, mas nessa parada da música Triunfo Jeferson De foi muito mais uma de pretinho Vila Madalena do que um maloqueiro do Capão...

Muita Paz!

PS: a reportagem afirma também que o filme contou com a "benção de Mano Brown", alguém pode me explicar isso??... Brown virou santo e eu não soube...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Pelada

É ano de copa e eleição presidencial, não? Haja coração, cerveja e amendoim! Deixemos o lance da eleição para outro post... Assim sendo, está dada a deixa para falar rapidamente de um documentário realizado por jovens diretores (e praticantes de soccer, já que footbal por aqui é outra coisa!) norte-americanos e intitulado Pelada. A película está escalada para exibição no SXSW Film Conference and Festival  que ocorrerá de 12 a 20 de março em Austin, Texas.

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Rebekah Fergusson, Luke Boughen, Gwendolyn Oxenham e Ryan White viajaram por 25 países ao redor do mundo filmando peladas das mais diversas. Há desde jogos realizados dentro de prisões até uma partida cercada de tensão entre árabes e judeus na palestina. A fala de um jogador judeu resume o clima da parada: "Embora haja algumas pessoas que tentem retratar o futebol como estando acima da política, acima de todas as tensões, é besteira! Nós jogaremos com eles (árabes), mas nós odiamos eles"

Leia mais - em inglês - sobre o filme AQUI

Assista o trailer abaixo (clique na opção "tela cheia" para ver as imagens com mais nítidez!)

Muita Paz!


Pelada from Rebekah Fergusson on Vimeo.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Quero ver a Mangueira Passar!

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Rapaz, passar carnaval em NYC, estudando e debaixo de um frio de menos 4 é f... Agora, a coisa piora mesmo quando você vê uns vídeos como esse aí debaixo. Meus olhos lacrimejaram com as imagens o tiozinho da velha guarda e ao ouvir o ritmo do bateria!

Vou comprar uma cerveja e pensar em calor, samba, carnaval e umas PRETONAS nacionais (ah, o produto nacional!), afinal, o petróleo e o carnaval é nosso, não?!

Mucha Paz e um Ótimo Carnaval!

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Minhas Relações Promíscuas com Antropólog@s e a Antropologia

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Dias atrás fuçava na Internet procurando algo e entrei, sei lá por que motivo, no site - odeio o termo "sítio" - de minha antiga universidade: USP. Tomei um susto quando vi a foto acima...  Parece o registro fotográfico daqueles almoços reencontro de família, formatura de curso ou time de futebol prestes a disputar um clássico tipo Itajubá e XV de Piracicaba, né? Mas não, esse aí é o time de professores do Departamento de Antropologia da USP. Suponho, diante do sorrisso de todos, que se trata de uma família feliz!

Não sou antropólogo de formação e o título do post não irá descrever nenhum tipo de sacanagem realizada com meus colegas dessa outra disciplina acadêmica. Geralmente sociólog@s e antropólog@s se unem numa aliança estratégica para satirizar o terceiro ramo da santíssima trindade das ciências sociais, a saber, ciência política. A piada é velha, mas boa: "Se fosse de fato ciência, não precisaria ter 'ciência' no nome" :) Desculpe aí, politicólogos...

Mas vamos as apresentações! Começando da esquerda para a direita, o primeiro é o meu amigo boa praça José Cantor Magnani seguido de meu chará Márcio Silva, Laura Moutinho, Heitor Frúgoli Jr., Beatriz Perrone-Moisés, Sylvia Caiuby, Dominique Gallois, Lilia Schwarcz, Ana Claúdia Marques, Vágner Silva, John Dawsey, Fernanda Peixoto, Júlio Simões, Ana Lúcia Schritzmeyer, Heloísa Almeida, Rose Satiko e Marta Amoroso...  Opa, cadê Renato Sztutman, Kabengele Munanga, Renato Queiroz, Carlos Serrano, Paula Monteiro e Margarida Maria Moura?

