sexta-feira, 31 de julho de 2009

Crime and Black Erotica: O Futuro da Literatura Afro-Americana?

Meus amigos afro-americanos às vezes ficam espantados quando em nossas conversas digo que já li boa parte do que é considerado literatura afro-americana contemporânea. Autores como Richard Wright (1908-1960), James Baldwin (1924-1987), Ralph Ellison (1913-1994), Toni Morrrison dentre outro(a)s fazem parte do meu grupo de escritores favoritos a mais de quinze anos e continuo a me deliciar com seus escritos. Contudo, o posto desses autores no panteão da literatura norte-americana como um todo (e afro-americana em específico) tem, ao menos para alguns analistas sociais, sido ameaçado.



No Harlem, mais especificamente na Lenox Avenue, há uma loja de CDs e vídeos - cada vez mais raras - divertíssima chamada Black Star onde sempre dou uma xeretada quando estou pela área. Lá dá pra comprar os últimos CDs de hip-hop, DVDs de filmes blaxploitation, revistas de música e de mulher preta pelada (os mais pudicos podem chamar de masculinas!), camisetas dentre outras bugigangas. O que me chamou a atenção no interior do estabelecimento numa de minhas primeiras visitas foi a existência de uma sessão devotada a livros. Cheguei mais perto para avaliar os mesmos e cai na gargalhada com os títulos uma vez que a grande maioria fazia referência a chamada urban culture e as temáticas dos livros versavam sobre a vida de dough boys (jovens traficantes), hustlers (trambiqueiros), players (malandros que possuem várias mulheres), pimps (cafetões), gold diggers (termo pejorativo para mulheres que se ligam a homens por interesse) e biografias de figurinhas famosas e encrenqueiro(a)s como o cantor e ex-marido da cantora Whitney Houston, Bobby Brown, ou a cantora e ex-esposa do finado rap star Notorious B.I.G.(1972-1997), Faith Evans. Os traços que ligam todos esses livros são, além dos personagens serem em sua absoluta maioria negros e/ou latinos, uma enfâse em temas que remetem a vida criminosa e a constante sexualização das histórias. Ambos aspectos podem ser notados nas capas dos livros geralmente com fotos de mulheres negras/latinas em poses sensuais, jovens negros/latinos com armas ou ambos elementos juntos.

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(um "exemplo" de capinha...)

Paralelamente a minha experiência etnográfica na loja, já tinha notado durante minhas viagens de metrô pela Big Apple, o mesmo formato e espécie de livros sendo lidos por Black ladies em sua maioria nos vinte e poucos anos de idade. Aliás, os três acessórios básicos que nunca faltam a qualquer passageiro(a) da MTA são sempre iPods, smartphones e/ou livros. Portanto, quando travei conversa com Bibi Lima dias atrás pelo Skype imediatamente reconheci a chamada ghetto fiction quando minha amiga citou um artigo que havia lido sobre o assunto e que logo em seguida me encaminhou.

Intitulado What Is African-American Literature? o texto do professor Gerald Early (Washington University in Saint Louis, Missouri) busca fazer uma breve análise desse novo tipo de literatura tão popular entre jovens mulheres negras. O autor remete, primeiramente, ao texto que lançou o debate publicado por Nick Chiles no jornal New York Times em janeiro de 2006. Com o título Their Eyes Were Reading Smut (algo do tipo "Seus Olhos Liam Lixo/Sacanagem"), trocadilho com o título do famoso romance de Zora Neale Hurston (1891-1960) Their Eyes Were Watching God [Seus Olhos Viam Deus] (1937) tido como a grande obra feminista da literatura afro-americana, Chiles busca desqualificar a literatura produzida pelos autores da ghetto fiction separando-a do rótulo de "afro-americana". Seu descomforto se mostra devido a esses livros serem colocados e vendidos em algumas livrarias na mesma seção de Baldwin, Right ou Morrison. Em suma, a posição de Chiles é que equiparar essa espécie de "literatura barata" e "sexualizada" com a literatura afro-americana seria uma rebaixamento para a mesma e sintomático do declínio da qualidade dos autores negros contemporâneos.

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(Zora Neale Hurston: antropóloga e romancista, foi assistente do alemão Franz Boas [1858-1942], um dos pais da antropologia cultural contemporânea, na Columbia University)

Early, por sua vez, tem posicionamento distinto. Mais conciliador, para o professor o surgimento desse tipo de literatura, tão criticada por Chiles, sinalizaria mais para uma demonstração de maturidade do que de declínio da literatura afro-americana. Para calçar seu argumento, o professor demonstra como as origens da chamada ghetto fiction são inerentes a uma estética negra surgida nos anos sessenta via filmes blaxploitation como os clássicos Sweet Sweetback's Baad Assss Song (1971) - veja parte do filme no vídeo abaixo - de Melvio Van Peebles além de Shaft (1971) e Super Fly (1972), ambos de Gordon Parks Jr., a produção literária que foca biografias de criminosos e personagens emblemáticos das ruas cujo o pontapé inicial foi dado Alex Haley (1921-1992) em sua livro sobre a vida da Malcolm X (1925-1965), os romances policiais no estilo de Chester Himes (1909-1984), e as letras dos ritmos negros contemporâneos como a soul e funk music. Em todas essas expressões artísticas/estéticas, que nascem majoritariamente nos anos 1960/1970, sexo e crime tem um papel central uma vez que eram/são elementos presentes na experiência afro-americana, mas que eram evitados ou repudiados nos espaçoa públicos negros como as igrejas. O que essa nova produção fez foi justamente problematizar esses temas e fazer dos mesmos produtos vendáveis do ponto de vista comercial sem perder sua perspectiva crítica. A ghetto fiction é filha ou neta dessa tradição. Outro argumento levantado por Early em favor dos autores desse tipo de literatura é que muitos são bons escritores que incorporam no seu estilo os avanços estabelecidos pelo time de escritores negros que fazem parte do canône afro-americano.



Entretanto, é compreensível o aborrecimento de Nick Chiles em relação a ghetto fiction. Como pertencente aos estratos da classe média/burguesia negra atual, é notório que a existência de uma produção literária que coloca o cotidiano das Black lower classes como sinônimo de experiência afro-americana como um todo traria uma atitude de antagonismo por parte do autor. O que isso demonstra é que a classe média/burguesia negra não possue mais o monopólio de representação da comunidade afro-americana e, em sua posição extremamente frágil, busca o tempo todo enfatizar sua legitimidade de existência e lutar contra as representações entendidas por ela como negativas do grupo. No Brasil, o sociólogo francês Roger Bastide (1898-1974) usou o termo "puritanismo negro" para se referir a essa mesma atitude que a classe média negra da primeira metade do século XX em São Paulo tinha em relação as classes populares negras. A "incapacidade" dos negros pobres de incorporarem valores e comportamentos burgueses - desde de uma ética do trabalho e valorização da família até a maneira de falar, vestir e se portar em público - era vista como o grande entrave a ascensão social dos negros.

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Mas voltando a Early, o professor termina o artigo afirmando que o que move tanto autores e leitores afro-americanos nesse novo mercado é, para além do fato de fazer dinheiro com esse tipo de literatura, uma necessidade extrema de entender-se através desses escritos. Visualizando quais são os impasses que jovens negro(a)s entre 20 e 40 anos vivenciam hoje e nisso ela cumpre sua função de fórum social. Por fim, vale a pena lembrar das sábias palavras de Toni Morrison. Numa entrevista dada ao sociólogo britânico Paul Gilroy e reproduzida no livro O Atlântico Negro (2001) ela sumariza de forma magistral qual o papel da literatura na vida das afro-americanos.

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(Toni Morrison, ganhadora do Nobel em literatura, 1993)

"Os negros americanos eram sustentados, curados e nutridos pela tradução de sua experiência em arte, sobretude na música. Isso era funcional... Meu paralelo é sempre a música porque todas as estratégias da arte estão aí presentes. Toda a complexidade, toda a disciplina. Todo o trabalho deve passar por improvisação de modo a parecer que você jamais tocou nele. A música deixa a gente faminta por mais. Ela nunca nos dá o conjunto todo. Ela bate e abraça, bate e abraça. A literatura deveria fazer o mesmo. Tenho sido muito enfática a esse respeito. O poder da palavra não é música, mas em termos de estética, a música é o espelho que me dá a clareza necessária... As maiores coisas que a arte negra tem a fazer são estas: ela deve possuir a habilidade para usar objetos a mão, a aparência de utilizar coisas disponíveis e deve parecer espontânea. Deve parecer tranquila e fácil. Se ela fizer você suar é que algo não está certo. Você não deveria poder ver as emendas e costuras. Sempre quis desenvolver uma maneira de escrever que fosse irreversivelmente negra. Não tenho os recursos de um músico, mas eu achava que se fosse realmente literatura negra ela não seria negra porque eu era, nem mesmo seria negra por causa de seu tema. Ela seria algo intrínseco, inato, algo na maneira como era organizada - as sentenças, a estrutura, a textura e o tom - de sorte que ninguém que a lesse perceberia. Utilizo a analogia da música porque você pode viajar pelo mundo inteiro e ela ainda é negra... Eu não a imito, mas sou informada por ela. Às vezes eu escuto blues, outras vezes spirituals ou jazz e me aproprio dela. Tenho tentado reconstruir sua textura em meu texto - certos tipos de repetição - sua profunda simplicidade... O que já aconteceu com a música nos Estados Unidos, a literatura fará um dia, e quando isso acontecer estará tudo terminado." (Gilroy, 2001: 167-168)

Lindo! Que assim seja...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Por Dentro e Fora do Pornô...



Como todos já devem saber, o NewYorkibe não é de reproduzir textos alheios, a menos que eles sejam muito bons, interessantes e contem com uma pequena apresentação do maloqueiro mor por aqui: eu. Pois bem, ao receber por email o informativo do site do CLAM (Centro Latino Americano em Sexualidade e Direitos Humanos) dias atrás fiquei muito feliz ao me deparar com uma entrevista de minha amiga María Elvira Diáz Benitez.

Conheci Maria Elvira há sete anos num curso que fizemos juntos em Salvador (BA). A jovem antropóloga afro-colombiana - como ela mesmo se auto-identifica - terminou recentemente seu doutoramento no programa de antropologia cultural do Museu Nacional (UFRJ). O tema de pesquisa da moça foi algo que todo mundo, com certeza, já deu uma olhadinha, mas tem receio ou vergonha de admitir: filmes pornôs.

