segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Carro de Negrão...

Tenho acompanhado daqui dos EUA o caso do segurança da USP, Januário Alves de Santana, que foi espancado por seguranças do Carrefour, no estacionamento de um hipermercado da rede em Osasco, região metropolitana de São Paulo, semanas atrás. O episódio teve grande repercussão sendo assunto de matérias nos principais jornais da capital paulista (Folha e Estado) e veiculado até mesmo pelo Jornal Nacional. Infelizmente, casos como esse não são novidade para boa parte da população negra/mestiça pertencente ou não a classe média e proprietária de carros. É necessário nunca esquecer que anos atrás um dentista negro, dirigindo um Gol, foi confundido com um assaltante e morto pela polícia quando levava sua namorada ao aeroporto de Cumbica em Guarulhos.


Protesto realizado no estacionamento do Carrefour em Osasco no dia 22 de agosto.

Pois bem, essas situações me fazem lembrar de uma conversa que tive com um amigo tempos atrás. Falávamos de nossas aspirações automotivas olhando para modelos zero numa revista Quatro Rodas e afirmando animadamente, "Ah, esse aqui é carro de negrão!", "Não não, esse outro aqui sim é carro é negrão". Depois de uma pausa, meu amigo abriu um sorrisso irônico e disse: "Carro de negrão, Kibe?... Carro de negrão é Fusca!" Caímos na gargalhada e até hoje fico pensando de como ríamos dos estereótipos e do racismo que permeia a relação entre negrada, carros e polícia. Explico-me...

Fusca by camilofontana.
Diriga com estilo! Fusca, o carro do verdadeiro negrão.

Carro ainda continua sendo, no Brasil, um dos grandes símbolos de status social. Reconhece-se a classe social de uma pessoa pelo carro que ela dirige. Vários sociólogos contemporâneos tem discutido como a cor/raça no Brasil é um estigma - marca/sinal negativo - que imediatamente aloca os indivíduos mais escuros em espaços sociais associados a pobreza, marginalidade e/ou desregramento sexual. Em termos práticos, isso significa dizer que um executivo negro vestindo terno não é identificado num primeiro momento como executivo, mas sim como segurança. Uma mulher negra bonita pode ser vista como prostituta. Enfim, um negro dirigindo um carro caro é um paradoxo que só resolve no imaginário popular pela associação do motorista a um ladrão de carro.



Há maneiras de resolver o problema. Vamos as opções... 1) Aceite a verdade de meu amigo: "Carro de negrão é Fusca!". Compre um e ande tranquilo, pois a polícia não irá lhe encher o saco. 2) Estilize: compre um Opala 68 vermelho, rebaixe o possante, coloque estofados de couro branco, rodas de magnésio com pneus pintados de branco na parte de fora e meta um CD do Tupac ou Marvin Gaye no talo em seu som super poderoso. Fique à pampa, a polícia vai confundí-lo com um rapper. 3) Agora, se você é um daqueles pretos sortudos e bem sucedidos que chegou lá e não resiste a tentação de dirigir um Audi, uma BMW ou um Jeep Grand Cherokee ou se tem que fazê-lo devido a apresentação profissional, sugiro a você que aprenda inglês. Ao ser parado pela polícia, lance um: "Excuse-me officer, what's the problem? I am sorry, but I am American and I am not able to speak Portuguese. Did you understand me?" Pretos gringos (não vale ser de algum país do continente africano) são sempre tratados de forma diferenciada, já que o imaginário que se tem dos mesmos é de que os patrícios daqui são mais "evoluídos" e tem grana... 4) A polícia e profissionais de segurança em geral podiam, minimamente, rever suas abordagens truculentas e racistas.

Qual a sua opção? Eu vou comprar o Opala 68! Olha ele aí... Da hora, mano!

http://www.carrosderua.com.br/web/uploads/destaque/1226450015_destaque_granluxo.jpg

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Pretas...

Uma Negra me Levou a Deus
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A negra bonita
toda de branco
de bíblia na mão
entrou na igreja
Ali estava o Deus
Que eu procurava

Tantas vozes cantavam
- Só a dela eu ouvia

Do rei Salomão
os cantares eu lia
porque nos cantares
só a negra eu via

Cheguei a Diácono
presbiteriano
Foi uma negra
que me levou a Deus

Outra Negra me Levou à Macumba
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Outra linda negra
me levou a macumba
No Xangô da Baiana
da Praia do Pina

Era noite de lua
a preta era bela
Dançava no corpo
Que lindo o andar!
A negra era filha
da Deusa Oiá
tinha um cheiro no corpo
que me levou ao pecado
Faltei com respeito
Ao seu Orixá

Lá no terreiro
dançou pra mim
seus seios bonitos
pulavam no ritmo
do atabaque
e do agogô
Fui pra casa da negra
Fomos os dois pro céu
Recebi o santo
do corpo da negra
e fiquei o maior de todos os Ogans
e passei a cavalo
de Obatalá

Poemas de Solano Trindade (1908-1974)
*
Primeira foto de Josephine Baker (1906-1975)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Estante de Maloqueiro 1 "Vale Tudo: O Som e A Fúria de Tim Maia"

Estou estreando uma espécie de coluna no NewYorKibe cujo nome será Estante de Maloqueiro. A idéia nada mais é do discutir, de uma forma bem pessoal, livros que li recentemente ou já há algum tempo.

http://adairjones.files.wordpress.com/2009/03/bookshelf.jpg

O.k., nossa coluna vai ter início com a análise de um livro que tem feito bastante sucesso no Brasil, Vale Tudo: O Som e a Fúria de Tim Maia (2007) de autoria do jornalista, escritor, compositor e produtor musical Nelson Motta. O autor é um velho conhecido nos meios daquilo que se convencionou chamar de música popular brasileira e está radicado aqui na Big Apple há um bom tempo. Nos últimos anos Motta vem produzindo livros que vão desde guias culturais de NYC para brasileiros (Nova York É Aqui: Manhattan de Cabo a Rabo, 1997), passando por relatos bastante particulares de sua vivência na música brasileira (Noites Tropicais, 2000), romances pop (O Canto da Sereia, 2002, Bandidos e Mocinhas, 2004, e Ao Som do Mar e a Luz do Céu, 2006) e biografias cuja sua primeira experiência foi com o livro Fluminense: Vida, Paixão e Glória de uma Máquina de Jogar Bola (2005).

