quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Money Shot: A Indústria Pornográfica Negra nos EUA

 

Uma das coisas que fiz durante os últimos suspiros de 2009 foi ler (para variar!). Viajei nuns poemas e contos de Paulo Leminski (1944-1989), uns textos meio sem pé nem cabeça de Norbert Elias (1897-1990), flertei com umas coisas bem velhas de Joseph Schumpeter (1883-1950) devido a sugestão de meu truta Rogério Acca e devorei a pontinha que faltava de um livro de bell hooks com a qual cheguei a conclusão que as mulheres (e homens!) precisam recuperar o feminismo radical, mas tudo isso é história pra um outro post. Quero falar aqui de outra leitura de final/início de ano: Money Shot: The Wild Nights and Lonely Days Inside The Black Porny Industry (2007) do escritor Lawrence Ross. Conheci Ross, que mora em Los Angeles, em 2001 quando ele me entrevistou para um livro que estava escrevendo na época sobre pessoas negras vivendo em diferentes partes do mundo. Desde então mantemos contato por email e, recentemente, via Facebook. Há tempos já sabia desse livro, mas não tinha tido tempo de lê-lo ainda devido a corrreria. Quando me livrei de meus afazeres acadêmicos no último mês, não pensei duas vezes em fazê-lo.

Money shot é uma expressão usada na indústria pornográfica norte-americana para fazer referência ao fechamento de uma cena e, na maioria das vezes, o momento em que o ator masculino chega ao orgasmo ejaculando em alguma parte do corpo de sua/seu parceir@. Em suma, o momento em que todos sabem que a parte  central de um filme porno está terminado e todos receberão seus cheques. Durante três anos Ross entrevistou entre 35 e 40 pessoas como atores, atrizes, diretores, swinguers, empresários, fãs e acadêmicos estudiosos do tema. O resultado são quase 300 páginas nas quais o escritor apresenta, através de sua escrita leve, as histórias dessas pessoas e as questões envolvidas na existência e funcionamento de uma indústria pornográfica negra nos EUA.



De acordo com Ross, os primeiros filmes pornográficos negros da América foram feitos nos anos 1970 (acima imagem do filme Lialeh, 1974) pegando carona na onda blaxploitation onde sexo estava presente, mas não era algo central. Contudo, esse segmento do mercado se desenvolveu com força somente nos anos 1990. Ver (ou ler sobre) as entranhas da indústria porno é um misto de estranhamento e mal-estar. Não sou um leitor moralmente inclinado, mas muitas vezes é difícil lidar com representações que nos dizem muito a respeito de verdades presentes na sociedade como um todo. Em outros termos, a indústria pornográfica negra reproduz as lógicas de desigualdade, racismo e imaginário que a população afro-americana está submetida na América do Norte.  Além do mais, tendo a entender que mesmo estando já há quarenta anos da revolução sexual, sexo ainda é um tema controvertido (pense na discussão sobre pedofilia e/ou prostituição).

Por outro lado, um detalhe importante na indústria pornográfica é que, devido a ser algo para ser consumido privadamente, as películas para consumo adulto são um campo fértil para a reposição de todos os estereótipos que há séculos se constrõem sobre os corpos de homens e mulheres negras e sua sexualidade. Caso emblemático disso é o contado por Ross a partir do encontro com a atriz pornô Melodee Bliss. Nos seus vinte e poucos anos, Bliss havia acabado de entrar no mercado de produções pornô. De acordo com ela, sua motivação para ingressar nesse ramo se deu devido a possibilidade de ganhar dinheiro ao mesmo tempo que se fazia algo que ela aprecia: sexo.  Bliss começou fazendo escort, uma espécie de prostituição de luxo contratada por artistas, atletas entre outros endinheirados, antes de fazer suas primeiras cenas. Seu objetivo, assim como se vê na maioria dos depoimentos das atrizes/atores, é ganhar popularidade através de um site próprio e subir ao next level da indústria: dirigir filmes. Mas Bliss tem uma objeção em suas cenas, em suas palavras... "Nobody's going to fuck me in my ass, because I think I'm too cute for that", "I have a diferent look. But I would do an anal movie for my company, so I get all the benefit". Na ocasião do encontro, a atriz deu ao escritor uma fita com seu último filme. A mesma garota que não aceita fazer sexo anal por se achar too cute transa no vídeo com três homens brancos num gênero muito específico do pornô norte-americano: interracial entre homens brancos e mulheres negras no qual essas últimas são humilhadas, espancadas e abusadas.  Durante trinta minutos Bliss, vestindo apenas um top com os dízeres Boy Toy, é "forçada" a fazer sexo oral de forma brusca e violenta até ficar sem ar, leva tapas e cuspidas no rosto e seios, é penetrada de quase todas as formas possíveis, e tem todo o rosto coberto pelo esperma dos três homens além de ser "obrigada" a rastejar de joelhos sobre saliva e esperma. Como afirma Ross, "remember, it's not what you say you won't do in porn, but what you will do, that counts".

