sábado, 25 de outubro de 2008

Welcome to ghetto, folks!!

Madrugada de sábado! Eu e minha mina estamos assistindo TV nos informando sobre as pesquisas da corrida presidencial e a triste notícia que a mãe e o irmão da cantora e atriz Jennifer Hudson morreram após um tiroteio na residência da família em Chicago (vídeo abaixo) além de uma criança (ao que parece filho adotivo da mãe da cantora) estar desaparecida.


Pois bem, de repente ouvimos uma gritaria, pessoas discutindo, alguém dizendo "Bring the weed", outra respondendo "Don't shot it"... Abaixamos o volume da TV e fomos para a janela ver o que estava acontecendo (moramos no segundo andar e a janela da sala dá vista para a rua). Na calçada havia uma confusão de várias pessoas paradas na calçada discutindo entre si, com celulares a mão e um carro aberto. Em questão de minutos o primeiro carro de polícia chegou (provavelmente algum morador ligou chamando-a) sendo seguido por vários outros. Incrível, mas o officers surgiam como formigas, no auge da confusão Dionne, olhando da janela, contou 15 policiais, o que corresponde a no mínimo 7 carros (considerando que cada viatura trabalha com dois cops). A rua foi bloqueada, fizeram buscas, prenderam um figura (acho que a maconha também) e todo mundo se mandou.

Enquanto a confusão acontecia, era possível olhar para os prédios ao redor e ver todos os moradores na janela observando o que ocorria na calçada em frente ao meu apartamento da 117 Street numa madrugada gelada de sábado.

Welcome to ghetto, folks!! Seven cars, 15 cops and a street blocked to take control of a situation at Harlem!!

Triste mesmo é a notícia relacionada a família de Jennifer Hudson. Infelizmente a violência não dá trégua em nenhum lugar do mundo seja em Sampa (caso Eloá), Chicago ou New York.

14 comentários:

Mojana disse...

Interessante esse seu post...sabe que quando eu me mudei para a casa onde moro atualmente, eu testemunhei também uma batida policial bem embaixo da minha janela. Uns caras que estavam num carro foram parados aqui em frente à minha casa por umas três ou quatro viaturas do Tático Móvel dis quais saltaram pelo menos uns 10 PMs. Os caras ficaram deitados no asfalto com as caras no chão e os policiais apontando as armas pra eles e gritando "se mexer morre!, se mexer morre!" Ao que tudo indica, não foi nenhum privilégio de minha parte, rsrsrs.
Quanto ao caso Eloá, foi realmente chato o que aconteceu com a moça, mas na mesma semana, ocorreu um fato que me pareceu muitíssimo mais grave por conta do alcance da questão: o confronto entre policiais civis e militares a caminho da sede do governo estadual. Pra vc, como bom weberiano, será este um sinal de que nosso Estado caminha rapidamente para as cucuias?

raquel disse...

Olá... sinto um clima de anunciação do apocalipse.
Hello... pessoal fatos graves e de confronto entre o Estado estiveram presente em vários momentos da cidade, SAMPA.
Quanto tive o meu primeiro emprego numa livraria no Largo São Franscisco assisti de camarote vários e inúmeros saques na cidade.
Quem ficasse parado podia ser atropelado pelos "trobadões" e quem corria podia ser confundido com os "trombadões".
Os "trombadões" surgiram momentos após vários linchamentos de trombadinhas que ficaram eternizados por Helfil.
Antes de sabermos que eram "trobadões" os responsáveis pelo "movimento" muitos achavam que a revolução estava proxima.
Prefiro pensar sob a ótima do otimismo da Carta Maior em que um dos articulista prevê o resurgimento das Nações/Estado para propor soluções em seus territórios para os problemas globais.

Kibe disse...

Bem, sinceramente, Mojana, não acredito que o Estado esteja indo a falência ou se desgastando. Esse incidente que ocorreu entre as duas polícias em Sampa diz respeito a rivalidade que existe entre as duas instituições de segurança (civil e military) e que é o principal entrave a unificação das polícias. O que mais se tem visto ultimamente é justamente um fortalecimento do Estado em todos os sentidos, algo que é apoiado pela população em geral. Mesmo nessa crise econômica, cuja o ator principal é os USA, fica claro uma política de intervenção estatal de um governo republicano: quer coisa mais esquizofrênica, levando em conta que os republicanos foram os grande implementadores do neoliberalismo com Reagan e Bush Pai. Contudo, tudo na América (deles!) toma uma formato diferente. Quer um exemplo… Obama estava sendo classificado como o candidato mais liberal de todos os tempos pelos republicanos. Agora, estão chamando os democratas de um grupo que quer implementar o socialismo no EUA. Realmente, é necessário entender a ressignificação que os termos liberal e socialismo tomam num país como este.

