terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Eta vida besta, meu Deus!

Vocês se lembram desse poema do Drummond?…

Casas entre bananeiras

Mulheres entre laranjeiras

Pomar amor cantar

Um homem vai devagar

Um cachorro vai devagar

Um burro vai devagar

Devagar . . . as janelas se olham

Eta vida besta, meu Deus

As palavras tão bem colocadas do poeta resumem meu sentimento de estar de castigo na casa nos meus pais em Limeira, interior de SP, município que eu chamo carinhosamente de Lixeira. Não, Limeira não é um lixo! Eu nasci, cresci e vivi toda a adolescência e parte de minha juventude nessa cidade mediana localizada a 145 kilometros de São Paulo. Ou seja, sou um Limeirense! A cidade até meados dos anos oitenta era conhecida como a capital brasileira da laranja, mas agora é mais famosa pelo número altíssimo de fábricas e fabriquetas de jóias que aqui existem. O problema é que estou desacostumado a viver em uma cidade assim depois de 11 anos lidando diariamente com o trânsito infernal, a poluição e violência de São Paulo e seis meses mais com a barulheira e correria de Nova York. Alguns irão dizer que é mania de gente que quer parecer descolada ficar desfazendo ou reclamando de cidades pequenas. Pode até ser e em alguns casos concordo, mas esse não é o meu caso. Para ser justo acho que numa cidade menor o que se ganha em qualidade de vida (inexistência de trânsito, pouco barulho e calmaria, ritmo lento e sociabilidade das pessoas) se perde em outros aspectos. Desses o que mais me aflige é a inexistência de vida cultural: cinemas só exibem filmes comerciais, shows musicais são uma raridade, o teatro só exibe comédias estúpidas de autores globais e não há lugares para se estudar ou ler tranquilamente (bibliotecas decentes e silenciosas, apesar que esse é um problema de SP também). Tudo piora com o final do ano em que só há eventos familiares disponíveis!

Sendo assim, diria não me adapto a cidade uma vez que minhas demandas não são supridas pela mesma. Mais: alguém com mais de trinta anos, solteiro e sem filhos é visto com um outsider por aqui. Esse é o meu caso! Um dia desses numa festa qualquer um primo virou-se para mim e meio confuso e/ou revoltado afirmou: “E você primo, o que faz da vida?” Meio atônito respondi que estava trabalhando como professor universitário, mas que como iria começar o doutorado havia pedido demissão do meu emprego para só me dedicar somente a pós-graduação. Ainda confuso e demonstrando que eu não havia entendido a pergunta ele replicou, “Não não, eu estou me referindo a outras coisas... Você não tem família, não? Esposa, filhos? Desde que eu te conheço você só pensa em estudar?!”. Na hora tive vontade de sair dali correndo e pedir minha namorada que estava nos EUA em casamento por telefone, mas depois me acalmei... *rs*

Mas hoje, voltando para casa de uma consulta a minha simpática dentista redescobri o prazer de ficar por alguns dias na cidade natal do interior (ainda bem que vou para SP amanhã de manhã! *rs*). É divertido andar pelas ruas da cidade debaixo de um sol de 30 graus, ouvindo um som no iPod e ver o que mudou na mesma: prédios, praças, lojas e casas familiares. A escola em que frequentei durante o ensino básico, às várias nas quais cursei o médio, o colégio em que fiz cursinho pré-vestibular. A biblioteca na qual retirei livros desde os dez anos de idade e que na época do vestibular eu usava para ler o romances que cairiam na prova da FUVEST. Ainda lembro que li Dom Casmurro, durante os horários de almoço da loja de ferragens que trabalhava, apaixonado por uma garota que nunca me deu um beijo! Porém, o mais divertido de tudo é encontrar os amigos pela rua num jogo de tentar reconhecê-los diante das mudanças sofridas: várias gorduras a mais, rugas e cabelos brancos abundantes, algo que dificulta a tarefa. Fui numa lanchonete cujo os proprietários são descendentes de asiáticos e comi duas esfiras que continuam saborosas. Perguntei a uma das atendentes há quanto tempo eles tinham o estabelecimento: 25 anos. Eles com certeza não se lembram de mim, mas eu me lembro das várias vezes que comi ali. Tomei sorvete – de morango e banana ao caramelo – na minha sorveteria predileta, localizada na praça central (Toledo Barros) e que me foi apresentada por outro primo quando eu ainda era criança. Sentado hoje na sorveteria, finjia ler um livro, mas estava atento mesmo era nas falas das pessoas e no sotaque divertido que eu sempre tentei evitar desde criança (ainda bem que consegui!).

