terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Falta Seriedade ao Jabor



São 10 da manhã de terça. Acabei de levantar e estou tomando café e lendo as notícias no laptop. O que ando sentindo nesses últimos dias, por conta de uma série de acontecimentos, é um misto de melancolia com alívio (inverno, inferno astral com relacionamentos, doenças e por aí vai!). Mas eis que topo com um texto de Arnaldo Jabor que me deixa no mínimo puto. Antes de me focar nessa figura, uma história. Lembro que quando lecionava numa universidade privada em São Paulo, uma vez me vi numa aula tentando explicar a meus alunos a utilidade da filosofia nos dias atuais e qual era o ofício de um filósofo. E lá estava eu discorrendo sobre o mito da caverna de Platão e tentando explicar as digressões sobre o amor em O Banquete. Meus/Minhas alun@s não davam a mínima, obviamente. Afinal, pra que cargas d'água um administrador precisaria ler Platão, ou Rousseau, ou Descartes, ou Sartre? Catatões chatos, sem sentido e cheios de palavras indecifráveis! Mas insisti com os jovens universitários e busquei retratar como o texto filosófico nos ajuda a obter diferentes perspectivas de uma problemática, análises fundamentadas do ponto de vista moral, estético, histórico e político. Enfim, o texto filosófico nos levaria a transpor o conhecimento espontâneo e acrítico do senso comum. Nessa altura, eis que um aluno ergue a mão pedindo a palavra: "Professor, o texto filosófico é algo como as coisas que essa cara Arnaldo Jabor escreve no jornal, né?" Ai ai...

Pois bem, estava eu a ler um desses textos "que esse cara Arnaldo Jabor escreve no jornal" em que o cineasta discorre sobre fenômeno do Facebook (leia AQUI) e eis que topo com uma pérola: "Ferido por esta dor, fui no dia seguinte à exposição de Jean-Michel Basquiat, no Museu de Arte Moderna. Eu, que desconfiava da genialidade do neguinho, tive uma revelação: ali estava retratado o sentimento do mundo atual, o impacto da dor de um "excluído", pela casual união entre o mais miserável e o mais profundo: filho de haitiano, homeless, pele preta, drogado, mas com um talento "picassiano"." Sinto muito, mas minha sensibilidade (que anda por um fio!) foi para o bebeléu. Cada dia que passa, tenho menos paciência para esses pseudo-intelectuais como Jabor que pagam de descolados escrevendo besteiras e travestindo o seu preconceito de cor/classe com palavras e textos que não levam a nenhum lugar. A passagem acima demonstra a total ignorância de Jabor em relação as pessoas sobre as quais escreve ou falta de compromisso em simplesmente obter mais informações sobre o que está escrevendo nem que seja pesquisando no Wikipedia. Basta uma leitura rápida no meu post sobre um recente documentário sobre Basquiat lançado ano passado (leia AQUI) para se tocar de que a descrição fornecida por Jabor é uma meia verdade. Basquiat nunca foi pobre, sua família era de classe média (o pai era contador), o ambiente familiar era trilingue (além do inglês o pai haitiano falava francês e a mãe porto-riquenha dominava o espanhol) e o pintor decidiu morar nas ruas por opção quando tinha apenas 17 anos. A formação do artista, que nunca freqüentou escolas de arte, foi autodidata já que a mãe o levava a museus desde da tenra de três anos. Mais, Jabor enquadra o talento de Basquiat como algo espetacular, caído do céu de modo que o artista seria apenas um sortudo. Pois bem, já fiz uma discussão aqui sobre como genialidade não é algo que é trazida nos genes ou é um dom divino, mas sim algo produzido socialmente. Basta ler o texto clássico de Norbert Elias, Mozart: Sociologia de um Gênio (1994), para entender do que falo. Por fim, Jabor se refere a Basquiat como "neguinho" diminuindo o valor do artista de uma forma que pode ser caracterizada como no mínimo preconceituosa.

Mas é isso aí. Essa é a maneira com o racismo brasileiro, entendido erroneamente como "cordial", funciona. Nosso racismo se manifesta no âmbito do privado, entre portas fechadas, nos comentários de canto de boca, nas piadas e textos relativamente leves que visam informar e entreter como o de Jabor. Outro mestre desse método é o jornalista, produtor musical e escritor Nelson Motta (foto acima). Ano passado fiz uma resenha do livro que o mesmo escreveu sobre o cantor Tim Maia (leia AQUI) onde a intimidade é usada de forma desrespeitosa através de termos como "crioulo" e "preto" além do paternalismo transbordante da primeira até a última página. Tim Maia, que era inteligente, sacado e visionário, acaba sendo lido apenas a partir dos estereótipos históricos que lhe são atribuídos: beberão, cheirador, irresponsável e porra louca.

