sexta-feira, 31 de julho de 2009

Crime and Black Erotica: O Futuro da Literatura Afro-Americana?

Meus amigos afro-americanos às vezes ficam espantados quando em nossas conversas digo que já li boa parte do que é considerado literatura afro-americana contemporânea. Autores como Richard Wright (1908-1960), James Baldwin (1924-1987), Ralph Ellison (1913-1994), Toni Morrrison dentre outro(a)s fazem parte do meu grupo de escritores favoritos a mais de quinze anos e continuo a me deliciar com seus escritos. Contudo, o posto desses autores no panteão da literatura norte-americana como um todo (e afro-americana em específico) tem, ao menos para alguns analistas sociais, sido ameaçado.



No Harlem, mais especificamente na Lenox Avenue, há uma loja de CDs e vídeos - cada vez mais raras - divertíssima chamada Black Star onde sempre dou uma xeretada quando estou pela área. Lá dá pra comprar os últimos CDs de hip-hop, DVDs de filmes blaxploitation, revistas de música e de mulher preta pelada (os mais pudicos podem chamar de masculinas!), camisetas dentre outras bugigangas. O que me chamou a atenção no interior do estabelecimento numa de minhas primeiras visitas foi a existência de uma sessão devotada a livros. Cheguei mais perto para avaliar os mesmos e cai na gargalhada com os títulos uma vez que a grande maioria fazia referência a chamada urban culture e as temáticas dos livros versavam sobre a vida de dough boys (jovens traficantes), hustlers (trambiqueiros), players (malandros que possuem várias mulheres), pimps (cafetões), gold diggers (termo pejorativo para mulheres que se ligam a homens por interesse) e biografias de figurinhas famosas e encrenqueiro(a)s como o cantor e ex-marido da cantora Whitney Houston, Bobby Brown, ou a cantora e ex-esposa do finado rap star Notorious B.I.G.(1972-1997), Faith Evans. Os traços que ligam todos esses livros são, além dos personagens serem em sua absoluta maioria negros e/ou latinos, uma enfâse em temas que remetem a vida criminosa e a constante sexualização das histórias. Ambos aspectos podem ser notados nas capas dos livros geralmente com fotos de mulheres negras/latinas em poses sensuais, jovens negros/latinos com armas ou ambos elementos juntos.

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(um "exemplo" de capinha...)

Paralelamente a minha experiência etnográfica na loja, já tinha notado durante minhas viagens de metrô pela Big Apple, o mesmo formato e espécie de livros sendo lidos por Black ladies em sua maioria nos vinte e poucos anos de idade. Aliás, os três acessórios básicos que nunca faltam a qualquer passageiro(a) da MTA são sempre iPods, smartphones e/ou livros. Portanto, quando travei conversa com Bibi Lima dias atrás pelo Skype imediatamente reconheci a chamada ghetto fiction quando minha amiga citou um artigo que havia lido sobre o assunto e que logo em seguida me encaminhou.

Intitulado What Is African-American Literature? o texto do professor Gerald Early (Washington University in Saint Louis, Missouri) busca fazer uma breve análise desse novo tipo de literatura tão popular entre jovens mulheres negras. O autor remete, primeiramente, ao texto que lançou o debate publicado por Nick Chiles no jornal New York Times em janeiro de 2006. Com o título Their Eyes Were Reading Smut (algo do tipo "Seus Olhos Liam Lixo/Sacanagem"), trocadilho com o título do famoso romance de Zora Neale Hurston (1891-1960) Their Eyes Were Watching God [Seus Olhos Viam Deus] (1937) tido como a grande obra feminista da literatura afro-americana, Chiles busca desqualificar a literatura produzida pelos autores da ghetto fiction separando-a do rótulo de "afro-americana". Seu descomforto se mostra devido a esses livros serem colocados e vendidos em algumas livrarias na mesma seção de Baldwin, Right ou Morrison. Em suma, a posição de Chiles é que equiparar essa espécie de "literatura barata" e "sexualizada" com a literatura afro-americana seria uma rebaixamento para a mesma e sintomático do declínio da qualidade dos autores negros contemporâneos.

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(Zora Neale Hurston: antropóloga e romancista, foi assistente do alemão Franz Boas [1858-1942], um dos pais da antropologia cultural contemporânea, na Columbia University)

Early, por sua vez, tem posicionamento distinto. Mais conciliador, para o professor o surgimento desse tipo de literatura, tão criticada por Chiles, sinalizaria mais para uma demonstração de maturidade do que de declínio da literatura afro-americana. Para calçar seu argumento, o professor demonstra como as origens da chamada ghetto fiction são inerentes a uma estética negra surgida nos anos sessenta via filmes blaxploitation como os clássicos Sweet Sweetback's Baad Assss Song (1971) - veja parte do filme no vídeo abaixo - de Melvio Van Peebles além de Shaft (1971) e Super Fly (1972), ambos de Gordon Parks Jr., a produção literária que foca biografias de criminosos e personagens emblemáticos das ruas cujo o pontapé inicial foi dado Alex Haley (1921-1992) em sua livro sobre a vida da Malcolm X (1925-1965), os romances policiais no estilo de Chester Himes (1909-1984), e as letras dos ritmos negros contemporâneos como a soul e funk music. Em todas essas expressões artísticas/estéticas, que nascem majoritariamente nos anos 1960/1970, sexo e crime tem um papel central uma vez que eram/são elementos presentes na experiência afro-americana, mas que eram evitados ou repudiados nos espaçoa públicos negros como as igrejas. O que essa nova produção fez foi justamente problematizar esses temas e fazer dos mesmos produtos vendáveis do ponto de vista comercial sem perder sua perspectiva crítica. A ghetto fiction é filha ou neta dessa tradição. Outro argumento levantado por Early em favor dos autores desse tipo de literatura é que muitos são bons escritores que incorporam no seu estilo os avanços estabelecidos pelo time de escritores negros que fazem parte do canône afro-americano.



