sábado, 24 de outubro de 2009

Push Precious, Push... (Estante de Maloqueiro 2)

"It's Sunday, no school, meetings. I'm a dayroom at Advancement House, sitting on a big leather stool holdin' Abdul. The sun is coming through the window splashing down on him, on the pages of his book. It's called The Black BC's. I love to hold him on my lap, open up the world to him. When the sun shine on him like this, he is an angel child. Brown sunshine. And my heart fill. Hurt. One year? Five? Ten years? Maybe more if I take care of myself. Maybe a cure. Who knows, who is working on shit like that? Look his noise is so shiny, his eyes shiny. He my shiny brown boy. In his beauty I see my own. He pulling on my earring, want me to stop daydreaming and read him a story before nap time. I do." (Sapphire, 1997: 139)

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Em fevereiro fiz um post aqui no NewYorKibe intitulado Book, Books and Malcolm no qual escrevi que "um livro realmente te agrada quando você se sente transformado após a leitura dele. Seu humor melhorou, piorou, resolveu prestar vestibular ou dar um basta na sua vida?... Bang! O livro tocou em pontos cruciais da sua biografia, personalidade e subjetividade!" O trecho em inglês no início desse post é o último parágrafo do livro Push cuja autora é Sapphire. Lançando há 12 anos atrás o livro conta a história verídica de uma adolescente negra moradora do Harlem nos anos 1980. O texto é um baque e, sinceramente, durante vários momentos me senti extremamente mal e depressivo ao lê-lo. Não consigo imaginar o impacto de um livro como esse para leitoras, uma vez que o mesmo lida com temas tão complexos e delicados para o universo feminino. Na verdade, comprei Push por acaso. Estava na livraria Barnes and Noble comprando coisas para um curso e vi o livro exposto com um selo de que se tratava da obra cuja os produtores do filme Precious (2009) se basearam para criar o roteiro da película que faturou o Grand Jury Prize e Audience Award no Sundance Festival desse ano.

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(Cena de Precious)

Precious Jones é uma garota negra, nascida em 1970, obesa, dark-skinned (termo usado dentro da comunidade afro-americana para se referir a negr@s com pele de matiz mais escura) moradora da Lenox Avenue no Harlem, abusada pelo pai desde os sete anos. Aos 12 anos, após ser espancada pela mãe, deu a luz ao primeiro filho do pai que nasceu com Síndrome de Down. Aos 16 teve o segundo filho do pai. Jones é explorada pela mãe que recebe o dinheiro do welfare state que deveria ir para a filha e o neto doente que na verdade é cuidado pela avó da garota. Além de ser abusada pelo pai com a condescendência da mãe, Precious é obrigada fazer todo o serviço doméstico e cozinhar. Mesmo freqüentando a escola e estar prestes a ir para a high school (equivalente ao ensino médio no Brasil), Jones é analfabeta.

A vida de Jones começa a mudar pouco antes de ela dar a luz ao segundo filho, uma vez que é encaminhada a um programa de ensino alternativo para adultos: Each One Teach One. Ali ela conhece a professora Blue Rain e tem contato com várias outras alunas que tem histórias parecidas a sua: a garota porto-riquenha que viu o pai matar a mãe ao 7 anos de idade e acabou nas ruas se prostituindo e contraindo AIDS, a outra amiga jamaicana que era abusada pelo irmão e foi expulsa de casa pela mãe que não acreditou na sua história e investia todas as fichas na carreira de dentista do filho e ainda outra garota negra homossexual cuja orientação sexual não é aceita pela família e foi estuprada pelo pai da namorada que queria lhe mostrar como uma mulher devia ser portar. Pelo visto, não são histórias nem um pouco fáceis, mas estão todas registradas em Push. A leitura do livro também muitas vezes é difícil já que ele, em várias partes, é escrito no vernáculo negro e é necessário pronunciar o que está escrito em voz alta para entender o significado das palavras. Quando a passagem é muito complicada, há a ajuda da escritora. Veja as partes abaixo:

who tech mi who hep me I don no whut
(who teach me who help me I don't know what)
to sa it hard to xplxn i nver tel mi hole store. Yes I
(to say it hard to explain i never tell my whole story. Yes I)
need tess four AID I skred thas ALL four nov
(need test for AIDS. I scared that's ALL for now)
pane
(pain)
Precious Pane
(Pain)
2/1/89 (pág. 93)

* Quem me ensina? Quem me ajuda? Eu não sei o que dizer, que é duro explicar que eu nunca tenha contado minha estória inteira. Eu preciso fazer teste de AIDS. Eu estou toda assustada agora. Dor! Precious Dor. 1 de fevereiro de 1989.

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(Cena de Precious)

Tenho conversado com várias pessoas sobre o livro e como o mesmo me chocou. Duas noites atrás tomava um café com minha amiga de New School, Elisabeth Fallica. Lis é professora de high school no Bronx e é oriunda de uma família de intelectuais de Long Sland: o pai é professor do departamento de mídia na NYU e a mãe antropóloga formada pela New School. Para minha surpresa ela me disse que, apesar de não ter lido o livro, sabe que boa parte dos seus alunos leem e adoram o mesmo. Conclui isso por mim mesmo. Ontem, voltando para casa no metrô, abri o livro e comecei a lê-lo. Havia duas garotas hispânicas na casa dos 18 anos à minha frente e uma delas ficou olhando para a capa do livro. Depois de uma troca de olhares ela comentou: "It's such a good book!", "Yeah, but it's very painful", respondi. "This is reality!" ela retrucou. Enfim, não foi um livro fácil para mim. Como já disse, confesso que em alguns momentos tive vontade de parar de ler tamanho sofrimento que fora experimentado por uma garota de apenas 16 anos ainda mais considerando que o lugar em que ela experimentava esse martírio era seu próprio lar.

O filme entra em cartaz dia 6 de novembro aqui, irei assistí-lo. Meu exemplar do livro já está prometido para Willie, meu truta negrão que trabalha na manutenção da New School. Após lhe contar sobre a estória do livro, Will, que mora na 140 Street do Harlem, ficou mais que empolgado em lê-lo. Fiz esse post rapidinho, já que prometi lhe dar o livro na segunda. Assista o trailer do filme abaixo, cuja direção é de Lee Daniels e que conta com a participação de Mariah Carey e Lenny Kravitz.

Muita Paz!

5 comentários:

clebão robusto disse...

É Kibe, só pelo trailler já achei fortíssimo também...mas infelizmente é a realidade né, talvez o Livro e o Filme tragam um pouco de juizo em alguém...e nos faz mudar nossos conceitos.

Marcio Macedo (Kibe) disse...

Hi Cléber,

Duvido muito que o filme ou o livro possa mudar o pensamento/perspectiva dos agressores, mas talvez nos alertar que estar ciente de situações como essa e se manter calado é, de certa forma, compactuar com elas.

Abraço,

Márcio/Kibe.

José disse...

Eu imagino a transposição de um drama deste para a Terra Brasilis. Talvez evoluisse de um drama para um filme de terror.

Oga disse...

Cara, lembro que este filme me chamou a atenção por que o cartaz parecia a arte do Saul Bass (cara que fazia os porters do Hitchcock), vi a arte na lojinha do Itunes e acabei vendo o trailer. O foda é que aqui no Brasa ainda não chegou e pelo visto não vai chegar tão cedo. Ou seja, terei que baixá-lo...Por via das dúvidas vou procurá-lo na lista de filmes da mostra internacional de cinema.

Oga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.