terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O USPior em ação...

Xeretando no YouTube achei uma pérola! Anos atrás, quando ainda estudava na USP, tínhamos o nosso grupo de "ação": o USPior (uspianos, pretos, intelectuais e bocas de litro, obviamente!). Na verdade, o grupo surgiu de um projeto bastante sério, elaborado pelo professor Antonio Sérgio Guimarães em 2001 e intitulado Dez Vezes Dez, que visava a formação de pesquisadores negros. Boa parte dos estudantes que participaram do projeto estão hoje na pós-graduação - no Brasil ou exterior - e alguns já são professores. O USPior era o "lado B" do Dez e era formado por alguns monitores e bolsistas que gostavam de tomar umas e outras em lugares não muito convencionais. Tínhamos alguns locais de encontro como a Cela 11 (trocadilho com Sala 11, um laboratório de pesquisa no departamento de sociologia da USP) e a Barraca do Bigode (um lanche de propriedade do nosso amigo Roberto que é montado em frente ao clube Sambarylove no Bexiga às sextas).

O documentário produzido e dirigido por Guiomar Ramos, Café com Leite (água e leite?), 2007, registra uma de nossas antigas reuniões semanais que acontecia todas as noites de sexta num terceiro point, um boteco sujo do centro velho de SP: o saudoso Escritório (apelido que dávamos ao local). Lugar agradável! O garçom, chato até umas horas, sempre nos maltratava jogando água nos nossos pés por volta das 23:00 horas - uma estratégia visando nos expulsar do lugar - sempre aparecia algum bêbado amigo do Batista para nos encher o saco e chegamos até a testemunhar - junto de duas amigas afro-americanas, para o desespero de uma delas - uma briga em que um dos brothers corria atrás de outro armado com um facão de cortar cana. Bons tempos!

Intelectual tem mania de inventar tradição, já diria o historiador inglês Eric J. Hobsbawn. Nós, como bons e tradicionais negros paulistanos, estávamos fazendo jus a ocupação negra e intelectual do centro velho de SP. O Samba de Bandido, que acontecia há duas quadras dali na rua Dom José de Barros, seria a continuação das festas de moçambique ocorridas triângulo central no começo do século, dos footings da negrada na Rua Direita nos anos 1940, dos encontros no Viaduto do Chá nos anos setenta da pretaiada que frequentava os bailes soul, das rodas de break e points de bater lata dos rappers no Largo São Bento nos anos 1980/1990, enfim, nós éramos a tradição viva e bêbada!

Guiomar registrou uma de nossas animadas discussões regadas a cerveja, batatas fritas e idéias para o seu documentário. No mesa de boteco do vídeo encontram-se eu (Márcio Macedo/Kibe), João Batista Félix (Batistão), Uvanderson Vítor (Vandão), Paulo Henrique (Xuxa), Flávio Ribeiro Francisco (Jay Z) e outros trutas que, infelizmente, não lembro o nome. Estou postando a segunda parte do vídeo aqui, mas ele pode ser visto por inteiro no YouTube e está dividido em mais cinco partes. É um bom retrato do que são as relações raciais na Capital da Garoa! Enjoy it:

13 comentários:

Afrolatinidade disse...

Utilizei esse filme em muitas aulas do pré-vestibular para negros no Rio. O filme é otimo porque cobre boa parte do debate sobre relações raciais no Brasil. Uma das partes que mais geram discussão é a parte em que Batista faz afirmações essencialistas sobre o que é ser negro, quando se refere aos sujeitos das ações afirmativas.
Abs. Marcio André

Kibe disse...

Prezado Márcio,

Sem dúvida, uma vez que o se coloca naquele momento é a discussão de quem tem/e de onde vem a legitimidade para se beneficiado pelas cotas. As posições do Batistão são polêmicas, mas ele tem o dom de insuflar o debate.

Outro momento que eu acho tenso no vídeo é a discussão entre os alunos da universidade Anhembi-Morumbi.

Abraço e obrigado pela leitura do texto!

Kibe.

ALGUÉM disse...

Oieeee...tem postagem nova!!!
Aparece lá!
Ótima semana de leitura!