A bem da verdade é que nos meus primeiros anos de graduação pensei que me tornaria antropólogo. Meus melhores amigos à época eram Láercio Dias e João Batista Félix (o famoso Batistão!), dois pretos vagabundos que faziam mestrado na antropologia nos idos de 1997. Aliás, Batistão estava bem enrolado com sua pesquisa e tive o prazer de, logo no meu primeiro ano de sociais, fazer algumas incursões etnográficas com o figura. Apliquei alguns questionários na negrada que frequentava o baile Clube da Cidade na Barra Funda.  Batista era também o "ser" que ocupava a extinta sala 14 (uma espécie de laboratório de pesquisa) para desespero dos outros pós-graduandos. Quando eu não tinha nada para fazer ou matava aulas ia para a sala 14 onde ficava ouvindo o CD dos Racionais MCs no talo enquanto Batistão redigia parte da sua qualificação. Ritmo bem negrão de trabalho! O trampo ia pontualmente até às 7 da noite com vários breaks para discussão de assuntos políticos (leia-se movimento negro e relacionamentos inter-raciais). Após esse horário íamos (todo santo dia) tomar umas brejas na cantina do Seo Rafael (sim, havia um bar dentro do prédio de Ciências Sociais/Filosofia!). Definitivamente a molecada de hoje não sabe o que é diversão na USP com essas proibições de cachaça, cigarro e festas dentro do campus. Pois é, minha amizade com Batista rendeu por tempos o inglório apelido de Batistinha devido a sermos patrícios de cor e uma certa semelhança no estilo de cabelo (Batista usa até hoje dreadloks e eu usava tranças naquela época). Não raro perguntavam se eu era filho do negrão... Minha relação tortuosa com a antropologia começa aí!

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Pois bem, durante muito tempo fui lido, classificado, rotulado e taxado de antropólogo no espaço das ciências sociais. Isso ocorreu mesmo nunca tendo disputado uma bolsa de iniciação científica nesse departamento. Sempre estive vinculado a sociologia e recebi alguns convites de professores para trabalhar em projetos da ciência política. Entretanto, sempre me deparava com a pergunta: "Mas você não é da antropologia?". Uma vez, contudo, fui citado por minha amiga Luena Pereira para ressaltar a ausência de gente da antropologia no evento: "Até o Kibe, que não é da antropologia, estava lá!".  Acho que três fatores contribuiam para essa identificação com a classe antropológica: o fato de ser negrão, o meu indelével colarzinho de madeira e minha presença sempre frequente nos eventos daquele departamento.

O primeiro fator não é necessário explicar, já que todo negrão é meio artista, revolucionári@ e antropólog@. O colar de madeira?... O segundo fato explicativo é que todo antropólog@ que se preze gosta de uns adereços ou indumentária meio singulares (leia-se étnicos!): um colar de algum grupo indígena pesquisado, vestir branco na sexta-feira, pulseirinha feita em algum lugar distante de pronúncia difícil. E eu tinha (e tenho!) um colar de madeira que me acompanhava desde 1994 quando o comprei numa loja de badulaques no centrão de São Paulo. O colar me alocava na categoria antropólogo antes que eu pudesse abrir a boca e, ao saber disso, bolei um xaveco em cima do acessório. Dizia para as bixetes da sociais logo na primeira semana de aula que a peça vinha passando de geração em geração dentro de minha família representando a linhagem étnica de minha clan africana e que o mesmo estava impregnado de hau (se não sabe o que é, vá ler Marcel Mauss (1872-1950) e Bronislaw Malinowski (1884-1942), esse último o cara pálida da foto acima). Obviamente que as garotinhas, geralmente aspirantes de antropólogas, ficavam suspirantes com a minha mentira antropólogica, mas nunca faturei ninguém com a conversa! Xaveco antropológico não cola...

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 (Marcel Mauss, meio sociólogo meio antropólogo e sobrinho de  Émile Durkheim: ciências sociais se faz em família, meu chapa!)

Por fim, diria que os eventos do departamento de antropologia são os mais divertidos. Era o único departamento na minha época de USP que conseguia reunir estudantes de graduação, pós e professores nos seus eventos mensais tipo Sexta do Mês (uma espécie de seminário mensal em que professores do departamento ou de outras instituições são convidados a falar sobre suas pesquisas). Outra coisa que deve ser elogiada no departamento é a revista dos alunos de pós-graduação, Cadernos de Campo, cuja a qualidade de editoração, artigos e resenhas é de primeira (eu, obviamente, já publiquei lá a resenha do livro de uma antropóloga).

Nem vou dizer que já trabalhei em vários projetos em que os coordenadores eram antropólogos, participei do Núcleo de Antropologia Urbana (NAU/USP) por um tempo, publiquei um artigo num livro recheado de textos de antropólog@s (o título do trampo é Jovens na Metrópole [2007], leia uma resenha do mesmo AQUI) e cujo o único sociólogo era eu, tive dois antropólogos na minha banca de defesa de mestrado e já resenhei um monte de livros cujo os autores são antropólogos...

