domingo, 19 de janeiro de 2014

A Supremacia Branca de "Breaking Bad"


Todo mundo anda assistindo e falando sobre Breaking Bad, a série de TV ganhadora do Globo de Ouro de 2014.  A série explora a história de um professor de química do ensino médio (Bryan Craston) convertido em traficante de drogas com o auxílio de um ex aluno (Aaron Paul). Assisti às seis temporadas da série, que foi ao ar nos Estados Unidos entre 2008 e 2013, em pouco mais de duas semanas. Confesso que o roteiro da mesma prende a atenção do/a telespectador/a e a producão tem a mesma qualidade das grande produções de Hollywood. Há uma série de absurdos do ponto de vista da verosimilhança, mas eles não afetam o desfrute de um olhar menos sociológico do show.

Porém, desde o primeiro episódio que assisti, um certo incômodo me abateu. Tentei compartilhar do mesmo com minha namorada (que não assistiu a série) e com um brother, Rogério Cruz, um grande entusiasta da mesma. Entretanto, tive que terminar de ver as seis temporadas para conseguir articular melhor meu mal-estar. Resumidamente, ele se referia ao racismo presente na série.

No início, o que me chamou a atenção foi o ambiente racializado da série no qual personagens pertencentes a minorias raciais estavam circunscritos a papéis estereotipados. Quase todo/as o/as latinos/as são traficantes, pobres, moram em bairros problemáticos ou optam pela vida marginal como se a mesma fosse um destino do qual é impossível se desvencilhar. Duas únicas exceções são um agente do DEA (polícia anti drogas) que é constantemente alvo de piadas racistas de seu parceiro branco e a diretora da escola retratada na série. O universo de Walter White, o professor de química, é constituído por pessoas iguais a ele e sua família: branco/as.

A ligação de White com o submundo das drogas se dá através de seu ex aluno e futuro sócio de empreedimentos ilícitos, Jesse Pinkman. Pinkman é a incorporação do loser de classe média que largou a escola e passou a se dedicar ao ofício de produzir metanfetamina. Nesse ponto, vale a pena notar a caracterização racializada do jovem que é branco mas usa roupas, age, fala e vive com toda uma simbologia que remete ao gueto negro/latino.  Pinkman ouve rap, dirige um low rider e termina a maior parte de suas frases com um "yo" ou "bitch". Seus amigos são jovens latinos e brancos sem futuro que passam o dia bebendo, usando drogas e tendo diálogos sobre cultura pop sobre o efeito de "viagens" causadas por alucinógenos. Mas conforme Pinkman vai se tornando mais profissional na produção de drogas, ele paulatinamente vai se desfazendo dos sinais que o associam ao gueto como as roupas coloridas e acima do número e a linguagem carregada de gírias.

Um último ponto que me incomodou foi o fato de que até a segunda ou terceira temporada apenas latinos são mortos na série. Porém, meus argumentos eram poucos e fracos para acusar BB de racismo. Foi aí que lembrei que tinha lido algo há quase dois anos atrás e que na época não me chamou tanto a atenção, uma vez que não estava acompanhando o show.

Malcolm Harris escreveu para a The New Inquiry em 2012 o instigante artigo The White Market (leia AQUI). Nele o jornalista evidencia como BB repõe a velha fábula presente em vários personagens de desenhos animados e em filmes de ação como Tarzan e bangue bangue na estética John Wayne, ou seja, uma idéia de supremacia branca onde o homem branco consegue inverter as adversidades de um ambiente desconhecido, inóspito e hostil a ele usando de sua superioridade racial. Contudo, a fábula teve que ser complexificada no caso de BB, uma vez que há uma diferença entre o branco que se sobressai ante uma savana africana cheia de nativos negros canibais e animais selvagens ferozes e o professor de química cientista mal sucedido que produz uma super droga 99% pura que todos os drogados dos EUA querem consumir e traficantes obter a receita de produção. No contexto de White (e preste atenção ao seu nome...), todos os mexicanos donos de cartel são imbecis que matam de forma irracional, levam uma vida desregrada e produzem sua droga de forma desleixada e amadora. Nesse sentido, é necessário injetar o mundo das drogas da brancura de White (um pleonasmo) através de sua obsessão com qualidade e limpeza. Ou seja, sejamos mais capitalistas! 

Entretanto, no mundo real, essas lógicas não funcionando dessa forma. Drogados não se preocupam com pureza e, assim sendo, obsessão com limpeza e qualidade significam perda de lucro. Citando a série The Wire através do traficante Stringer Bell (Idris Elba), Harris exemplifica o street wise econômico das ruas que tira a credibilidade do personagem Walter White: “When it’s good, they buy. When it’s bad, they buy twice as much. The worse we do, the more money we make.”  (Quando a droga é boa, eles compram. Quando ela é ruim, eles compram duas vezes mais. O quanto pior nós a fazemos, mais dinheiro nós ganhamos).