Infelizmente, são essas pessoas que ocupam espaços importantes nos meios de comunicação de massa existentes no Brasil. Nossa mídia é ainda elitista, branca e majoritariamente masculina e heterossexual. Tempos atrás resolvi fazer um post sobre os blogs patrocinados por jornais como Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo. Olhando dezenas de blogs individualmente, não encontrei um sequer escrito por um/a patríci@ de cor. Mas daí eu pergunto: como damos conta de diferentes visões de mundo, gostos, estéticas e estilos que compõem nosso país quando a imprensa é tão homogênea do ponto de vista de classe, gênero, raça e origem geográfica? Brasil Brasil, mostra a sua cara. E Jabor, pare de escrever MERDA!  Em tempo, respondi a meu aluno que o texto do cineasta não era filosófico, mas talvez escatológico.  Obviamente que o jovem futuro administrador não entendeu a piada.

Muita Paz!
* Post escrito ouvindo Luiz Melodia, álbum Pérola Negra (1973). Ouça AQUI

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A Rusticidade do Amor e da Morte

A Rusticidade do Amor e da Morte

A textura era rústica, mas o roçar contra a pele do rosto tornava o movimento agradável. Cheirou-os e sentiu um aroma adocicado, teve vontade de segurá-los, com força, assim como se segura alguém quando se faz amor. Entretanto, mudou de idéia e beijou-os. A textura rústica roçou seu beiço e sentiu prazer com aquilo a ponto de começar a ficar excitado. A ereção veio rápido, como um flashback de um lembrança perdida no tempo. Ficou mais excitado e uma súbita vontade de colocá-lo na boca e chupá-lo delicadamente lhe veio a cabeça. Novamente não foi adiante com a primeira idéia e simplesmente os segurou sentindo sua textura rústica contra a palma da mão. Dessa vez se viu como uma criança que realizava o desejo de tocar algo proibido. Lembrou de suas aulas de estética na faculdade e da sua descoberta vocacional ainda criança... Soube que seria artista não porque viesse de uma família de artistas ou porque tinha noção de seus dotes com artes plásticas. Não, soube que seria artista por conta do toque, porque adorava tocar as coisas que sempre estavam ao seu redor: o pêlo do gato do vizinho, a pele escura de sua mãe, a barba espinhosa de seu pai, a mão calejada de sua avó que chegou a tocar mesmo quando a mesma encontrava-se sem vida e jogada ao lado esquerdo da cama em que o corpo moribundo ficara entrevado por três anos antes de dar o último suspiro numa manhã chuvosa de janeiro. Mas o momento de descoberta foi durante a ida ao museu numa excursão de sua classe de terceira série: foi pego passando suas pequeninas mãozinhas escuras sobre um quadro. Uma bronca do segurança, esporro da professora, advertência enviada pros pais e, por fim, a coroação com uma surra da mãe. Havia passado pelo ritual de iniciação, tornou-se artista aos 10 anos. Tocar, segurar, apertar, roçar... Não demorou a descobrir a mágica e sensações poderia tirar de determinadas partes de seu próprio corpo, mas nunca imaginou que aquilo pudesse ser feito a dois. Já crescido, Dedé um dia lhe disse que seu trabalho era como o de uma puta, a única diferença era que seus clientes eram suas esculturas. Sim, ele passava o dia inteiro tocando, modelando, massageando, e fazendo amor com suas esculturas. Mas talvez não fosse isso que Dedé quisesse dizer com sua analogia. O fato é que artistas são putas porque supostamente vendem sentimentos, colocam um preço na em sua intimidade. Todas as esculturas que ele tinha feito eram expressões de relações mal-resolvidas, estados profundos de tristeza, alegria, medo, ansiedade, desejo, raiva, ódio, paixão e decepção. Segurou-os com força agora. A ereção tinha passado e ficou olhando para o corpo nu de Dedé. As formas arredondas e grandes daquela mulher da cor da noite. Sentiu medo, sempre sentia medo de Dedé. Aquela mulher guardava segredos que nunca lhe seriam confessados. Mas quando faziam amor e se tornavam um, ele podia sentir os segredos de Dedé, como se eles fossem parte dele por alguns minutos. E por fim, quando ela gozava, soltava uma gargalhada que só mulheres pretas como ela sabem dar e se jogava ao lado da cama com o coração acelerado. Dedé dormiria e ele ficaria acordado olhando seu corpo na penumbra e a observando dormir. Admirando sua pele e agradecendo a Deus, o Diabo, São Benedito, Xangô, Jeová, Jah, Jesus e a Escrava Anastácia por ter colocado aquela mulher cor da noite em sua vida. O ritual de contemplação de sua musa sempre acabava no cabelo de Dedé dreadlocks que eram, na sua opinião, a mais linda escultura que ele já havia visto. Os dreads de Dedé tinham a mesma rusticidade que ele sentia ao tocar a mão calejada de sua avó quando criança, sensação que perdera há tanto tempo, mas que recuperara na preta de sua vida. Quando pensava na possibilidade de perdê-la, entrava em pânico. Agarrava o corpo de Dedé, como uma criança que se esquiva sobre a mãe, e dormia de forma profunda para esquecer que essa possibilidade existia. Entretanto, na sua cabeça, a morte seria menos dolorosa se fosse possível escolher sua data e lugar. No seu caso, morreria ali, juntinho de Dedê, no mesmo dia, hora e agarrado ao cabelo rústico de sua amada, uma dádiva de Jah. Amor é renúncia, amor é rusticidade, amor é morte...