Carnaval 2009

A pornografia é um tema interessante, pois se situa num espaço intermediário entre a narrativa científica/especializada da sexualidade e a sua erotização. A primeira é campo de atuação dos sexólogos e outros especialistas da área que fornecem, como demonstrou Michel Foucault (1926-1984) em seu História da Sexualidade (1976), um discurso especializado que, ao mesmo tempo que permite aos indíviduos falarem sobre sexualidade, a coloca nas redes do poder produzido e reproduzido por esse mesmo discurso possibilitando seu controle. O outro lado, é a sexualidade erotizada dos literatos e poetas que é aceito dentro de uma perspectiva estética. Acabo de ler Women (1978) de Charles Bukowski (1920-1994) e mesmo nesse autor, tido como o "adornador da vida baixa americana", o sexo é, de certa forma, performático fazendo parte do estilo do autor. Contudo, na pornografia visual nenhuma dessas duas opções são possíveis. Ela é transgressora por natureza, mas pode ser conservadora também, como afirma Maria Elvira.

Um último ponto a ser ressaltado sobre o trabalho de Elvira é que ele consegue, de forma magistral, trabalhar com as temáticas sexualidade, "raça" e gênero numa perspectiva de intersecção assim como o faz Laura Moutinho em seu trabalho resenhado tempos atrás aqui no blog. Pois bem, sem mais delongas, leia a entrevista da antropóloga!

Bastidores do Pornô no Brasil

Eles estão nas bancas de jornal, na Internet, nas prateleiras das locadoras de vídeo, na programação da madrugada de canais de televisão. É assim, de maneira sutil, mas muito presente, que os filmes pornôs, ainda que fortemente estigmatizados, fazem parte do nosso cotidiano. Mas, afinal, quem são as pessoas que atuam nesses filmes? De onde vêm? Por que os fazem? E, principalmente, como os fazem? Esses foram alguns questionamentos que levaram a antropóloga colombiana María Elvira Díaz Benítez a dar início à pesquisa que resultou na tese de Doutorado “Nas redes do sexo: bastidores e cenários do pornô brasileiro”, defendida em fevereiro no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (PPGAS/UFRJ).


(María Elvira)

Sua tese recebeu indicação de publicação e o livro, desdobramento da pesquisa, será lançado em 2010 pela Editora Zahar. A antropóloga também é a organizadora da coletânea Prazeres Dissidentes, a ser lançada em setembro pelo CLAM e pela Editora Garamond. A coletânea reúne 20 artigos que tratam de temas como incesto consentido, pedofilia, prostituição, crossdressing, entre outros.

Para a pesquisa de sua tese – feita através do método de observação direta das filmagens – a antropóloga passou um ano e meio entre idas e vindas a São Paulo, cidade que concentra o maior número de produtoras pornô do Brasil. Ao longo da investigação, María Elvira conta que buscou analisar os bastidores da produção de filmes pornôs no país e, nesse processo, acabou deparando-se com uma extensa rede social. Esta incluía não apenas pessoas que estavam diretamente envolvidas com a produção – como atrizes, atores, diretores, cinegrafistas –, mas também donos de locadoras de vídeo e bancas de jornal. A ampla rede compreendia ainda lugares como: boates, privês, saunas, casas noturnas, sites na Internet, determinadas ruas, sex shops etc. Assim, partiu do fato de que para entender as atividades envolvidas na produção de pornô, é preciso olhar para seu entrecruzamento com diferentes tentáculos do mercado do sexo, e para os modos como as pessoas transitam por diferentes contextos da rede.

“A produção de filmes pornô é só mais um fio no mercado de sexo e estes se concatenam entre si. Por exemplo, para recrutar atores e atrizes, as pessoas encarregadas dentro da equipe para esta atividade – ou recrutadores como chamei em meu trabalho – vão justamente a esses lugares. Eles funcionam como uma espécie de olheiros, têm uma espécie de “dom” especializado do olhar, pois conseguem enxergar nos recrutados as qualidades estéticas e corporais que o mercado precisa, com seu olhar conseguem antecipar o gosto dos consumidores, imaginar os prazeres que garotos, garotas e travestis podem oferecer. Então, voltando à grande rede, existem ligações entre as pessoas que trabalham nesses locais, como barmen e donos de boate, com os produtores de pornô para o trânsito das pessoas que seriam o elenco dos filmes”, explica.

As mulheres e os homens de filmes gays são, segundo a pesquisadora, os principais alvos de recrutamento, e são mais frequentemente renovados neste mercado, enquanto os homens (dos filmes hetero) permanecem por mais tempo. “As mulheres, no mercado heterossexual, assim como as travestis, em seu nicho de mercado, são as protagonistas das capas, são o destaque, tanto do material publicitário como do próprio filme. É nelas que se concentra o olhar da câmera. Aliás, no começo de suas trajetórias, elas são chamadas por diferentes produtoras para trabalhar em diversos filmes. Tudo isso gera um desgaste da imagem e sua renovação é o que mantém “aquecido” o mercado. Já os corpos inteiros dos homens de filmes hetero praticamente não aparecem nas imagens nem nas capas. Nos filmes, muitas vezes só o que se vê são seus pênis, pois o resto de seu corpo não tem tanta relevância nestas estéticas. Mas o pênis, ele só, possui uma enorme carga simbólica, é, de fato, o fio condutor da narrativa”, afirma a antropóloga.

Segundo Maria Elvira, nos filmes gays, a lógica é outra em se tratando da exposição dos corpos “Os homens, tanto aqueles que fazem o papel de passivos quanto os que assumem o de ativos sexuais, têm o corpo inteiro exibidos: rosto, costas, nádegas, braço, perna etc. Os operadores de câmera usam outras técnicas de captação da imagem, fazem questão de mostrar detalhes que têm potencial erótico como a dilatação dos músculos ou até as gotas de suor descendo pelo abdômen. Eles acreditam que é isso que esperam os consumidores de filmes gay, porque possuem outro olhar. Daí também decorre a grande exposição destes rapazes e a necessidade de renovação se dá por conta disso”.

Para a pesquisadora, no caso das mulheres, entrar nesse mercado implica, para muitas delas, transgredir normas e expectativas familiares e se tornar alvo de estigmas. É por este motivo que, apesar da maior necessidade de renovação e dos cachês mais altos, recrutá-las é tarefa bem mais difícil. Para os homens, a experiência é bastante diversa: “Encontrei, por exemplo, alguns garotos que faziam filmes hetero que eram parabenizados por seus pais e pelos irmãos homens pelo fato de serem os ‘garanhões’ que faziam pornô. Muitos pensam o pornô como uma maneira de reafirmação pública de masculinidade. Por outro lado, não encontrei esse tipo de experiência com nenhuma mulher”, diz ela.

Entre os critérios envolvidos no recrutamento do elenco um dos mais importantes é a beleza, palavra que, como observa a pesquisadora, está atravessada por muitos outros fatores, como idade, estilo, carisma, sensualidade, cor etc. Com efeito, este último quesito é freqüentemente associado à virilidade, isto é, ao “imaginário da lascívia bestial do homem negro”, o que o torna um ponto positivo em todos os mercados, relacionando-os frequentemente com a atividade sexual, não somente em filmes gay e travesti, mas também em filmes hetero. Nestes últimos, a idéia da lascívia é exacerbada, por exemplo, em gang bangs, filmes em que vários homens fazem sexo com uma única mulher, sendo que, no pornô nacional, muitas vezes estes homens são negros e a mulher, loura.

Em relação às mulheres, María Elvira chama a atenção para o fato de que há uma grande variedade de corpos “racializados” aceitos na pornografia: as louras, por vezes simplesmente apelidadas de “gaúchas”, são muito procuradas, o mesmo ocorre com o tipo que o mercado costuma definir como “latinas”, isto é, mulheres de peles claras e cabelos pretos e longos – na prática, os cabelos longos (artificiais ou não) são quase que uma regra neste mercado, na medida em que é percebido como um importante signo de beleza. As asiáticas compõem outro tipo bastante cobiçado nos filmes pornôs realizados no Brasil, sendo que muitas vezes estas são associadas à estéticas “ninfetas” ou representações de “lolitas”, isto é, mulheres com aparência adolescente, “colegial”. Em relação às “mulatas”, a pesquisadora faz questão de destacar que o termo se refere à “mulheres de pele marrom, mas com cabelos alisados e traços faciais mais próximos dos brancos do que dos negros”. As mulheres de traços faciais fenotípicos tipicamente negros, no entanto, são recrutadas apenas em poucas ocasiões. A antropóloga diz conhecer no Brasil apenas uma única produtora, no Rio de Janeiro, que trabalha frequentemente com mulheres negras. A ausência, explica Maria Elvira, se deve ao fato de que elas não são consideradas bonitas dentro dos valores estéticos que manejam o mercado pornô, o que se demonstra no fato de muitos realizadores dispensá-las no recrutamento, aludindo a que os consumidores pouco consomem os filmes por elas protagonizados.

“Até nas produções de sexo inter-racial sua participação é relativa, porque estas geralmente priorizam as duplas de homem negro com mulher loura ou homem negro com mulher asiática. Ou então mulata com homem branco”, acrescenta.

Kid Bengala

Sexualidades consideradas “espúrias”, assim como corpos vistos como “anormais”, são também trazidas à baila por produções diferentes das convencionais. Neste rol, do qual fazem parte os chamados “filmes bizarros”, incluem-se diferentes corpos e práticas sexuais: aqueles que exibem práticas consideradas “extremas” (zoofilia, escatologia, ou sexo com vários tipos de excrementos humanos), ou pornô com corpos considerados “anômalos” (pessoas anãs e pessoas mutiladas, por exemplo), ou com indivíduos que mesmo não possuindo corpos “anormais”, divergem dos padrões hegemônicos de beleza (pessoas idosas ou obesas, extremadamente tatuadas ou perfuradas com piercings, extremadamente peludas na região pubiana, e até mulheres grávidas, entre outras). Muitas vezes a categoria bizarro confunde-se com a classificação de fetiche, embora entre estas existam diferenças, como explica a antropóloga em sua tese.

“Com o rótulo bizarro, o pornô cria uma linha divisória entre o que é normal, bonito, agradável e aquilo que é anormal, feio. Muitos desses filmes são feitos com uma grande carga de humor desde os títulos até as fotografias escolhidas para as capas e a divulgação. Alguns corpos fazem alusão socialmente ao riso. As pessoas anãs, por exemplo, participam de programas de humor e de circos. Jorge Leite, um antropólogo brasileiro, pioneiro neste país nos estudos sobre pornografia bizarra, associa essas representações aos antigos freak shows. Na prática, eles tornam mais perceptíveis os estereótipos que já existem. Outros corpos e especialmente algumas práticas, como por exemplo o sexo com animais ou com fezes, aproximam-se mais das estéticas do grotesco”, destaca.

E se pessoas idosas integram o chamado gênero bizarro, é porque a juventude é parte fundamental do que seria o pornô mainstream. Com efeito, ressalta a pesquisadora, um dos estilos de filmes mais vendidos no Brasil tem no elenco atores de “visual adolescente”.