http://abrigonanet.files.wordpress.com/2008/11/tim.jpg

Vale Tudo é um livro bem produzido e escrito. Motta tem um jeito leve e informal de escrever que agradam o leitor mediano. Além disso, seu conhecimento do universo relacionado a música popular brasileira lhe trazem legitimidade para escrever sobre um assunto a ponto de várias vezes o autor se auto-referendar no texto. Outro ponto positivo para o livro diz respeito ao biografado, os períodos cobertos e aos gêneros musicais que são dissecados. O Brazilian soul até hoje é algo pouco conhecido no universo musical brasileiro, mesmo considerando que a musicalidade norte-americana dos anos 1960/1970 influenciou boa parte dos músicos brasileiros e até alavancou movimentos culturais e políticos como o Black Rio. Assim sendo, o texto de Motta tem o mérito de, ao biografar Tim Maia, colocar em cena uma série de outros músicos que foram bastante populares e cunharam essa musicalidade mesclando elementos provindos do soul com outros de origem tupiniquim. Artistas do naipe de Hyldon, Cassiano, Luiz Melodia, Tony Tornado, Dom Salvador, Carlos Dafé, União Black e, aproximando-se mais do samba e da bossa nova, Wilson Simonal, Jorge Ben (recuso-me a dizer aquele outro nome dele) e Jair Rodrigues. Por fim, outro ponto positivo em relação ao trabalho de Motta é que o mesmo organizou a discografia de Tim, algo que facilitará a vida de qualquer outro pesquisador que venha a se debruçar sobre o mesmo tema futuramente.

Se você perguntar se vale a pena ler o livro de Motta, minha resposta será sim. Entretanto, o "sim" virá com alguns "poréns". Vamos a eles. O jornalista e produtor musical fez um livro em que as pessoas vão encontrar o Tim Maia que se popularizou através da mídia em geral: que faltava a shows, mulherengo, "cheirador", irresponsável do ponto de vista financeiro, enfim, doidão. O texto promete ótimas risadas, mas o perigo é justamente caricaturar ainda mais uma figura cuja música é uma preciosidade. Obviamente que não se espera do livro uma análise sociológica de Tim, contudo, o leitor mais sofisticado e exigente sentirá falta de uma inquérito mais apurado da trajetória do artista. Outro ponto importante é a intimidade com que Motta trata o biografado, algo que literalmente enche o saco. A necessidade de deixar o texto engraçado fez com que enchesse o livro de histórias cômicas, mas ao mesmo tempo isso resultou na perda de vários outros aspectos igualmente importantes no sentido de entender a carreira musical e trajetório pessoal de Tim. O contexto político e racial do movimento Black Rio, por exemplo, cuja produção do músico está intrinsicamente ligada, é jogado no lixo. Um bom trabalho que consegue fazer a ligação entre a música de Tim e o contexto histórico, político e racial que o Brasil vivia a sua época é o pequeno texto do brasilianista Bryan MacCann "Black Pau: uncovering history of Brazilian Soul" presente no livro Rockin' Las Américas (2004).

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Um último ponto. Mesmo após terminar de ler o texto, não consigo entender porque Motta acha que ao conhecer um meia dúzia de pret@s famos@s, já conhece tod@as! O resultado é uma espécie de tratamento de botequim que é bem característico do racismo brasileiro carregado de paternalismo e que ao mesmo tempo que aproxima negros e brancos, reforça a desigualdade existente os mesmos. Enfim, ficaria meio puto se Motta me chamasse de "crioulo" ou "preto"! Mesmo assim, recomendo a leitura da parada.

Obra aprovada pela Estante de Maloqueiro (com ressalvas, é óbvio!).

Muita Paz!

domingo, 16 de agosto de 2009

Simon's Cat and Simon's Sister's Dog

Esse cartoon é para quem tem ou já teve gatos e/ou cachorros. Morra de rir!







Paz à Tod@s!

sábado, 15 de agosto de 2009

Ponto Urbe Explica...

anthropology.gif ! image by nayita79
Pare e responda rápido: você sabe o que um antropólogo faz? Bem, se pensou em Indiana Jones, já errou uma vez que ele é arqueólogo. Não se preocupe, antropólogos também tem dificuldade de explicar as pessoas leigas do que se trata seu métier. Quando a pergunta aparece sempre vem uma resposta do tipo "estudamos o homem através da cultura". Legal, mas não pergunte a ele o que é cultura ou qual a sua concepção de cultura a menos que esteja comfortavelmente sentado numa poltrona ou sofá.

Roberto da Matta, antropólogo brasileiro de fama internacional, talvez tenha sido o que melhor resumiu o que essas figuras que falam que "ficaram algumas semanas fazendo trabalho de campo" fazem num texto intitulado "O Ofício do Etnólogo, ou Como Ter Anthropological Blues" (1978). Afirma ele que o antropólogo é que aquele busca transformar aquilo que é visto por nós de forma exótica em algo familiar e, de modo contrário, o que é familiar em exótico. Para ser ter uma noção de como o trabalho de antropólogos se dá de fato no contexto urbano, vale a pena ler os textos da revista Ponto Urbe.

http://www.samizdata.net/~pdeh/attack.gif

A quarta edição do periódico eletrônico do Núcleo de Antropologia Urbana (NAU/USP) – dá continuidade ao espaço de intercâmbio que a revista propicia à pesquisas antropológicas realizadas no Brasil e em outros países, bem como em outras áreas do conhecimento. Nesta edição, foram publicados os artigos Segregação espacial e produção de territórios negros por blocos afro em Ilhéus, Bahia de Ana Claudia Cruz da Silva (UFSE), Quando os sentidos são bons para pensar – reflexões sobre os muçulmanos e a sua entrega a Allah de Francirosy Ferreira (Unicamp), O processo de fixação do migrante brasileiro em Londres: a importância das práticas cotidianas na elaboração de sua identidade, de Gustavo Tentoni Dias (Brazilian Community in the United Kingdon Reseearch Group), Um espetáculo do “progresso” muito particular: o Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo (1862-1887), de Militão Augusto de Azevedo de Iris Moraes de Araujo (Unicamp), Entre “cá” e “lá”: estudo comparado – espaços públicos centrais em São Paulo e no Porto de João Teixeira Lopes (Universidade do Porto), Reflexões sobre a sociabilidade virtual dos jovens das classes populares de Lucia Mury Scalco (UFRGS) e O Samba pede carona: samba, ritmo e música nos trens urbanos de Nilton Rodrigues Junior (UFRJ). Além das seções Resenhas e “Graduação em Campo” (com artigos de pesquisas apresentadas no evento de mesmo nome realizado pelo Núcleo em 2008), a produção do NAU conta com a Etnotícia "Paisagens Ameríndias urbanas de Manaus, no Amazonas", redigida pelos pesquisadores do Núcleo associados ao PROCAD e a tradução do artigo "A linguagem gestual" ("The gesture-language") de Edward Burnett Tylor. Na seção “Cir-kula”, artigos de Gilberto Geribola Moreno (FE-USP) e Vanir de Lima Belo (Geografia-USP). A entrevista desta edição foi com a antropóloga Eunice Durham, feita pela pesquisadora Lilian de Lucca Torres.

A Ponto Urbe pode ser acessada na íntegra aqui

Muita Paz!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Xô Felicidade... O Que Aconteceu com a Melancolia?

