sexta-feira, 27 de março de 2009

Zózimo Bulbul: o cara!

Ele nasceu Jorge da Silva em 1937, mas adotou o nome Zózimo Bulbul e se popularizou com um dos grandes nomes da produção cinematográfica - negra, preta, afro-brasileira ou afrodescendente, seja lá como for que a chamem, - no Brasil. Também foi um dos primeiros modelos negros brasileiros nos anos 1960, Bulbul é um ativista que leva a questão racial muito a sério.


(Zózimo filmando Abolição em 1988)

Chacrinha gostava de zoâ-lo o elegendo o negro mais bonito do Brasil, fato que o ator/modelo costumava não levar muito a sério. "Olha o Sidney Poitier brasileiro!", gritava uma fã ao ver Bulbul saindo de um carro e entrando no famoso restaurante Gigeto nos 1960, ponto de encontro de celebridades do mundo artístico e intelectual em São Paulo. O apelido vinha por conta da fama do patrício gringo devido ao filme To Sir With Love (Ao Mestre com Carinho), 1967. Naquele momento, Poitier era considerado o mais bem pago ator afro-americano e a atuação bem sucedida de Zózimo na novela Vidas em Conflito, da TV Excelsior em 1969, o equiparava para a comparação realizada pelas fãs.

Conheci o Poitier brazuca - pessoalmente, diga-se de passagem - e seus filmes acompanhando a pesquisa de doutoramento em sociologia de meu amigo Noel Carvalho. Um dos filmes mais legais que assisti sobre a questão racial produzido no Brasil é Em Compasso de Espera (1969), escrito e dirigido por Antunes Filho, e onde o personagem principal, Jorge, é interpretado por Bulbul. A história é instingante: um intelectual negro e ativista, morando em São Paulo nos anos 1960, em processo de ascensão social e renegando a família pobre vive dividido entre o amor de duas mulheres brancas - uma, mais nova, pela qual está apaixonado e outra, mais velha, que lhe dá estabilidade econômica e psicológica.

Nos anos 1970, quando o bicho pegou legal no Brasil com os milicos no poder, Zózimo se mandou pra cá, NYC, e ficou um tempo pela Big Apple tirando uma onda e se articulando com a galera do movimentos raciais e artísticos. Depois ainda circulou por Paris e Lisboa. Momentos antes ele tinha começado sua experiência cinematográfica no Brasil. Seu filme mais conhecido é um documentário bastante longo produzido e dirigido por ele em 1988 intitulado Abolição. Nele Zózimo entrevista diversas personalidades (como Gilberto Freyre e Abdias do Nascimento) sobre o Centenário da Abolição da Escravatura comemorado no Brasil em 1988. Em 2004, ele atuou no primeiro longa de Joel Zito Araújo, Filhas do Vento.


(Cartaz de divulgação de Abolição, 1988)

Contudo, o filme que mais gosto de Bulbul é o primeiro que ele escreveu, produziu e dirigiu: Alma no Olho (1974). O título vem da influência do livro do Pantera Negra Eldridge Cleaver Soul on Ice (1968). No Brasil o livro saiu em 1971 com o título de Alma no Exílio e, como já disse no meu post sobre livros e Malcolm X, era leitura obrigatório entre os jovens envolvidos com o movimento negro. O diretor conseguiu fazer o filme com restos de material utilizados na filmagem de Em Compasso de Espera e, como era de se esperar devido a mensagem do filme, o diretor foi chamado a prestar contas aos milicos. Ficou dois dias detido explicando o motivo de ter feito o filme que você pode assistir abaixo. Destaque para a trilha sonora de John Coltrane, Kulu Se Mama (1965). Todas as informações contidas nesse post foram retiradas da tese Cinema e Representação Racial: o cinema negro de Zózimo Bulbul defendida no departamento de sociologia da USP em 2006. Informações entre em contato com Noel Carvalho: noelsantoscarvalho@yahoo.com.br

Enjoy o filme...

Paz!

6 comentários:

clebão robusto disse...

Newyorkibe é cultura!!!!

Marcio Macedo (Kibe) disse...

E maloqueragem também, Clebão!

Anônimo disse...

zozimo anda sumidão, ele era o rei do som direto nos anos 60, 70.

vou procurar ler a tese do noel


abraço, Léo

Thais disse...

Caraca, o cara é sensacional e eu nunca tinha ouvido falar dele! Que bsurdo. Vou procurar os títulos indicados aí no post. Mudando de assunto: Kibe, sexta fui no Green Express e numa Jam Session que teve na Rua 24 Maio que tocou muito soul e funk dos anos 70, estou entrando no clima dos bailes blacks dos anos 70 e já já eu te "ligo" (conecto, na realidade) pra gente conversar, hein!? Não vai pensando que vou te deixar em paz ... Axé!

Marcio Macedo (Kibe) disse...

Tamo nas pista, meu povo!

Léo vejo você em setembro em NYC e Thaís converso com você qualquer hora pelo Skype, aviso: sou um ser noturno, durmo de dia e vago à noite por bibliotecas e na frente do computador.

Beijo pras mina a abraço pros mano, word?!

Anônimo disse...

just dropping by to say hello