quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Africanos, urgh!

A senhora de cabelos grisalhos sentou no banco do ponto de ônibus enquanto esperava sua neta sair da livraria na fresca tarde de sábado. 17 horas e a Avenida Paulista emitia uma tranquilidade impossível de se ver durante a semana. Até os seguranças do Conjunto Nacional vigiavam os traseuntes demonstrando certa preguiça. Tranquilamente, a mulher, já beirando seus 80 anos, começou a verificar os objetos comprados naquela tarde e que se encontravam em duas sacolas. Entretanto, um barulho de madeira batendo contra o chão perturbou sua concentração.
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Ao lado no banco sentou um rapaz alto, magro e pele cor de chocolate. Os cabelos compridos batiam no meio das costas, num penteado que ela só havia visto na TV. A calça, que com certeza que não era dele, estava caindo mostrando suas roupas de baixo e tinha sua barra - ou que fora dela - toda rasgada. Camiseta larga, tênis sujo e um fone de ouvido pelo qual vazava uma música esquisita. O garoto, sentado no banco e inquieto, apoiava os pés numa tábua de madeira com rodinhas que, assim como seu penteado exótico, ela também jurava já ter visto na TV. Depois de algum tempo a mulher esqueceu o jovem e voltou sua atenção para as duas sacolas cheias de objetos. Um abajur comprado numa loja de antiquidades, roupas a serem dadas de presente aos netos e bisnetos, livros e uma jóia. Apreciava tudo detidamente quando, de repente, quase pulou de susto... Ouviu um estampido e levantou a cabeça para verificar de onde vinha o som. Foi aí que viu outro rapaz também alto, pele cor de chocolate usando uma espécie de pente em forma de garfo enfiado no meio do cabelo crespo levantado. As roupas dos dois garotos eram parecidas e o estampido tinha surgido do encontro das mãos de ambos. Um cumprimento, ela supôs. O último garoto sentou do seu outro lado e ela ficou bem no meio dos dois.

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"Porra, tru! Miliano que num te trombo, mano!"
"Pode crê muleke, variás fita rolando ó"
"Mas então, e aquela pule, lá?"
"Mó da hora, mano! Vários rolê e tal, se pá é nóis no baguio"
"Oh muleke, liga nóis qualqué coisa aí, tá ligado?"
"Firmeza total tru, nóis é nóis jacaré é um bicho, tá ligado?'"
"E aí nego, pego aquele pisante lá?"
"Nem mano, 500 conto num 12 mola?... Xá pra lá, mó preju, tá ligado? Mais 100 cruzeiro e eu meto um iPhone tá ligado, vô paga de gringo no rolê!"
"Pior hein, mano! Mó função hein, loko loko loko!"
"Tô na pegada de uns mano correria aí que vai passa um pra mim, tá ligado? O baguio é quente!"
"E as mina, tru?"
"Tô suavão, ó! Tava com uma Dona Maria aí, mas cê tá ligado né, mano, nóis é vida loka, né?! Vários perdido e tal, tá ligado?"
"Pior! Eu também tô a pampa... Só curtindo, tá ligado?"
"E aí, bem loko esse seu bléqui, hein mano? Deu um tapa onde? Galeria?"
"Lá memo. Tem um vagabundo lá que domina as arte das tesoura, manja? Mas aí, o teu dread tá mó da hora tamem, hein?"
"Vários anos cultivando o baguio né, tru?... Vixe, meu buzo, mano. Aí é nóis, bate um fio pra nóis fazê aquele rolê, hein?"
"Ô demorô, é nóis! Vamos chegá chegando no baguio, tá ligado?"
"Sumemo, tru! Fuiiiiii"
"Firmeza total vagabundo! Vô dá linha na pipa tamem!"

Enquanto um rapaz de pele cor de chocolate subiu no ônibus que estacionara no ponto o outro deu um salto e saiu pela calçada se equilibrando em cima da tábua de rodinhas. A senhora, ainda atordoada pela conversa que ouvira, pensava com seu botões: "Essa gente, viu? Vem pro Brasil e nem fala português direito! Africanos, urgh!".

5 comentários:

ari disse...

Sem comentários....

Mojana disse...

Também, além de africano, receptador...coitada da velhinha!!!

Oga disse...

Muito bem meu querido...ficou bem legal este texto também.

maria paula disse...

kkk, ótimo, me lembrou um episódio que me aconteceu num ponto de ônibus em Lisboa, aliás, em Belém. tinha eu ido comer os famosos pastéis de Belém, e no ponto do "autocarro" bem na frente da centenária pastelaria, já no fim da tarde, lotado, havia vários portugueses (óbvio), muitos turistas e um grupo de uns 6 ou 7 meninos, rapazinhos, de 13 a 16 anos, africanos (não dava pra saber de onde), ou talvez até mesmo filhos de africanos nascidos em portugal. os meninos estavam com um som portátil, ouvindo meio alto (não muito, pra mim que sou da bahia...)um música que não reconheci de imediato, e dançavam performaticamente, formando uma semi-roda (semi, pois no ponto do busu, espremido pela pista, não dá pra ser roda mesmo...), e cada vez um entrava no meio, fazendo uma espécie de freestyle. em meio a isso, eles fingiam brigar, pois afinal tava rolando uma competição, e brincadeira de menino homem sempre é meio brincadeira de mão, com certa algazarra. mas era óbvio que não tinha briga nenhuma, estavam morrendo de rir, botando banca pra ver que era o "bão".
Nisso, uma senhora portuguesa, seus 60 anos, com a neta,quase se agarra no meu braço, dizendo (de certo me tomando por Tuga também, ai, Jesus!)"olha aí, esse aí são assim, agora estão aí a achar que tudo é deles! olhe como Lisboa está perigosa! e nós não podemos dizer nada!". repliquei "mas senhora, são meninos, estão brincando.não tem perigo nenhum". de certo contrariada por ouvir meu sotaque brasileiro, e pensando "essa aí também... mais uma... credo, gentinha!!!", ela se calou. saí do lado da tuga e fui puxar papo com os moleques: "e aí, o que vc tão dançando, pá?". eles, super tímidos, sem esperar que uma tia branca viesse vir trocar essa idéia, começaram a rir, até que um lançou "é kuduro!". Aí eu: "porra, eu sabia, lá na minha terra também tem kuduro, lá na Bahia, no Brasil. o pessoal de lá que faz pagode ouviu o som de vcs, gostou, misturou com o pagodão, e agora tm lá uma rapaziada chamada Fantasmão que faz o Kuduro Angola-Bahia. cês tão ligado?". Eles, se matando rir, ficaram alvoroçados, e o mais ousado falou "eu sei, eu conheço. E tem também forró! vamos dançar um forró?", me perguntou, já fazendo o gesto, uma mão na barriga e a outra levantada em posição de dança. "Bora ver se vc sabe mesmo!". E lá foi a brazuca balzaquiana, agarradinha com o menino guineense de 15 anos, remexendo no ponto de busu de Belém. para o horror absoluto da velhinha portuguesa, que neste momento subiu correndo no autocarro, provavelmente sem nem sequer ver se era mesmo o seu, decerto pensando em como essa gentinha colonizada deturpou o luso-tropicalismo...
bjs!

Jaqueline disse...

Rs... gostei da história da Maria Paula também.
Mas afinal que língua a gente fala? rs
Porque até a tiazinha assustada não fala o português original aqui no Brasil, tenho certeza disso. Duvido que ela fala nádegas ao invés de falar bunda...rs
Abs