Credo, quanta antropologia e nostalgia da sociais. Vou parar por aqui, tô ficando velho!

Muita Paz!

PS: a propósito, estou escrevendo a resenha do último livro de Marshal Sallins e, devo dizer, as antropólogas são as intelectuais mais charmosas que já conheci! Elas sempre tem alguma aventura para contar do último campo que fizeram. Aliás, com qual outro tipo de mulher você pode puxar conversa citando o kula sem levar um tapa na cara?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Documento Trololó "A Cultura Kilingui"

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Morra de rir com o "seríssimo" documentário produzido pela dupla Hermes e Renato (MTV) sobre a "cultura" da pilantragem no Brasil. Destaque para a participação do sociólogo Júlio Silva, 53.

Muita Paz!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Cotas vão, enfim, para o Tribunal!

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Você que é negrão/negona e/ou branc@ preocupad@ com a desigualdade racial no Brasil ou acha que cotas criam mais racismo no país tupiniquim deve fazer uma marca bem grande em seu calendário nos dias 3, 4 e 5 de março. Esses são os dias em que a política de cotas nas universidades será alvo de discussão no Supremo Tribunal Federal por meio de uma audiência pública sobre a constitucionalidade de ações afirmativas no ensino superior público brasileiro.  Quem enviou a informação foi minha amiga Laura Moutinho e, segundo consta, haverá transmissão ao vivo pela TV e Rádio Justiça.

Vários acadêmicos especialistas em sociologia, biologia/genética, antropologia, direito, ciência política, história assim como ativistas, representantes de partidos políticos, associações culturais, movimento estudantil entre outros serão arguidos por ministros e procuradores.

De minha parte, vou comprar minha pipoquinha e ficar de radinho, ops, Internet ligada!

Veja o programa completo da audiência AQUI  e espalhe a notícia por aí!!!


Muita Paz! 
PS: a propósito, nunca é tarde lembrar: esse blog é 100% favorável as COTAS!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Soca e Carnaval em Trinidad!

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Estou congelando em NYC e pensando no carnaval de Trinidad e Tobago que rola no próximo final de semana e eu, infelizmente, não poderei ir. Meu truta Calvin, originário da ilha caribenha, vem mantendo-me informado sobre os hits em potencial para as celebrações de Momo desse ano. Abaixo vídeo da dupla JW & Blaze com a música Palance. O ritmo, para quem não conhece, é soca: impossível ficar parado...

Muita Paz!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A Santa de Ouro Santogold

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Já sabem, um texto meu antigo. Saiu no blog de minha amiga carioca Débora Baldelli, o Cafetina Eletroacústica ano passado e resenha o primeiro álbum da cantora Santogold. Leiam, comentem e baixem o disco...

Muita Paz!

A Santa de Ouro Santogold

Convenções são, em boa parte, idéias equivocadas que partem do senso comum que, por sua vez, se realimenta das convenções. Uma das convenções mais estúpidas que existe é a idéia de um rock in roll branco. É possível falar em um embranquecimento histórico do rock, algo que tem início antes mesmo de Elvis Presley (1935-1977) e que remete tanto a cantor@s e bandas como ao público consumidor desse gênero de música. Entretanto, a música pop em geral é negra. E quando afirmo isso, não é devido a recente morte de Michael Jackson e não há nenhum traço de despeito, animosidade ou sentimento de roubo como é comum se ver na atitude de alguns negros.

Primeiramente, deve ser lembrado que o estabelecimento do conceito de música popular (pop music) tem sua origem nos anos 1930/1940 com a disseminação de mídias comunicativas de massa como o rádio. Nesse período, o primeiro ritmo que viria a fazer parte do panteão do pop, antes mesmo do rock, seria o jazz. Uma segunda observação a ser feita é que do ponto de vista mercadológico, nos EUA dos anos 1950 era muito mais fácil promover um rapaz branco, com pinta de galã, exalando virilidade e com cara de cowboy como Presley do que um negro com trejeitos efeminados como Little Richard.

Entretanto, bandas de rock negras não são de todo desconhecidas. Em minha adolescência, entre os anos 1980 e 1990, fui fã de algumas que produziam uma espécie de som que seria rotulado como crossover: uma mistura de vários tendências como ska, reggae, rock, soul, funk e hip-hop. Leia-se aqui Living Colour, Fishbone e Bad Brains que tinham como contrapartida outros grupos não necessariamente negros na pegada de Faith No More, Red Hot Chilli Peppers, Rage Agaisnt the Machine, Primus dentre outros menos famosos. Não dá pra esquecer a rapaziada dos Beastie Boys, obviamente!