Vivemos num mundo cada vez mais chato. Todo mundo é feliz ou deve aparentar ser feliz. A maior parte de meus amigos colocam mensagens no Facebook, no Orkut, no Messenger ou no Twitter dizendo o quanto são abençoados e felizes, agradecidos por tudo que tem e vem conquistando na vida. Correntes de felicidade entopem meu email. Ninguém mais sente (ou quer sentir) tristeza ou ao menos melancolia. Todo mundo é e precisa ser feliz, estupidamente/urgentemente feliz…

Enfim, tô ficando com raiva de quem é feliz! Não suporto ver casais apaixonados na rua trocando beijos em público, crianças correndo no parque com um enorme sorrisso após ganhar um sorvetinho do papai e velhinhas conversando alegremente com suas amigas em coffee shops em fins de tarde. Mais: sinto ódio só de pensar que daqui a alguns meses começará todo aquele frênesi pelo Natal e a necessidade incondicional de estar feliz nessa época do ano. Odeio finais de ano e a sua felicidade! Vou passar meu Natal e virada de ano no frio gelado de NYC, sozinho, assistindo DVDs de filmes do Quentin Tarantino (contei mãe, não espere por mim esse ano e nem conte com o meu presente no amigo secreto da família Macedo) e tomando Bud Light, urgh!

Anos atrás tomava uma cerveja com meu velho parceiro de cachaça Daniel Pereira (que atualmente anda aprontando das suas em Paris). Cara antenado, leitor de Nietzsche, Foucalt, Camus, autor de um dos livros (elaborado como dissertação de mestrado) mais criativos do departamento de sociologia da USP nos últimos e bêbado convicto. Na ocasião Daniel falava do seu incômodo com essa obrigação de ser feliz. Precisamos desesperadamente ser felizes e, caso não estejamos, há alguma coisa de errado conosco. Livros de auto-ajuda - O Segredo e os escritos psicografados e palestras da "família do além", Gasparetto, - vendem a rodo, consultas com astrológos, pais de santo e ida à igrejas onde pastores prometem a felicidade que é não é eterna e nem pós-morte, mas é prometida nesse mundinho mesmo e rapidinho. Caso se tenha um pouco mais de grana e se esteja muito, mas muito triste, cuidado... Você pode estar sofrendo de depressão e aí será necessário uma consulta a um psicólogo, psicanalista ou psiquiatra (não me pergunte o que os diferencia!).

Até eu já fui ao psicólogo achando que precisava de ajuda. Na minha época de graduação na USP a vagabundagem andava comendo solta e me auto-diagnostiquei um procrastinador inveterado que deixava todos os trabalhos e leituras do curso pra última hora certo de que minha inteligência era suficiente para dar conta de tudo tirando uma nota que ficasse entre 9 e 9.5. Quando tirava 8 ficava mal e entrava em... Depressão! Aí valia tudo pra melhorar desde conversas com amigos bêbados às 5 da manhã até preces e muitas velas pro Benê (São Benedito!). Após ir à psicóloga fui diagnosticado como sofrendo com carência de amor além de ser maníaco/depressivo. Durante minhas sessões, sempre pedia um remedinho, mas ela nunca me prescrevia nada (só muito mais tarde fui descobrir que só psiquiatras podem prescrever medicamentos, santa ignorância!). Parecia que tudo ia se resolver quando percebi que estava indo nas sessões de terapia só para ver a psicóloga que era uma gracinha. Repentinamente a tristeza voltou quando descobri que ela estava prestes a se casar. Que injustiça a dela com a minha carência de amor... E novamente fiquei com raiva porque estava triste e não feliz! A coisa se resolveu mesmo quando decidi seguir o lema de meu amigo Uvanderson Vitor: "Enquanto existir a Skol eu não entro em depressão!" Funciona, viu. Éramos bêbados tristes/felizes todas às sextas das 18 horas em diante!

Engraçado que muitas pessoas piram na batatinha no mundo acadêmico fazendo dissertação de mestrado ou tese de doutorado. Ou seja, a universidade não é um lugar de pessoas felizes (vai ver é por isso que estou aqui). Todo mundo entra em crise, fical mal, perde mulher/marido, namorado(a), toma remédio e deixa de trepar. Tenho uma amiga que durante a fase de escrita da dissertação de mestrado perdeu todas as gordurinhas que eu tanto adorava nela - gosto de mulheres gordinhas e bundudas - e até hoje não voltou ao normal. Tudo bem que ela continua LINDA, mesmo sem os quilinhos a mais. Outro tentou passar direto do mestrado para o doutorado sem dar um tempo a si mesmo e, no meio do processo, levou uma bica da namorada: ficou lelé, remedinho nele! Que inveja... Aqui na New School tem até uns psicólogos com convênio com a universidade para atender os alunos que ficam pancada no processo de elaboração da dissertation. Eu, infelizmente, não tiver o prazer de viver a crise da escrita uma vez que estava perdidamente apaixonado - e feliz, estupidamente feliz! - pela minha ex-namorada quando estava escrevendo minha dissertação há três anos atrás. Que chato!
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Outra coisa que enche o saco são todos os hábitos que uma pessoa deve ter/seguir para ser feliz e ter uma vida saudável. Yoga, comida orgânica, capoeira angola, alguma religião (ou como se diz atualmente, "ser espirituoso, mas não religioso"), vegetarianismo, exercícios diários, comunicação com a pessoa que se ama/mora/trepa, pouca ou nenhuma bebida alcoólica, Kama Sutra, comer pouca carne, sucos naturais, sexo tântrico, terapia de casal, dormir oito horas por dia, filosofia oriental, pouca televisão, pouca Internet, ler todos os livros do chatérrimo Dalai Lama e disciplina, muita disciplina. E pensar que tudo isso é o que há de mais descolado numa cidade como NYC. Urgh! O caminho da felicidade é árduo, mas é possível chegar lá!

Pois é, vivemos numa época em estar infeliz é uma falta de educação. Ouvir o quarteto de Miles Davis tocando Blue Green enquanto se toma um conhaque às três da manhã e se está prestes a cair em prantos são coisas para serem feitas longe de todo mundo, no recanto do lar, e não ser contado a absolutamente ninguém. Ouvir Nina Simone então cantando Solitude em público é sinal de anomalia. Mas um leitor atento deve estar a pensar: "O cara tá falando mal de quem está feliz porque na verdade está com inveja, está numa dor de cotovelo fenomenal e quer estragar o bem bom dos outros!" Sim e não. A dor de cotovelo existe, mas...