Sexo Coreográfico e Disposições de Gênero

129BARB02.jpg ANITA travesti image by anitatravesti

A antropóloga destaca que a pornografia atinge justamente as fantasias das pessoas e, por isso, os corpos recrutados para os filmes mainstream precisam ser notadamente malhados e exuberantes, como indo além dos corpos cotidianos. As práticas sexuais também precisam ser espetaculares, dessa forma, algumas posições são pouco utilizadas, como por exemplo, a tradicional “papai e mamãe”.

Segundo a pesquisadora, o sexo anal pode ser visto como a prática não convencional mais realizada no pornô. O que era antes considerado, de certa maneira, uma prática dissidente, converteu-se no dia-a-dia da pornografia. “Tratando-se de pornô brasileiro, a exibição da ’bunda’ torna-se fundamental em função do imaginário de nação construído em torno desta parte do corpo, que é mostrada como aquilo que singulariza o povo brasileiro, evidenciando discursos de brasilidade. Isto é enfatizado nos filmes pornôs de Carnaval”, analisa.

O sexo pornô, segundo María Elvira, responde a uma lógica seqüencial de posições estrategicamente pensadas como em uma espécie de “coreografia”. Esta, em geral, começa com beijos na boca rápidos e curtos – justamente porque os longos são associados a casais que mantém uma relação afetiva. Deve-se destacar que os seios não costumam tomar muito tempo da coreografia, mas são importantes para exibir a beleza do corpo feminino, seja mulher ou travesti. O sexo oral seria, portanto, a terceira parte do script, seguido das penetrações que bem podem começar com dedos e, geralmente, terminar com penetrações anais e a ampla exposição do pênis. Estas coreografias variam dependendo do segmento do mercado, transparecendo assim alguns marcadores sociais da diferença e alguns discursos sobre normatividades e transgressões de gênero e sexualidade. Por exemplo, a pesquisadora observa que nos filmes direcionados ao público hetero, o sexo oral é praticado por homens e mulheres, porém, em grande parte das produções feitas com travestis, o homem é o único a recebê-lo.

“Os filmes pornôs com travestis geralmente fazem o que classifiquei como ‘sexo heterossexual com travesti’, isto é, usam o corpo da travesti como se fosse um corpo de mulher, recorrendo às mesmas disposições de gênero. Isso significa que a travesti faz o papel de mulher, e seu pênis não possui a relevância que este órgão costuma ter nas estéticas hetero e gay, às vezes, não é necessário nem que esteja ereto. Isto não quer dizer que o pênis da travesti não seja importante. Mesmo quando não é penetrador, este é importante para a cena, porque ele simboliza a diferença desse corpo feminino, põe em cena um outro feminino possível. Paradoxalmente, os filmes brasileiros que mais têm sido premiados internacionalmente são aqueles que rompem com essa disposição de gênero e a travesti também é penetradora”, comenta.

E se no caso das travestis a ereção nem sempre é requisitada, para os homens que assumem um papel sexual ativo ela é obrigatória. Assim, antes da gravação, os homens se preparam para ter uma prolongada ereção, porque dela dependerá sua performance. Enquanto alguns fazem uso de medicamentos, como pílulas ou injeções, outros a atingem através da concentração e a masturbação, que deve ser lenta e controlada, para evitar que a ejaculação ocorra antes do momento desejado. Com efeito, a masturbação é um recurso freqüente, já que praticada a cada vez que a gravação é interrompida – para retocar a maquiagem, corrigir a luz, secar o suor etc. –, de modo que o ator não perca a ereção.

O orgasmo – “o ponto final da obra, o auge da performance”, na análise da pesquisadora – é vivenciado de maneiras diferentes entre homens e mulheres. No caso masculino, a ejaculação tem que ser visível para a captação da câmera, ou seja, não pode ocorrer dentro do corpo do(a) parceiro(a). Posicionado de modo a favorecer a aproximação do cinegrafista, o homem geralmente ejacula sobre o corpo do passivo: no rosto, nas nádegas, nos seios etc. As mulheres, como todos os colocados no papel do feminino, por sua vez, demonstram o orgasmo através de um registro mais auditivo: gemidos, gritos, palavras. De fato, o recurso à fala na pornografia é, principalmente para os femininos ou para aqueles que não ejaculam em cena, bastante relevante. Estes aprendem a fazer o que seria um “gemido pornográfico” e a transa deve vir acompanhada de um picante diálogo. Nesse sentido, observa a antropóloga, o orgasmo feminino tem efeito sonoro dramático, enquanto o masculino é visual.

Há disposições em que este esquema é transgredido: “Alguns diretores fazem questão de que, por exemplo, em filmes gays, onde somente um dos atores é o penetrador, o passivo também ejacule mediante a masturbação. Ali, esse sêmen recobra força visual. Mas é notório como geralmente o sêmen destes passivos não recai nem toca o corpo do ativo. Assim, por meio do sêmen, o pornô elabora claros enunciados de gênero e, nestes arranjos, somente os colocados simbolicamente no papel do feminino podem receber ou ter contato corporal com ele”. acrescenta.

Perguntada se o pornô é transgressor, a pesquisadora afirma que “o pornô transita entre as fronteiras da transgressão e o conservadorismo. É transgressor porque desafia juízos morais que têm colocado a pornografia como o lado ‘sujo’ do erotismo, criando essa diferenciação entre o vulgar e o erudito, distinção esta que não faz sentido estabelecer. É transgressor também porque coloca em cena um sexo ‘carente de afetos’, desafiando o ideal do amor romântico, e pela maneira como expõe as práticas: de uma maneira crua, milimétrica, ‘despudorada’. Também é transgressor porque coloca em cena práticas sexuais dissidentes e as chamadas ‘perversões sexuais’. Mas é notório como o pornô pode ser transgressor quanto às práticas e, ao mesmo tempo, completamente conservador quanto às disposições de gênero. Em minha pesquisa eu percebi o quanto a heteronormatividade é crucial nessas redes, o quanto a masculinidade é valorizada. Por outro lado, o pornô é conservador pela forma como reitera estereótipos dos mais variados”, finaliza.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Felizzis MussumDayzis

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Estou rachando o bico assistindo no YouTube os vídeos de Antonio Carlos Bernardes Gomes, o Mussum (1941-1994), cuja morte hoje completa 15 anos. Se você é daquele(a)s que odiava o Didi por ele sempre se dar bem em todos os quadros de Os Trapalhões, acha que Tião Macalé (1926-1993) - cujo nome real era Augusto Temístocles Silva - e Jorge Lafon (1953-2003) - nome de pia, Jorge Luis Sousa Lima - eram os caras (verdadeiros maloqueraços!) e curti uma branquinha - a cachaça, meu filho! -, seja bem-vindo(a)...

http://www.adorocinemabrasileiro.com.br/personalidades/tiao-macale/tiao-macale02.jpg
(Tião Macalé e Marina Miranda no Supermercado Disco)

Aliás, acabo de achar aqui na web um ferramenta que traduz tudo pra língua do Mussum: Mussumgrapher. Cheque aqui a brincadeira, é pra morrer de rir!

http://olharalheio.files.wordpress.com/2009/01/0338_mussum_obamis.jpg

Fico pensando como seria divertido se tívessemos os três vagabundos juntos num filme barbarizando a Cidade Maravilhosa com suas piadas mais do que hilárias. Imagina Mussum fazendo piada sobre o medo que alguns tem das cotas, Lafond tirando onda com o movimento gay e o Tião Macalé zoando com a cara do Ronaldinho Gaúcho?! Meu São Beneditiz! A propósito, eu teria o maior prazer de também elaborar um script onde Didi, esse chato de galocha, se f...ria na mãos dos três pretos, uma espécie de vingança! Mas já que não é possível, assista dois videozinhos cheios de poeira do brother Mumu da Mangueira. Mussum, Tião e Jorge, R.I.P.!



E a Pirâmide 51...

terça-feira, 28 de julho de 2009

Maxwell: A Volta!

Depois de um sumiço de anos, Maxwell, o astro do R&B norte-americano, está de volta as paradas de sucesso com um novo álbum, BLACKsummers' night. Dica: se você quer fazer um test drive no disco antes de comprar, vá ao site oficial dele atráves do link que coloquei acima, lá é possível ouvir o álbum todo. Meu amigo Léo Costa gostava de dizer que a música do rapaz é trilha sonora de motel. Eu diria que gosto... Tanto de motéis como do som de Maxwell!

Ah, para encanto das ladies, o bonitão cortou o cabelo e agora tem cara de homem sério que procura casamento. Alguém aí no Brasil se candidata?

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Assistam ao vídeo de Pretty Wings, a canção de trabalho do álbum.

Muita Paz e Boa Música... Sempre!

domingo, 26 de julho de 2009

E a USP, hein?! Parte 2

Corporativização do Ensino Superior e o Impasse da Universidade Pública

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Ensino superior privado se tornou um grande negócio no mundo todo. Há grandes conglomerados financeiros que há mais de uma década vem investindo maciçamente na expansão do ensino superior no continente americano como um todo, na Europa e na Ásia. As bolsas negociam apólices desses grupos ao mesmo tempo que as universidades exibem credenciais de serem instituições sem fins lucrativos. Se elas não visam lucros, porque essa expansão, principalmente no caso do Brasil, é acompanhada de perda na qualidade do ensino, precarização das condições de trabalho de professores – que dão aulas e mais aulas de disciplinas diferentes – e diminuição dos valores pagos a esses profissionais?

A expansão responde, num primeiro momento, a uma demanda cada vez maior que existe em relação a ensino superior no país e no mundo. Ao mesmo tempo, o modelo de universidade pública existente no Brasil está próximo do seu esgotamento devido a sua dependência por recursos públicos. Ironicamente, há diferenças gritantes nesse universo homogeneamente conhecido como “universidade pública”. Universidades estaduais irmãs como USP, UNICAMP e UNESP muitas vezes recebem um montante de recursos muito maior do que universidades federais devido a serem dependentes de recursos estaduais e São Paulo ter uma arrecadação considerável de tributos (parte do ICMS estadual do estado de SP vai para as universidades). Mesmo assim parte do orçamento dessas instituições estaduais está comprometida com o pagamento de salários de funcionários e professores o que dificulta sua expansão e muitas vezes manutenção. O que financia a pesquisa, são as agências de fomento federais como CAPES, CNPq e estaduais, FAPESP, fato bem lembrado pelo comentário de Mojana Vargas ao meu último post sobre o tema.

