segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Carro de Negrão...

Tenho acompanhado daqui dos EUA o caso do segurança da USP, Januário Alves de Santana, que foi espancado por seguranças do Carrefour, no estacionamento de um hipermercado da rede em Osasco, região metropolitana de São Paulo, semanas atrás. O episódio teve grande repercussão sendo assunto de matérias nos principais jornais da capital paulista (Folha e Estado) e veiculado até mesmo pelo Jornal Nacional. Infelizmente, casos como esse não são novidade para boa parte da população negra/mestiça pertencente ou não a classe média e proprietária de carros. É necessário nunca esquecer que anos atrás um dentista negro, dirigindo um Gol, foi confundido com um assaltante e morto pela polícia quando levava sua namorada ao aeroporto de Cumbica em Guarulhos.


Protesto realizado no estacionamento do Carrefour em Osasco no dia 22 de agosto.

Pois bem, essas situações me fazem lembrar de uma conversa que tive com um amigo tempos atrás. Falávamos de nossas aspirações automotivas olhando para modelos zero numa revista Quatro Rodas e afirmando animadamente, "Ah, esse aqui é carro de negrão!", "Não não, esse outro aqui sim é carro é negrão". Depois de uma pausa, meu amigo abriu um sorrisso irônico e disse: "Carro de negrão, Kibe?... Carro de negrão é Fusca!" Caímos na gargalhada e até hoje fico pensando de como ríamos dos estereótipos e do racismo que permeia a relação entre negrada, carros e polícia. Explico-me...

Fusca by camilofontana.
Diriga com estilo! Fusca, o carro do verdadeiro negrão.

Carro ainda continua sendo, no Brasil, um dos grandes símbolos de status social. Reconhece-se a classe social de uma pessoa pelo carro que ela dirige. Vários sociólogos contemporâneos tem discutido como a cor/raça no Brasil é um estigma - marca/sinal negativo - que imediatamente aloca os indivíduos mais escuros em espaços sociais associados a pobreza, marginalidade e/ou desregramento sexual. Em termos práticos, isso significa dizer que um executivo negro vestindo terno não é identificado num primeiro momento como executivo, mas sim como segurança. Uma mulher negra bonita pode ser vista como prostituta. Enfim, um negro dirigindo um carro caro é um paradoxo que só resolve no imaginário popular pela associação do motorista a um ladrão de carro.



Há maneiras de resolver o problema. Vamos as opções... 1) Aceite a verdade de meu amigo: "Carro de negrão é Fusca!". Compre um e ande tranquilo, pois a polícia não irá lhe encher o saco. 2) Estilize: compre um Opala 68 vermelho, rebaixe o possante, coloque estofados de couro branco, rodas de magnésio com pneus pintados de branco na parte de fora e meta um CD do Tupac ou Marvin Gaye no talo em seu som super poderoso. Fique à pampa, a polícia vai confundí-lo com um rapper. 3) Agora, se você é um daqueles pretos sortudos e bem sucedidos que chegou lá e não resiste a tentação de dirigir um Audi, uma BMW ou um Jeep Grand Cherokee ou se tem que fazê-lo devido a apresentação profissional, sugiro a você que aprenda inglês. Ao ser parado pela polícia, lance um: "Excuse-me officer, what's the problem? I am sorry, but I am American and I am not able to speak Portuguese. Did you understand me?" Pretos gringos (não vale ser de algum país do continente africano) são sempre tratados de forma diferenciada, já que o imaginário que se tem dos mesmos é de que os patrícios daqui são mais "evoluídos" e tem grana... 4) A polícia e profissionais de segurança em geral podiam, minimamente, rever suas abordagens truculentas e racistas.

Qual a sua opção? Eu vou comprar o Opala 68! Olha ele aí... Da hora, mano!

http://www.carrosderua.com.br/web/uploads/destaque/1226450015_destaque_granluxo.jpg

5 comentários:

Calvin disse...

Essa historia é muito triste e é um lado da vida brasileira do que gostaria de ver mudado.

Só ontem à noite falei com um amigo americano meu que tinha ouvido falar do racismo em Brasil e lhe expliquei que é coisa diferente (que não finjo de compreender) do que tem nos Estados Unidos.

Porém, (felizmente?) posso dizer que eu não experimentei nada disso quando eu fui de férias lá, talvez - como você explicou - porque eu seja "mais evoluído."

Espero que o meu português não fosse ruim demais;) Vou tentar de seguir mais o seu blog. Gostei.

Mojana disse...

Kibe, todos nós já estamos carecas de saber que carro de negrão é Mercedes Benz ou Volvo, daqueles que têm 42 lugares, saca?
A turma fica querendo inovar, dá nisso...

Janaína Leslão disse...

pois é! fiquei revoltada com essa história e tb postei a alguns dias! e teve uma desavisada atriz moçambicana, negra, que foi pro brasil e foi discriminada no shopping paulista! ela simplesmente achava que no brasil não tinha racismo!!
abraçoss!

Marcio Macedo (Kibe) disse...

Prezad@s,

Obrigado pela visita, leitura e comentários. Como sempre, dá pra perceber que as relações raciais no Brasil são cheias de nuanças bastante complexas. Mas nada que não dê pra combater como jogo de cintura, bom humor e informação.

Abraço a tod@s,

Márcio/Kibe.

Punk Canibal disse...

Cara, no meio anarquista o problema é outro! É muito feio eu ter um carro, que é movido a um combustível superpoluente, ocupa espaço demais etc. (a questão de que é produzido pelo sistema capitalista talvez conte, mas se fosse uma bicicleta ninguém reclamaria). É por isso que eu piro em "carro de negão" (suas palavras, ehehe) mas só vou poder ter se for carro elétrico ou movido a corda, pedalada, sei lá... Ah, mas eu dou carona!