domingo, 3 de julho de 2011

A Moça do Caderninho

 
Lá em Sun Paulu havia uma moça preta grande grande grande que andava com um caderninho bem pequenino dentro da bolsa. Nas páginas brancas do caderninho de capa preta ela tomava notas das coisas grandes e pequenas desse mundo que ela via: a borboleta, o cravo, a rosa, o homem da gravata florida e de sorrisso com dente cariado (dentista é caro em Sun Paulu!). Mas a moça grande grande grande do caderninho de capa preta não mostrava seus rabiscos pra ninguém pois, segundo fofocas das amigas, as notas faziam parte de um projeto grande grande grande de dominar o mundo com todas as suas coisas grandes e pequenas através da sua beleza e simpatia. Um dia a moça grande grande grande perdeu o caderninho de capa preta na saída de um baile nostalgia no qual ela tomava nota das músicas e casais de gente preta que dançavam e faziam falsas juras de amor uns aos outros em sessões de melodia. Um moço baixinho e meio míope que usava um óculos antiquado pisou no caderninho e olhou pro chão animado pensando que fosse uma carteira cheia de dinheiro. Mas não. Era o caderninho bem pequenino de capa preta da moça grande grande grande. A moça grande grande grande só deu falta do caderninho quando chegou em casa de manhã e foi tomar nota de mais uma idéia para dominar o mundo com sua beleza e simpatia. Ficou desesperada! Se alguém tomasse ciência de seus planos de dominar o mundo com sua beleza e simpatia ela estaria perdida. Quatro estações se passaram e moça grande grande grande se desesperava cada vez mais numa busca obstinada pelo caderninho, mas ninguém sabia dele. Fez promessa pra São Longuinho, simpatia, foi pra Tietê pedir graça pra São Benedito, jogou búzios, consultou os pais véios e caboclos na umbanda e até contratou um detetive picareta que acabou com o pouco dinheiro que ela ainda tinha. A moça grande grande grande aprendeu inglês, francês, árabe e mandarim pra facilitar a busca, mas nada disso adiantou. Nem sinal do caderninho filho da puta com seus planos de dominar o mundo por meio da sua beleza e simpatia. Um dia chuvoso a moça grande grande grande se embelezou toda colocando o seu melhor vestido, sapato e arrumando o cabelo. A moça grande grande grande estava linda, mas estava triste. Seu caderninho se perdera pelo mundo das coisas grandes e pequenas e a cada dia que passava ela sentia menos vontade de viver, pois seus planos de dominar o mundo por meio da sua beleza e simpatia não existiam mais. Ela ia desistir de tudo e arrumar um emprego de burocrata tomando notas das coisas que ainda faltavam serem inventadas nesses mundo das coisas grandes e pequenas. Quando ela abriu a porta, se deparou com um negro baixinho, roupa surrada, míope usando óculos antiquado. Esse indivíduo era tido como louco, pois há exatamente um ano vinha batendo de porta em porta perguntando coisas sem sentido as moças bonitas. Quando a moça grande grande grande olhou para ele (de cima para baixo) notou que o maltrapilho segurava um caderninho preto nas mãos magras e delicadas. "Você é a moça grande grande grande que quer dominar o mundo com sua beleza e simpatia?" Quase sem reação a moça grande grande grande se engasgou toda e disse de supetão, "Sim, sou eu! Esse caderninho é meu?", "Não, não é mais, pois achado não é roubado!" A moça grande grande grande olhou com fúria para o homem baixinho e tomou o caderno dele de forma brusca. Bateu a porta na cara do vagabundo e se jogou no sofá para ler seus planos e notas no caderninho. Mas quando abriu o mesmo, percebeu que as páginas estavam em branco, ainda por serem escritas. Apenas uma página estava preenchida com letras de formas infantis: "Moça grande grande grande quer casar comigo? Meu nome é Mundo e eu sou um preto baixinho, míope e de óculos de grau antiquado!" Mundo, conquistado/apaixonado, esperava cabisbaixo e debaixo de chuva quando a moça grande grande grande abriu a porta novamente: "Caso mais tarde. Entra para evitar um resfriado".

