quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Books, books and Malcolm...

Malcolm X waits at Martin Luther King Press Conference, 1964 Photographic Print by Marion S. Trikosko

Caso você não goste de ler, esse post não lhe será de muita utilidade. Contudo, se você é daquele(a)s que lê esporadicamente ou que não lê, mas tem intenção de deixar o sendetarismo mental de lado, ou é simplesmente curioso, seja bem-vindo! Pergunta: você alguma vez já elaborou uma lista dos seus 10 livros favoritos? Favorito nesse contexto significa algo como ir até a estante da sua casa ou a uma livraria nesse exato momento, pegar ou comprar um desses livros listados, sentar num sofá comfortável e sentir prazer em lê-lo mesmo o já tendo feito uma, duas, três ou sei lá quantas vezes e sempre se lembrando da primeira vez que o fez. Pois bem, eu tenho a minha lista. Aí vai...

1- A Autobiografia de Malcolm X - Alex Haley/Malcolm X (1965)
2- Questão de raça - Cornel West (1992)
3- Dom Casmurro - Machado de Assis (1899)
4- Pérola Negra - Toni Morrison (1981)
5- Cem Anos de Solidão - Gabriel Garcia Marquez (1967)
6- Recordações do Escrivão Isaías de Caminha - Lima Barreto (1909)
7- O Atlântico Negro - Paul Gilroy (1993)
8- Casa Grande & Senzala - Gilberto Freyre (1933)
9- Mozart: sociologia de um gênio - Nobert Elias (1991)
10- If Beale Street Could Talk - James Baldwin (1974)

Um livro realmente te agrada quando você se sente transformado após a leitura dele. Seu humor melhorou, piorou, resolveu prestar vestibular ou dar um basta na sua vida?... Bang! O livro tocou em pontos cruciais da sua biografia, personalidade e subjetividade! Todos os livros acima fizeram isso comigo e posso relatar em detalhes o que acontecia na época da leitura de cada um. Vou fazê-lo rapidamente com apenas um...

Li A Autobiografia de Malcolm X quando estava saindo da adolescência. O livro era leitura obrigatória para todos que naquela época ouviam o primeiro álbum dos Racionais MCs, Holocausto Urbano (1991), e ainda aguardavam o lançamento do filme de Spike Lee sobre a vida dele. Coisa parecida ocorreu com o pessoal do movimento negro dos anos 1970 que leu Alma no Exílio (1968) do Eldridge Cleaver (outro livro polêmico para a época!) e devia se esbaldar dançando Jorge Ben (e não Benjor, pelo amor de Deus!). Um dia desses atrás li uma reportagem antiga de revista onde Mano Brown afirma que quase fez umas merdas depois de ler o livro. Pois é, eu também fui "atropelado" por aquelas páginas: parei de comer carne de porco, beber e me tornei um jovem carrancudo, revoltado com o racismo da sociedade pensando seriamente em deixar de lado o meu querido São Benedito me tornando muçulmano. Foi minha época de querer matar um branco por dia (meus amigos brancos fiquem tranquilos que hoje não faço mais isso, aventuras da juventude!) *rs*. Na verdade, há vários Malcolms nesse livro: o orfão, o jovem promissor, o bandido, cafetão e traficante, o ministro revolucionário que defende o uso da violência no contexto de legítima defesa e o homem que pede a união de grupos e pessoas diferentes. Você escolhe o seu: fiquei com o último da lista! Mas foi um processo, pois como dizia Florestan Fernandes: todo negro para tomar consciência de sua negritude deve ser tornar, num primeiro momento, um anti-branco! Malcolm fez isso comigo, mas hoje sou pelo arco-íris e uso a mensagem da última parte da sua biografia.

Vamos lá, faça sua lista de 10 livros, escolha dentre eles um e relembre a época em que o leu descrevendo como a obra mexeu com você. Infelizmente, quem se suicidou devido a influência de algum livro não vai poder dar o seu testemunho! *rs* Se quiser compartilhar comigo e os leitores do blog, joga aqui no comments a sua lista e descrição do livro. Vou adorar saber...

Esse post também tem uma pegada de homenagem já que aqui nos EUA vivemos o mês da história negra e ninguém melhor para representar essa história do que o homem lá da foto, não?!

Paz!

17 comentários:

:: Soul Sista :: disse...

Oh Kibe, fala a verdade! Você quer comentários ou que seus leitores façam outros posts dentro do seu? Sei não... Será que caberá tudo aqui? Vejamos! Lista de 10 não dá. Tempo curtíssimo, memória não muito boa. Mas de 3 dá. Então, esta é a minha:

1- Paixão segundo GH - Clarice Lispector
2 - Peles negras, máscaras brancas - Fanon
3 - O ensaio Que "negro" é esse na cultura negra - Stuart Hall

A leitura relativamente recente do ensaio de Hall me fez rever inúmeras questões relacionadas ao signo afro, repensando algumas (digo algumas, não todas que fique bem claro... ou escuro – rsrsrs) das idéias incendiárias que me tomaram desde a primeira leitura do magnífico Peles negras, máscaras brancas, nos primeiros anos da década de 90. Li ambos os textos em fundo processo de identificação com as idéias que por lá circulam.

