segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O Hip-Hop e Eu!

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Ontem foi meu aniversário e essas datas são bons momentos para fazermos balanços. Há dias, meses e alguns anos que venho pensando sobre o hip-hop. Penso nele não só pelo amor a "cultura", como se habituou denominar essa expressão de ordem cultural, artística e política nascida há mais de trinta anos lá pelos lados do Bronx (NYC), criada por jovens negros (afro-americanos e caribenhos) e latinos pobres que se espalhou pelos quatro cantos do planeta. Penso no hip-hop porque ele me salvou e me formou!

Não há uma exaltação boba ou saudosista nessa afirmação, algo do tipo "devo tudo que sou ao hip-hop", mas uma maneira de expressar gratidão a uma manifestação que sempre me auxilia nos momentos difíceis. Respiro música 24 horas por dia! O hip-hop é para mim aquilo que o movimento negro, a soul music, os bailes, as escolas de samba (e o samba), o candomblé, o jazz, a literatura negra (e toda literatura!), o futebol foi e ainda é para outras pessoas. Ou seja, espaços de formação política e educacional além das organizações políticas/educacionais tradicionais (sindicatos, partidos políticos, escolas, universidades, etc). É nesse ponto que tendo a entender a grande diferença desses loci de produção cultural vinculados as populações negras pertencentes a diáspora africana: a inexistência de distinções entre sagrado e profano, lúdico e não lúdico. Explico-me...

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Hip-Hop
como uma forma arte não pode ser entendida numa concepção que separa política, cultura, ludicidade, corporalidade e assim por diante. É necessário um esforço de se abstrair dentro dos termos da própria arte ou da peculiaridade dessas manifestações negras para captar sua singularidade. Tanto o hip-hop como as outras culturas negras só podem ser entendidas dentro de uma perspectiva de arte cubista onde as várias partes, separadas como num quebra-cabeça desfocado, só são entendidos numa perspectiva mais ampla através de um esforço de abstração. Mas abstração não basta, é necessário deixar se afetar pela manifestação e permitir que ela adentre nossos corpos, mentes e sensibilidade nos transformando, criando um novo "environment", como diria o teórico da mídia Marshal McLuhan (1911-1980). Esse é o trabalho da arte na sua concepção mais elevada e não é necessário conhecimentos teóricos para se experimentar tal sensação.

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O político está lá, sempre esteve, mas nunca sabemos quando ele aflora e se sobrepõe como algo predominante. Geralmente seu afloramento é resultado de situações contingênciais. Rosa Parks (1913-2005) sentou no lugar reservado aos brancos num ônibus em Montgomery, Alabama, 44 anos atrás porque a nega véia estava cansada depois de trabalhar o dia todo e não porque tinha "consciência" de que seu ato destruiria o sistema de segregação racial vigente no sul dos EUA até os anos 1960. Quando eu e meu amigo Paulo De Menor (e na sequência Rock Jay e Jece G. X) montamos nosso grupo de rap nossa única preocupação era entrarmos de graça para dentro do bailes, catarmos umas minas e sermos reconhecidos na quebrada. Tirávamos muito onda e nossos ensaios eram festivais de bebedeira e zoação. Havia competição, fofocas e rixas com outros grupos. Muitas vezes as brigas chegavam aos finalmentes e literalmente se saía na mão. Mas estava tudo lá... Sem termos "consciência" - termo que cada vez mais penso que deve cair em desuso - estávamos nos formando para o mundo olhando de forma crítica para ele e nós mesmos. Mas essa é a essência da parada chamada hip-hop: informação e diversão. Separações analíticas entre cultura/movimento, arte/política e até mesmo preto/branco não dão conta da parada porque "o barato é loko, o processo é lento" e essa PORRA é muito, muito mais complexa.

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Dias desses recebi um comentário de um brother que questionava o porquê de não ter continuado no hip-hop como rapper. Fiquei pensando sobre isso e hoje acho que tenho uma resposta relativamente decente (tempos atrás ia dizer que talvez fosse um rapper frustrado). Eu nunca deixei o hip-hop, continuo o mesmo MALOQUEIRO que adora a rua, a balada, dançar, curtir, BEBER, MULHERES PRETAS, tirar onda e algumas coisinhas ilegais. Aliás, enquanto escrevo esse post ouço BeatBasement (ótima rádio de hip-hop underground). Mas o hip-hop me mostrou que minha missão era outra... Estou nela agora com os dois lemas que aprendi muitos anos atrás na correria. O primeiro veio de Marcus Garvey (1887-1940) - o negrão jamaicano sangue no "zóio" que aportou pelas bandas do Harlem nos anos 1910: "É necessário saber de onde se vem para se ter noção para onde se vai". O segundo é senso comum de maloqueiro... "Devagar e sempre, truta!"

Muita Paz, Muito Amor, Muito Hip-Hop (com suas contradições, problemas, tretas e beleza! Assista o vídeo de The Message abaixo)...

6 comentários:

Lafayette Hohagen disse...

Parabéns pelo aniversário e muuuuito Hip - Hop !Abraços do Lafa

Marcio Macedo (Kibe) disse...

Nossa Lafa,

Você acorda cedo, hein? Nem fui dormir ainda... Valeu mesmo! Abraço forte e espero que ano que vem façamos outro encontro com café e bate papo na Vila Madalena!

Abraço,

Márcio/KIbe.

Punk Canibal disse...

Feliz aniversário, Kibão!
Pra mim o punk é algo semelhante, foi minha escola política, não simplesmente essa política dos ideais, mas a política de rua e ter atitude que, no punk de rua, não é simplesmente usar uma roupa tal, curtir o som tal ou fazer pose, mas saber fazer alianças, estar do lado dos camaradas, cumprir com a palavra, respeitar do mendigo até o cara que virou PM.
Mas como fica o sagrado e o profano no hip hop?

Flavius2net disse...

Dia do aniversário não tem jeito, é sempre um momento de auto-reflexão.

Oshum disse...

Salve kibe,

Consegui acesar o link para comentario agora.
Ai vai um video sobre hip hop in Dubai para mostra-lo do outro lado do oceano!
Interessante ver..
http://www.youtube.com/watch?v=LQflOseYimM&eurl=http%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fprofile.php%3Fid%3D696235366%26ref%3Dname&feature=player_embedded

Ashé!

Jaqueline disse...

É estilo de vida manooooo

Abs