A maioria dos atores e atrizes entrevistados pelo escritor afirma ter entrado no ramo atraídos pelo dinheiro e devido a necessidades financeiras. Homens recebem entre US$ 250 e 400 por uma cena simples (homem/mulher que envolva sexo oral e penetração vaginal)  enquanto os valores pagos para mulheres variam entre US$ 500 e 900.  Entretanto, atrizes e atores negros geralmente recebem menos. Uma atriz branca em início de carreira começa recebendo por volta de US$ 800 por cena enquanto uma negra nas mesmas condições irá receber 500.  A possibilidade de fazer várias cenas durante o dia (às vezes até três) e a flexibilidade do horário de trabalho atrai os novatos cujo o faturamento gira em torno de US$ 6000 a 8000 mensais. Para se ter uma idéia, uma professora de ensino fundamental numa escola pública de NYC recebe em torno de US$ 3800 mensais. Boa parte dos entrevistados também possuem educação superior e família estruturada algo que se contrapõe ao estereótipo do ator/atriz de filmes pornográficos como desviantes.

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A quase totalidade de produtoras estão localizadas na Califórnia, numa área próxima a Hollywood chamada San Fernando Valley e conhecida como Porn Valley. A maioria dos atores/atrizes mora nas redondezas de modo a diminuir custos de transporte e mostrar-se disponíveis a realizar vários trabalhos num curto espaço de tempo. É ali que também reside Lexington Steele (foto acima).  Steele é um dos mais famosos, requisitados e caros atores da indústria e em 2004, época do início da produção do livro de Ross, estava iniciando sua própria produtora, a Mercenary Pictures.  O empresário/ator tem uma história diferenciada de seus coworkers. Lexington era um stockbrocker (corretor de valores) trabalhando em Wall Street antes de se tornar ator.  Os valores pagos no emprego lhe proporcionavam ter um estilo de vida comfortável, mas o ritmo de trabalho - em torno de 60 a 70 horas semanais - não lhe permitiam tirar proveito do dinheiro que ganhava. Foi então que resolveu pedir demissão do emprego e se aventurar por outros ramos. Após perambulações chegou a indústria pornográfica onde seu pênis de 11 polegadas de comprimento (27.94 centímetros) e boas performances em cenas lhe garantiram um lugar de destaque. De acordo com Lexington, atores que mostram ter uma boa performance são mais requisitados e mantem-se por mais tempo na indústria. Atrizes tem uma carreira mais curta devido a alta rotatividade. Uma boa performance, para atores, significa ter ereções e mantê-las no decorrer do processo de gravação das cenas. Muitos atores quando tem uma carga elevada de trabalho - de duas a três cenas num mesmo dia - confessam usar drogas para dar conta dos compromissos utilizando Viagra e outros estimulantes sexuais.