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Essa situação também cria uma crise de legitimidade da universidade, uma vez que todos os cidadãos indiretamente financiam a universidade, mas somente uma parte da população, na grande maioria oriunda da classe média e alta, garante acesso aos assentos da instituição. Alguns irão argumentar que ensino superior historicamente sempre foi privilégio de uma minoria e que não é possível que todos tenham acesso a ele. Contudo, a universidade, como espaço de pensamento, olhar crítico e experimentação de idéias novas deve justamente viabilizar alternativas que busquem resolver esses impasses como medidas que ajudem a recuperar o ensino básico e médio público, as escolas técnicas e sua função na sociedade contemporânea dentre outras soluções alternativas a expansão do ensino de nível superior. Além do mais, como se pode conceber uma sociedade justa e minimamente democrática quando os espaços de ensino público superior estão – devido a diversos fatores – vedados ao pobres e minorias étnico-raciais? Um outro ponto que fica em aberto é como pode a universidade pública oxigenar seu estoque de idéias, perspectivas críticas e visões de mundo quando seu corpo discente e docente possui uma origem tão homogênea?

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O governo federal respondeu a demanda por ensino superior com estímulos ao setor privado, algo que teve início no governo FHC e se manteve no governo Lula. Contudo, essa expansão gerou distorções uma vez que as concessões para a abertura de novos cursos e universidades muitas vezes são dadas sem um controle e inspeção mais rígido da qualidade dos cursos que deve ser feito pelo Ministério da Educação. O resultado dessa política descontrolada de expansão e ausência de inspeção da qualidade dos cursos pode ser vista no altíssimo número de candidatos reprovados no exame da OAB anualmente, considerando que o número de cursos de direito abertos recentemente foi um dos que mais cresceu na expansão do ensino superior privado. O que melhora a qualidade de ensino em qualquer nível de ensino – básico, médio e superior – são instituições sérias, salas de aulas com poucos alunos, professores bem formados, estimulado, bem remunerados, regularmente avaliados por meio de critérios justos além de um projeto pedagógico consistente com a área, discutido e acordado com todos os professores do curso. Infelizmente, nada disso vai de encontro a lógica de expansão estabelecida pelo setor privado.

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Na seara das universidades privadas na sua grande maioria não há projeto pedagógico claro, professores dão muitas aulas (mais de 25 aulas semanais), lecionam mais de duas disciplinas muitas vezes totalmente distintas umas das outras, as salas de aulas possuem de 60 a 80 alunos (às vezes até mais!) e muitas vezes a última coisa que se preza é a qualidade do que se é ensinado. Para agravar a situação, se estabelece a absurda lógica de que o aluno é “cliente” e de que a educação é uma mercadoria/serviço comparável a algo que se compra no supermercado ou se busca no cabeleireiro. Daí eu pergunto: como um professor avalia um cliente? Paradoxalmente, a grande maioria dos estudantes universitários que pagam para ter acesso ao ensino superior são oriundos das classes menos abastadas e a maior parte trabalha durante o dia para pagar a “facul” que cursa à noite ou alguns, mais sortudos e com uma trajetória realizada na ensino público, conseguem ter acesso ao programa Universidade Para Todos (PROUNI) do governo federal.

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E os conglomerados educacionais continuam a crescer seja no estado de São Paulo ou no Rio de Janeiro ou fora do país. As universidades/empresas disputam seus candidatos as suas vagas com opções cada vez mais mirabolantes de cursos: graduação em 2 ou 3 anos, aulas somente aos finais de semana, vestibular com hora marcada e formas de pagamentos das mensalidades com diversos tipos de planos e descontos. Vale tudo na guerra por um aluno, menos qualidade no ensino ou compromisso com a educação!

sábado, 25 de julho de 2009

Brooklyn (Preta) ou Stella Artois (Loira)?

Obama anda encrencado com as suas afirmações sobre o caso do professor Gates Jr.. Na quarta-feira, durante uma conferência com a imprensa, ao ser questionado sobre o ocorrido, o governante afirmou que o policial teria agido "estupidamente" ao prender o docente de Harvard. Nem preciso dizer que a afirmação do presidente inflamou ainda mais o que tem sido visto como a primeira racial issue desse governo.

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(Sargento James Crowley)

Para quem tem memória curta, lembrem que ainda na corrida pela nominação democrata a disputa presidencial Obama teve que se afastar do seu antigo pastor Jeremiah Wrigth devido as afirmações polêmicas do reverendo em relação ao tratamento dado pela sociedade americana aos negros. Wright, num vídeo gravado (assista aqui) em sua congregação em 2003, gritava do alto do seu púlpito: "Deus abençoe a América? Não, não, não... Deus amaldiçõe a América!"

Henry Louis Gates Jr. is an American literary critic, educator, writer, editor, and public intellectual. At Harvard University, where he teaches, he is Director of the W.E.B. Du Bois Institute for African and African American Research.
(Henry Louis Gates Jr.)

Pois bem, ontem à noite o presidente veio a público tentar fazer um meio de campo em relação à sua fala de quarta-feira. A atitude foi considerada a melhor saída para a polêmica depois que a fala do governante promoveu reações iradas em talk shows de rádio e uma resposta formal da polícia de Cambridge (MA) afirmando que o policial havia agido de forma adequada. Obama, em sua fala de ontem, disse que "poderia ter calibrado aquelas palavras de uma forma diferente" na quarta-feira e afirmou ter conversado tanto com o Sargento James Crowley como com o professor Gates Jr. via telefone e teria proposto uma cerveja entre os três a ser tomada na Casa Branca. Gates já teria aceitado enquanto o policial ainda não teria respondido a oferta. Caso o sargento aceite o convite, basta saber qual cerveja eles irão tomar: Brooklyn, preta, ou Stella Artois, loiríssima???

Assista abaixo ao último vídeo de Obama e para assistir todos os vídeos da polêmica clique aqui

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Eros é um Tesão de Poesia!

Visite o blog SoulSista de minha amiga Bibi Lima e leia o post pra lá de quente Somos Corpo Só e Mais Nada sobre poesia erótica! Lembrando nossa última enquete, o texto serve tanto para aquele(a)s que fazem sexo como amor!

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Big Boy!

Meu truta Raphael Neves postou recentemente em seu blog Politika etc um documentário encontrado na web sobre o sambista João Nogueira (1941-2000) e intitulado Carioca, Suburbano, Mulato e Malandro. O filme, muito legal diga-se de passagem, está dividido em duas partes e se passa, ao que se parece, no final dos anos 1970. Em determinada altura, Nogueira e Sérgio Cabral, uma das bíblias do samba carioca, estão conversando num boteco e começa a tocar uma música pop. Nogueira vira-se pro chegado e diz, "Ih, vamo embora que já começou a tocar essa merda!". Já dá pra perceber que o mulatão não era nada chegado num popzinho!

Assim como Rapha, também fuçando na web por esses dias acabei encontrando um documentário bem interessante sobre um dos responsáveis pela disseminação da "merda" pop no Rio de Janeiro. Seu nome? Newton Duarte ou, como era mais conhecido, DJ/locutor Big Boy (1943-1977).


(Big Boy, à direita, junto do DJ de black doidão Ademir Lemos [1946-1998])

Big Boy foi responsável nos anos sessenta por fazer a divulgação de boa parte do que significava música pop internacional numa época em que o vinilzão era o que ligava e ter acesso aos lançamentos que rolavam aqui nos EUA ou na Europa (na verdade muito mais EUA, já que o velho mundo era visto como "quadradão" a época!) era um verdadeiro Deus nos acuda! Duarte criou um estilo próprio de falar (cunhou a frase Hello Crazy People!) e apresentar seu programa na Rádio Mundial AM além de ter sido um dos organizadores do famoso Baile da Pesada (1970) que durante algum tempo lotou as noites do Canecão... Ok, mas pra saber mais assista o documentário elaborado como trabalho de conclusão de curso por uma galera universitária do Rio de Janeiro. Depois dou os créditos, já que a preguiça é enorme por aqui nesse momento.



E agora assista a segunda parte....



Muita Paz!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O "Bom" e Velho Racismo Americano!

Malcolm X (1925-1965) certa vez fez uma piada, com seu humor ácido, que resumia a situação da classe de intelectuais negros nos EUA nos anos 1950/1960: "What do you call a Black man with a Ph.D.?... A Nigger!" Essa máxima foi vivenciada de certa forma pelo renomado professor e diretor do W. E. B. Du Bois Institute da prestigiosa Harvard University, Henry Louis Gates Jr. O intelectual está listado entre os 20 mais importantes professores da instituição, é considerado um das mais influentes personalidade americanas, organizou, junto com o filósofo Kwame Anthony Appiah, a enciclopédia Africana (2005) e é o autor do famoso Thirteen Ways of Looking At Black Man (1998). Infelizmente, na última quinta-feira (16/7), Gates foi visto apenas de uma forma, como afirmou Brandon M. Terry em seu artigo, brincando com o título do livro do acadêmico.

Skip Gates

Após uma cansativa viagem de volta da China, onde fazia pesquisas para seu novo documentário, às 12:30 da tarde Gates, junto de sua bagagem, se encontrava na lareira de sua casa num bairro de classe alta de Cambridge. O professor forçava a porta da frente e a cena foi vista por uma vizinha que chamou a polícia. Quando os policiais chegaram Gates já estava dentro de sua residência, pois havia entrado pelos fundos e desligado o alarme, e falava ao telefone com a empresa responsável pela segurança da casa. Começou uma discussão entre Gates e um dos policiais que exigia que Gates se identificasse e comprovasse a propriedade do imóvel (mesmo havendo uma série de fotos de Gates junto de personalidades famosas na parede da sala como, por exemplo, Nelson Mandela). O intelectual mostrou sua carteira de Harvard e uma outra identidade, mas a discussão continuou uma vez que o professor se encontrava estafado devido a viagem, irritado com a invasão da polícia e gritava que o que os policiais estavam fazendo era racial profiling, ou seja, qualificar alguém como criminoso em potencial devido as suas caracterísitcas raciais.


(residência do professor em Cambridge, MA)

A discussão continuou e o policial acabou dando ordem de prisão a Gates sobre a acusação de disorderly conduct (algo como "conduta inadequada") que, segundo afirmam especialistas, é uma das leis aplicadas pela polícia nos EUA para situações onde indivíduos negros questionam sua autoridade ou conduta. Após ser anunciada a voz de prisão, Gates foi algemado e, somente depois de afirmar que não conseguia andar sem a ajuda de uma bengala, teve as algemas recolocadas com suas mãos à frente do corpo para que pudesse segurar a bengala. Detalhe: ao menos um dos policiais que atendeu ao chamado era negro.

No distrito policial, o acadêmico foi fichado e colocado numa pequena cela que, segundo suas afirmações, era extremamente claustrofóbica.

No final da estória, as acusações foram retiradas por ambas as partes, Gates e a polícia. Entretanto, o acadêmico afirmou que ainda pretende conversar com sua equipe jurídica para saber o que pode ser feito além de estar motivado a elaborar um documentário sobre racial profiling. "Os EUA possuem mais de um milhão de negros nos seus presídios e nesse dia eu me tornei mais um", afirmou o intelectual. Ok, folks, welcome to the post-racial America!

