quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Jovens, Negras, Bem Sucedidas, Bonitas e... Solteiras

 http://www.wedding53.com/wp-content/uploads/2007/12/wedding-hairstyles-for-black-women4.JPG

Anteontem estava de bobeira fuçando na internet e vi um vídeo que meu amigo Lawrence Ross, escritor radicado em Los Angeles, postou em seu profile no Facebook. Assisti o mesmo e, por achá-lo interessante, repostei em meu profile. Ao acordar ontem, vi que já havia cinco comentários ao vídeo em meu profile e 23 no de meu truta Lawrence. O vídeo é uma reportagem feita pela ABC News sobre a situação de jovens afro-americanas bem sucedidas profissionalmente, independentes e solteiras que não encontram parceiros dispostos a se casar. Quatro charmosas young single ladies de Atlanta, Geórgia, foram entrevistadas e contaram suas aspirações e decepções em relação a sua busca por um casamento. De início pode parecer algo inusitado e sem importância, nada mais do que algumas mulheres na casa dos trinta anos com receio de ocupar eternamente o papel de titia. Porém, diria que o buraco é mais embaixo. Os números apresentados pela reportagem nos ajudam a entender o problema:

* 42% das mulheres negras dos Estados Unidos nunca se casaram (essa porcentagem é o dobro quando comparada a de mulheres brancas);
* Há mais mulheres negras do que homens negros na população norte-americana: 1.8 milhões a mais.
* Mulheres negras com educação superior tem um horizonte de escolha menor. De um grupo de 100 homens negros, se subtrairmos 21 que não possuem nível superior, 17 que não tem emprego e 8 (entre 25-34 anos) que estão presos, sobram apenas 54 homens disponíveis. Se formos um pouco mais além e acrescentarmos um dado que o canal de TV não cita, mas que com certeza deve ser levado em conta, podíamos subtrairmos mais 8 negros gays. O que deixa nossas sistas com 46 brothas disponíveis.

É claro que alguém irá dizer: mas por que essas adoráveis senhoritas insistem em se casar com homens que apresentam o mesmo nível educacional, econômico e racial que elas? Pois bem, boa parte dos estudos sobre conjugalidade evidencia que a tendência é das pessoas se casarem com alguém extremamente parecido a elas devido a questões de circulação no espaço social, reprodução de riqueza, aspirações e gostos em comum. Em termos técnicos, diz-se que há altos níveis tanto de endogamia como homogamia: endogamia diz respeito ao dados/indíces de uniões dentro do grupo (classe e/ou raça) e homogamia faz referência a traços de similaridade entre os conjugues (nível educacional, idade, profissão, etc). Contudo, o que a reportagem da ABC News não conta é o quais são os fatores que tem contribuído para que estes padrões de endogamia e homogamia não se reproduza de modo tão efetivo na classe média/alta negra.

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Desde os anos 1970, mulheres em geral e mulheres negras em específico, vem entrando em número maior nas universidades, obtendo mais diplomas de graduação e pós-graduação, ocupando cargos de chefia e dos altos escalões de empresas e burocracia estatal e, consequentemente, tendo mais rendimentos do que homens. Esse fenômeno é, em parte, consequência da ação do movimento feminista e da implementação de ações afirmativas em universidades e orgãos estatais. No caso específico das mulheres negras a distância social e econômica em relação aos brothas tem aumentado ainda mais por conta de que homens negros enfrentam uma série de problemas específicos como pior rendimento escolar e, assim, mais dificuldade de ingressar numa universidade, altos indíces de mortalidade, maior exposição a violência policial o que pode resultar em morte ou encarceramento. Outro ponto importante é que com o fim do sistema de segregação nos anos 1960, mais homens negros passaram a se casar fora do grupo racial com mulheres brancas, latinas e asiáticas.

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O resultado geral é uma situação onde há muito mais mulheres negras de classe média/alta disponíveis e prontas para encarar um matrimônio do que homens negros. A situação se complica ainda mais para nossas amigas se considerarmos que elas tem contra si um relógio biológico. Já os homens negros que compõem a fatia dos 46 tendem a se casar mais tarde e aproveitar mais a vida de solteiro o que, em parte, contribui para o agravamento da situação. Por conversas que tive com algumas amigas negras na casa dos trinta anos e solteiras, a situação comfortável dos homens negros - com mais mulheres disponíveis, uma situação financeira estável e sem a pressão de se casarem - que correspondem aos perfis procurados por essas mulheres faz com que os mesmos posterguem suas vidas de solteiro saindo (dating) com várias mulheres ao mesmo tempo, mas não se comprometendo seriamente com nenhuma. Justamente como uma das entrevistadas da reportagem da ABC News afirma elas se tornam uma espécie de carta a ser guardada no bolso como garantia. O problema é saber até quando...

