segunda-feira, 22 de setembro de 2008

African American Parade Day

Ontem (21/9) rolou a African American Parade Day na Adam Clayton Powell Jr. Avenue, esquina do prédio onde moro. Eu não ia, mas depois de enrolar e desistir de ir a biblioteca acabei indo dar uma xeretada. O negócio e uma mistura de carnaval, com desfile de 7 de Setembro, baile nostalgia e festa de São Benedito em Tietê: para aqueles que conhecem essa festa obviamente. Tudo bem mais comportado que as similares brasileiras!

Observando o desfile, lembrei do questionamento de minha amiga Raquel num comentário a uma das minhas postagens aqui: se em NYC não existiria "cultura de raiz". Particularmente, tenho um certo problema e incomôdo com esse termo. Lembro de uma piada do meu amigo Billy Malachias que numa de nossas conversas sugeriu que fizessemos uma festa na USP intitulada "samba de raiz": todos iríamos para o evento - no qual contrataríamos um grupo para tocar só pagode - levando raízes de mandioca, batata, cenoura, beterraba etc.*rs* Mas qual o motivo ou ponto da relação entre a parada e a "cultura de raiz" ? A prática da discotecagem é algo muito forte entre a população negra nos EUA e, caso entedermos "cultura de raiz" como uma manifestação cultural genuinamente vinculada a população local, acho que a discotecagem cumpriria esse papel.

Os carros - bem mais simples do que os carros alegoricos do nosso carnaval - traziam grupos de percussionistas ou bandas com instrumentos de sopro ou DJs tocando os mais variados ritmos a partir de seus toca discos. Mas "cultura de raiz", no sentido que é utilizado no Brasil hoje, estabelece uma relação de separação e valoração entre práticas culturais autênticas, puras e, numa palavra, "verdadeiras", em relação a outras já "poluídas" pela dita e mal afamada indústria cultural. Exemplo clássico da distinção a que me refiro está aí acima: "samba de raiz" X pagode. Bem, acho que isso é uma falsa questão se pensarmos a cultura como algo dinâmico, mutável e permanentemente híbrido. Na verdade, penso que essas disputas entre puro e impuro estão num registro político que reifica arbritariamente a prática cultural. Contudo, paremos por aqui, pois estou muito acadêmico e esse não é o propósito do blog. Voltemos a parada...

Fiquei curioso em imaginar qual seria a reação do público que assistia a parada ao se deparar no desfile com a apresentação de uma bateria de escola de samba tupiniquim, com seus percusionistas, mestre, madrinha, passistas - em trajes tradicionais acho que não seria permitido o desfile das duas últimas - e uma ala de baianas para completar a festa. Seria bem interessante ver essa troca cultural, já que o contato que os afro-americanos tem é muito maior com os negros do Caribe do que com os da América do Sul. Já exportamos a capoeira pra cá, por que não a escola de samba?!!

As pessoas que desfilam se apresentam numa multitude de associações negras indo de sindicatos das mais diversas categorias, policiais, bombeiros, funcionários do setor de tranporte público e enfermeiras a irmandades alpha, beta e aka - que são grupos de estudantes que se associam nas universidades - com gritos de guerra e passos de danças característicos (lembrando "passinhos" de baile black mais bem elaborados), o The Black Phanters Party com palavras de ordem e até ministros batistas promovendo sua congregação acompanhando um carro de som e dancando ao ritmo de funk e soul. Enfim, demonstrações de orgulho negro dos mais diversos tipos e diretamente vinculados a experiência afro-americana.

Definitivamente, um ótimo programa para se fazer com a família num domingo quente e ensoralado como o de ontem. Um observador brasileiro - como esse que lhes escreve - sentiria falta de mais animação, mas, ao final e ao cabo, estamos na América e até a negrada por aqui é mais contida. Por fim, vale registrar que as demonstrações de apoio a Obama ocorreram o tempo todo. Da entonação de cantorias com o nome do candidato democrata que até lembravam cantos rituais africanos (Ol- Bã - Ma... Ol-Bã-Ma...) a exibição de cartazes com mensagens de apoio a campanha do senador por Illinois.

3 comentários:

Raquel disse...

Oi Kibe, adorei seus comentários. Eu, como boa paulistana, de pai e mãe paulistanos, crescida no eixo Rio-SP, não poderia sequer super a idéia de "cultura de raiz" como algo ligado a pureza. A geografia e historia desses espaços me impedem. Mas tudo bem!!!
Só perguntava sobre a cultura que não vai pra grande mídia e não vira "conserva", somente isso.
No fundo bem lá no fundo queria entender um pouco mais da alma da gente negra americana, e tudo aquilo que produz algo que alcança o nosso entendimento mesmo sem entender inglês. Cresci ouvindo SoulMusic. OK!??
beijos

Marcio disse...

Bem, acho que e meio dificil alguma pratica cultural - seja negra ou nao - escapar a logica de mercantilizacao presente na sociedade norte-americana. Esse e o lugar onde o forma de producao capitalista alcancou o seu estagio mais elevado e permeou todas as esferas do mundo social. Contudo, nao acho que porque passou a ser comercializado em larga escala ou esta dentro do registro da industria cultural, algo ja e necessariamente ruim. Lembro de um trabalho do Paul Gilroy no qual ele mostra como as capas de discos dos grupos de funk/soul nos anos 70 funcionavam como veiculos transmissores de informacao. Sobre o lance da alma da negrada aqui, leia "The Souls of The Black Folks" do W.E.B Du Bois. Tem uma traducao brasileira de uns oitos anos atras. O Du Bois, junto com outros intelectuais negros do comeco do seculo XX, trabalhou ativamente na elaboracao de uma cultura negra norte-americana. Alias, o termo "soul" entra com forca no vernaculo afro-americano nessa epoca. Ele tinha uma revista chamada Crisis que publicava textos de artistas e intelectuais afro-americanos e caribenhos. Talvez voce ja sabia de tudo isso e eu esteja apenas chovendo no molhado.

Flavio disse...

Cultura de raiz entre a negrada nos EUA? Pode ser a asa de frango.
Mas, levando em consideração o fato de que qualquer elemento cultural pode a se transformar em um fenômeno essencializado, podemos citar o Blues. Se o samba no Brasil é tratado como o ritmo que "revela" uma suposta alma negra tupiniquim, o Blues é que aquele conduz a uma América Negra profunda, tratada pelo DuBois em The Soul of Black Folks.