Leia uma entrevista (em inglês) com o suposto "arrombador" de residências aqui

PS: Many thanks to my good friend Gladys Mitchell for letting me know about this news!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Mais de Bailes!

Já que estava falando de baladas em meu último post, achei que seria legal disponibilizar um texto meu que saiu num livro sobre bailes organizado pelo pessoal do Quilombhoje Literatura em 2007 que foi editado com grana do Ministério da Cultura/Fundação Palmares. O livro intitula-se Bailes: Soul, Samba-Rock, Hip-Hop e Identidade em São Paulo e foi organizado pelos meus amigos Márcio Barbosa e Esmeralda Ribeiro. Há ainda um DVD contendo um documentário com o mesmo título. Obrigado a Márcio por ter me convidado a participar de um projeto que ficou tão bonito!


ANOTAÇÕES PARA UMA HISTÓRIA DOS BAILES NEGROS EM SÃO PAULO

Márcio Macedo

Sessão Flash Back: Recordar é Viver!


Era um sábado de Aleluia numa pacata e monótona cidade do interior paulista no distante ano de 1990. Por volta das sete da noite, eu mais um brother amigo de infância caminhávamos pelas ruas de nosso bairro sem destino estabelecido. Enquanto os filhos das famílias mais abastadas se empanturravam de chocolate naquela noite, nós íamos de um boteco para outro tomando tubaínas e comendo porções de amendoim que nosso ralo dinheiro podia comprar. Sonhávamos! Queríamos um futuro com tudo aquilo que não tínhamos: grana; carros; fama; uma mina bonita, gostosa e se possível branca. Tudo aquilo que – em nossa opinião – faria de nós pessoas felizes que exibiriam sorrisos de fazer inveja a propagandas de pasta de dente.

Depois de algumas horas de caminhar vagaroso os assuntos começaram a escassear e já estava disposto a voltar para casa e dormir. Entretanto, minha intenção foi postergada devido a um encontro fortuito com um amigo: Chicão. O nome Francisco não descrevia muito bem esse nosso conhecido, daí o apelido: negro retinto, forte e, do alto dos seus um e noventa a alguma coisa de altura, encontrava-se um rosto com expressões meio infantis. Travamos conversa e ele nos explicou que estava indo para o Grêmio dos (sic) negrão – na cidade havia outro clube também denominado “grêmio” – “pegar” um baile em que a atração principal seria o grupo de rap Thaide e DJ Hum. Meu truta e eu ficamos fascinados. Há algum tempo já vínhamos cultivando certa expectativa e ansiedade de ir a um baile da negrada, mas nossas intenções eram sempre podadas pelo imaginário que pairava sobre as festas black na cidade: coisa de ladrões, vagabundos, maconheiros, maloqueiros, brigas, confusões e mortes para ficar nas associações mais leves.

Jogando mais tempero em nossa vontade, o patrício fez uma sugestão tentadora em meio a seu sorriso meio bobo no rosto escuro: “Porque vocês não colam no barato? Pelo jeito, vai estar da hora: várias minas e vários pesos até as cinco da manhã!”. Eu e meu amigo nos entreolhamos e, quase que simultaneamente, respondemos: “A gente tá a fim, mas não temos grana para entrar” ao que nosso amigo respondeu, “Nem esquenta! Cola no bagulho e a gente resolve na hora.”

Diante daquela resposta nada mais natural do que seguir o curso de nossos desejos. Cada um foi para sua casa com a intenção de tomar um banho e trocar de roupa. Por volta das onze horas nos encontramos novamente e tomamos o último ônibus da noite em direção ao clube. No circular já pudemos avistar várias pessoas que, devido a indumentária e cor de pele, aparentavam ir para o mesmo destino que o nosso. Ao descer do ônibus e me ver em frente ao clube fiquei chocado. Nunca havia visto tanto(a)s negro(a)s reunido(a)s junto(a)s, a não ser na televisão num daqueles filmes americanos. Eram de todos os jeitos e estilos, com cabelos diferentes, roupas descoladas e sorrisos. A noite prometia!

A missão agora era encontrar Chicão e pedir que ele cumprisse sua promessa de nos colocar para dentro da festa. Começamos a perguntar pelo sujeito, mas ninguém o havia visto, a maioria nem o conhecia. Outro amigo nosso, Mauricinho, já estava dentro da festa e nos avistou da portaria. Perguntou se iríamos entrar e respondemos que estávamos procurando pelo cara que havia prometido nos colocar dentro do baile. Ele disse que não havia visto o fulano, mas tinha um esquema para entrar sem pagar. Pediu para que fossemos nos fundos do clube e para lá nos dirigimos. Por uma fresta do muro Mauricinho falou que a estratégia era pular o muro do clube. Naquele momento me vi num dilema. Nos meus dezesseis anos de idade nunca tinha sido bom nesse negócio de escalar muros e árvores, ao contrário do que acontecia com a maioria dos garotos. Para além disso, o que aconteceria se me pegassem? E se meus pais soubessem? Já estava disposto a ir embora quando ouvi as batidas compassadas dos raps que vinham de dentro do salão e que ecoavam na rua. Como eu queria entrar naquele baile. Repentinamente decidi: vou pular.

Fiz um esforço fenomenal e pulei dentro de um terreno baldio, o que não foi difícil. Agora vinha a segunda parte: pular para dentro do clube. Respirei fundo e enfrentei o segundo muro muito mais alto que o anterior. Contudo, não conseguia transpô-lo. Escorregava e voltava no mesmo lugar, já que não havia no que apoiar. O que me dava forças para continuar tentando era o eco das músicas que chegava aos meus ouvidos. Era como se fosse à trilha sonora de minha pequena aventura. Depois de várias tentativas finalmente conseguir subir no muro e de lá vi o interior do clube. Mauricinho, parado bem a minha frente em uma das portas gritava “Pula, pula!...”. Joguei–me para dentro do clube numa parte que parecia um quintal e todas as pessoas que estavam por ali nos observavam com expressões nos rostos que eram um misto de curiosidade, graça e vergonha.

Quando entrei no salão tinha as roupas manchadas pela tinta do muro além de mãos e braços solados. No entanto nada disso importava, pois eu já estava num outro mundo. A música alta causava-me arrepios através de batidas fortes e compassadas, garotas nos mais diversos matizes de pele escura me fitavam e dirigiam olhares de paquera (foi nesse exato momento que me apaixonei pelas mulheres pretas), brothas e sisthas faziam passos de dança que eu nunca tinha visto nem ouvido falar. Era um mundo povoado por gente negra, dança, amor, ódio, gírias, orquestras, soul, funk, rap, jazz, samba, samba-rock, DJs, equipes de som, circulares (flyers), seguranças brigões, samba-rock, toca-discos, filas, roupas descoladas, xavecos para não pagar a entrada entre outras coisas. Esse era o mundo dos bailes e no meu primeiro eu havia pulado o muro!

Sessão Balanço e Samba: Sai Dançando…

Forneci acima um exemplo pessoal de como os bailes negros estão presentes no cotidiano da população afro-brasileira. Para além desse fato, é válido afirmar que a relação entre bailes e população negra é bastante antiga, muito mais que o meu simpático ano de 1990, merecendo ser analisada e pesquisada. Minha intenção nesse pequeno texto não será de apresentar uma visão apurada ou acadêmica sobre essa relação, mas tecer breves comentários sobre ela de forma livre. Um adendo deve ser feito de antemão. A história a ser contada nas próximas linhas é relatada a partir da cidade de São Paulo como resultado da minha condição de paulista que só me permite falar com mais propriedade centrado nesse locus geográfico e não porque desconsidere a experiência de outras localidades.

Talvez as primeiras constatações de bailes entre a população negra de São Paulo datem do começo do século XX. É possível constatar esse fato pela leitura de periódicos, pois os clubes ou associações de baile noticiavam seus eventos nos jornais que ficariam posteriormente conhecidos como Imprensa Negra Paulista. Órgãos informativos como O Menelick, Clarim da Alvorada, Cosmos entre outros eram espaços de divulgação e comentários – leiam como fofocas e fuxicos – das festas dançantes que aconteciam entre os negros paulistanos.

Os ritmos que animavam esses eventos variavam. De acordo com os relatos de José Correia Leite, importante militante negro e jovem a essa época, as orquestras costumavam tocar desde a valsa francesa, passando pelo ragtime e chegando ao jazz. Tudo leva crer que o modelo de baile seguia aquele apresentado nas sociedades dançantes dos grandes clubes da sociedade paulistana ou dos meios imigrantes. Nos anos 1930 a Frente Negra Brasileira, a maior organização política já criada entre a população negra, também manteve o hábito de realizar festas dançantes com conjuntos de música compostos por associados.

Se fizermos certo esforço no sentido de ajustar as lentes e observar com mais cuidado esse período, veremos que a segmentação dos bailes por classe e grupo étnico/racial estava em sintonia com a maneira que a sociedade paulistana estava organizada. É por esse motivo que era possível falar em bailes de negros, espanhóis, italianos e de indivíduos da alta sociedade. Essa separação das festas também era mantida por meio da restrição deliberada da entrada de pessoas que não pertencessem ao grupo promotor do evento ou através de preços proibitivos que impossibilitavam o acesso da população menos aquinhoada. Eram essas proibições também que impediam vários negros de freqüentarem os famosos bailes de orquestras que ocorriam nos anos 1950. A saída buscada por eles foi à organização de festas próprias que ficariam conhecidas como bailes de quintal ou garagem e eram restritas a amigos e conhecidos. O barateamento e, conseqüente, popularização das vitrolas viabilizou a realização desses eventos que cresceram até o ponto de deixar as áreas livres das residências e se expandir para salões de festas.

Os anos 1960 foram agitados no Brasil e no mundo. Época de transformações radicais para negros, brancos, africanos e mulheres. Guerra Fria, processo de independência dos países africanos, Flower Power e Woodstock, movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, Primavera de Praga estão entre alguns dos acontecimentos históricos ocorridos nesse período e relacionadas a mudanças políticas e comportamentais. O penteado que se popularizou entre os jovens negros era chamado de black power (poder negro) pelos negros brasileiros e afro pelos americanos. Fazia referência não apenas a uma moda, mas um símbolo de aceitação da negritude incorporada no cabelo crespo. James Brown cantava em uma de suas mais conhecidas canções “Say it loud, I’m black and I’m proud” (Diga alto, eu sou negro e me orgulho disto!). Malcolm X (1925-1965), Martin Luther King (1929-1968) , Rosa Parks (1913-1925), Marvin Gaye (1939-1984), Black Panthers e revolucionários africanos como Kwane Nkrumah (1909-1972), Steve Biko (1946-1977), Patrice Lumumba (1925-1961) e Nelson Mandela influenciavam a juventude negra de todo o planeta. A pílula anticoncepcional possibilitou a revolução sexual e o movimento feminista.