Entretanto, é compreensível o aborrecimento de Nick Chiles em relação a ghetto fiction. Como pertencente aos estratos da classe média/burguesia negra atual, é notório que a existência de uma produção literária que coloca o cotidiano das Black lower classes como sinônimo de experiência afro-americana como um todo traria uma atitude de antagonismo por parte do autor. O que isso demonstra é que a classe média/burguesia negra não possue mais o monopólio de representação da comunidade afro-americana e, em sua posição extremamente frágil, busca o tempo todo enfatizar sua legitimidade de existência e lutar contra as representações entendidas por ela como negativas do grupo. No Brasil, o sociólogo francês Roger Bastide (1898-1974) usou o termo "puritanismo negro" para se referir a essa mesma atitude que a classe média negra da primeira metade do século XX em São Paulo tinha em relação as classes populares negras. A "incapacidade" dos negros pobres de incorporarem valores e comportamentos burgueses - desde de uma ética do trabalho e valorização da família até a maneira de falar, vestir e se portar em público - era vista como o grande entrave a ascensão social dos negros.

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Mas voltando a Early, o professor termina o artigo afirmando que o que move tanto autores e leitores afro-americanos nesse novo mercado é, para além do fato de fazer dinheiro com esse tipo de literatura, uma necessidade extrema de entender-se através desses escritos. Visualizando quais são os impasses que jovens negro(a)s entre 20 e 40 anos vivenciam hoje e nisso ela cumpre sua função de fórum social. Por fim, vale a pena lembrar das sábias palavras de Toni Morrison. Numa entrevista dada ao sociólogo britânico Paul Gilroy e reproduzida no livro O Atlântico Negro (2001) ela sumariza de forma magistral qual o papel da literatura na vida das afro-americanos.

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(Toni Morrison, ganhadora do Nobel em literatura, 1993)

"Os negros americanos eram sustentados, curados e nutridos pela tradução de sua experiência em arte, sobretude na música. Isso era funcional... Meu paralelo é sempre a música porque todas as estratégias da arte estão aí presentes. Toda a complexidade, toda a disciplina. Todo o trabalho deve passar por improvisação de modo a parecer que você jamais tocou nele. A música deixa a gente faminta por mais. Ela nunca nos dá o conjunto todo. Ela bate e abraça, bate e abraça. A literatura deveria fazer o mesmo. Tenho sido muito enfática a esse respeito. O poder da palavra não é música, mas em termos de estética, a música é o espelho que me dá a clareza necessária... As maiores coisas que a arte negra tem a fazer são estas: ela deve possuir a habilidade para usar objetos a mão, a aparência de utilizar coisas disponíveis e deve parecer espontânea. Deve parecer tranquila e fácil. Se ela fizer você suar é que algo não está certo. Você não deveria poder ver as emendas e costuras. Sempre quis desenvolver uma maneira de escrever que fosse irreversivelmente negra. Não tenho os recursos de um músico, mas eu achava que se fosse realmente literatura negra ela não seria negra porque eu era, nem mesmo seria negra por causa de seu tema. Ela seria algo intrínseco, inato, algo na maneira como era organizada - as sentenças, a estrutura, a textura e o tom - de sorte que ninguém que a lesse perceberia. Utilizo a analogia da música porque você pode viajar pelo mundo inteiro e ela ainda é negra... Eu não a imito, mas sou informada por ela. Às vezes eu escuto blues, outras vezes spirituals ou jazz e me aproprio dela. Tenho tentado reconstruir sua textura em meu texto - certos tipos de repetição - sua profunda simplicidade... O que já aconteceu com a música nos Estados Unidos, a literatura fará um dia, e quando isso acontecer estará tudo terminado." (Gilroy, 2001: 167-168)

Lindo! Que assim seja...

2 comentários:

Mojana disse...

Cara, guardadas as devidas proporções, essa conversa sobre literatura negra me lembra a controvérsia sobre o personagem corrupto recentemente interpretado pelo Milton Gonçalves numa novela da Globo.
Eu nem sou das maiores fãs de literatura, mas acredito que esta espelhe a diversidade da experiência da vida em sociedade a partir de variados pontos de vista. Eu antipatizo com essa cultura do gueto tanto aqui como aí, mas acho que não dá pra ignorar a existência dela. Muito em breve teremos as nossas Sabrinas e Júlias com heroínas românticas negras também. Faz parte do jogo e não adianta espernear muito.

Marcio Macedo (Kibe) disse...

Hi Mojana,

A cultura de gueto é uma merda mesmo do ponto de vista da representação que estabelece dos afro-americanos.

Entretanto, um dos bons escritores que escreveu os primeiros livros policiais negros nos anos 1960, Chester Himes, me faz rir até hoje. Além do mais, seu escritos eram cheios de insights sobre a situação dos negros moradores das grandes cidades, mas sem grandes elucubrações. O livro que mais gosto dele é um de contos chamado "Blind Man With a Pistol" (no Brasil saiu pela L&PM Pocket com o título "O Harlem é Escuro"). A história: um homem negro, morador do Harlem, cego, mas que se recusa a admitir que é cego e faz tudo como se não fosse cego: joga dados, faz compras, pega o metrô e... tem uma pistola! Nesse livro também é possível ver a dupla de detetives negros que Himes imortalizou: Jones Coveiro e Ed Caixão. Cara, muito bom!

Abraços,

Márcio/Kibe.