Muita Paz, Ótima Semana!
*
Canção inspiradora Ex-Factor, Lauryn Hill, álbum The Miseducation of Lauryn Hill (1998). Ouça AQUI

domingo, 30 de janeiro de 2011

Orelha Negra


Hoje é domingo do Pedro Cachimbo. 7:00 horas da manhã em NYC e acabo de chegar da balada numa noite meio doida na qual planejava, inicialmente, voltar pra casa às 11:00 da noite para dormir. O chá de bebê de DJ Laylo (Loira Bimbal, esposa do rapper Eli Efi) era a única fita marcada, mas... Do Harlem fui pro Brooklyn e do Brooklyn voltei pra Manhattan indo parar na festa do DJ Spinna onde dancei como há tempos não fazia acompanhado de minhas amigas novaiorquinas (só como categoria, pois quase ninguém é de fato de NYC por aqui). Você deve imaginar como estou só o pó, mas chova ou faça sol  "nóiz" "tamo" sempre aqui com o nosso santo post. O de hoje é rápido, mas muito bom. Fuçando na web esses dias vi um post bem legal no blog Só Pedrada Musical de Daniel Tamenpi sobre a banda portuguesa Orelha Negra (foto acima). Como estou morrendo de sono deixo todo mundo com um dos vídeos da banda e sugiro a leitura do post de Daniel que você consegue acessar clicando AQUI

O nome do som é M.I.R.I.A.M.



Muita Paz!
* Post escrito ao som de Res, álbum How I Do (2001).

sábado, 29 de janeiro de 2011

This Is Africa!

 
O continente africano é um dos lugares onde os elementos da dita cultura urbana (como o hip-hop) mais tem tomado uma face única. Talvez isso aconteça porque, diferente dos patrícios afro-americanos, nossos brothers vivendo na motherland ainda não se deixaram levar tão fácil (ou por falta de oportunidade mesmo) pelo canto da sereia do consumismo exacerbado bobo e do narcisismo “(a)celébrico” (acho que acabei de inventar essa palavra!) que cada vez mais povoam o universo dessa cultura aqui nos EUA. Enfim, mas o post de hoje é uma dica bem legal de site que peguei numa “tuitada” do pessoal da World Up. Intitulado This Is Africa o site é um misto de revista eletrônica e projeto social. A definição fornecida pela galera no texto de apresentação afirma que "This Is Africa is a media organisation that brings Africa and the West closer together via African contemporary urban culture."  (This Is Africa é uma organização midiática que aproxima a África e Ocidente via cultura urbana africana contemporânea).
 
A qualidade e disposição das imagens além do layout do site realmente impressionam. Os temas discutidos e objetos de interesse são aqueles clássicos que já conhecemos: música, moda, política, comportamento, juventude e por aí vai. Pelo que chequei, o staff da organização está distribuído entre Nigéria, África do Sul, Ruanda, Gana, Holanda e Inglaterra. Uma das matérias que achei bem legal (mas ainda não tive tempo de ler) é a que explora a cena alternativa punk de Joanesburgo (leia AQUI). Também estou viajando nas mixtapes dos DJs que dá pra baixar e ouvir no iPod Touch ou iPhone (além do computador, obviamente!). Outro texto que parece massa é um sobre fotografia e funk nigeriano (vê AQUI )

Visite o site dos caras AQUI

Abaixo video retirado do canal dos trutas no YouTube. 