Enquanto a juventude branca de classe média ouvia a novidade cristalizada no rock in roll e transformada em sua versão brasileira no iê-iê-iê e na jovem guarda, jovens negros dançavam os primeiros passos da música da alma: soul. Também foi nessa época que apareceram as equipes de som e os primeiros DJs ao mesmo tempo em que negros paulistas criavam o samba-rock: um estilo de dança que misturava passos oriundos do rock, do samba e de ritmos caribenhos como a rumba e a salsa. De acordo com a história contada pelos “nego véio”, isso aconteceu nas festas do Seu Oswaldo, tido como o primeiro DJ de São Paulo e responsável por organizar eventos na região dos Campos Elíseos. Suas reuniões dançantes eram conhecidas como exibições da “orquestra invisível”, já que este senhor, ao adaptar uma vitrola para tocar de forma amplificada escondida atrás de uma cortina, dava a impressão a seu público de que uma orquestra de verdade estava tocando, a despeito de não a verem.

Em meados dos 1970 a soul music se consolidou possibilitando novas experimentações como a radicalização que daria no funk de George Clinton e suas bandas Parliament e Funkadelic Funk. Tim Maia, Hildon, Toni Tornado, Sandra de Sá, Gerson King Combo, Dom Salvador, Cassiano, Carlos Dafé, Jorge Ben – e não Benjor! – eram os representantes do Brazilian soul, do samba-soul, do swingue e do que eu chamaria de MPB: música preta brasileira. Para captar esse turbilhão de coisas novas não era necessário ler livros ou viajar para lugares distantes, bastava se produzir e freqüentar um baile da Chic Show em São Paulo ou uma Noite do Shaft que rolava no Renascença Clube no Rio de Janeiro. As equipes de som ficaram conhecidas e nomes como Furacão 2000, Chic Show, Company Soul, Transa Negra passaram a fazer parte do vocabulário dos jovens negros antenados.

Nessa mesma época na Cidade Maravilhosa, o Black Rio, nome pelo qual esse movimento ficaria conhecido, virou tema de música de Gilberto Gil e chamou a atenção da imprensa da época. Entretanto, não foram apenas os jornais e revistas que se interessaram pelo burburinho negro de jovens armados de pentes em forma de garfo, mas também os órgãos de vigilância do Estado já que, para quem não se lembra, estávamos em plena ditadura militar que havia feito sua estréia em meados de 1964. Há uma sugestão dada – mas não devidamente pesquisada – de que os militares agiram de forma ativa na desorganização do Black Rio que, por conta da politização das suas festas, era visto como um núcleo subversivo em potencial. O clima de politização dos bailes soul pode ser medido se levarmos em conta que havia muito contato dos promotores dos eventos – baileiros – com jovens que viriam a fundar organizações do movimento negro contemporâneo em fins dos 1970. Outros jovens montaram equipes de som próprias especificamente com o intuito de atuar politicamente. Em Salvador, os fundadores do bloco afro Ilê Ayê tiveram como influência a ideologia do Black Power, antes de surgirem no carnaval soteropolitano de 1975 causando polêmica por não permitirem que brancos desfilassem na agremiação que – se me permitem a brincadeira! – era 100% negra para desespero dos defensores da mestiçagem e da democracia racial. Aliás, esse último conceito, antes visto como definidor do Brasil, passava a ser interpretado como uma falácia ou inverdade que mascararia relações de opressão de brancos para com negros e mestiços por ativistas e acadêmicos.

A música soul tocada nos bailes catalisou debates nos quais se envolveram figuras intelectuais do calibre de Gilberto Freyre. Numa discussão centrada e polarizada na idéia de existência de elementos culturais nacionais e importados, os negros brasileiros freqüentadores dos bailes eram vistos como alienados, pois desprezariam o produto nacional samba em favor de ritmos estrangeiros – como o soul e funk – que não guardariam relação nenhuma com a realidade de nosso país. Todavia, essa separação tomava contornos diferenciados para os freqüentadores de bailes como mostram estudos. Os organizadores da Noites do Shaft no Rio de Janeiro, por exemplo, entendiam o samba como destituído de “consciência” racial, apesar de ser o melhor representante de algo genuinamente negro/brasileiro. A negritude, ironicamente, viria com o ritmo “importado” soul! Por outro lado, em muitas das festas que ocorriam em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre os DJs tocavam não apenas soul ou samba, mas ambos conjuntamente a uma série de outros ritmos que não se enquadravam em binarismos ou rótulos. A ordem era dançar desde que a música fosse boa!

Algo interessante e digno de nota diz respeito as estratégias lancadas pelos DJs e suas respectivas equipes na disputa pelo público. Algumas dessas táticas pareciam terem sido retiradas de livros como Arte da Guerra do general chinês Sun Tzu. Ter exclusividade sobre a execução de determinadas canções e certos artistas eram garantia de atrair o público. Contudo, as gravadoras nacionais muitas vezes não se interessavam em lancar compilações com vários artistas internacionais ou não acompanhavam o ritmo do mercado musical americano que era muito dinâmico. Por outro lado, ter acesso a discos importados pelas vias normais de importação, além de ser dificil, era extremamente caro. Isso ocorria porque a essa época a população brasileira estava privada do consumo de produtos importados devido a um projeto de economia que subsidiava e favorecia a indústria nacional por meio do estabelecimento de altíssimas taxas alfandegarias aos produtos que vinham do exterior. As soluções que os promotores de festas lançaram mão para solucionar esse impasse foram as mais diversas. Discos eram trazidos para as equipes através de pilotos de avião que trabalhavam nas rotas comerciais entre Brasil e Estados Unidos ou por meio dos navios que atracavam nos portos de Santos e do Rio de Janeiro. Quando os plays chegavam, os DJs tinham como tática retirar o rótulo dos mesmos e apenas enumerá-los com intuito de evitar a identificação por parte de disc jóqueis de equipes rivais. As equipes mais bem estabelecidas enviavam membros de seu staff para terras yankees com a missão de comprar as “bolachas” exclusivas. Há histórias famosas de brothers que foram para a América do Norte fazer o trabalho de “sacoleiros de discos” e lá chegando, depois de algumas farras com patrícios gringos, acabavam por gastar todo o dinheiro tendo como única opção para retornar ao Brasil ser deportados como imigrantes ilegais. Com certeza essa e vários outras histórias foram contadas nos encontros semanais que jovens negros realizavam no Viaduto do Chá, local que os freqüentadores de bailes soul se reuniam para trocar informações, beber uma cerveja nos botecos dos arredores ou “dar um tapa no belo” em um dos salões black do Shopping Center Grandes Galerias.

A “cultura” das circulares é algo digno de nota. Esses pequenos papéis, modernamente conhecidos como flyers, faziam a promoção das festas e auxiliavam do velho esquema de divulgação “boca a boca”. Muito próximo da experiência dos zines, as circulares eram (e são!) uma mídia alternativa em uma época em que não existia internet e as divulgações por rádio e TV eram extremamente caros. As circulares eram tão populares que passaram a ser objeto de interesse de colecionadores como forma de relembrar festas e fatos memoráveis. Eu mesmo tenho algumas guardadas em casa!

Durante os anos 1970, 1980 e parte dos 1990 os bailes firmaram e se expandiram. Através deles o rap chegou até a juventude negra, um ritmo musical que seria responsável por uma revolução na musical e comportamental só comparada a que o rock in roll tinha causado em décadas anteriores. No mundo das festas black, gírias e termos foram criados enquanto outros, já existentes, passaram a ser usados de forma idiomática. Expressões como mano, mina, função, pizza, playboy ou simplesmente boy, bombojaco, circular, pisante, artigo, vagabundo, o bicho vai pegar, treta, play, pick up, lagartixa, comédia, pipoco, melodia, peso, bagulho, salão, bombeta, vacilão, levar uma letra são apenas alguns exemplos de termos que faziam referência a universo dos bailes negros. Referências espaciais de lugares também localizavam a “cultura” dos bailes por meio de loci espalhados pela cidade. Qual paulistano negro(a) nunca ouviu falar em lugares como Diamante Lapa, São Paulo Chic, Sambarylove, Chopapo, Ginásio do Palmeiras (a despeito da maioria negra corinthiana!), Clube da Cidade, Cruz da Esperança, Som de Cristal, Aristocrata Clube, Club Homs e Casa de Portugal para ficar nos mais conhecidos? Essas peculiaridades foram registradas de maneira exemplar na canção de Thaide e DJ Hum “Senhor Tempo Bom”.

Em São Paulo Chic Show, Zimbabwe, Black Mad, Circuit Power dentre outras promoviam shows com artistas internacionais numa época em que essa empreita era vista com receio até mesmo por empresários bem estabelecidos no mundo do entretenimento. Apresentaram-se no Brasil artistas como Beth Wright, Freddie Jackson, Kool Moe Dee, Too Short, Ice T, Public Enemy, Mad Lion, Born Jamericans dentre outros. Famosos cantores nacionais como Tim Maia e Jorge Ben também eram atrações constantes. No início dos 1990 as equipes criaram selos independentes que lançaram grupos de samba que renovaram a cena desse ritmo por meio do tão amado e odiado pagode. Quem não se lembra de grupos como Katinguele, Soweto e Negritude Júnior que tem em comum uma trajetória marcada por contratos iniciais com equipes de som por meio de suas gravadoras. O mais importante e famoso grupo de rap – Racionais MCs – também lançaria seus trabalhos iniciais por um selo independente de propriedade de uma equipe.

É preciso lembrar que distinções entre bailes começa a tomar forma na década de 1980. De acordo com o que afirmam alguns DJs o Miami bass – ritmo oriundo do sul dos Estados Unidos cujos traços característicos são sons criados a partir de sintetizadores eletrônicos com batidas rápidas e compassadas – influenciaria o som tocado pelas equipes do Rio de Janeiro e forneceriam a base para o surgimento do “funk carioca”. Já em São Paulo, a sonoridade das equipes estaria mais antenada com o que rolava em Nova York, de modo que, o tipo de música que seria criado pelos primeiros rappers paulistanos buscaria se espelhar na sonoridade e características dos grupos oriundos da Big Apple. Brinca-se entre os entendidos que em termos de música negra e contornos urbano/geográficos o Rio está para Miami assim como São Paulo está Nova York. Também surgem no Rio dessa época os bailes funk e depois de algum tempo o seu alterego: bailes charme. Em São Paulo os bailes nostalgia foram criados por conta de uma demanda oriunda de um público mais velho e com melhor poder aquisitivo que buscava se diferenciar da juventude a partir de códigos de vestimenta e musicalidade especificas.