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Uma das questões delicadas envolvendo o trabalho na indústria pornográfica diz respeito ao risco do HIV e o uso de preservativos. O uso da camisinha em filmes não agrada boa parte da audiência heterossexual e majoritariamente masculina. Isso força a que a quase totalidade dos filmes seja produzido/filmado sem o uso de preservativos. Atores/atrizes devem testar-se a cada 30 dias e apresentam seus testes antes de cada cena. Todo esse aparato é controlado e administrado pela AIM (Adult Industry Medical Care), mas mesmo assim há falhas e perigos. Foi o que aconteceu em 2004 no caso Darrem James, um ex ator negro (foto acima).  Nosso país entra no mapa da indústria pornográfica devido ao baixo custo da produção e dos atores - quando comparado aos EUA - e ao imaginário que gira em torno da beleza não só da mulher brasileira, mas gays e travestis também.  Entretanto, no Brasil não há - ao menos de acordo com Ross - nenhum orgão responsável por controlar/admnistrar as condições de saúde e exames dos profissionais atuando na indústria pornô.  Darren James e Mark Anthony, outro ator negro,  trabalharam no Brasil por duas semanas e ao voltar para os EUA fizeram seus testes de HIV cujo o resultado foi negativo. Voltaram ao trabalho e filmaram, dentre outras performances, uma cena juntos na qual faziam uma dupla penetração anal numa atriz canadense novata na indústria, Lara Roxx. No dia seguinte Lara acordou com febre e infecções. Após fazer o exame Roxx foi diagnosticada positivo para HIV o que gerou pânico na indústria e forçou a AIM a decretar a suspensão de todas as filmagens no Porn Valley por 60 dias até que se rastreasse quais e quantos eram os atores infectados e como o furo tinha ocorrido. No total 4 pessoas foram infectados (três atrizes além de James) e a suspensão das atividades foi reduzidas para 30 dias.

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A pornografia negra representa um mercado pequeno no universo da indústria pornográfica norte-americana majoritariamente branca. Entretanto, os estereótipos e imaginário sexual relacionado aos negros nos EUA potencializam as possibilidades de lucro. Ross mostra como a indústria já manteve relações bem sucedidas com o hip-hop. O vídeo Snoop Doog's Doggystlyle (2001)  do rapper Snoop Dog deu o pontapé inicial nessa tendência que foi seguida por outros rappers. O filme foi gravado  na mansão de Snoop em Los Angeles e o rapper apresenta as performances e canta no intervalo entre as mesmas.  Sinnamon Love (foto acima), uma das mais conhecidas e bem pagas atrizes negras, tem investido num universo pouco explorado por atores/atrizes negros: bondage (sadismo/dominação). Em um dos seus filmes, Love explorou uma técnica japonesa intitulada shibari.  Shibari é um verbo em japonês que significa "amarrar" e, nessa técnica, os genitais são envoltos com corda e/ou barbante e apertados causando prazer e dor. Danny Blaq - ator que mora em Washington DC - está envolvido na produção de vídeos caseiros e amadores. Ele filma a si mesmo tendo performances com casais ou apenas mulheres cujo os maridos o contratam e depois posta o material em seu site. Blaq afirma que muitos de seus clientes são casais brancos que tem fantasias sobre ter sexo com homens negros e resolvem fazê-lo de forma segura e que possam apreciar a parada na internet posteriormente.

Vale ressaltar que o avanço da Internet renovou de maneira exorbitante os lucros da indústria pornográfica e, ao mesmo tempo, pornografia é o negócio mais lucrativos da web como vários estudos tem mostrado.  Isso ocorre porque o material produzido pela indústria pornográfica é para ser consumido de forma privada e a internet fornece tanto privacidade como descrição. A Mercenary Pictures, de Lexington Steele, passou até mesmo a produzir uma linha voltada somente para mulheres uma vez que as mesmas, por conta das facilidades vigentes na rede mundial de computadores, se sentem mais à vontade para consumirem pornografia ao mesmo tempo que não encontram material que satisfaça seu gosto diferenciado dos homens.