Muita Paz!

* Post escrito ao som de Kurtis Blow, álbum Back By Popular Demand (1988).

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Night Catches Us


Aí vai uma dica valiosa de filme a ser assistido. Esqueça os filmes bobos, babacas e moralistas do Tyler Perry, por favor! Também pare de ser enganado pelas comédias ruins de Ice Cube. Assim que puder, adquira uma cópia de Night Catches Us (2010) e assista ao lado de um boa companhia ou mesmo sozinho (DVDs estarão disponíveis para a venda no dia 1 de fevereiro). Uma novidade agradável é que o filme foi escrito e dirigido por uma mulher, Tanya Hamilton.  A película conta a história de Marcus Washington (Anthony Mackie, She Hate Me [Spike Lee], 2004) e Patricia Wilson (Kerry Washington, The Last King of Scotland [Kevin MacDonald], 2006). Patricia é uma advogada dos movimentos pelos direitos civis e ex militante do Black Panthers Party vivendo numa vizinhança da Pennsylvania. Seu marido fora morto num tiroteio com a polícia quando estes tentavam capturá-lo. Washington, também um ex Panther, está voltando a cidade após dois anos praticamente desaparecido. Há suspeitas dentro da organização política de que ele seria o "snitch" (dedo duro, cacoete) que teria entregado o marido de Wilson a polícia.

O enredo do filme fala sobre a dificuldade de superar o passado diante de situações em que as esperanças morrem pouco à pouco. A revolução, tão falada e celebrada no final dos anos 1960 e início dos 1970, parecia não ter mais data para chegar em 1976 e a frustração, desconfiança e raiva pairam sobre aqueles que foram uma vez jovens negros idealistas prontos a dar sua vida pela causa negra. Para completar com chave de ouro, a trilha sonora foi composta pela banda de rap acústico The Roots. Sugestivo ou não?  Assista o trailer logo abaixo.



* Para quem quiser encarar assistir o filme em inglês, meu truta Cristiano Rodrigues informou-me via Twitter que dá para baixar a parada  AQUI Ó
* Post escrito ao som de Maxwell, álbum BLACKsummer'snight (2009).
* 2:39 pm em NYC e resolvi fazer um pequeno update no post disponibilizando aqui a linda canção de Syl Jonhson, Is It Because I'm Black? (1970),  que fecha o trailer de Night Catches Us. Ouça aí, o som é lindo a ponto de dar vontade de chorar...



Muita Paz!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Livros Livros Livros... 2010

Minha conta é de que li (ou comecei a ler e larguei) 17 livros por diversão em 2010. Sim, há os livros que são lidos por diversão e prazer e outros que ficam no registro da obrigação. Nessa segunda categoria entra tudo que sou forçado a ler devido aos cursos do doutorado. É óbvio que algumas coisas que leio para os cursos são prazerosas e divertidas, mas a verdade é que mesmo que o sejam, acabo por fazê-lo meio a contragosto devido a pressão e o tempo. Mesmo assim, uma ou duas obras que tive que encarar para escrever algum paper acabou entrando na lista do livros lidos por prazer. Mas vamos a lista...

1- O primeiro livro lido por puro deleite no ano passado foi de autoria do jornalista Toninho VazO Bandido que Sabia Latim (2001, Record, 378 páginas). A obra é uma biografia - talvez a primeira - do poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989). Vaz leva o mérito de ser o primeiro a sistematizar a trajetória desse grande escritor, poeta e intelectual que teve uma vida cercada de altos e baixos morrendo por complicações renais devido ao uso abusivo de álcool. Como já disse em posts anteriores do blog, sou um grande apreciador de biografias e a vida de Leminski é interessante o suficiente para fornecer um ótimo material para esse tipo de empreita. Vaz, que foi amigo do poeta, é um narrador nada neutro, pois muita vezes surge como uma das figuras que compõem o emaranhado de histórias que são apresentadas com intuito de contar o nascimento, ascensão e declínio de um poeta/escritor que sempre teve uma relação ambígua com o mercado editorial, a academia e sua cidade origem. Contudo, acho que ainda há espaço para uma biografia mais intelectual de Leminski, aquela responsável por fazer a ponte entre obra e autor, texto e contexto. Que venha, vou ler com certeza...
 