A segunda metade dos anos 1990 foi uma época de mudanças radicais para todos aqueles envolvidos com o entretenimento negro. O processo de globalização da economia mundial foi responsável pela divulgação exacerbada no mundo todo de uma musicalidade, um estilo de vida e uma estética vinculados às populações negras e latinas do eixo Nova York, Los Angeles, Kingston e Londres. Ritmos como rap, R&B, neo soul, ragga, dancehall e, mais recentemente, o reggaeton tornaram-se populares em várias partes do globo enchendo os bolsos de gravadores, artistas, produtores e profissionais do mais diversos ramos da música e do entretenimento. Em São Paulo esse fenômeno pode ser notado pelo súbito interesse que donos de clubes localizados em areas de lazer elitizadas passaram a demonstrar em realizar as chamadas “noites black” que se diferenciavam bastante dos bons e velhos bailes negros.

Apesar de visar um público diferenciado – branco, das classes média e alta – as noites black também atrairam o público negro através do oferecimento de uma série de serviços diferenciados como instalações confortáveis, servico de manobrista, aceitação de cartões de crédito, segurança e até presença de personalidades. O sucesso desses eventos também foi facilitado pela centralidade e importância que a figura do DJ passou a ter a partir dos anos 1990. Esse profissional começou a ser valorizado e reconhecido como músico devido sua performance diante do público e atividades de produção musical. Além disso, disc-jóqueis de renome viriam a disputar espaço com as equipes, pois com a facilidade de acesso aos discos, CDs e informações possibilitadas pela mundialização da economia e pelo advento da internet teve lugar profunda transformação nas festas. Cada DJ passou a ter, como obrigação profissional, um acervo fonográfico próprio e uma maneira de tocar personalizada que com o decorrer do tempo associada ao seu nome lhe permitia usá-los como uma espécie de marca, grife ou rótulo comercial. Assim sendo, as casas noturnas forneciam o espaço físico enquanto que os DJs, tidos, a partir desse momento, como músicos e celebridades, traziam nome e um estilo específico a festa por meio de suas seleções musicais. O resultado disso tudo foi que muitas equipes viram um encolhimento do seu mercado e algumas, por conta dessas mudanças, a competição com as casas noturnas e atritos internos, acabaram por se extinguir. Esse foi o caso da mais famosa equipe de São Paulo, a Chic Show.

Por outro lado, a distinção ou especialização das festas seguiu uma tendência que já havia começado na década de 1980, mas se dinamizou na de 1990. Atualmente é possível freqüentar bailes nostalgia como o Musicaliando, Mistura Fina ou o tradicional Cruz da Esperança. Bailes como o Sambarylove e Projeto Radial, anteriormente vinculados a Chic Show, ainda continua a ocorrer. Também é possível ir a festas de hip-hop organizadas só por B-boys, bailes/shows organizados por grupos de rap nacional ou de samba. As casas noturnas continuam a promover noites black, mas não com o mesmo dinamismo e força dos anos 1990. Ironicamente, um termo que é muito comum ouvir entre jovens freqüentadores de bailes é a expressão “underground” que, traduzido ao pé da letra, significa “subterrâneo”, mas que no contexto utilizado pelo público é entendido como “alternativo”. O termo faz referência a possibilidade de ir a uma festa onde é possível dançar ao som de músicas que não são tocadas nas rádios ou em qualquer baile ou noite black. Ao mesmo tempo, as festas tem voltado para locais fora do circuito de lazer mais elitizado da cidade e são realizadas por promotores e DJs jovens que não possuem ligações com as velhas equipes, apesar de entenderem que fazem parte de uma história e processo do quais elas foram seus predecessores. A maioria dos freqüentadores e de negro(a)s e situada numa faixa etária que vai dos 18 aos 30 anos. O que será o futuro reserva para os bailes? Deixemos que o tempo responda…

Sessão Melodia: “Pegando no macio!”

No intuito de finalizar essa pequena incursão pelo mundo dos bailes negros, poderíamos nos indagar o porquê da centralidade do lúdico na história da população negra. Um texto como esse poderia deixar a impressão, a um observador distanciado e mais severo, de que essa enfâse tão grande nas festas ou na ludicidade seria grandemente responsável pela situação de pobreza e desajuste social que assola boa parte da população negra. Em outras palavras, faltaria a ética do trabalho e responsabilidade a esse grupo de indivíduos. De certa maneira, essa era a crítica de alguns ativistas negros em relação ao fenômeno dos bailes e o comportamento de parte da população negra no começo do século XX. Ao se referir a essa atitude de repreensão em relação aos hábitos comportamentais de parte da população negra, o sociólogo Roger Bastide cunhou o termo “puritanismo negro”, pois havia a crença de que o principal motivo de desajuste e exclusão social dos afro-brasileiros eram eles próprios devido a não adequação aos padrões comportamentais e de etiqueta vigentes. O problema desse argumento é que ele transforma as vítimas em algozes ao deixar de lado dois pontos centrais.

O primeiro deles diz respeito a uma negação do racismo na sociedade brasileira como um fenônemo estrutural e organizador das relações sociais. Esse fato corrobara para que a discriminação racial, em suas mais variadas formas cotidianas, seja um dos entraves a mobilidade ascendente da população negra. O segundo ponto é um desconhecimento dos elementos comuns a maioria das culturas africanas e negras diaspóricas: o lúdico e a corporalidade. Esses dois elementos tem um papel importantíssimo na organização social e até mesmo econômica das pessoas negras e africanas no mundo todo. Exemplos disso são as diferenças nas tradições religiosas de tradição judaico-cristã em relação as africanas. Enquanto as primeiras fazem referência a instrospeção e ao martírio terrestre com vistas a uma possível e prometido vida eterna em paraíso pós-morte, as segundas são religiões apegadas ao mundo terrestre, a festa, sem a promessa de paraíso ou vida pós-morte e espaço social onde a corporalidade é vivenciada de forma profunda. Tanto é verdade que as pessoas que fazem parte do povo de santo “dançam” em homenagem aos seus orixás. A atitude de dançar liga-se a cantar e festejar, não podendo ser pensada separadamente. Até parece um baile, não?

A maneira como os elementos presentes nas culturas africanas remodelam as tradições religiosas cristãs pode ser observada no catolicismo popular brasileiro ainda praticado em pequenas cidades e áreas rurais ou nas antigas festas organizadas por Irmandades de Homens Pretos. Em tais eventos a corporalidade, o aspecto lúdico e festeiro das culturas negras se faziam presentes na performance de congadas, batuques, sambas, moçambiques e caiapós. Um bom exemplo contemporâneo é a festa de São Benedito que ocorre anualmente na cidade de Tietê, interior do estado de São Paulo. As atividades religiosas como a missa e a procissão se misturam a uma série de manifestações lúdicas mundanas como as rodas de samba, o batuque, as paqueras entre os jovens e uma tradicional bebedeira para desespero dos mais velhos!

Por fim, penso que as festas e os bailes da população negra como um todo podem ser entendidos a partir da definição dada por Carlos Benedito Rodrigues Silva , a saber, um “espaço negro”. Com esse termo, o antropólogo qualifica esses eventos como espaços de iguais utilizados para resguardar-se de uma sociedade hostil, encontrar os semelhantes e dividir alegrias, tristezas além de buscar o prazer na música, na dança e na paquera numa minimização das dificuldades cotidianas. Que assim seja!

Referências Bibliográficas

MACEDO, Márcio (2007). “Baladas Black e Rodas de Samba da Terra da Garoa”, parte integrante da coletânea Jovens na Metrópole. Editora Terceiro Nome. São Paulo.

BASTIDE, Roger (1983). "A Imprensa Negra do Estado de São Paulo" in Estudos Afro-brasileiros. Editora Perspectiva. São Paulo.

SILVA, Carlos Benedito Rodrigues (1983). “Black Soul: Aglutinação Espontânea ou Identidade Étnica?” in Ciências sociais Hoje 2 – Movimentos Sociais Urbanos, Minorias Étnicas e Outros. Brasília. ANPOCS.



quarta-feira, 15 de julho de 2009

Festinhas e Dinâmicas Raciais!

Devia estar trabalhando, mas estou com uma preguiçaaaaaaaa!!! Well, vamos escrever um postzinho para relaxar. Não é segredo pra ninguém que os EUA possui dinâmicas raciais muito diversas. Sente-se isso o tempo todo e, para brasileiros desavizados, essa parada pode parecer estranha ou horrorosa. No meu caso, mesmo no Brasil, me sentia como se entrasse e saísse de dinâmicas raciais o tempo todo. Uma coisa é tomar cerveja na Vila Madalena com estudantes da USP e outra é beber a mesma marca de cerveja no Centrão com meus amigos pertencentes a grupos de pagode, rappers, ladies trabalhadoras do telemarketing e os "nego véio" que, entre uma loira - a cerveja, meu filho! - e outra, relembram os tempos em que eles comiam "todas" (acredite neles se quiser!...). Descrevo abaixo umas festinhas que andei participando aqui nos EUA nas últimas semanas e a dinâmica de cada uma. Espero que o texto consiga captar um pouco do clima das festas, uma vez que eu me diverti pacas nelas!

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Churrasco Universitário/Acadêmico Multiracial e Étnico em Washington DC

Pois bem, no sábado do 4 de Julho estava em Washington DC e fui convidado para ir a um churrasco de um casal de amigos alumni da Cornel University. Ambiente agradável, casa bonita, comida farta, cerveja, vinho e música de estilos variados tocando de forma ambiente quase. A composição étnico/racial dos convidados era uma fotografia do que é o corpo discente/docente dessas universidades elitizadas da Ivy League: eu e Tarik, outro amigo de Cornell, eram os pretinhos básicos do barbecue seguidos de uns asiáticos, mais uns latinos e brancos. Os papos tinham aquele tom típico de smart people conversation: sua pesquisa foi sobre o quê, mesmo? Já leu autor tal? Ainda não, mas ouvi falar! Quais seus planos para o doutorado? Quer ficar morando em Washington ou vai voltar para New York! Ao final da festinha nos dirigimos para um lago onde assistimos uma queima de fogos em comemoração a independência dos EUA que durou 20 minutos. 22:00 and the party is over! Eu e meu amigo ainda tentamos comprar umas brejas no Seven Eleven para tomar em casa, mas... É proibido vender/comprar cachaça em DC depois desse horário. Caso queira beber é necessário ir para um bar. De nossa parte, resolvemos ficar na Coca-Cola!

Churrasco 100% Black na Parte Mais Preta do Brooklyn, Bed Stuy!

