sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Gildo Fará Falta...

Foi com tristeza e pesar no coração que recebi na terça passada a notícia do falecimento do professor do Departamento de Ciência Política da USP Gildo Marçal Brandão. Não sou cientista político, mas tive o prazer de fazer dois cursos com Gildo: Política I e Pensamento Político Brasileiro (informalmente conhecido como Política IV).

 

Em meu primeiro ano de USP, 1997, Gildo havia acabado de retornar de um estágio de pós-doutoramento nos EUA e foi dar aula para os pentelhos do primeiro ano como eu. Ainda lembro de minha primeira pergunta dirigida a ele. O professor explicava a diferenciação feita por Max Weber no clássico texto Ciência e Política: Duas Vocações entre as éticas da convicção e da responsabilidade e tentei enfiar Malcolm X na conversa. Gildo foi extremamente simpático e respondeu dizendo que na autobiografia de X é possível visualizar vários momentos em que o ativista negro agiu baseado numa ética da responsabilidade, mas que seu compromisso religioso esteve subordinado a ética da convicção. Assim era Gildo, por maior que fosse a besteira que os alunos falassem ele conseguia, elegantemente e esbanjando erudição, colocar dentro do contexto do que estava sendo discutido.

Anos depois fiz um curso de pensamento político brasileiro com ele. Lemos Visconde de Cairú, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes,  Celso Furtado, Oliveira Vianna dentre outros. Confesso que, diante da aula de Gildo, pensei em seguir carreira na ciência política. Era fenomenal ver aquele tiozão, que tinha idade para ser pai de todo mundo na classe, usando argumentos de Rousseau, Locke, Hobbes, Marx, Gramsci dentre outros pensadores clássicos para evidenciar o sentido, forças e fraquezas dos argumentos dos autores que líamos.

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Enfim, Gildo irá fazer falta a USP, a acadêmia e as ciências sociais brasileiras que ficaram mais pobres na segunda passada. De minha parte, vou sempre me lembrar do senhor barrigudinho, vestindo calça jeans, camisa, um coletinho - desses das imagens clássicas dos antropólogos fazendo campo em algum lugar distante - e óculos de aro grosso andando pelo prédio da Ciências Sociais/Filosofia. Assista vídeo com ele abaixo no qual o professor discorre sobre as mudanças ocorridas na esquerda brasileira. O tom às vezes irônico de sua fala era típico do professor.



Abaixo texto que saiu na Pesquisa Fapesp Online com uma foto de Antonio Gramsci (1891-1937), pensador italiano que Brandão era especialista.

Descanse em Paz, Gildo!

Notícias
A morte de Gildo Marçal Brandão
Aos 61 anos, o cientista político da USP morreu na segunda-feira, dia 15/02