Agora, a autora que me acordou pra leitura, que me fez jamais querer ficar distante de livros, principalmente ficcionais, foi Clarice Lispector. Seu Paixão segundo GH era também meu, tive certeza disso aos 17 anos, quando cursava o último ano do Ensino Médio. Nunca mais o reli inteiro, porque é forte demais até hoje me encontrar com páginas em que GH envereda numa viagem muita louca para dentro de si. Tomada por um fluxo alucinatório, me sentei numa poltrona lá de casa e só consegui levantar quando faltavam umas cinco páginas para finalizar o tal romance. Levantei, porque me recusava a acabar a leitura. Queria que aquela sensação jamais acabasse. Então, depois, li uma a uma das cinco páginas em dias sucessivos, para que demorasse quase para sempre o meu prazer de ter comido, junto com Clarice/GH, uma barata, inseto que eu tenho simplesmente pavor, mas que ali na história, era bem crocante, quase um camarão frito - rsrsrsrsrsrs. Naquele empenho de acompanhar os passos de GH, anotava com enormes letras lilases o sentimento de participar daquele enredo que nem por mim tinha sido inventado. Na hora em que a narradora pediu para que dessem a mão a ela, entrei na história e me transformei na outra personagem, bem ali de mãos dadas com aquela mulher que fica horas num minúsculo quarto dialogando com uma barata morta. Ai, ai, chega a ser engraçado lembrar de tudo isso agora! Mas enfim, acho que até hoje estou de mãos dadas com aquela intensa sensação... É ela que tem me levado a outras inúmeras leituras que não cabem numa lista das dez mais.

Agora, adoro listas dos outros. Adoro! Aguardarei uma lista das suas dez melhores músicas, viu?

Beijinhos magros – é tempo de dieta, de dieta... rsrsrsrssrsrsrsrs

Flavius2net disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Flavius2net disse...

É complicado fazer uma lista, mas vou mandar a minha:
1- autobiografia de malcom x - alex haley
2- If Beale street could talk - james baldwin
3- A metamorfose - Kafka
4- Black Boy - Richard Wright
5- Raízes do Paraíso - Sergio Buarque de Holanda
6- A narrative of an ex-slave man - Frederick Douglass
7- O caçador de pipas - Khaled Hosseini
8-Quem matou Palomino Molero - Mario Vargas Llossa
9- Os Bestializados - José Murillo Carvalho
10- Capitães da Areia - Jorge Amado

Flavius2net disse...

legal essa foto de Malcom X. Momento de serenidade.

Kibe disse...

Hey Soul Sista,

Muito "foderoso" o seu relato da experiência de ler GH. Adorei! Nunca consegui ler um livro nesse estado febril, mas espero que ainda role um dia. O que chegou mais perto disso foi a leitura Cidade de Deus do Paulo Lins. Contudo, aquele livro é tão grande que foi impossível ler em dias, levei semanas. Porém, não largava do livro. Todo dia saia das aulas na faculdade correndo e ia pra biblioteca ou pra casa desfrutar as páginas escritas por Lins.

Você me fez ter vontade de voltar a ler Hall e Fanon (ótimos!) e também tive uma idéia para outro post.

Beijos carinhosos e thanks pela leitura, a lista e o relato!

Kibe disse...

Grande Flávio Sumido!

Olha só, alguns livros que apareceram na sua lista eu já imaginava, mas ficou faltando o seu relato. A propósito, mais duas coisas. A primeira é que sempre que me lembro de você descrevendo cenas do livro de Malcolm X num ônibus lotado indo USP em direção ao centro de SP, morro de dar risada! Segundo, o que você achou de If Beale Street Could Talk do Baldwin?

Valeu pela leitura e a lista!

Abraço,

Tulio Custódio disse...

Opa Kibe..belo post!! Só faltou Abdias do Nascimento, aquele grande texto "Genocídio do Negro Brasileiro".. ele teve para mim o mesmo impacto que teve a biografia do X para ti...

Concordo com Flavio: Black Boy é um livro memorável..

E destaco também outro do Haley: Roots! Esse livro terminei arrepiando e sentindo o peso das coisas..

Bom, abraços ai a todos..

Raphael Neves disse...

Pô, Kibe, você me meteu numa enrascada. Lista é muito difícil. Acho que são todas injustas. Eu gostei da biografia do Malcom X, que comecei a ler aqui nos EUA. Duro é a parte em que ele começa a falar das maluquices lá da religião. Aquela história de que havia uma ilha de negros, aí um cientista começou a produzir brancos etc.

No chute:

Grande Sertões
Crime e Castigo
Dom Casmurro
Memórias Póstumas
O Vermelho e o Negro
Ensaio sobre a Cegueira
O Homem que Calculava (livro que meu pai me deu e que li na infância, tem peso 2 por causa da afetividade)
O Ateneu
Memórias de um Sargento de Milícias
O Primo Basílio

Abraço,
Rapha

Mojana disse...