Assista o vídeo da ABC News abaixo.

 Muita Paz!

7 comentários:

Afrolatinidade disse...

Otimo comentário Kibe. Havia assistido tb no facebook e fiquei me perguntando sobre uma possível correlação com o caso brasileiro. Não sei quanto a SP mas me parece que no Rio tem uma pá de irmãs que também encontram dificuldades de conjugalidade. Sobretudo, creio, devido as expectativas frustadas de encontrarem homens negros com o mesmo nível acadêmico que elas.
Alias, não é novo entre nós o tema da "solidão das mulheres negras", especialmente militantes e intelectuais. Enfim, complicado o negócio. Abs.

Anônimo disse...

Oi, Kibe,

Adorei a postagem. Gostaria de deixar um pequeno comentário.
Além da homogamia, opera também na seleção de parceiros outro princípio, que é o da heterogamia. Historicamente, a heterogamia costuma funcionar do seguinte modo: o homem com alguns anos a mais que a mulher, com rendimento maior, em grande parte devido aos anos a mais de estudo que tinham. Essas mulheres negras, com extensa formação escolar, bons rendimentos, na casa dos trinta ou mais, encontram, de fato, dificuldade para encontrar parceiros, considerando os princípios da endogamia e homogamia que você esclarece na postagem, referindo à reportagem da ABC. Entretanto, creio que seria interessante considerar que o contexto atual pede muitas vezes que as mulheres negras, às quais a reportagem faz referência, escolham parceiros que ganham menos, que tenham menos anos de estudo e, que, portanto, elas teriam que assumir funções provedoras, ao menos em parte, que, até então, estavam ligadas aos homens. Isto significa – é apenas uma hipótese – que elas estariam menos dispostas, na seleção de parceiros, a operarem dentro de uma regra de heterogamia desvinculada de modelos mais tradicionais. Em outras palavras, em muitos casos, elas devem estar sozinhas por uma opção justamente porque se recusam a entrarem num casamento com os papeis masculinos e femininos invertidos.

Feliz 2010

Laércio F. Dias

Marcio Macedo (Kibe) disse...

Prezados Márcio e Láercio,

Obrigado pelos comentários!

Pois é, esse termo "solidão da mulher negra" foi cunhado pela Elza Berquó numa série de pesquisas realizadas nos final dos anos 1980 no CEBRAP. A Laura Moutinho discute bem esses números no livro dela. Não sei como seria uma comparação com o caso americano, no Brasil faltam dados sobre essas paradas enquanto que nos EUA há uma obsessão com números e estudos quantitativos. Mas fica a sugestão a quem está pensando num mestrado ou doutorado em sociologia com uma metodologia quantitativa (algo raro no Brasil).

Laércio, ótimo comentário! Concordo em gênero, número e grau com você. De certa forma, acho que a inversão do tradicional papel do homem como provedor é algo difícil de ser feito tanto para homens como mulheres.

Abraço a todos!

Márcio/Kibe.

Jaqueline disse...

Acho que o cenário brasileiro não é muito diferente, basta olhar para o circulo em que estamos inserid@s, as irmãs pretas estão só, os irmãos pretos ao mesmo tempo em que estão em situação vantajosa sofrem com uma série de problemas ligados ao estereótipo, violência e morte precoce. Ainda não sei como tentar resolver esses dilemas...mas me preocupo...

Anônimo disse...

Perfeito o texto e a situação no Brasil é absoluamente igual.

Não encontro homens negros para casar com igual escolaridade (nem próxima)ou que estejam próximos ao meu círculo social.

Aliás, não encontro homens, pois não encontro negros, e homens de outras etnias apreciam a mulher negra, nossas qualidades, beleza, mas não para um compromisso sério, duradouro,ou casamento.

Abraços e parabéns pelo blog,
Ângela

marco beneteli disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
marco beneteli disse...

Eu gosto de mulher negra minha ex namorada e negra e antes conheci outra