Há um outro dado interessante sobre a violência em Manhatan e São Paulo. Os índices de criminalidade em Manhatan visivelmente cairam desde o governo de Giuliani nos anos 1990 com sua política de "tolerância zero". Essa política aumentou o efetivo policial, deu mais poderes a polícia e criou um série de regras que, em sintonia com o sistema judiciário americano, penaliza jovens pobres de minorias racias como negros e latinos por crimes leves como penas pesadas. Isso fez com o que os indíces de criminalidade na ilha de Manhatan caissem, mas gostaria de saber como andam as coisas em lugares como Bronx, Brooklin e Queens. Resultado disso já é possível nos números de negros e latinos nas prisões americanas, já que modelos parecidos da “política de tolerância zero” foram exportados para várias regiões do EUA. A população do Harlem, em parte, aprova a ação rápida da polícia, já que há algum tempo atrás provavelmente eles não se importariam em atender chamados nessa parte da ilha. Contudo, essa sistema de criminalização de negros e latinos não fica evidente para essa mesma população que não vê que seus próprios filhos estão indo para a prisão por conta dela. Mais: ainda existe muita brutalidade policial. Ontem mesmo o Reverendo Al Sharpeton estava conduzindo um protesto contra policias que agrediram e sodomizaram um homem que foi detido por porte de maconha numa estação do metrô.

No caso de SP, ao que parece, a violência tem diminuído na periferia. Ao menos é o que tem mostrado os dados relativos a homícidios de jovens em bairros pobres como Capão, Itaquera, Jardim Angela etc. Acho que isso é um misto de vários fatores: projetos de ONGs e do governo focados nesses lugares com o intuito de manter jovens longe do tráfico de drogas, criminalidade e do contato com armas, diminuição da desigualdade econômica, certa estabilidade econômica dos últimos anos e até mesmo a ação do PCC nesses lugares que passa a regular/legislar sobre a criminalidade a partir da criminalidade. Contudo, a polícia em SP continua matando. A maneira como a polícia paulistana respondeu aos ataques do PCC há dois anos atrás mostrou a faceta que mais me assusta na polícia e no Estado brasileiro: sua característica autoritária e violenta que penaliza os mais pobres fora das convenções do Estado de Direito.

Raquel, quanto ao Estado/Nação, não li a Carta Capital, mas essa balela da globalização derrubando as barreiras/fronteiras do Estado/Nação virou água já em 2001 com os ataques do 9/11. Na minha opinião o Estado/Nação nunca foi tão forte. Quer um exemplo? Tenta conseguir um visto para os EUA? Você é tratado como criminoso até que esteja definitivamente dentro da América (deles!) após preencher uma porrada de formulários, tocar piano no consulado Americano, ser entrevistado por sujeitos mal encarados no seu país de origem e no aeroporto que você chega aqui. Tudo isso mesmo que você só queira ir a Disney ver o Mickey… *rs*

Anônimo disse...

Kibe
mas ainda tem uns babacas que usam a midia pra dizer que o Obama nao e' tao negro. Isso porque ele cursou Law/Direito na Harvard e foi o primeiro African American a presidir a tradicional Associacao da Universidade.
Sera que pra ser "negao" ele teria que ser "semi-alfaberizado"??
Abcs de MD e DC.

Astro que é Gilda disse...

eu não me assustaria com tal fato. Aqui isso é bem comum...
Me faria sentir-me em casa ( na americacity - jabaquara sul sampa)

Mojana disse...

Vamos com calma, gente. KIbe, eu não questionei o "Estado" ou "Estado-nação" enquanto entidade, até porque, eu estou e sempre estive entre os críticos do fim da História (e conseqüentemente do Estado), bem como dos defensores do Estado mínimo. Eu me referi ao "nosso Estado", ou seja, estava colocando em discussão especificamente a situação brasileira. Não concordo que o episódio da semana passada possa ser qualificado simplesmente como mais um lance na histórica rivalidade entre policiais civis e militares. Nem concordo tampouco que se possa dizer que se trata de mais uma dose da conhecidíssima violência da polícia sobre o cidadão comum.
Minha avaliação é que estamos diante de uma situação que é mais grave do que parece dentro de um contexto mais amplo. Uma parte significativa da polícia paulista deu-se o direito de usar a estrutura do poder policial com armamentos e veículos contra o próprio governo, fato que, somado às suas práticas autoritárias habituais começam a dar mostra, no mínimo, de uma certa falta de controle por parte do Estado sobre o seu aparato.
Concordo inteiramente com o FATO de que a entidade Estado-nação continua forte e inclusive a atual crise econômica demonstra que ele é indispensável. Mas também é fato que existem alguns Estados que perderam parcial ou completamente o controle sobre o seu território e sobre o uso legítimo da violência. É só escolher: Colômbia, Afeganistão, Sudão, entre outros. No caso desses países, a entidade Estado, perdeu ao menos parte da sua capacidade de ação e controle sobre a sociedade.
O caso do Brasil não é tão extremo quanto o dos exemplos que dei, mas acredito que está na hora de começarmos a pensar sobre o que significa para o Estado brasileiro ter partes de seu território fora de seu controle (como no caso da Reserva Raposa Serra do Sol), cidades onde o capital ligado ao crime organizado vai progressivamente ocupando espaços de poder dentro da esfera legal (caso do RJ e SP, em menor medida) e falando muito particularmente, eu acho um escândalo a queda da violência em regiões de periferia ser atribuída à ação de criminosos. Não porque eu seja uma grande admiradora do Estado brasileiro e de seu aparato policial, mas porque pra mim, isso mostra que cada vez mais o cidadão comum deixa de sê-lo para tornar-se refém de interesses particulares, seja dos policiais de não atendem devidamente a população, seja dos capitalistas (por que de fato é isso que eles fazem) da esfera ilegal. Minha pergunta é, quem vai “mediar” essas relações? ONG’s? Acho que não. O Estado? Através de qual instrumento?