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Nessa última primavera – escrevo de NYC – tive uma ótima surpresa ao ser apresentado a mais nova novidade negra do rock… Santi White é uma Black lady de 33 anos originária da Pennsylvania, mas radicada aqui no Brooklyn. Seu álbum de estréia, Santogold (apelido de infância da moça), foi a trilha sonora de minhas sofridas finals: período de três semanas que antecede o fechamento do semestre nas universidades americanas. Pois bem, a garota é boa pacas… Com um bacharelado em música e estudos afro-americanos pela Wesleyan University, Santi se lançou a música em 2003 como vocalista de uma banda de punk rock após ter trabalhado para a Epic Records e produzido a artista de R&B Res.

Os dois álbuns da Stiffed, primeira banda de Santi, intitulados Sex Sell (2003) e Burn Again (2005), foram produzidos por um ex-componente do Bad Brains, Darryl Jenifer. Ainda fazendo parte do Stiffed, a menina se lançou em carreira solo em 2007 com os singles Creator e L.E.S Artistes ganhando notoriedade na Internet. Em 2008 a mesma foi eleita artista revelação pela MTV e de lá pra cá é história… Em fevereiro deste ano, a garota teve que fazer uma pequena mudança no seu nome artístico deixando o Santogold em favor de Santigold, uma vez que o termo era homônimo de um truta joalheiro de Baltimore que ameaçava processá-la.

Mas falemos do disco… Santogold, lançado no início do ano, é um daqueles tipos de CDs que grudam no seu ouvido e repentinamente você se vê cantando na rua mesmo estando sem o seu iPod. Prestando um pouquinho de atenção, é possível perceber como Santi consegue absorver as mais diversas tendências da música pop e fazer um rock dançante que pode ser tocado na pista, na festinha de casa, no carro ou onde for e fazer a alegria.

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O álbum começa com L.E.S Artistes, uma faixa indie onde a voz baixa e meio adolescente de Santi soa meiga, mas o rifs de guitarra do refrão dão ritmo e peso. You’ll Find a Way é mais punk, pela levada e ritmo, contudo, alguns efeitos de guitarra colocados no meio da faixa fazem referência clara ao ska. É pra sair do chão… As referências caribenhas voltam em Shove It, onde Brooklyn é bem lembrado na letra da canção via um electro/dub em que o vocal da garota em determinados momentos se aproxima de uma levada meio ragga e é ajudada em parte pela participação especial de Span Rock, um grupo de rap alternativo americano.

A poeira sobe de novo com Say Aha, rock pista e dançante que não deixa ninguém parado. O experimentalismo voltam nas duas próximas faixas, Creator e My Superman. Na primeira a garota flerta com o eletrônico, um triphop acelerado e cheio de efeito. A segunda é mais introspectiva e o ritmo mais calmo, novamente aqui a referência é triphop a la Trick e companhia. Lights Out volta a pegada leve e divertida indie, mas totalmente pista. A voz da garota é leve e mais uma vez a cantora mostra a sua versatilidade em passar por vários estilos e formatos vocais distintos. Tanto Starstruck como Unstoppable voltam com o experimentalismo eletrônico, mas flertando com rock. I Am a Lady é um roquinho calmo para ouvir em dias de chuva e traz tranqüilidade ao disco anunciando seu final que chega com a faixa Anne que fecha o álbum com chave de ouro novamente apostando num flerte entre rock pop com vários elementos de eletrônico. De quebra o disco ainda traz uma versão remixada de You’ll Find a Way.

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Depois de ouvir o disco a sensação que fica é que Santigold representa muito bem o velho Brooklyn. Lugar de origem de feras do hip-hop como Notorious B.I.G., Jay Z e Mos Def,  mas que agora conta com uma diva negra do rock alternativo. Que venha o próximo disco da garota! A propósito, enquanto ele não vem, baixe o primeiro álbum da nega AQUI  e vá curtindo!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Soldier of Love by Sade

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A lindona Sade está de volta depois de nove anos com um novo álbum, Soldier of Love.  A negona embalou a minha infância quando eu, molecão à época, assistia o vídeo dessa preta linda cantando Smooth Operator (1984). Bem loco (não sei onde coloco o acento circunflexo :)!