2- Enquanto lia a biografia de Leminski escrita por Vaz fui lendo um pouco da sua obra. Confesso que tenho certa dificuldade para ler poesia, uma vez que ela exige um grande esforço de concentração e interpretação. Contudo, o livro de poesias Distraídos Venceremos (1987, Brasiliense, 133 páginas) é daqueles que você lê numa sentada: leve, delicioso e profundo. Publicado num momento que o poeta já se encontrava numa grande debilidade física, os poemas do livro parecem transparecer esse sofrimento - que não era só físico, mas principalmente psicológico - de forma extremamente sublime. Leminski tinha tal domínio do idioma português, da gramática além de muito talento para brincar com ambos e sumarizar ideias em poesia com fina ironia e tamanho humor que seu calvário torna-se um convite ao riso fácil. Isso pode ser notado no poema Bem no Fundo, que transcrevo logo abaixo:

no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela - silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas os problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas


Paulo Leminski (1987, página 44)

3- O terceiro livro da lista é uma coletânea de contos do Leminski intitulada Gozo Fabuloso (2004, DBA, 184 páginas). Não tenho certeza agora se a edição de 2004 é a primeira. Nessa primeira experiência que tive com o escritos do Leminski contista, confesso que os mesmos não conseguiram me capturar. Na minha opinião, falta ritmo as histórias e sentia vontade de dormir ou, quando parava no meio de uma história, não tinha mais interesse de voltar a ler, curiosidade para saber o que iria acontecer no final e até saco pra aguentar a história fluir. O interessante é que o Leminski jovem foi extremamente crítico dessa formato literário, o conto. Ironicamente, ele se rendeu a ele posteriormente produzindo várias histórias curtas. Pelo que consta, a ideia original de Catatau, seu grande romance publicado em 1975, teria surgido de um conto enviado a um concurso literário. O júri, por um motivo que não lembro agora, mas que pode ser lido na biografia feita por Vaz, não teria dado o prêmio a Leminski ainda que seu texto fosse o de melhor qualidade entre os concorrentes. Revoltado, o poeta resolveu desenvolver mais a ideia e transformou o conto em um romance cuja elaboração se estendeu por anos a fio. O resto é história, mas Gozo Fabuloso não fez muito a minha cabeça...
 
4- Não ria e nem se surpreenda, eu adoro Glória Kalil. Há uns seis anos atrás comprei dela Chic - Homem (1998) e me amarrei na mulher. Queria ou não, essa jornalista e empresária escreve sobre coisas que faltam a muita gente não só no Brasil mas em outras partes (moro em NYC e posso afirmar com tranquilidade): educação e bom senso. Na verdade, essa é a principal mensagem passada no seu curto, usual, prático e divertido manual de etiqueta contemporânea, Alô, Chics! (2008, Pocket Ouro, 181 páginas). Ter etiqueta e ser educado são sinônimos de agir sempre com calma e bom senso.  O livro é resultado das respostas da autora a uma série de dúvidas enviadas por seus ouvintes na Rádio Eldorado de SP, internautas do site Chic e telespectadores do programa Fantástico. Urgh, esse último um programinha nada "chic", diga-se de passagem, né Kalil? Mas vale a pena ler o livro com o qual é possível dar boas gargalhadas com as situações descritas por ela. Uma de minhas dicas favoritas é essa aqui:

Primeiro Encontro
Alô, rapazes chics! O que as mulheres esperam de um cara num primeiro encontro? Para os homens, este costuma ser um problema complicadíssimo. Eu não posso entender por quê. Sendo mulher, eu acho muito simples.
Mulheres querem que vocês venham vestidos sem exageros. Nem de terno e gravata e gel no cabelo, nem como se tivessem levantado da cama. Roupa é importante, mas não é fundamental. Elas querem sentir cheirinho de banho tomado, sem que isso implique perfume demais. Querem que vocês não fiquem olhando para os lados, muito menos para outras mulheres. Querem que vocês venham sozinhos, e odeiam quando trazem um amigo junto.
Mulheres tem pavor de homem folgado, exibicionista e que trata mal o garçom. Querem, ou melhor, adoram quando vocês fazem o gesto de pagar a conta. Elas não fazem a menor questão que o lugar seja caro, por isso, que tal escolher um que caiba no bolso e pagar ao menos essa primeira vez?
É ou não é fácil agradar uma mulher? (2008, páginas 130-131)

Bem, eu fazia (e ainda faço) tudo isso nos meus primeiros encontros antes mesmo de ler a Kalil. Bom senso, lembra...
 