Kibe disse...

Mojana, se lembrarmos os ensinamentos do alemão barbudo, percebe-se que essa situação que ocorreu em Sampa é típica de países que estão no meio do caminho de uma sociedade efetivamente capitalista em relação ao que elas tentaram (tentam) deixar para trás. Em suma, o Estado brasileiro, por não ser pertencente a uma sociedade capitalista na sua forma mais desenvolvida, incluiria o pior dos dois mundos. Alguns viam isso como algo positivo (Gilberto Freyre, uma espécie de modernidade na contra-modernidade) outros de maneira negativa (Sérgio Buarque de Holanda). A pergunta que eu faço, a partir dos países que você citou, se o Estado algum dia teve efetivamente o controle de toda a sociedade nesses lugares? Mais: isso é possível fora do contexto europeu e da América anglo-saxã ao menos no que diz respeito a países que se apresentam como democráticos? Minha impressão é que não, pois nesses lugares o Estado é algo instável. No caso do Brasil acho que nos últimos anos nossas instituições democráticas tem se fortalecido, mas vira e mexe elas tem que lidar com esse autoritarismo que aparece junto e como opção a instabilidade do Estado. Um lugar onde uma organização criminosa não tem receio de matar policiais e a polícia não se importa em assassinar cidadãos não é um Estado sério, mas bem capenga.

Mojana disse...

Você tem razão em relação À fragilidade do Estado brasileiro. Nós debatesmo aqui fatos que ocorreram em áreas centrais do país, porque se fossemos falar sobre a situção do "Brasil profundo" por exemplo, talvez essa fragilidade ficasse ainda mais evidente.
Minha preocupação é que esse instabilidade não cresça, por que passar de um estado capenga para um definitivamente falido seria demais até pra mim, rsrsrsrs.

Mojana disse...

A propósito: como foi o passeio jazzístico?

raquel disse...

Olá Mojana e Kibe... cheguei tarde ao final da discussão.
Compreendo o ponto de vista de Mojana e de Kibe.
Só acho que estão esquecendo que tanto os Meios de Comunicação como a Polícia se consideram e atua como uma classe de PODER à parte, com regras próprias inclusive, desconsiderando as leis do Estado se necessário.
Tudo isso possibilita os excessos que temos no nosso cotidiano. É mais um elemento para se colocar na construção de qualquer tipo de análise.
PS.: Não é Carta Capital é CARTA MAIOR. Um jornal eletronico.

ari disse...

bom, pelo que vc contou, no caso que vc viu num teve tiroteio, nem ameaça de morte...Uma coisa me chama a atenção, aqui e em outros blogs e quetais, as pessoas parecem ler o que querem ler no que está sendo escrito? Sociólogo explica isso?
Boa descrição, mas cntém erros de português...de novo...

Kibe disse...

Grande Ari,
Meus erros de português continuarão a aparecer, pois, como disse a Raquel a Mojana, escrevo meus textos numa "tacada só" sem tempo para revisões (a propósito, ultimamente ando sem tempo até para escrever aqui). Sobre a sua observação, desculpe a minha ignorância, mas não entendi o que você quis dizer.
Abraço,

Kibe disse...

Renata, MD e DC,
Acho que essa acusação/questionamento de se "Obama é suficientemente negro" faz sentido tanto para o Brasil como para os EUA. Ano passado ganhei um livro de presente da minah amiga Gladys Mitchell intitulado "Our kind of people" e que narra um pouco da história de várias instituições da burguesia afro-americana a partir da experiência do autor que participou desse meio. No livro há algumas passagens que capturam dois traços interessantes sobre o quais a identidade negra é construída: pobreza e vitimização. Esses dois elementos são usados estrategicamente por ativistas no processo de sensibilização e mobilização para a causa negra, contudo, também gera problemas. Sendo assim, quando um indivíduo negro é associado com sucesso e riqueza (ainda mais se esse sucesso e riqueza não tem origem em áreas como entretenimento e esportes) isso dá literalmente um nó na cabeça das pessoas. É justamente o que ocorre com Obama: Harvard, Columbia, grana, político precoce e maduro, família resolvida... É literalmente demais para ser um verdadeiro negro! *rs*

Raquel disse...

Todos os mEUs eRROs de portuGuês foram patrocinados pela ótima qualidade de eNSIno que rEcebi ATé hoJe.

Não podemos analisar o resultado sem pensar no processo de construção do mesmo!!!