A previsão de lançamento do álbum é 9 de fevereiro, mas se você é maloquerão (ou maloquerona!) como eu, já pode baixar a paradinha (sem nenhum custo!) AQUI

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De quebra, assista o vídeo de Smooth Operator para lembrar os velhos tempos (a imagem tá até meio amarelada! :) E depois, logo abaixo, o vídeo de Soldier of Love.

Muita Paz!




sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

E aí Milicos, opa, Militares?!

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Pois bem, rapaziada, quando o calo aperta fica difícil manter a regularidade do posts. Contudo, a gente faz o que pode para manter o NewYorKibe ativo para o seu e meu deleite. Tod@s sabem que não sou de reproduzir textos alheios por aqui, mas nessas horas fica difícil não cometer esse sacrilégio blogial. Então, lá vai...

Recebi o texto abaixo, de autoria de Marcelo Rubens Paiva, de meu ex professor na USP José de Souza Martins. Paiva discute o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH) que vem gerando polêmica e discussões - algumas boas e outras nem tanto - nas últimas semanas no Brasil (para uma cobertura séria da parada leia o posts de meu amigo Raphael Neves em seu blog Politika etc). Resumidamente, o PNDH (que já foi modificado) sugeria a abertura dos arquivos da ditadura (1964-1985) e a instauração de uma comissão da verdade, nos mesmos moldes do que foi feito na África do Sul no período pós apartheid nos anos 1990. Essas comissões reuniam, num evento público, torturadores, torturados (caso ainda vivos), a família de torturados e a comunidade para que num processo dolorido a verdade do que realmente havia acontecido as pessoas em todos aqueles anos obscuros viesse à tona. Quem tiver interesse no tema deve assistir o filme In My Country (2004) com Samuel L. Jackson (assista o trailer AQUI).

Ah, antes que eu me esqueça, a triste e famosa foto de abertura do post é do jornalista Vladimir Herzog, morto numa sessão de tortura em 1975. A imagem aí debaixo é de Paiva.

Muita Paz (na medida do possível)!

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O Estado de São Paulo, 30 de janeiro de 2010.

Caros generais, almirantes e brigadeiros
Marcelo Rubens Paiva

Eu ia dizer "caros milicos". Não sei se é um termo ofensivo. Estigmatizado é. Preciso enumerar as razões?

Parte da sociedade civil quer rever a Lei da Anistia. Sugeriram a Comissão da Verdade, no desastroso Programa Nacional de Direitos Humanos, que Lula assinou sem ler. Vocês ameaçaram abandonar o governo, caso fosse aprovado.

Na Argentina, Espanha, Portugal, Chile, a anistia a militares envolvidos em crimes contra a humanidade foi revista. Há interesse para uma democracia em purificar o passado.

Aqui, teimam em não abrir mão do perdão. E têm aliados fortes, como o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apesar de civil apareceu num patético uniforme de combate na volta do Haiti. Parecia um clown.

Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura. Devem ter navegado na contracultura, dançado Raul Seixas, tropicalistas. Usaram cabelos compridos, jeans desbotados? Namoraram ouvindo bossa nova? Assistiram aos filmes do cinema novo?

Sabemos que quem mais sofreu repressão depois do Golpe de 64 foram justamente os militares. Muitos foram presos e cassados. Havia até uma organização guerrilheira, a VPR, composta só por militares contra o regime.

Por que abrigar torturadores? Por que não colocá-los num banco de réus, um Tribunal de Nuremberg? Por que não limpar a fama da corporação? Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.

Sei que nossa relação, que começou quando eu tinha cinco anos, foi contaminada por abusos e absurdos. Culpa da polarização ideológica da época.

Seus antecessores cassaram o meu pai, deputado federal de 34 anos, no Golpe de 64, logo no primeiro Ato Institucional. Pois ele era relator de uma CPI que investigava o dinheiro da CIA para a preparação do golpe, interrogou militares, mostrou cheques depositados em contas para financiar a campanha anticomunista. Sabiam que meu pai nem era comunista?

Ele tentou fugir de Brasília, quando cercaram a cidade. Entrou num teco-teco, decolou, mas ameaçaram derrubar o avião. Ele pousou, saltou do avião ainda em movimento e correu pelo cerrado, sob balas.

Pulou o muro da embaixada da Iugoslávia e lá ficou, meses, até receber o salvo-conduto e se exilar. Passei meu aniversário de cinco anos nessa embaixada. Festão. Achávamos que a ditadura não ia durar. Que ironia...