Não quero aqui ser irônico e repetir a máxima que ouvi ou li em algum lugar: "O otimista é um pessimista desavisado." A verdade é que me inspiro um pouco no texto escrito por Barbara Ehrenreich para o New York Times intitulado The Power of Negative Thinking. Nele a autora defende uma posição no mínimo interessante. Arguindo contra toda uma onda de positive thinking onde livros de auto-ajuda e líderes motivacionais se tornaram extremamente populares e penetrado no mainstream da cultura norte-americana, a autora afirma que eles são em parte responsáveis pela crise econômica que vem castigando o país há mais de um ano. O argumento de Ehrenreich é simples. Positive thinking retira a racionalidade das ações das pessoas ao afirmar que basta pensar e ter uma atitude positiva em relação ao mundo que os problemas se resolverão ou o sucesso virá. Esse tipo de pensamento seria tão influente na sociedade americana atual que permearia as ações de grandes corporações econômicas em parte responsáveis pelo colapso econômico visto recentenmente. Indo além, a autora mostra como a grandeza econômica da sociedade americana foi moldada em parte devido a uma perspectiva negativa da vida. Para isso ela retorna a ética calvinista que permeava as primeiros colonizadores do país e que tinham uma posição ascética do mundo onde trabalho árduo e acúmulo de bens, ainda que valorizados/estimulados, não eram uma garantia da salvação (leia o clássico A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo [1904] de Max Weber [1864-1920]).

Em minha opinião Ehrenreich quase acerta o alvo. Seu erro é encarar a economia como um ciência exata, algo totalmente equivocado. Mesmo o argumento da ética calvinista deve ser colocado num contexto de imprevisibilidade, uma vez que Weber aponta para o fato do capitalismo moderno nascer em parte devido a existência da ética protestante não ser um resultado previsto pelos calvinistas uma vez que suas ações visavam como fim a salvação (ou um sinal de serem os escolhidos ao reino dos céus) e não acúmulo.

Meu argumento é bem mais singelo. Crises, tristeza/melancolia e pensamento negativo são elementos transformadores e criativos. A felicidade vendida em filmes, livros de auto-ajuda ou numa vida balanceada é um utopia que continua a nos cegar por conta do medo que temos de aceitar que nossas vidas são permeadas por dramas e crises. Felicidade deve ser pensada em termos muito mais circunstânciais do que contínuos.

A verdade é quando se olha para indivíduos que produziram coisas absurdamente lindas e inspiradoras, a maior parte deles se constituía de uns famigerados tristonhos, depressivos, drogados, maníacos/depressivos e farrapos humanos. Billie Holiday (1915-1959) foi violentada ainda menina por um vizinho, durante toda a vida foi psicologicamente dependente de homens que a exploravam e a espancavam e morreu de forma absurdamente triste mesmo tendo esbanjado uma forma sexy, cool e linda de cantar temas que estilizavam a melancolia ao extremo. Leia a letras de Strange Fruit e My Man e você entenderá. Charles Mingus (1922-1979), começa a sua autobiografia descrevendo uma noite de orgia em que havia transado com cinco mulheres. Após terminar o relato ele solta uma gargalhada para, logo em seguida, cair aos prantos diante de seu psiquiatra. Sua música incorporava todas essas oscilações e surpreendem um ouvinte desavizado. Thomas Mann (1875-1955) escreveu A Montanha Mágica (1924) após uma experiência num sanatório onde se internou para se tratar de tuberculose. Marcel Proust (1871-1922) descreveu a experiência melancólica de sua vida problematizando sua constante enfermidade (asma) e homossexualidade em seu Em Busca do Tempo Perdido (1913-1927).

A lista de gente triste e melancólica que produziu coisas belas é longa indo de Friedrich Nietzsche (1844-1900), o próprio Max Weber citado acima, o inventor do bebop Charlie Parker (1920-1955), o pintor Francis Bacon (1909-1992) e a pintora Frida Kahlo (1907-1954) para ficar apenas em alguns. Mas não se intimide, a "verdade" é que ainda sim "precisamos ser" felizes. Custe o que custar, nem que seja até mesmo a última gota de sangue, a última... Toda vez que ouço a obra de Mozart (1756-1791) - outro infeliz -, me sinto feliz!

Muita Paz e (In)Felicidades!

PS: e no momento em que acabo esse post vivencio minha felicidade circunstancial já que estou saindo para ir ao JFK Aiport buscar minha irmã que veio me visitar em NYC. Obviamente, a felicidade irá acabar quando começarmos a brigar sobre quem paga a conta do jantar e/ou eu ouvir ela roncando enquanto dorme...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Homossexualidades

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Prezad@s,

A pedido de minha amiga Profa. Laura Moutinho (USP), segue abaixo divulgação de um fórum de debates que ocorrerá na Reunião Equatorial de Antropologia e será focada na discussão sobre homossexualidades. Caso esteja por Natal (RN), apareça!

Abraço,
Márcio/Kibe.

Reunião Equatorial de Antropologia, UFRN/Natal/RN 19 a 22 de agosto de 2009
Fórum de Pesquisas e Debate sobre Homossexualidades.
Coordenação: Carlos Guilherme Octaviano do Valle (UFRN) e Laura Moutinho (USP).
Local: auditório B - Centro de Ciências Humanas Letras e Artes/UFRN.

RESUMO
Na última década, tem se apresentado um aumento significativo de pesquisas sobre uma heterogeneidade expressiva de temáticas a respeito das sexualidades e, mais particularmente, das homossexualidades, entendidas necessariamente em termos plurais, social e culturalmente. Desde a década de 1990, esse crescimento articula-se de modo direto, seja em planos locais/nacionais e globais, à re-emergência e consolidação histórica (renovada) de movimentos sociais e organizações que têm a sexualidade e os direitos sexuais como elementos fulcrais norteadores de suas idéias, ações e demandas específicas. Políticas singulares em defesa da garantia da cidadania plena a todos e, igualmente, a consideração de direitos específicos estão sendo discutidas e demandadas ao mesmo tempo em que as pesquisas têm considerado as experiências e dinâmicas sócio-culturais dos mais diferentes sujeitos.

A sigla LGBT vem articular um escopo abrangente de experiências, identidades, redes e segmentos sociais que, ao mesmo tempo, esclarecem, confundem e re-orientam perspectivas das mais diversas pessoas e grupos sociais no Brasil e na América Latina contemporânea. Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transsexuais, transgêneros, intersexuais, dentre muitas outras nomeações e identidades estão, direta e indiretamente, envolvidos com questões que tratam de direitos específicos, de políticas públicas, de parcerias e conjugalidades, de saúde e doença, de produção cultural e estética, de sociabilidades e mundos sociais que, ora divergem ora convergem, com ordenações sociais dominantes.

Nas três sessões que o compõe, este fórum pretende captar um conjunto amplo de questões através de pesquisadores e acadêmicos que estejam produzindo sistematicamente no campo das ciências sociais, particularmente da Antropologia, nos últimos anos. Cada sessão terá como dinâmica própria um tema central a ser exercitado pelos participantes do Fórum.

Programação
Dia 20/08
17:30/19:30
1ª Sessão: Experiências Lésbicas, Transsexuais e Travestis
Expositores: Berenice Bento, G.Almeida, Larissa Pelúcio.