Tarzan, John Wayne e Walter White são personagens que acariciam os brios de uma supremacia branca, mas que só existem no mundo da ficção, pois a vida real é bem mais complexa e diferente.

Muita Paz, Muito Amor!

Comentários (5)

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Aí, Kibão, tá lido! Gostei prá caramba...Claro, eu deveria ficar nos elogios...mas, sabe como é, a irresistível tentação de "colaborar" apareceu...Essa coisa do sobrenome "White" ser simbólico....Será? Será? Sei não....Quanto à série, não a aprecio nem um bocadito, mas isso não tem nada a ver.
1 resposta · ativo 584 semanas atrás
Valeu pela leitura, Ari!

Sobre o nome "White", fica no ar a pergunta... :)

Grande abraço,

Márcio/Kibe.
Sou negro, assisti à série e cheguei à conclusões bem diversas das suas. Vi uma aguda crítica à supremacia branca, muito mais do que um elogio à mesma. A série me pareceu acusar o homem branco de ser aquele que produz de modo exigente os elementos de destruição da dignidade humana. Não basta destruir, tem que ser com o maior teor de pureza (perfeição) possível. Se a comunidade negra e latina aparece estereotipada? Sem dúvida, mas de modo a confirmar o fato de que quem produz estereótipos sobre a comunidade negra e latina, é justamente o supremo (in)equivocado homem branco. Sobre a comunidade latina especificamente, achei interessante uma discussão possível, a respeito das fronteiras EUA/México: Como o governo norte americano, cão feroz de guarda dessas fronteiras, é convenientemente incompetente a ponto de não ver aquele trailer/laboratório circular livremente num campo político tão minado? Quanto aos atores da produção e venda de drogas, embora alguns grupos minoritários sejam o alvo prioritário, em alguma instância pode acontecer alguma forma de participação como agentes. Acho que o personagem do Fring traduz isso: negros/latinos podem ser mentores nesse submundo, mas não importa quão genial sejam (Fring era genial) a supremacia branca não descansará até aniquilá lo. Por fim, acho que reiterando o lugar de Mrs. White como a grande vilania branca, está o fato de adotar o codinome Heisenberg, nome importante da ciência nazista e o fato de White concluir seus propósitos com a participação fundamental de neonazistas ao final da quinta e última temporada. Assim, não digo que não tenho minhas críticas, pois preferiria não ver negros e latinos associados mais uma vez ao mundo das drogas. Mas acho q a série mostra muito mais a patologia social do homem branco, do que reitera um lugar de subordinação das minorias.
1 resposta · ativo 584 semanas atrás
Prezado Gustavo,

Obrigado pela leitura e comentário ao post!

A sua leitura e perfeitamente possível, mas fazê-la é ter muita fé no "bom mocismo" de Hollywood e se colocar mais ao lado da crítica cultural do que a indústria de entreterimento. A idéia de uma crítica à "patologia social do homem branco" presente na série é meio suspeita. O que é condenado no roteiro são os aspectos morais e éticos da personalidade de Walter que, diante de um dilema existencial e econômico, opta pelo "lado mal da força" e reencontra nele o reconhecimento social que havia perdido durante sua trajetória profissional/acadêmica. Contudo, não vejo aí nenhuma questionamento aos valores do capitalismo norte americano que nem cor tem. Pelo contrário, há o tempo todo a exaltação ao "Made in America": uma droga produzida em padrões de larga escala com controle de qualidade altíssimo já que segue os preceitos científcos do PhD em química Walter White. Fring, por sua vez, representa a versão afro-latina americanizada do grande empreendedor no tráfico de drogas trazendo eficiência e racionalidade a esse mercado criminoso, algo que falata a seus ex comparsas mexicanos (por uma questão de inferioridade racial ou menos incorporação da "ética protestante e do espírito do capitalismo"). O uso do termo Heisenberg por White e sua posterior associação com o grupo neo nazista é feita no sentido de hiperbolizar a ambiguidade moral de White. No final da temporada ele busca se render matando todos os trutas brancos puros. Mas fica a pergunta: alguém aí se convenceu de que White não compartilhava de alguns valores com seus patrícios exaltadores da pureza ariana?

Enfim, Hollywood é liberal, mas dentro de seus próprios limites. Esse artigo aqui do Walter Moreira Salles exemplifica bem a parada: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-29/ques...

Muita Paz!

Márcio/Kibe.
Análise interessante, mas 3 personagens negros que aparecem pouco, mas têm grande importância na trama não foram citados. O primeiro é o médico negro que é o melhor oncologista de todos, responsável pela remissão do câncer de Walter, a qual o médico branco não acreditava ser possível. Outro é o fisioterapeuta competente e atencioso que faz com que a recuperação de Hank seja a melhor possível. O último é o policial que descobre a relação do assassinato do Gale com o tráfico de drogas. Todos eles livres de estereótipos raciais negativos.

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