Da Europa, meu pai enviou uma emocionante carta aos filhos, explicando o que tinha acontecido. Chamava alguns de vocês de "gorilas". Ri muito quando a recebi.

Ainda era 1964, a família imaginava que fosse preciso partir para o exílio e se juntar na França, quando ele entrou clandestinamente no Brasil.

Num voo para o Uruguai, que fazia escala no Rio, pediu para comprar cigarros e cruzou portas, até cair na rua, pegar um táxi e aparecer de surpresa em casa. Naquela época, o controle de passageiros era amador. Mas veio a luta armada, os primeiros sequestros, e atuavam justamente os filhos dos amigos e seus eleitores – ele foi eleito deputado em 1962 pelos estudantes.

A barra pesou com o AI-5, a repressão caiu matando, e muitos vinham pedir abrigo, grana para fugir. Ele conhecia rotas de fuga. Tinha um aviãozinho. Fernando Gasparian, o melhor amigo dele, sabia que ambos estavam sendo seguidos e fugiu para a Inglaterra. Alertou o meu pai, que continuou no País.
Em 20 de janeiro de 1971, feriado, deu praia. Alguns de vocês invadiram a nossa casa de manhã, apontaram metralhadoras. Depois, se acalmaram.

Ficamos com eles 24 horas. Até jogamos baralho. Não pareciam assustadores. Não tive medo. Eram tensos, mas brasileiros normais. Levaram o meu pai, minha mãe e minha irmã Eliana, de 14 anos. Ele foi torturado e morto na dependência de vocês. A minha mãe ficou presa por 13 dias, e minha irmã, um dia.

Sumiram com o corpo dele, inventaram uma farsa (a de que ele tinha fugido) e não se falou mais no assunto.

Quando, aos 17 anos, fui me alistar na sede do Segundo Exército, vivi a humilhação de todos os moleques: nos obrigaram a ficar nus e a correr pelo campo. Era inverno.

Na ficha, eu deveria preencher se o pai era vivo ou morto. Na época, varão de família era dispensado. Não havia espaço para "desaparecido". Deixei em branco.

Levei uma dura do oficial. Não resisti: "Vocês devem saber melhor do que eu se está vivo." Silêncio na sala. Foram consultar um superior. Voltaram sem graça, carimbaram a minha ficha, "dispensado", e saí de lá com a alma lavada.

Então, só em 1996, depois de um decreto-lei do Fernando Henrique, amigo de pôquer do meu pai, o Governo Brasileiro assumiu a responsabilidade sobre os desaparecidos e nos entregou um atestado de óbito.

Até hoje não sabemos o que aconteceu, onde o enterraram e por quê? Meu pai era contra a luta armada. Sabemos que antes de começarem a sessão de tortura, o Brigadeiro Burnier lhe disse: "Enfim, deputadozinho, vamos tirar nossas diferenças."

Isso tudo já faz quase 40 anos. A Lei da Anistia, aprovada ainda durante a ditadura, com um Congresso engessado pelo Pacote de Abril, senadores biônicos, não eleitos pelo povo, garante o perdão aos colegas de vocês que participaram da tortura.

Qual o sentido de ter torturadores entre seus pares? Livrem-se deles. Coragem.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Vai de Metrô?



Prometi voltar a escrever no blog somente depois de meu exame, mas diante da foto acima, exibida no site do Estadão e registrando o embarque de passageiros na estação Sé do metrô, não pude deixar de "dar rapidinha" aqui. NYC anda gelada por esses dias com os termômetros batendo a casa dos 9 negativos além da neve que surge esporadicamente. Todos sabem que odeio frio e neve, mas diante da situação de SP nos últimos dias estou dando graças a Deus de estar na Big Apple ao mesmo tempo que me solidarizo com o sofrimento da população paulistana (acho que todos são corinthianos no que diz respeito a morar na "Terra da Canoa", como vem sendo ironicamente chamada minha querida cidade!). 

Voltando a foto, já senti na pele a situação delicada das pessoas na imagem acima, pois anos atrás, quando lecionava numa universidade privada localizada na zona leste da capital, pegava esse mesmo metrô (linha Leste/Oeste sentido Itaquera) diariamente e num horário infernal (6 da tarde).  E pensar que os americanos ainda reclamam dos trens lotados da MTA no horário do rush (entre 4 da tarde e 7 da noite). Eles precisam conhecer SP...

Boa sorte e muita paz à tod@s aí!