5-  O quinto livro da lista é Simon's Cat in His Own Book (2009, Grand Central Publishing, 240 páginas) do cartunista inglês Simon Tofield. Well, tod@s vocês sabem o quanto eu adoro gatos e não pude resistir a tentação de comprar esse livro com as charges do miau mais fofo da Inglaterra. Não preciso comentar muito a respeito do bichano uma vez que fiz um post só para ele tempos atrás (leia AQUI ) e ele tem apenas 80 milhões de fãs no YouTube By the way, já é hora de Tofield providenciar um filme do seu gatinho uma vez que um novo livro foi lançado em outubro do ano passado intitulado Simon's Cat: Beyond the Fence. Comprei o meu, mas ainda não tive tempo de ler! Visite o site do gatinho AQUI e se divirta...
 
6- Feminism is For Everybody (2000, South End Press, 120 páginas) é um delicioso livro da feminista negra e intelectual radical bell hooks. O livro é dirigido a um público leigo em questões de gênero e escrito numa linguagem acessível que foge do padrão acadêmica chato e sonolento. hooks (se escreve em minúsculo mesmo), pseudônimo de Gloria Watkins, é professora no departamento de inglês e literatura da City College (NYC) e desde os anos 1990 vem sendo reconhecida como uma das grandes acadêmicas/intelectuais/ativistas atuando em temas que cruzam  relações raciais, sexualidade e gênero. Feminism Is For Everybody busca historicizar a trajetória do movimento feminista ao mesmo que responde as críticas mais comuns feitas ao feminismo e muitas vezes baseadas em percepções equivocadas sobre esse movimento político. Uma delas, por exemplo, é o imaginário veiculado de que feministas são contra ou odeiam homens ou ainda de que o movimento feminista está empenhado em reverter as posições de dominação apenas trocando um patriarcado por um matriarcado. Apesar do objetivo de hooks ser discutir o feminismo de forma generalizante, ela não deixa de estabelecer distinções dentro do movimento onde a perspectiva e visão das mulheres ativistas é matizada por distinções de raça, classe e orientação sexual. Vale a pena ler!

7- Fiquei super a fim de ler The Western Illusion of Human Nature (2008, Prickly Paradigm Press, 112 páginas) do antropólogo norte-americano Marshall Sahlins depois que assisti uma conferência dele com o mesmo título do livro realizada na Columbia University em 2009 (fiz um post sobre a parada, leia AQUI). Esse curto e sofisticado livro é na verdade a aplicação do método desenvolvido por Sahlins e utilizado em outros livros mais longos e complexos como Ilhas de História (1990, Jorge Zahar, 218 páginas). O subtítulo de The Western... já nos dá uma pista da maneira que Sahlins trabalha: With Reflections on the Long History of Hierarchy, Equality, and the Sublimation of Anarchy in the West, and Comparative Notes on Other Conceptions (com reflexões sobre a longa história da hierarquia, igualdade e a sublimação da anarquia no Ocidente, e notas comparativas sobre outras concepções). O que Sahlins faz nesse pequeno de livro de pouco mais de cem páginas é tentar mostrar como a noção de natureza humana como algo mau na sua essência é algo peculiar a civilização ocidental. O antropólogo demonstra, visitando vários pensadores clássicos como Thomas Hobbes, Jacques Rosseau, Adam Smith entre outros, como a percepção negativa da natureza humana tem origem na Grécia Antiga por meio da disseminação dos textos do historiador grego Tucídides sobre a Guerra do Peloponeso. Esse conflito teria sido o momento no qual a natureza humana, na sua mais cruel face, teria se evidenciado uma vez que os soldados teriam agido sem as garras ou limites impostos pela cultura cometendo os mais bárbaros e horrendos atos. Sahlins explica como a dicotomia natureza/cultura é uma peculiaridade ocidental que não é encontrada em outras culturas e como a natureza humana não é necessariamente má em si, mas como isso é uma criação histórica do Ocidente. O livro deverá agradar mais antropólogos e cientistas sociais em geral (talvez um pouco menos cientistas políticos!) do que o público mais amplo. Detalhe: as piadas de Sahlins no decorrer do texto são ótimas. Adoro intelectuais com bom humor!
 