Dia 21/08
17:30/19:15
2ª Sessão: Violência, homofobia e garantia de direitos específicos
Expositores: Alipio Souza Filho, Gustavo Venturi, Sérgio Carrara e Laura Moutinho.,

19:30/21:00
3ª sessão: cultura, historicidade e mobilização GLBTT.
Expositores: Júlio Simões, Fabiano Gontijo e Carlos Guilherme O. Valle

Relatores: Cristina Donza (UFPA) e Flavio Leonel Silveira (UFPA).

Finalmente Uma Boa Notícia!

As opções de candidat@s em potencial a eleição presidencial no Brasil em 2010 soam assustadoras. José Serra, Dilma Rousseff, Aécio Neves, Heloísa Helena e, com a crise no senado e uma prevista retirada do apoio de PMDB ao governo, a possibilidade do partido que é sempre situação lançar um candidato aumenta - só de pensar em alguns nomes já fico arrepiado.
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No meio desse balaio de gato de péssima qualidade, Marina Silva aparece como uma ótima opção. Segundo a reportagem do jornal O Estado de São Paulo ela foi convidada a ingressar nas fileiras do Partido Verde (PV) deixando o Partido do Trabalhadores (PT), algo que significaria a perda de seu mandato como senadora pelo Acre, mas soaria como um passo direto a disputa pela presidência em 2010. Pelo que consta, há um certo mal-estar entre Marina e o presidente Lula, uma vez que este tem tomado várias decisões que não são lá muito favoráveis ou que não vão de encontro a idéia de desenvolvimento sustentável. Marina tem consultado pessoas de sua confiança sobre a possibilidade de deixar o PT e muitos dentro do partido já estão preocupados com o que sua saída e posterior candidatura significariam para a disputa de 2010.

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Minha torcida é para que Marina saia, se candidate a presidência e traga mais ética, serenidade e qualidade a política brasileira. Mais um ponto a seu favor é que ela é uma MULHER que, sem necessariamente levantar bandeiras feministas, incorpora vários dos valores do que concebemos como uma mulher pós emancipação feminista não só por sua trajetória, mas por suas posições ideológicas. De antemão, ela terá meu voto!

Muita Paz!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Um Ano de Baboseiras...

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Há exatamento um ano atrás o NewYorKibe foi criado por meio de meu primeiro post. Não, não vou reproduzi-lo aqui. Muita coisa mudou, mas o "brog" continua firme e forte graças as minhas noites de insônia, fissuração pela escrita, meus/minhas querid@s e perspicazes leitore(a)s e uma grande arsenal de assuntos sobre as mais diversas temáticas que obviamente falo sem qualquer propriedade, mas com muita curiosidade.

Foram mais de 120 posts, mais ou menos 3400 visitas, 52 seguidores (porque um deles sou eu mesmo!) e uma quantidade enorme de nov@s amig@s (cuja esmagadora maioria só conheço virtualmente). Tudo bem que eu encho saco de todo mundo mandando mensagens via email, Facebook, Orkut e Twitter. Entretanto, propaganda é a arma do negócio.

Algumas pessoas merecem um agradecimento especial uma vez que são sempre interlocutores das besteiras que eu escrevo aqui. São eles: Fabiana Lima (Salvador/UFBA), Raphael Neves (New York City/New School for Social Research), Mojana Vargas (São Paulo/Fundação Santo André/USP), Flávio Franciso a.k.a. Jay Z (São Paulo/USP), Léo Costa (São Paulo/New York City), Maria Paula Adinolfi (Amsterdam), Renata Macedo (São Paulo), Rogério Acca (Washington DC/Cornell University), Ari Brito (Cuiabá/UFMT) e Lafayette Hohagen (São Paulo) com o qual tive uma deliciosa conversa de fim de tarde em minha última visita a São Paulo e de quem ganhei uma garrafa de cachaça de Minas com a qual brindo esse primeiro ano de "brog"!

A maloqueiragem continua...

Abraço e agradecimentos à tod@s que visitaram o blog nesses 12 meses e deixaram ou não algum comentário!

Muita Paz...

domingo, 9 de agosto de 2009

Bi Is The Way?

Entre 2006 e 2008 atuei numa pesquisa internacional que focava temáticas como juventude, lazer e sexualidade em seis cidades de três países diferentes, Estados Unidos (Chicago e São Francisco), África do Sul (Joanesburgo e Cidade do Cabo) e Brasil (São Paulo e Rio de Janeiro). O trabalho de coleta do material a ser analisado envolvia descrições etnográficas feitas a partir de visitas a lugares selecionados em cada cidade e entrevistas em profundidade com frequentadore(a)s.

http://cubomagicoblog.files.wordpress.com/2007/12/bi2.gif

Trabalhei com a equipe de São Paulo e vários lugares tidos como espaços homoafetivos (mas não só!) foram visitados. Tive a oportunidade de realizar e ler entrevistas em profundidade. Algo interessante é que as falas de alguns entrevistad@s sempre associavam a bissexualidade como algo inconstante e perigoso, de modo que, parceiros bissexuais tendiam a ser evitados ou vistos com estranheza. Entretanto, a partir de minha experiência pessoal, sei que em rodas de rapazes é comum a conversa girar em torno do desejo de ter uma namorada que tope um menage à trois com outra garota. Com outro rapaz, por outro lado, nem pensar!

http://www.wpirg.org/rainbowreels/images/films/bitheway1.jpg

O documentário Bi The Way: It's Both/And World, produzido nos EUA em 2008 e dirigido por Britanny Blockman e Josephyne Decker, coloca a bissexualidade como pauta de discussão a partir da experiência de cinco indíviduos. David, 24, é um escritor/ator que mora em Chicago e estrela um peça escrita por ele mesmo intitulada "Planet of Bissexuals". Pam, 16, é uma ex líder de torcida que foi expulsa de uma escola católica por ter sido pega dando uns amassos numa colega de classe e agora se depara com o posicionamento conservador de sua família sulista em relação a sua orientação sexual. Josh, 11, é um pré-adolescente morador de Santo Antonio filho de mãe bissexual e pai gay. Tary, 28, é uma dançarina de Los Angeles que buscava um namorado que entendesse suas preferências sexuais e agora se relaciona com Rage, que sempre quis ter uma namorada bissexual. Por fim, Tahj, 18, é um dançarino de hip-hop morador da Big Apple que apenas buscava uma namorada, mas se divertia com os flertes de rapazes no seu profile no MySpace e depois se envolver afetivamente com um deles teve que enfrentar a rejeição de sua família, comunidade e religião.

Assista o trailer do filme abaixo.