Comentários (27)

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Caraca, que maneiro mano! Boa escrita e final espetacular. Muito bom!!
Que lindooooo! Fiquei emocionada, e não tô de TPM.rs. Neste dias em que quase desacredito do amor e dos encontros conspirados por cupidos caprichosos...este texto deu uma "lavada" nos pensamentos pessimistas. Valeu Kibe!
Muito bom, cara. Bom conhecer este seu outro estilo de escrita.
É o seguinte: se vc não editar a porra desse livro preto, vou ficar muito puta! Falei.
Não é análise literária, nem sei o que é isso? :) Agora, essa alternância entre grande e pequeno no texto ficou phoda! Ela é grande demais para esse mundo de coisinhas pequenas. Sua beleza e simpatia cabem nele não. Já ele, é esquálido demais para andar em baile Nostalgia, sem ser notado como o esquisito. Os óculos assim em descompasso com o tempo só podem fazer dele MUNDO mesmo. Tanta discrepância só podia dar nisso que deu. Eu falei, eu falei que não era análise literária. É que agora vou voltar a dormir com a imagem da preta grande grande grande com o mundo esquálido em descompasso por aí... Ai ai....
Adorei Kibe!
Quantos de nós não passa a vida planejando, planejando e planejando, mas só consegue realmente encantar e conquistar o mundo exterior, quando com a perda do controle excessivo, expõe tudo o que sempre guardou no seu mundo interior. Mais um texto, que adorei.
Querid@s,

Obrigado a tod@s pela leitura e comentários!

Grande abraço,

Márcio/Kibe.
Que delícia de leitura......bjuuu saudoso...Titi.
adorei esta faceta, kibe!!! obirgada! bjs
adorei esta faceta, kibe!!! obirgada! bjs
Tb adorei, tava com saudade de tuas escritas.....Bjo grande grande grande...!
Bom demais!! Vê se faz mais nessa linha. Bom demais!!
Lindo..tb amei
Que lindo Kibe, adorei!!! Muito inspirado mesmo. Saudades docê!
Gostei tanto que acabo de compartilhar no cara-livro
Muito bacana! Um comentário: é muito legal viver um pouco "fora da nossa realidade". Nenhuma das minhas amigas aqui na Galícia (de várias nacionalidades: polaca, alemã, dinamarquesa, francesa, espanhola, etc.) entenderia os detalhes deliciosos e sublimes dessa história. São Longuinho, búzios, baile nostalgia, simpatia, Tietê.... Eu teria que preparar umas 3 aulas de História do Brasil, mais outras 4 de religiosidade, outras 3 sobre movimento negro e resistência e umas 2 sobre folclore e cultura brasileira. Ainda assim, seria difícil passar o sentimento sobre o que é estar desesperado a ponto de sair pulando para São Longuinho te ajudar, mas também o quão natural seria misturar todas as religiões para alcançar um objetivo...
Adorei a história.... Adoro poder entender essas histórias! =)
muito bom kibe adorei a história o vocabulário o estilo-lenda!
Grande, grande, grande, Kibe.

Que não é esquálido, usa óculos, mas não é míope p´ra coisas do Mundo, não é mesmo?
Cê sabe que te quero bem. Mas outro Paulo Coelho nois num guenta...
Rsrsrs... Mto bom, gostei, mas hoje em dia esta díficil encontrar um negro baixinho, roupa surrada, míope usando óculos antiquado, querendo casar rsrsr... provavelmente se existir esta fora do país... rsrs
Um grande grande grande abraço, Kibe
Meu caro amigo... Adorei seu conto, um dos mais belos entre as joias que deposita nesse espaco. Uvanderson
Cara, você humilhou hein! rs Confesso que faz algumas semanas que não dou uma "fuçadinha" aqui, ai hj recebi um e-mail de um amigo com o assunto "NewYork Kibe" fiquei curiosa e lá simplesmente tinha o link para este PRESENTE aqui! Obrigada por me proporcionar essa leitura linda!
Muito loko esse pequeno conto mano! Digno de Cadernos Negros! Um bom escritor sabe escrever bem sobre vários assuntos, em vários estilos. Abraço!
1 resposta · ativo 710 semanas atrás
Poxa, leitura bem agradável.. eu ficaria feliz em comprar um caderno com seus contos.. huahuahuahu
1 resposta · ativo 710 semanas atrás

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