8- Pimp: The Story of My Life (1969, Holloway House, 320 páginas) é um relato biográfico em primeira pessoa feito por Iceberg Slim, pseudônimo de Robert Beck (1918-1992), um lendário cafetão afro-americano. A cafetinagem masculina é uma prática que é objeto de fascínio, desejo, curiosidade e ódio. Como um homem consegue viver explorando mulheres que se prostituem e se ligam afetivamente a ele? Pimp é a primeira autobiografia de Slim. Ele começo sua vida na cafetinagem em 1936, então com 18 anos, e permaneceu na mesma até 1960, quando então contava com 42 anos. Em 1969 o livro veio a público e transformou Slim no mais bem sucedido autor negro em termos de vendas, ficando atrás apenas de Alex Haley (1921-1992), o autor de Roots (1976) e da autobiografia de Malcolm X. Pimp é considerado por alguns uma espécie de literatura revolucionária negra dos anos 1960 na mesma pegada dos livros de Aldridge Cleaver, George Jackson, Huey P. Newton dentre outros. Apesar de popular na comunidade negra, o livro é totalmente ignorado no espectro mais amplo da literatura norte-americana e mesmo da literatura afro-americana. Ao que consta, até hoje não não há um exemplar do livro na Biblioteca do Congresso (a mais importante, completa e uma das mais antigas bibliotecas do EUA).  Durante o governo Nixon, Slim foi motivo de polêmica, pois numa entrevista o escritor afirmou que ganhava mais dinheiro com cafetinagem do que o presidente dos Estados Unidos. Fofocas dizem que o presidente não gostou em nada da piada e enviou agentes do FBI para encontrar Slim em NYC. Nos anos 1970, pimps eram figuras que faziam parte da fauna urbana com seus Cadillacs de cores berrantes (geralmente rosa ou vermelho) e vestuário espalhafatoso que envolvia anéis, bengalas, chapéus e casacos de pele. Na busca por Slim, muitos cafetões foram confundidos com ele e agredidos propositalmente pelos agentes.  Desde então, a vestuário pimp vista em filmes clássicos do blaxploitation só é utilizada esporadicamente pelos nossos amigos em bailes e outras ocasiões especiais. By the way, não terminei de ler Pimp, tive de parar na metade, mas volto logo logo...

9- Em fevereiro de 2006 defendi minha dissertação de mestrado em sociologia na USP e na minha banca encontravam-se duas grandes figuras da antropologia brasileira: Peter Fry e Lilia Schwarcz (além do sociólogo Antônio Sérgio Guimarães, meu orientador à época). A arguição de Fry foi tranquila e consegui responder seus questionamentos de forma relativamente razoável. Por outro lado, quando Lili (assim que ela gosta de ser chamada!) deu início a sua arguição lembro que pensei com meus botões, "o que eu vou responder a essa mulher?" Mas outra coisa que me marcou, além de meu súbito e justificado nervosismo, foi um comentário dela sobre uma passagem de meu texto na qual eu dizia algo sobre o imaginário criado sobre a Etiópia e seu imperador, Haile Selassie (foto acima), na diáspora africana. Lili disse que eu deveria ler determinado livro, mas eu não consegui entender o título e mesmo após pegar o exemplar de minha dissertação que ela havia lido e comentado, não consegui entender a sua letra. Ano passado conversava com meu truta Oga Mendonça e sua "primeira dama", Maíra, num bar do Village e novamente a conversa de Etiópia veio a mesa. Foi quando Oga disse: "Você deveria ler O Imperador?" Quando fui a São Paulo e visitei o AP de Oga e Maíra não pensei duas vezes em pedir O Imperador: Os Bastidores do Palácio de Haile Selassie I, O Tirano que Governou a Etiópia por 44 Anos (2005, Companhia das Letras, 200 páginas) do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski emprestado para ler. Somente após pegar o livro na mão e folheá-lo que me toquei que aquele era o dito cujo do livro que Dona Lili, leitora voraz diga-se de passagem, tinha me sugerido ler quatro anos antes. O polonês Kapuscinski é considerado um dos maiores correspondentes internacionais do mundo tendo coberto várias guerras e revoluções ao redor do globo. No início da década de 1970 o jornalista foi a Etiópia cobrir um encontro de líderes internacionais que ocorria no país e ficou impressionado com o luxo exibido pelo Imperador Selassie na recepção aos chefes de estado assim como pela pobreza da população vista nas ruas da capital do país, Adis Abeba. Em 1974, meses após Selassie ter sido deposto por uma junta militar, Kapuscinski retornou ao país com o intuito de colher relatos sobre a vida no palácio de Selassie. Arriscando a própria vida o jornalista entrevistou uma série de pessoas que haviam tido os mais diversos tipos de contato com o imperador e funções bastante peculiares na sua corte. O resultado é uma coleção de relatos que apresentam uma imagem multifacetada de Selassie: tirano, vaidoso, indiferente as dificuldades de sua população, confuso e preso as armadilhas do poder com suas tramas e conspirações. A principal crítica ao livro é de que são terceiros falando sobre o imperador, mas esse último, apesar de ser o personagem central no livro, não tem direito a voz. À época o imperador estava preso e incomunicável na Etiópia e viria a falecer em 1975 de causas naturais. Havia e há toda uma mística que envolve Selassie, o ativista negro jamaicano Marcus Garvey e rastafarianismo. Segundo consta, Garvey havia tido uma visão nos anos 1920 que previra a subida de um líder negro no continente africano. A coroação de Selassie, nos anos 1930, foi entendida como a confirmação da profecia. Ao mesmo tempo, na cosmologia rastafari, Selassie é visto como o representante de Deus (Jah) na terra. Enfim, o livro Kapuscinski não foca essas últimas questões e sim a vida privada do palácio que soa, de certa forma, assustadora e muitas vezes absurda.