Muita Paz!

sábado, 8 de agosto de 2009

Ebony Rock

Povo Amado,

Visitem o site de minha querida amiga italo-carioca Débora Baldelli, Cafetina EletroAcústica, e leiam minha resenha do álbum Santogold (2009), disco de estréia da carreira solo de Santigold. Pode não parecer, mas eu também gosto de rock, ainda mais feito por gente preta!

http://knowxone.files.wordpress.com/2008/05/santogold-cover.jpg

Muita Paz!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Qual a Sua Preta Gordelícia?

Parafraseando o poetinha, Vinícius de Morais (1913-1980),"As magras que me desculpem, mas um pouco de gordura é fundamental!" ou como dizia minha amiga Uju Anya, "Quem gosta de osso é cachorro!" É verdade, o Newyorkibe está celebrando o ideal de beleza feminino renascentista onde quilinhos a mais não são problema, muito pelo contrário.



Quando era um "aborrescente" tive uma namorada gordinha linda de morrer e após vários rolos com mulheres da categoria big and beautiful ainda continuo crescendo os olhos quando vejo uma mulher preta de proporções largas passando a minha frente. Adoro! Não quero ser essencialista ou coisa do tipo, mas há uma certa similaridade nos gostos meus e dos meus brothers tanto aqui nos EUA como no Brasil por mulheres não muito magras. Aliás, o fato de os homens brasileiros terem uma certa fissuração por bundas por ser visto como um exemplo de nosso pertencimento a diáspora negra e fruto da herança africana que marca a cultura brasileira (para felicidade de uns e tristeza de outros). Meus brothers aqui são loucos por bundas também, já os brancos... Peitos peitos e mais peitos!

Enquanto escrevo esse post tenho em minhas mãos um exemplar de Serafina, revista de variedades do jornal Folha de São Paulo, datada de 28 de junho de 2009. Há um ensaio/reportagem com cinco modelos negras intitulado Pérolas Negras que dá gosto de ver. Entretanto, que magreza! A mesma coisa pode ser dita da reportagem do New York Times intitulada African Influence on the Runways datada de março desse ano. Boa parte das mulheres negras/mestiças que eu conheço - isso não quer dizer que todas elas sejam assim - possuem curvas que receberiam um cartão vermelho de qualquer olheiro de agência de modelos. Eis a supremacia da magreza que leva algumas garotas - e homens também - a gastar horas e mais horas em academias, realizar dietas mil, lipoaspirações, participar de reality shows onde ganha que perder mais peso, usar medicamentos do mais diversos tipos e, em alguns casos mais extremos, acabar diagnosticados sofrendo de desordens psicológicas que levam a anorexia. Mas esse post não é para ser chato, deprê ou falar de doenças (m... já falei!).

Pois é, @s gordinh@s aqui nos EUA resolveram se organizar e combater o preconceito e a discriminação que sofrem na sociedade manifestando o seu desejo/direito de permanecerem gordos e não serem tratados de forma desigual. A NAAFA (National Association for Advanced of Fat Acceptance) já existe há 40 anos, mas ganhou mais visibilidade recentemente uma vez que há na sociedade atual uma espécie de caça as bruxas relacionada ao excesso de peso. Ele é acusado de ser o principal responsável pela disseminação de doenças como diabetes, ataques do coração e, por conta de ser interpretado como algo negativo do ponto de vista social, até mesmo empresas aéreas começam a cogitar a possibilidade de cobrar uma taxa sobre as passagens compradas por pessoas obesas. Uma das ativistas em favor do direito de ser gordo é Marylyn Wann, autora do livro Fat! So? cujo subtítulo é uma espécie de manifesto: "porque você não tem que se desculpar pelo seu tamanho!" Nem lá nem cá! É preciso abrir o debate e ouvir o que todos - médicos, obesos e ativistas - tem a dizer. A obesidade não pode ser satanizada numa discussão que cada vez mais cria contornos morais parecidos ao problema do uso de drogas. Exemplo disso, é que há vários tipos de obesidade sendo que algumas são mais perigosas do que outras. Outro ponto é que nem toda obesidade está diretamente relacionado a problemas de dieta. É preciso achar um meio termo - coisa difícil em se tratando de Estados Unidos - onde mulheres e homens grandes se mantenham saudáveis, mas que também cultivem seu prazer por terem alguns quilos a mais.

Cover Image

Mas se você quer saber mais do assunto, leia a reportagem do jornal O Estado de São Paulo sobre o tema. O NewYorkKibe quer na verdade escolher a Preta Gordelícia e celebrar a beleza da mulher preta grande. Para isso, selecionamos três pretas gordinhas, sexys, charmosas e talentosas daqui dos EUA. Enfim, big and beautiful! Um último ponto que deve ser ressaltado em favor das candidatas é que as três, todas cantoras, devem ser parabenizadas por suas canções, pois boa parte das letras levantam vários problemas vividos por mulheres negras aqui em vários outros lugares do mundo desde violência domiciliar, misôginia e carência afetiva. Big women!

CANDIDATA NÚMERO 1: Jill Scott (cantora e atriz). Assista a um vídeo da moça aqui

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CANDIDATA NÚMERO 2: Queen Latifah (cantora e atriz). Assista um clip da senhorita aqui

PS: Tenho minhas dúvidas se Latifah deveria estar nessa lista, uma vez que ela andou fazendo comercial para um clube de dieta aqui nos EUA ano passado.

http://blogs.bet.com/entertainment/whattheflick/wp-content/uploads/2008/07/queen-latifah1.jpg

CANDIDATA NÚMERO 3: Angie Stone (cantora). Assista uma performance da sista aqui

http://userserve-ak.last.fm/serve/_/28900651/Angie+Stone+Angie.jpg

Escolha a sua e viva a diversidade de corpos, gostos, raças e desejos!

Prezad@s,

Fazendo um update (7/8, 12:19 am) no post gostaria de enfatizar a coincidência das senhoritas do Tobossis terem realizado, como várias pessoas me alertaram por email e pelo comentário de uma das organizadoras (qual??? *rs*) do programa ao post, na quarta-feira de uma discussão justamente sobre o mesmo tema abordado no meu texto. Já fiz propaganda do Tobossis aqui tempos atrás e sugiro mais uma vez que acessem o blog das pretas soteropolitanas e confiram/assistam essa iniciativa que é muito boa.

Mais: atendendo a pedidos, inserimos mais uma candidata na competição da Preta Gordelícia...

CANDIDATA NÚMERO 4: Jennifer Hudson (cantora e atriz). Assista um vídeo da senhorita aqui

http://www.shallownation.com/images/jennifer-hudson-derek-blanks-2008-photoshoot3.jpg

Muita Paz à Tod@s!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Naomis: Negras e Belas

Os nomes são iguais, a profissão é a mesma e pertencimento racial também. Entretanto, Naomi Sims, que faleceu no último sábado, 1/8, foi responsável por abrir o caminho que seria seguido pela inglesa Naomi Campbell.