Daniella disse...

Como uma mera coadjuvante de um pedacinho dessa história, posso ainda relatar que apesar do Kibe denominar o grupo "a tradição viva bêbada" USPior nunca foram flagrados em barrigadas e coisas similares. Aliás, esse lance também exaltava os discursos do Batistão na sala do nosso apto no CRUSP e deixavam o povo P. Rsss, mas no samba-rock a presença é certa.

patricia nakayama disse...

Oi Kibe!!

Muito bom esse documentário, você saiu muito bem na fita hein!!! Não sabia que o Brasil só começou a jogar bola depois do ingresso dos negros na seleção, mas desconfiava...

O vídeo é ótimo também pela documentação do grupo, cujo nome é memorável, USPior!! Uma professora minha de história havia cunhado outra expressão para designar a onipresença da pesquisa da USP, USPemtudo, mas os USPior é bem mais bacana...

No mais, gosto desta discussão da miscigenação, que para mim é a grande tópica brasileira e será por muitos anos.

Gilberto Freyre é um cara interessantíssimo, muito mal visto, é vero, mas é inegável sua contribuição para a questão da miscigenação e para compreender o convívio amistoso e ao mesmo tempo conflituoso entre negros e o restante da população brasileira (inclua aí nós, os nippo brasileiros, chineses, índios, europeus brancos, libaneses, judeus, gregos, bolivianos escravos, etc) que só existe mesmo no Brasil. Há muito conflito, que pode ser explicado como luta de classes, ou para usar uma terminologia mais "contemporânea", desigualde social, etc, mas há também uma relação de convívio.

Não em São Paulo, onde ninguém convive com ninguém, mas no Rio, certamente. Pode-se ver negros e brancos, pobres e ricos, jogando bola na praia, etc.

No mais, adoro seu blog, é bom ter essas notícias aí das terras do tio Sam.

Kibe disse...

Querida Tiely,

Vou ir ao seu blog e começar a ler o seu romance policial (acho que tem essa pegada, não?) do primeiro capítulo. Ainda não tive tempo devido a correria, mas juro que vou tentar.

Beijos carinhosos,

Kibe.

Kibe disse...

Dani Querida,

Você é parte da história dos USPior, afinal, aguentar o Batistão não é para qualquer um.

Saudades de você!

Beijos do Kibe.

Kibe disse...

Hi Patricia,

Pois é, acho que você colocou bem, no Brasil os diferentes ao mesmo tempo que estão próximos estão separados de forma desigual. Gilberto Freyre é fenomenal: ótimo escritor e com idéias revolucionárias, mas que com o passar o tempo acabaram se tornando datas e, aliado ao posicionamento político/teórico dele nos anos 1960/1970, reacionárias. Mas não há como negar seu valor, não é à toa que Casa Grande & Senzala na lista de 10 livros favoritos (tópico que eu postei aqui semana retrasada).

O último livro que li sobre Freyre foi uma espécie de biografia intelectual elaborada pela Maria Lúcia Pallares-Burke "Gilberto Freyre: um Vitoriano nos Trópicos" (UNESP, 2005). Muito bom, mas acho que a autora deixa se levar pelos argumentos de Freyre sem fazer uma crítica sobre o aspecto mais perveso do seu pensamento.

Seja sempre bem vinda ao blog!

Beijo carinhoso,

Kibe.

Kibe disse...

Hey Patricia,

Desculpe os erros de português na resposta ao seu comentário. Escrevi correndo e de uma tacada só!

Beijos,

Kibe.

Adriana Campos disse...

Muito bom kibe!!! a introdução dada por você e o vídeo se complementam. gostei
beijos,
Adriana(Elbinha)

Kibe disse...

Querida Adriana,

Obrigado pela leitura do texto! Como anda você? Mande notícias.

Beijos carinhosos,

Kibe.

Jaqueline disse...

Caramba, da hora heim...
Ta melhor que o meu livro da .. melhor naõ falar o nome dela porque ela deve passar por aqui.
Abs

Jaqueline disse...

É que eu to lendo um livro chato :(, dai dou umas fugidinhas e passo por aqui.