terça-feira, 13 de outubro de 2009

Entre Limonadas e Corinho!

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O homem de feições indianas a observava com curiosidade, "May I help you, lady?", disse com forte sotaque britânico. "No thanks, I am just looking at it!". O inglês da moça não permitiu ao vendedor identificar ao certo sua nacionalidade, mas apenas descartar algumas como caribenha e francesa. Talvez, pelas maneiras, fosse norte-americana ou de algum país africano. Ele continuava a observá-la com interesse, tomando a precaução de não se extender demais ou parecer vulgar. Tinha idade para ser seu pai.

A moça beirando seu vinte e cinco anos continuo a olhar pela prateleiras de cosméticos da Harrods e, subitamente, focou a atenção sobre uma foto e abriu um sorriso infantil. O homem olhou para a imagem e, a seguir, voltou-se surpreso para a garota novamente. Pareciam... Não, eram a mesma pessoa. Abriu um sorriso e sentiu-se um pouco mais à vontade "You look gorgeous, mademoseille!", "Thank you, sir", respondeu ela ainda mantendo seu olhar sobre a propaganda do creme hidratante a base de limão que trazia seu rosto. Não, a irônia ou graça da situação não estava necessariamente em se deparar com seu rosto dentre as várias outros modelos que emprestavam a face para advertisements de Lancômes, Dolce & Gabbanas, Vitoria's Secrets, Chanels, Marcs Jacobs e Carrolinas Herreras na seção de beleza da loja de departamentos. Isso já tinha virado rotina após 10 anos expondo seu rosto e corpo para fotógrafos das mais diversas nacionalidades.

Sua memória a fez aterrisar no quintal da casa de um cômodo na qual morava com a mãe e três irmão quando ainda criança. O sabão de cinzas que a mãe usava para lavar a louça era o mesmo que toda a família usava para tomar banho e lavar os cabelos sendo produzido pela família. Sua mãe também era detentora de uma poderosa mágica em produzir algo que, nos supermercados da cidade inacessíveis a eles, era conhecido como condicionador de cabelo. Havia uma planta, babosa, no quintal da qual sua mãe tirava o gel que ajudava a hidratar e pentear seus cabelos crespos antes das tranças serem feitas. Diferente das outras famílias que moravam ao redor, eles raramente passavam fome devido ao quintal farto de milharais, pés de mandioca, beterraba e galinhas. Dessas últimas, sempre uma ou duas cocoricós eram surrupiadas por algum vizinho em situação não tão favorável. Mas havia algo que sua mãe não conseguia dar jeito para além da fome e higiene: o corinho.

Era só chegar o inverno para que a pele dela, de seus irmãos e de sua mãe fosse aos poucos ressecando a ponta de ser possível escrever frases inteiras no braços, costas, peitos e pernas bastando ter um objeto pontiagudo como um galhinho de árvore para fazê-lo. Era constrangedor ir à escola com a pele russa e ser motivo de piadas, os garotos brancos não podiam falar absolutamente nada de seus cabelos arrumados, cortados e trançados ou de suas roupas imaculadamente brancas, mas aquele corinho... Não havia maneira de dar jeito no mesmo uma vez que o preço do creme hidratante o tornava inacessível a sua família. O óleo de cozinha podia ser uma solução, apesar do cheiro e da lambuzeria que fazia. Uma vez, Jessica usou o dito cujo, mas se arrempendeu profundamente, pois não parava na carteira da escola. Ficava dançando para lá e para cá devido a viscozidade do óleo na pele. E além do mais, tinha usado escondido. Óleo era talvez o único produto industrializado que entrava naquela casa de um cômodo construída por seu pai antes dele ir viver com outra família.
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Mas tudo mudou um dia quando, cortando limões para uma limonada, Jessica deixou acidentalmente um gomo deles cair sobre sua perna. Ao olhar para ela percebeu que o local em que o limão havia batido estava protegido do corinho dando uma aparência natural a pele escura. Ficou deslumbrada! Cortou mais limão e passou pelas pernas... Era verdade o sulco do limão cobria o maldito corinho. Ficou exultante, aquilo seria a sua salvação e dos seus irmãos. Durante tanto tempo a solução estava lá, no quintal de sua casa, mas nunca tinha ela notado o limoeiro como um possibilidade. Ninguém mais tiraria sarro dela a chamando de quadro negro ambulante ou preta virando branca. Contou a novidade a mãe que, surpresa, também fez o teste. Aprovado! Sua mãe também adotou a nova descoberta, mas com sua sabedoria de nega-véia disse que seria necessário inserir um pouco de água, já que o limão puro em contato com o sol poderia queimar e deixar marcas na pele dos seus pretinhos. E assim a família pobre resolveu seu grande problema de corinho e podia, consequentemente, ir para a missa de todo sábado ou para a escola sem que ninguém comentasse algo sobre a pele russa. A dignidade daqueles pretos altivos havia sido reconquistada e o corinho mandando aos infernos!

Passado alguns anos, foi com surpresa que ela respondeu a pergunta do rapaz louro e de olhos azúis iguais aos da imagem de Jesus que sua mãe mantinha na parede de casa. Dizendo ser um "rédiranter" de uma agência de modelos, o Jesus de cabelo curto olhara impressionado para a sua pele e perguntara qual hidratante a garota usava, "Hidratante, que hidratante?! Eu uso é limão, moço. E é a minha mãe que faz, óh!"

7 comentários:

Toni D'Agostinho disse...

Gostei muito do seu blog, dos textos.
Parabéns!

Marcio Macedo (Kibe) disse...

Muitíssimo obrigado pela visita e elogio ao blog Toni! A propósito, já sou seguidor do seu há algum e pago um pau pra suas caricaturas. A do Max Weber, que você fez para aquela revista de sociologia, é uma das minhas favoritas. Parabéns pelo trampo e seja sempre bem-vindo ao NewYorKibe.

Abraço,

Márcio/Kibe.

Jaqueline disse...

Muito bom Kibe!
Na minha casa o problema nunca era o fim, minha mãe sempre arrumava um jeitinho caseiro pra resolver nossos problemas ou problemas que os outros atribuiam a gente.
Adorei...
Beijo

Marcio Macedo (Kibe) disse...

Obrigadinho pela leitura, Jac!

Lá em casa minha coroa fazia mágica com o dinheiro, tanto que em 1980 eu, meus pais e minhas duas irmãs morávamos numa casa de dois cômodos (quarto e cozinha, sem laje) construída pelo meu coroa. Em 1984 estávamos na mesma casa, mas com dez cômodos (com laje), de modo que, eu, minhas irmãs e os coroas tinham seus próprios quartos. A coroa é foda! Como diz Emicida, "felicidade pra nóis é um sorriso da coroa!" :)

Gostei do novo layout do seu blog, ainda hoje passo e vou ler o texto sobre as suas saudades do que não viveu!

Beijos carinhosos,

Márcio/Kibe.

Mjiba disse...

Parabéns pelo texto..lá vai mil e um recordações.....
Abraços poeticos...
Elizandra

Marcio Macedo (Kibe) disse...

Prezada Elizandra,

Muitíssimo obrigado pela leitura e comentário do texto!

Abraço carinhoso,

Márcio/Kibe.

Anônimo disse...

Que criativo!
Adorei!