Sims (1948-2009) foi a primeira modelo negra a ter circulação internacional e ser capa de revistas famosas como Life. A modelo se voltou para a profissão por conselho de amigos e devido a necessidade por dinheiro para se manter em New York City enquanto cursava o Fashion Institute of Technology nos anos 1960. Depois de muitas tentativas de convencer fotográfos e agências a contratá-la, a moça lançou uma estratégia pessoal que vingou e conseguiu ter acesso a grifes famosas e tornar-se um modelo relativamente bem paga para a época. Devido ao contexto político e histórico que ganhou visibilidade, Sims se tornou a faceta do slogan Black is Beautiful e da América dos movimentos pelos direitos civis. Posteriormente, a modelo se tornou empreendedora fundando uma compania de cosméticos que faturou alguns milhões de dólares e escreveu livros relacionados ao mundo da moda. Sims faleceu vítima de cancêr em Newark, NJ. Leia a biografia da ex-modelo na reportagem do New York Times Naomi Sims, 61, Pioneering Cover is Dead. Naomi Sims, R.I.P.!

http://3.bp.blogspot.com/_12JwQlwxCUc/SSIQSRKlmzI/AAAAAAAAAT8/HvgkHohPLh8/s400/NaomiSims+cover+of+Life.jpg

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Besouro Numa Pegada Kung Fu

http://www.besouroofilme.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/07/besouro_alta.jpg

E a capoeira vai ficando cada vez mais internacionalizada! Será que mestres Pastinha (1889-1981) e Bimba (1899-1974) estão felizes lá no segundo plano? Escolas pipocam aqui em NYC e nos EUA como um todo. João Grande, discípulo direto de Pastinha, organiza uma roda aqui na Big Apple e anda faturando umas doletas (US$ 20 por uma aula de duas horas) com a sua angola.

Assista abaixo o trailer do filme Besouro (2009) cujo diretor é João Daniel Tikhomirof e a previsão de estréia nos cinemas é outubro desse ano. Ao que parece, a película leva a capoeira para as telas, mas numa roupagem a la kung fu moderno. Besouro Mangangá (1895-1924) é o nome de um lendário capoeirista baiano nascido em Santo Amaro da Purificação e cuja história é contada no filme. Pelo que consta, contrataram o mesmo coreógrafo chinês, Hiuen Chiu Ku, responsável pelos efeitos especiais de Matrix (1999) e O Tigre e o Dragão (2000) para fazer Besouro "voar". O filme é uma produção da Mixer e Globo Filmes com distribuição da Miravista.

Pensando bem e como alguém que conhece um pouquinho a história da capoeira, acho que Bimba ia curtir muito o filme. Já Pastinha...

Mais informações do filme aqui


domingo, 2 de agosto de 2009

Só Falta Inteligência...

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Não conhecia Danilo Gentili até há algumas horas atrás. Porém, depois de um email de uma amiga e uma rápida pesquisa na Internet descobri uma pequena biografia do rapaz: "Danilo de Almeida Cardoso Gentili (Santo André, 27 de setembro de 1979) é um publicitário, humorista, escritor, cartunista e repórter brasileiro. Faz parte da nova geração de humor, a da stand-up comedy, tendo recebido críticas positivas tanto da imprensa como do público. Foi convidado em 2008 para participar do programa de humor CQC."

Desde semana passada o jovem comediante se meteu numa polêmica ao fazer uma piada que circulou via Twitter. “King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?” Várias críticas surgiram e Gentili escreveu um texto em seu blog se defendendo. Intitulado Um Post Racista, nele o humorista afirma seu direito de fazer piadas sobre quem bem entender, que o politicamente correto é um entrave ao humor e o que problema do racismo é, de certo modo, resultado da ação daqueles que insistem em separar a humanidade em "raças". Na verdade, de acordo com o comediante, existiria apenas uma "raça": a humana. Hélio de La Peña escreveu um texto que levava o título A Coisa Ficou Afrodescendente Para o Humor Negro e onde o humorista negro do grupo Casseta e Planeta faz um meio de campo com a polêmica relacionada a piada Gentili. Penha fecha o artigo e resume seu argumento da seguinte forma: "Acho exagero imolar o humorista em praça pública. Processo é bobagem. Danilo não apontou o dedo na cara de nenhum preto e disse 'olha aqui, seu macaco.' Ele fez uma piada, quem não gostou expôs sua opinião. Eu não gostei. E só."

Parafraseando Peña no início de seu texto, eu, "enquanto representante [de uma nova intelectualidade] negra, black ou afrodescendente" também "resolvi pôr a mão nessa cumbuca quente". Vamos aos fatos. De humor não sei dizer, mas de relações raciais Gentili não entende absolutamente nada. La Peña, por sua vez, perdeu a chance de fazer uma profunda análise crítica do seu métier.

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Primeiramente, a noção de "raça" que se usa no debate entre intelectuais, pesquisadores e ativistas não faz referência a uma noção biologizada da mesma como a utilizada em cães ou gatos e referida por Gentili. Raça aqui diz respeito a um construto sócio/político/histórico que que é responsável pela distribuição de bens sociais, materiais e simbólicos de forma desigual ou igualitária na sociedade. Um exemplo: mulheres brancas são, de forma genérica, socialmente mais valorizadas do que mulheres negras. A mesma idéia que se aplica a raça pode ser utilizada, guardadas as devidas proporções e peculiaridades, para os conceitos de gênero (masculino/feminino) e orientação sexual (homo, hetero e bissexual). Além disso, todas essas categorias sociais também são responsáveis por construções identitárias que levam a manifestações de grupo, sentimentos e até desejo. Por fim, faço uma sugestão a Gentili. Já que ele se vê no direito de fazer piada com quem bem entender, que tal uma utilizando judeus, nazistas e o holocausto? Há alguma dúvida de que a comunidade judaica não se mobilizaria no sentido de processar o comediante numa situação dessas?

Assim sendo, as duas perguntas centrais que devem ser feitas são: é possível conceber um humor livre de estereótipos? A culpa da baixa qualidade do humor brasileiro atual ou de seu declínio nos últimos anos é realmente do politicamente correto?

Dias atrás assistia a alguns quadros da TV Pirata - assista vídeo abaixo -, programa que foi ao ar no início dos anos 1990 e é anterior ao estabelecimento com força do politicamente correto. É difícil imaginar um programa com aquele tipo de humor escrachado na TV brasileira atual uma vez que o mote das piadas eram, em sua maior parte, negros, gays e mulheres. O que aconteceu foi que com a emergência dos movimentos sociais desses grupos nos anos 1970, 1980 e 1990 as representações estereotipadas dos grupos passaram a ser questionadas. Não dá mais para afirmar qualquer coisa e se achar imune a críticas e até mesmo processos. Entretanto, o humor no Brasil continua se nutrindo de velhos estereótipos que nada mais são do que idéias equivocadas que surgem no senso comum associando pessoas/grupos a características negativas. Exemplos: mulher dirige mal, judeus são sovinas, loiras e portugueses são burros, negro é bom de cama etc.