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Noite de sábado, 11 de julho. Barbecue em Bed Stuy, Brooklyn. Para quem não se lembra, essa é área onde se passa o seriado Everybody Hates Cris (Todo Mundo Odeia o Cris no Brasil). Desço do metrô na Nostram Station para pegar um táxi já que chovia pacas. A primeira coisa que se nota na partes negras do maior distrito de NYC é a quantidade de policiais: corvos azuis andando por todos os lados ou dentro dos seus blue and white (apelido dado as viaturas). Escondo-me da chuva por uns minutos num tipo de lanchonete cheia de negrada na mesma situação. Um truta corre para a calçada e sinaliza para o táxi. O carro para, mas ao tentar entrar no veículo nosso amigo é impedido por uma policial feminina. Motivo: uma brown paper bag com uma Heneiken aberta dentro (lembrem-se que é proibido consumir bebida alcoolica em via pública nos EUA). O táxi se manda e começa uma discussão interminável entre o brother e dois policiais num tom de voz que seria imaginável em São Paulo. A platéia, protegida da chuva embaixo do toldo do estabelecimento, assiste a discussão que pouco a pouco vira uma espécie de pastelão. O rapaz aponta para a garrafa e diz: "Ela não estava aberta, eu juro." "Você está dizendo que foi ela [a policial feminina] que a abriu?" Pergunta o segundo policial abrindo um sorriso irônico compartilhado pela policial feminina ao que o rapaz responde: "Sim foi ela, foi ela que abriu!" Todo mundo na lanchonete, inclusive eu, cai na gargalhada.

A Bedford Street estava literalmente congestionada devido ao churrasco no número 921. Pretaiada pra todos os lados, de todos as idades, tamanhos e estilos. Chove e muita gente se espreme numa tenda montada em frente ao browstone na qual serve de moradia para meus conhecidos. O corredor que dá acesso ao interior da casa é uma espécie de check in da festa com os mais variados tipos encostados na parede observando e sendo observados. Há os tiozões barrrigudos vestidos a la hip-hop, gostosas de plantão fazendo cara de "não me olhe, não me toque e não fale comigo" e esperando sempre a atitude contrária, rapazes musculosos com camisetas exibindo o corpo malhado, calças largas, bonés, bermudas e tênis e toda aquela parafernália hip-hop que, como diz Mano Brown, "faz crescer o zóio de qualquer ladrão". As tatuagens, inscritas tanto nos corpos masculinos como femininos, demarcam nomes, apelidos, áreas de origem, filhos e amantes como se fossem mapas sociográficos que informam e individualizam. Todo mundo segura um copo ou tem um litrão de algo na mão. Um brother veste uma camiseta cuja estampa me faz cair na gargalhada de novo: "Orgasm Donor". A primeira imagem que vem a cabeça é o videoclipe de um clássico de Notorious B.I.G, One More Chance. Nada descreveria melhor a festa!

Depois de vários empurrões, caras feias, trombadas, pisadas em pés e outros acidentes encontro meu amigo Omare Kinsey. Desfaço-me da caixa de cerveja que trouxe e vou dar uma volta pela área. Um bar havia sido improvisado na sala, há uma fila enorme para pegar um liquor e o barman soa feito burro devido ao calor e ao trampo. Tips são bem-vindas, deixe a sua! Depois de um bom tempo na fila consegui sair de lá com um copo de Hennessy - conhaque frânces que virou coqueluche entre rappers - com gelo. Os sofás da casa parecem ser reservados a diretoria do barato ou as mulheres da diretoria. Bem no meio da sala, três garotas trajando vestidos curtos e colados que reassaltam as já protuberantes pernas, coxas e peitos ficam paradas numa posição estratégica. Não há quem não deixe de olhar! A rima de B.I.G no refrão da canção Big Poppa resume a parada: If you got a gun up in your waist please don't shoot up the place/Cause I see some ladies tonight who should be havin my baby/Bay-bee! Tento ir para o quintal, onde uma muvuca de gente disputa Coronas e um churrasquinho (leia-se hamburguers e hot dogs), mas um casal mandando ver num grind dance bloqueia a passagem no corredor que dá acesso. Depois que os dois se casam dos exercícios de alongamento, consigo ir para o backyard. Mais muvuca! Chove e todo mundo se aperta tentando ficar debaixo da cobertura que foi montada e dar uma dançadinha ao som do hip-hop e ragga que sai das caixas de som. Paro para tomar um gole de minha Corona recém pega e novamente caio no riso ao ver os dízeres da camiseta de uma garota: "Fuck Me, I Am Famous!"

Okay, havia um tópico sobre o consumo de drogas - weed - na festa aqui, mas ele foi censurado pelo Blogspot!!!!!!!!

Um tiozão com cara de bêbado para na porta da sala e começa a gritar: "All right, all right! Chicken is being served in the other side of house... CHICKEN IS BEING SERVED IN OTHER SIDE OF HOUSEEEEE!!!!

Ando um pouco pelo quintal e me vejo diante de mais surpresas. Até o momento não tinha visto um branco na festa, mas de supetão topo com um grupo de quatro, três garotas e um rapaz. Todos com feições que indicavam ser estudantes universitários, eles riam e tiravam fotos de si mesmos. O rapaz pede-me para tirar uma foto do grupo e eu mando ver na câmera nas minhas habilidades, nada boas, de fotográfo amador. Olhando de novo para o grupo lembrei de meus amigos brancos de graduação na USP quando os convidava para algum baile black. A resposta era sempre numa pegada do tipo, "Porra Kibe, mas os caras lá não vão me discriminar, não?" Dos que foram, não lembro de ninguém ter reclamado, mas curtido pacas. Voltando a festa, minutos depois sou apresentado por Omare a algumas estudantes da New York University (NYU) que estão na festa. Falo que sou brasileiro, mas não sou de Salvador, já que toda vez que digo minha nacionalidade para os patrícios da América do Norte logo me perguntam da Bahia! Minha afirmação causa polêmica e dali a alguns minutos estou numa discussão elétrica com uma estudante de doutorado em história sobre as tensões envolvidas na construção de uma identidade nacional e a noção de democracia racial no Brasil. Intelectuais, sempre chatos e inconvenientes! A namorada de Omare nos traz de novo pro chão: "What is hell nation construction thing? This is a barbecue and you supposed to be talking about beer and chicken!"

Volto a sala para reabastecer meu copo. Passa das duas da manhã, não há mais cerveja e a única opção é liquor. Saio do bar com uma dose de Jose Cuervo com gelo. Urgh! Imagino a dor de cabeça que terei no outro dia. Tem início uma sessão de ragga e soca levando a negrada a loucura. Os ritmos caribenhos tiram todo mundo do chão e do sofá, até as gostosas com cara de "não me toque, não olhe e não fale comigo" saem de sua pose habitual e vão para a meio da sala dançar! Viro minha Jose Cuervo (a essa altura já sem gelo) e caio na pista! Pois bem, depois disso não me lembro de muita coisa... Apenas de, armado de uma taça de vinho branco, pegar uma carona com truta que me levou até a Bedford Station onde peguei o metrô de volta pra casa. Já passava de cinco da manhã e minha única companhia eram os ratos novaiorquinos que infestam os trilhos e plataformas das estação do metrô a essa hora. Hungover animal no domingo, mas ainda tinha uma salsa para ir...

Salsa "F"oderosa, Impossível Não Dançar!

Havia sido convidado dias antes para ir a uma festa de salsa por Eli Efi e sua esposa DJ Laylo. Laylo iria tocar e a evento seria uma espécie de celebração anual de uma importante e histórica gravadora de salsa music nos EUA, a Fania Music. Não sou um grande fã de salsa, mas resolvi colar para conferir e prestigiar a performance de minha amiga. Além dela, iriam se apresentar os DJs Bobito Garcia, NYC, DJ Sake, SF, além do som ao vivo da banda Ilu Aye. Estava curioso também ara ver de perto a figura de Garcia, a.k.a Kool Bob Love, uma vez que costumava ler seus textos na The Source Magazine ainda nos idos dos anos noventa e dele ser uma figura importante no hip-hop e cultura de rua de NYC. Como bom brasileiro que sou cheguei atrasado, por volta das 22:00 sendo que a festa iria até às 0:00. O clube ficava na 96 Lafayette, em lower Manhattan, mas acabei errando a estação do metrô que deveria descer. Resultado: perdi a performance de Laylo e da banda.


(cartaz da festa)

O clube era pequeno, mas aconchegante. O espaço não estava lotado e o clima era agradável com uma acústica que é difícil de se encontrar nas melhores casas de SP. Encontrei Eli Efi e fomos tomar tomar ''uma" básica - como se diz no Brasil "para rebater" - e conversar. No palco, após a apresentação da banda, desceu um telão que mostrava imagens de músicos que gravaram pela Fania e que se situavam majoritariamente nas décadas de 1970/1980 em NYC e Miami. A composição do público era algo interessante. A maioria era de latinos, mas as marcas que distinguiam negros e brancos não ficavam tão evidentes. Percebi que ali era o espaço mais próximo de minha experiência no Brasil no que diz respeito relações de grupos "raciais" e etnias. Havia brancos e pretos, claramente observáveis, mas havia ainda outros indivíduos que poderiam ser facilmente classificados nas infinitas categorias intermediárias que compoem a ideologia racial de muitos países na América Latina.

Bobito começou a tocar. Seu set foi marcado por clássicos da Fania e o público acompanhava todas as músicas de forma energética. Continuava conversando com Eli Efi, mas observava a animação em que o clube se encontrava. Algo parecido só tinha presenciado nos bailes nostalgia de SP quando se tocava samba-rock e todo mundo passava a disputar a tapa um(a) parceiro(a) para se dançar. O prazer estava simplesmente na dança, não importava qual fosse o par. Eli Efi foi fazer algo e fiquei sozinho tomando minha Heineken. Dentro de minutos a cerveja havia acabado, mas, milagrosamente, alguém pagou por um taça de vinho que não pegou no balcão do bar e eu, sempre rato, logo a surrupiei. Pois bem, a música era tão boa que dentro que alguns minutos estava dançando sozinho e agradecendo mentalmente Eli Efi e Laylo por terem me convidado para a festa. Alguns casais davam show na pista e eu, já animadinho pelo vinho, resolvi chamar uma senhorita para dançar. Meu background como dançarino de samba-rock dizia que a tal de salsa não era tão diferente e que eu daria conta do recado. Triste engano, o barato era mais complexo do que eu pensava e dei vexame com minha parceira. Tristonho e envergonhado voltei para o meu canto do salão. Aulas de salsa no próximo semestre...

http://www.hiphopslam.com/_OLD/news/g/033/BADJ021_Sake-1.jpg
(DJ Sake)

DJ Sake fechou a festa com uma set incrível que praticamente aproximava/mixava salsa e hip-hop. Batidas compassadas e "F"oderosas. Ao final, já com a luz acessa, subi a cabine dos DJs para dizer um alô a Laylo e agradecer pelo convite. Topei com Sake e disse que havia gostado muito de sua performance. Ele agradeceu e, rindo, comentou que um cara havia lhe perguntado se aquela festa rolava todo domingo. Eu, ele e Laylo rimos ao que eu disse: "It would be good, man, it would be good!..."


Muita Paz e Amor a Todo(a)s!