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Por fim, a fala de todos os atores e atrizes pornos entrevistados por Ross tem um eco de solidão e noção de que ocorre um processo de desumanização de seus corpos tanto por parte da audiência como da indústria.  Essa percepção surge quando os entrevistados afirmam ter poucos amigos e dificuldades de se relacionar afetivamente uma vez que poucos entendem, respeitam ou simpatizam com seu trabalho. Outras vezes namorad@s estabelecem uma relação de fã com seus/suas parceir@s reproduzindo estereótipos e criando falsas expectativas. A fala de Love resume a ponto ao qual me refiro: "People tend to think that porn people are sitting in a mansion in Beverly Hills in stilletos and a Brazilian G-string (espécie de biquini) waiting for someone to yell action. And that comes from them thinking that we're nonpersons. A lot of porn fans think we're beneath them in some sort of way". E essa percepção dos fãs, de acordo com Love, é responsável por fazer que a indústria heterrosexual de filmes adultos, diferente da indústria gay, não torne obrigatório o uso de preservativos. "Unfortunatelly, it's the fans' fault. They don't see us as human beings and instead see us as being the dregs of society, so they don't care what happens to us". A propósito, Love tem um diploma em psicologia pela University of Southern California.

Muita Paz!

4 comentários:

MrMarques disse...

Marcio,

It's interesting that you wrote about this book. I read it last year and I have a lot to say about it. I will return and write about this book later today. Also, have you spoken or exchanged e-mails with Jaqueline Santos recently? We talked about you during my last visit to Sampa.

Marcio Macedo (Kibe) disse...

What's up Marques?!

Thank you for your comment! I will be waiting for your thoughts about the book. For me, it was an interesting but, at same time, scared reading. Yeah, I have been talking to Jaqueline almost everyday through MSN. If you come to NYC sometime, let me know.

Peace,

Márcio/Kibe.

Cristiano Rodrigues disse...

Kibe,

gostei bastante desse texto/resenha sobre o livro e toda a discussão em torno da industria pornô. Eu fiquei aqui pensando que tem uma coisa em relação ao não uso da camisinha como sendo uma prática/tara/exigência masculina. Falo isso pois o no pornô gay (minha especialidade) houve um alto crescimento do fenômeno barebacking, que se tornou a parcela mais lucrativa dentro da indústria nos últimos. Ainda é uma industria marginal, mas mesmo os grandes estúdios aqui da California têm começado a produzir parte de seus filmes no formato barebacking.
Bom, eu de certa forma partilho a mesma impressão sobre como a indústria pornô reproduz os mais arraigados preconceitos e esteriotipos sobre o corpo negro. Mas eu diria que o binômio sexismo/hierarquização é mais importante nesse fenômeno que a idéia de que a pornografia é pra uso privado. Por exemplo não há diretoras de filmes pornôs, so diretores, os homens, ainda ganhando menos, tem uma carreira mais longa, o que no fim acaba lhes proporcionando mais ganhos, etc. Bom, de todo jeito acho que valeria uma análise com outros seguimentos do universo porno, como o porno gay, as paradas sadomasoquistas, etc para ver se tem uma linha de continuidade ( e eu acho que tem) entre sexismo e o processo de produção desses filmes.

paz, saúde e weed.

Marcio Macedo (Kibe) disse...

Prezado Cristiano,

Muitíssimo obrigado pela leitura e comentário ao post! Toda a temática do pornô negro é um assunto em aberto a ser pesquisado e relacionado aos outros seguimentos dessa indústria. No livro de Ross não há, por exemplo, depoimentos de atores negros que atuem em filmes voltados para o público gay. Aliás, a maioria dos atores entrevistados deixava claro que não fazia filmes no qual havia sexo com outros homens e evitavam cenas em que houvesse muitos homens e poucas ou uma mulher.

Sobre essa parada do barebacking, gíria para sexo sem preservativo, concordo que é uma parada masculina. Faz sentido caso levarmos em conta que a maciça maioria da audiência é constituída por homens. Entretanto, quanto ao lance da permanência por mais tempo de atores do que atrizes na indústria, tem também haver com a performance. É difícil encontrar atores com performances boas e consistentes que deixem diretores seguros de que o cara não vai falhar na hora H.

Conversava com uma amiga essa tarde e disse que seria interessante assistir um filme pornô feito sobre uma perspectiva feminina/feminista. Daí lembrei que o mesmo já existe, pois lembrei do post de meu amigo Raphael Neves no Politika etc:
http://www.politikaetc.info/2009/09/uma-pornografia-feminista.html

Enfim, são muitos pontos a serem discutidos e o livro de Ross é jornalístico e não acadêmico. Alguém interessado aí em pesquisar o pornô negro???

Forte abraço,

Márcio/Kibe.