Porém, em matéria de sotaque, nenhum lugar no interior de SP ganha de Piracicaba, cidade situada há 30 kilometros de Limeira. Ainda me lembro de minha primeira namorada, uma piracicabana linda chamada Vanessa, filha de Seo Toni e Dona Lázara, ex Miss Treze de Maio, o clube da negrada de Pira, e que me chamava carinhosamente de “Marrrrcinho” (a ênfase no “r” tenta dar conta do que é o sotaque de lá). É por isso que adoro o jeito que meu ex DJ, Rock Jay, fala e usa suas gírias do tipo “chic no úrtimo”. E se for para morar um dia no interior, que seja em Piracicaba e perto da Rua do Porto. Essa rua fica na região central da cidade, possui uma série de parques nas suas redondezas e contorna o famoso rio Piracicaba. Atravessando o rio a pé pela Ponte Pencil você chega até o Engenho Central que, como o próprio nome diz, foi um engenho de cana de açúcar em tempos áureos. Aliás, foi ali, tendo o rio como testemunha, que dei meu primeiro beijo em minha primeira namorada. O clima da área é de tranquilidade e sossego, aos domingos dá para passear a pé com a família ou a(o) namorada(o) e parar para comer uma pamonha, curau ou milho verde nos carrinhos ambulantes que ficam ali enquanto se observa o rio que anda muito limpo nos últimos anos. Quando eu era adolescente adorava frequentar um samba que rolava aos domingos na Rua Porto: todo final de semana saia tiroteio ou algum tipo de confusão, mas nunca deixávamos de ir, afinal, as negras mais bonitas eram de Pira! No feriado de Sete de Setembro de 1993 eu mais meus amigos Sérginho Muleta e Carlinhos Canela (apelidos sugestivos) fomos assistir o desfile da independência na cidade e acabamos destruindo o carro de pai de Sérginho - um Fusca caramelo - num acidente! Pura diversão para nós, desespero e prejuízo para nossos pais!...

Durante esses últimos dias, nos poucos momentos em que não estive dormindo, lendo ou fuçando na internet frequentei sambas, bebi com amigos (Jece Leite, Claúdio Toledo, meus primos DJs, Salada, Pateta, Jaime e outros bocas de litro) em quintais e postos de gasolina (um dos programas culturais da city), ouvi canções antigas (pensar que já faz mais de dez anos que mataram Tupac e Notorious BIG) e dei várias risadas com histórias antigas. A vida no interior, por conta disso tudo, é besta, mas não deixa de ter o seu grau de magia e diversão! Como me disse meu amigo antropólogo Heitor Frúgoli Jr. por email ao ouvir minhas lamentações de estar no interior por esses dias, "Se Nova York tem a Sétima Avenida, Limeira tem a Sete de Setembro".

4 comentários:

Luis Vita disse...

aff kibe... quanta nostaugia. Cidade pequena e do interiorrr tem dessas coisas: provoca melancolia, mas vc foi especialmente afetado!

Rapha disse...

Pô, Kibe, ao menos Limeira tem posto de gasolina. Morei em Ladário, MS, por 5 anos... lá não tem nem semáforo! Agora, faltou você colocar umas fotos aí dos pontos turísticos e da Sete de Setembro.

Abração,
Rapha

Kibe disse...

Pois é Luis, o que o interior faz com as pessoas, não?! Não sei o que seria de mim se fosse antropólogo e tivesse que fazer campo numa aldeia indígena por uns dois ou três meses... *rs*

Kibe disse...

Rapha, deve ser por isso que você foi morar na Big Apple, trauma de infância! *rs* Tô sem câmera para tirar as fotos e vai demorar pra comprar uma, preciso de um iPhone primeiro... *rs*