domingo, 27 de junho de 2010

Copa do Mundo, Tensão Racial e Desigualdade na Rainbow Nation


Junho/julho tá aí e a única que você pensa é na Copa do Mundo, né? Entram em cena as velhas e manjadas discussões sobre o desempenho da seleção brasileira, xingamentos tipo "Dunga retranqueiro do c..." e a excitação que domina nosso Brasil varonil nesse evento que literalmente para o país assim como o PCC parou São Paulo alguns anos atrás (comparação tosca, mas verdadeira). Pois é, mas tem um cara sobre o qual você talvez nunca tenha ouvido falar, mas que dois meses atrás foi manchete nos jornais de vários países juntamente com a temática da primeira copa a ser disputada em solo africano. Seu nome é Eugène Ney Terre'Blanche (foto acima tirada pela antropóloga Laura Moutinho durante o enterro do líder) e o mesmo era, até dia o último dia 3 de abril, o líder do partido político (símbolo abaixo) que ainda defende a supremacia branca na África do Sul. Nesse fatídico dia (que alguns consideraram "feliz") o fazendeiro Blanche foi assassinado a machadadas em sua cama por dois de seus empregados negros após uma discussão por pagamento de salários. O crime deu vazão a uma tensão racial que paira desde sempre no ar da Rainbow Nation (nação arco-íris) - termo cunhado pelo bispo Desmond Tutu para definir o país africano pós-apartheid - a ponto do presidente do país, Jacob Zuma, ter sido obrigado a fazer um pronunciamento pedindo calma a população.

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A verdade é que se nos atermos as reportagens que pipocam na TV brasileira falando sobre a África do Sul nos intervalos das notícias do campeonato mundial de futebol, continuaremos totalmente ignorantes sobre o que realmente é ou ocorre no país africano. Todos os relatos se ateem a uma narrativa mítica e superficial do que foi o apartheid e de como é de fato a vida da população sul-africana dividida entre mais de dez idiomas, grupos étnico/raciais distintos e desigualdade social e econômica. Mas já era de se esperar. A Copa do Mundo de Futebol, assim como as Olimpíadas, são mega-eventos de proporções globais que constrõem uma narrativa ligando o local com global de formal espetacular. Entretanto, o imaginário que é elaborado sobre o local sede do evento deve ser feito de forma simples de modo que o telespectador mediano, residindo em qualquer região remota do mundo, possa entender/interpretar/ler o país em questão com leves pinceladas de história. Eis o motivo pelo qual a possibilidade das reportagens resvalarem para o estereótipo é extremamente grande, fácil e cômodo uma vez que não há o interesse por parte dos jornalistas em dar conta da complexidade cultural, política e social do local em questão. Reportagens como a da BBC (vídeo abaixo em português) são bem raras.



A matéria é interessante justamente por questionar a tão disseminada crença de que esses mega-eventos são elementos que promovem desenvolvimento e diminuem a desigualdade social nos países onde acontecem. No caso da África do Sul a distribuição desigual de recursos entre os grupos raciais se radicalizou no período do apartheid que virogou entre 1948 e 1990 regulamentando a separação entre negros e brancos. Ainda hoje, 20 anos após o término do regime, a desigualdade se mantem e mostra seus delineamentos e resultados através da alta concentração de riqueza, violência - Joanesburgo é uma das cidades mais violentas do mundo - e conflitos entre negros e brancos, mas que são pouco cobertos pela mídia internacional. Mesmo após uma reforma agrária, que visava redistribuir os latifúndios de proprietários brancos entre a população negra, e ações afirmativas que buscavam inserir negros na alta burocracia estatal e no mercado de trabalho, o problema da desigualdade se manteve devido, por um lado, a discrepância de recursos tecnológicos e capital disponíveis para proprietários brancos e negros cuidarem de suas fazendas e, por outro, por conta da grande beneficiária das ações afirmativas ter sido uma classe média negra anteriormente existente. Em suma, a grande massa de pobre e miseráveis, majoritariamente negros das diversas etnias sul-africanas, continuaram desassistidos e vivendo em bairros miseráveis.

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Desse modo, a desigualdade atua de forma silenciosa mas gera conflitos claramente visíveis. Exemplo disso é a crença generalizada e acusações vindas de brancos sul-africanos que os mesmos vem sendo vítima de uma matança sistémática perpetrada por negros como uma forma de vingança ou estratégia de forçar os mesmos a deixarem o país. O livro Desonra (1999) do autor sul-africano John Coetzee (foto abaixo), agraciado com o Nobel de literatura em 2003,  expõe de forma ficcional os dilemas vividos pelo país em sua contemporaneidade. O texto traz um pequeno quadro da África do Sul pós-apartheid, com seus conflitos internos, lugar onde raça e racismo tornaram-se assunto tabu que causa mal-estar nas pessoas, mas ao mesmo tempo rege a ação de todos os indíviduos.  Ainda há espaço e vigor para celebração de um país que se vê como rainbow nation, mas que registra o mais alto índice de casos de estupros no mundo.

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A reportagem da BBC afirma que na Cidade do Cabo, o principal ponto turístico do país, a ocorrência da Copa passa quase despercebida entre a população mais pobre. Essas discussões interessam e muito ao Brasil uma vez que num período de seis anos sediaremos tanto a Copa do Mundo (2014) como as Olimpíadas (2016). Nesse sentido, é válido se questionar qual será a narrativa que os meios de comunicação construirão sobre nosso país e como os eventos impactarão o nosso índice de desenvolvimento humano (IDH), o que significa mais ou menos, melhor ou pior saneamento básico, moradia, acesso a serviços de saúde, cultura, comunicação e qualidade da educação. Veremos...

Muita Paz!