A culpa da baixa qualidade dos programas de humor no Brasil não é devido a existência do politicamente correto, mas da falta de inteligência e criatividade dos nossos comediantes que não buscam formas alternativas e antenadas de humor. O politicamente correto nada mais é do que a tentativa de estabelecer um respeito mútuo entre mais diversos grupos que compõem a sociedade civil e que exibem diferenças dos mais diversos tipos. A diferença (seja ela racial, de gênero ou orientação sexual) não pode e nem deve ser entendida como algo negativo e muito menos colocada numa perspectiva hierarquizada. Sendo assim, a pergunta que fica é: que humor fazer?

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Nos EUA há alguns exemplos de programas novos como Curb Your Enthusiasm, cujo produtor e principal personagem é o criador de Seinfield, Larry David. No geral, o esquema do programa segue a linha já consagrada pelo diretor Woody Allen - foto acima - em seus filmes: situações inusitadas vividas por um judeu/americano que vive uma constante estranhamento da sua própria cultura/nação. Isso se configura numa alternativa uma vez que são judeus ironizando sua própria condição de judeus e na sua relação com outros grupos. O mesmo esquema é seguido por comediantes do nível de Chris Rock, de longe o melhor humorista negro na atualidade. Ano passado assisti o seu show no Apollo Theater justamente numa sessão em que o mesmo estava sendo gravado para ser exibido no canal HBO sob o título de Kill The Messenger. Rock é um showman que consegue dominar a platéia sozinho fazendo piadas sobre relacionamento, relações raciais e sexo de forma inteligentíssima. Uma das suas piadas preferidas é justamente sobre a discussão a respeito de quem tem o direito de usar o termo nigger: termo pejorativo pelos quais os negros eram chamados pelos brancos no passado, mas que nas últimas décadas foi incorporado ao linguagar de rappers e da juventude negra. Assista ao vídeo abaixo onde Rock satiriza um corte de cabelo sem cair no senso comum.



Essa mesma tendência pode ser percebida em outros shows humorísticos onde comediantes assumidamente gays ou mulheres se auto-satirizam e ironizam situações vividas nas relações com outros grupos. Isso não significa que essa espécie de humor está livre de críticas. Vários intelectuais e ativistas negros tem se postado contra as representações da população negra exploradas nos quadros de comediantes negros ou presentes em muito sitcoms da BET, um canal de TV de temáticas negras voltado para a população afro-americana. A representações que são criticadas são aquelas que associam os negros à criminalidade, sexualidade exacerbada, desestruturação familiar e satirizam negros gays.

Outro exemplo de via alternativa é o humor político visto no programa de Jon Stewart The DailyShow With Jon Stewart. Entretanto, as piadas de Stewart só fazem sentido para um público muito específico: progressista, educado, leitor de jornais, interessado em política e morador de grandes cidades.

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Pois bem, fazer humor hoje em dia é para gente muito inteligente, antenada e com jogo de cintura para não se queimar nos perigos do que pode/ou não pode e como deve/ou não deve ser dito ou satirizado. Um bom exemplo ao que me refiro, pode ser visto no quadro exibido na TV Pirata há muitos anos atrás e com o qual eu fecho esse post. Há aqui uma junção entre humor e perspectiva crítica que demonstrava o quanto os comediantes estavam sintonizados com as mudanças que a sociedade passada à época. É desse tipo de humor que estamos em busca, algo que faça pensar e rir ao mesmo tempo sem cair na receita fácil do uso do estereótipo.

PS: obrigado à Vera Rodrigues pelo email e por me colocar a par da polêmica!


sábado, 1 de agosto de 2009

Cadeia no Exu!

Hilário! Recebi essa notícia de minha amiga Maria Paula Adinolfi, antropóloga paulista atualmente radicada em Amsterdam, Holanda. Logo em seguida, segue a uma interpretação bem humorada do mito feita pelo meu outro amigo professor de antropologia da USP Vagner Gonçalves. Divirtam-se, mas fiquem espertos com as presepadas de Exu!

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Homem Tenta Registrar BO Contra Exu e é Preso em Florianópolis
O Globo: Plantão | Publicada em 31/07/2009 às 08h07m


FLORIANÓPOLOS - Foi transferido nesta quinta-feira para Criciúma, no Sul de Santa Catarina, o homem que chegou à Delegacia de Capoeiras, em Florianópolis, para registrar um boletim de ocorrência contra Exu, uma das entidades do candomblé, mas acabou preso porque era procurado por assalto a mão armada.

A revelação ocorreu quando o policial de plantão inseriu o nome e os dados pessoais no computador. O sistema logo acusou o mandado de prisão expedido pela Justiça de Criciúma contra o professor de História Marcos Lino Mendonça, 27 anos.

Ele chegou à delegacia na terça-feira dizendo que era perseguido por Exu, e que as quatro mulheres dele teriam sido estupradas pela entidade. No entanto, num boletim de ocorrência registrado este ano, consta que o rapaz é solteiro.

Marcos declarou que ele mesmo foi abusado sexualmente por Exu. Ao delegado Pedro Fernandes Pereira Filho, o professor disse que ouvia a voz de Exu incitando ataques a pessoas sem motivos. As brigas teriam causado uma fratura de braço e outra nas costelas.

Quando questionado do porquê de ir a uma delegacia se ele era procurado por assalto, o rapaz respondeu que desejava processar a entidade do candomblé e exigia reparação financeira por prejuízos causados.

O assalto cometido por Marco foi contra o próprio primo, em dezembro do ano passado. Armado com uma navalha, ele invadiu a casa do parente, que fica em Criciúma, e levou uma barraca.

O delegado declarou que Marcos tinha sintomas de esquizofrenia. Pedro afirmou que um tio do professor esteve na delegacia e revelou que o rapaz tinha consulta no psiquiatra marcada para quarta-feira.

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Querida Maria Paula e demais,

Desculpem o e-mail coletivo, mas esse homem é o próprio Exu: professor de história (portanto, (re)produtor dos "mitos" de nossa sociedade); acusador mas também acusado; solteiro porém casado (e com 4 mulheres para atender as 4 pontas das encruzilhadas); denunciador de estupro mas também estuprado (a importância do falo); assaltante do primo, mas cuidado pelo tio (o parentesco colateral de 3 grau, sempre próximo e distante, perigoso ou conciliador); bom de briga com navalha (ferro) e armas de fogo; e por fim vai a uma delegacia em "Capoeiras" onde é preso por um delegado chamado Pedro (que provavelmente é filho de Xangô!). A história só podia terminar assim mesmo. Afinal, um dos marcos de Exu é fazer o erro virar acerto e o acerto virar erro.

Abraços e bom fim de semana!
Vagner Gonçalves da Silva
www.doafroaobrasileiro.org
www.dubois.fas.harvard.edu/Vagner-Goncalves-da-Silva