Primeira coisa: Flávio, você produziu um "dois em um" com os livros do Sérgio Buarque. Vc se refere ao "Raízes do Brasil", ao "Visão do Paraíso" ou a ambos?

Mojana disse...

Minha lista pode ter algumas coisas estranhas especialmente para aqueles que me conhecem, mas acho que vai ser legal conhecer as impressões de vocês a respeito, rsrs.
O Evangelho Segundo Jesus Cristo - J. Saramago;
Como água para chocolate - L. Esquivel;
Incidente em Antares - E. Veríssimo;
São Bernardo - G. Ramos;
O Analista de Bagé - L.F. Veríssimo;
O Pequeno Príncipe - A.S. Exupérie;
Formação do Brasil Contemporâneo - C.Prado Jr.;
Raízes do Brasil - S. B. Hollanda;
Mulato: negro não-negro e/ou branco não-branco - E. A. Reis;
O cortiço - A. Azevedo;
Os Jacobinos Negros - C.L.R. James.
Eu relutei em incluir o livro do Saint-Exupéri nessa lista por conta das piadas a respeito do mesmo. Mas decidi colocá-lo porque foi uma das leituras mais prazerosas da minha infância e eu acredito que é uma leitura muito saudável para qualquer pessoa até os 12 anos de idade. Daí pra frente, pode causar danos cerebrais irreversíveis, rsrsrs.
Na categoria de leituras descomprometidas eu incluí a Laura Esquivel e o L. F. Veríssimo. O analista de Bagé tem algumas das minhas piadas favoritas, rsrsrs. Já o romance dessa escritora mexicana é uma fábula excelente para ler nas férias.
O livro do Graciliano Ramos parte de uma premissa bastante pessimista sobre as natureza das pessoas sugere uam reflexão bastante intensa e difícil sobre nós mesmos e a nossa forma de nos relacionar com os outros, pessoalmente, foi uma das leituras mais marcantes até o momento.

Flavius2net disse...

Fiz menção ao Raízes do Brasil, quando postei minha lista.

Kibe disse...

Hey Túlio, Rapha e Mojana,

Obrigado pelos comments e as listas!

Realmente vi vários livros nas listas de vocês que gostoria de ter incluido na minha. Isso só comprova algo que já sabemos: listas desse tipo são sempre arbitrárias.

Ontem estava de rolê pelo Harlem com uma amiga e visitei o lugar onde Malcolm X foi assassinado, um antigo salão de baile entre 166 e 165 Street com a Broadway Avenue em Washington Heigths. Parte do prédio virou uma espécie de memorial a Malcolm e sua esposa Betty Shabazz.

Abraço a todos,

Márcio.

Kibe disse...

Recebi esse email do meu amigo Jorge Mesquita e resolvi publicá-lo aqui no blog como comentário...

Bom dia!

Abraços meu irmão e muita luz em sua caminhada. Os negros brasileiros adoraram a vitória de OBAMA, no entanto, sabemos que temos muito o quie fazer para melhorar. Quanto ao seu comentário após sua leitura da biografia de "MALCOLM X" muita coisa mudou comigo também na época. Me lembro um dia em que eu, meu primo (lutador de boxe) e mais 5 (cinco) jovens negros (todos lutadores) passávamos em frente a uma lanchonete cheio de jovens brancos (com toda frescura burguesa, exibindo os relógios e correntinhas de ouro, roupas de marcas famosas, etc...). De repente um dos meus colegas reconheceu dentre a turma dos "brancos" um membro que havia lhe ofendido anteriormente (seu pobre, urco - personagem do filme "Planeta dos Macacos) imediatamente entramos e todos olharam para nós, só foi o tempo suficiente de meu colega dizer aquele rapaz branco: "Você lembra de mim?"...Resumindo, esses brancos apanharam tanto que não havia quem nos segurasse, além de batermos neles (e muito...) quebramos a lanchonte e inclusive o dono do estabelecimento. Saímos com um ar de satisfação, realizados mesmo. Só que a história não terminado para mim, o dono da lanchonete havia me reconhecido, pois eu já estive la com Pai (Ele era Fiscal da Prefeitura na época) algumas vezes por que o "velho" gostava dos lanches dali. O dono não pessou duas vezes em relatar com "detalhes" sobre o terrível fato, no entanto, meu pai com grande sabedoria me ensinou a combater o racismo de outra forma e não com violência (mas a pegada foi forte....). Com certeza amigo que não isso já faz anos, mas as experiências que tivemos bem como a lição de nossos antepassados, só contribuiu para continuar nossa luta pois aque que disse "Eu tenho um sonho..." já foi realizado. Cabe a nós fazermos a nossa parte.

MUITA PAZ..

Jorge Mesquita

jl_mesquista@yahoo.com.br

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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Maik Blogger disse...

Olá, amigos. Gostaria de saber se vocês têm ou conhecem alguém que tenha o livro "Autobiografia de Malcolm X". Preciso desse livro com urgência para uma pesquisa. Estou disposto a negociá-lo. Mesmo sendo uma cópia xerocada. Aguardo sua resposta no e-mail: maikblogger@gmail.com