10-  O décimo livro lido ano passado foi Lélia Gonzales (2010, Selo Negro, 176 páginas) de autoria de meus dois amigos Alex Ratts (professor de antropologia na Universidade Federal de Goiás) e Flávia Rios (doutoranda em sociologia na USP). Ratts vem pesquisando há algum tempo a trajetória de ativistas negras e já havia escrito um livro sobre a historiadora Maria Beatriz Nascimento (Eu Sou Atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento, 2007). Nesse livro sobre Lélia Gonzalez (1935-1994) os autores conseguem fazer uma das primeiras sistematizações da vida dessa ativista negra que foi responsável por estruturar as bases teóricas do ativismo negro contemporâneo no Brasil. Gonzalez nasceu de uma família mineira em processo de ascensão as classes médias devido ao sucesso da carreira do irmão jogador de futebol. Ainda criança ela migrou para o Rio de Janeiro. Foi só após cursar a universidade e se casar que Lélia de fato se envolveu com o movimento negro. Gonzalez teve um experiência diferenciada de boa parte do ativismo negro na época uma vez que ela foi uma das primeiras a ter uma atuação acadêmica consistente, ter realizado pós-graduação (mestrado e doutorado), dominar outros idiomas (inglês, francês e espanhol) e circular por espaços e ter experiências de deslocamentos e contatos internacionais coisas que estavam vedados a maior parte da população de ascendência negra/africana no Brasil dos anos 1970 e 1980. Os autores conseguem mostrar como Lélia incorporou elementos de classe, raça, gênero na sua perspectiva teórica vislumbrando alternativas políticas para o movimento negro contemporâneo. Leitura imprescindível para aqueles que estudam relações raciais no Brasil.

11- De novo uma história longa.  Zadie Smith é uma dessas autoras sobre a qual li vários comentários, entrevistas e resenhas de seus livros, mas que, por um motivo ou outro, sempre era colocada num canto escuro de minha mente insana (pra não dizer "podre" e "suja!) e esquecida. A última vez que li uma reportagem sobre ela havia sido num exemplar do Village Voice em novembro de 2009 (leia AQUI). Daí que estou a conversar com meu patrício conselheiro para assuntos descolados, Oga Mendonça, e esse começa a falar incessantemente a respeito dessa autora que tem um livro sobre Boston, arte, relações raciais, hip-hop e mundo acadêmico. Fiquei intrigado e na minha visita ao apartamento do "casal 20" Oga e Maíra em SP, não pensei duas vezes em pedir emprestado o dito cujo do livro que era na verdade Sobre a Beleza (2007, Companhia das Letras, 448 páginas), da sofisticada e linda escritora inglesa Zadie Smith. Well, fiquei apaixonado por Zadie! Tietagem total, coisa ridícula mesmo... O livro tem uma delicadeza fora do normal. Só lembro de ter lido algo parecido nos últimos com o romance O Que Eu Amava (2004), de Siri Hustvedt, esposa do escritor Paul Auster (esse foi um presente de aniversário da minha amiga Laura Moutinho). Basicamente, a história do livro de Smith se passa entre duas famílias cujo os dois pais, professores universitários, vivem um disputa intelectual que acaba tomando contornos pessoais e familiares. Um fato que me impressionou sobremaneira foi a forma como a autora inglesa retrata um relacionamento inter-racial no livro: de forma leve e sem os velhos traumas ou acusações que sempre recaem sobre o tema. Não falarei mais de Smith, levante a sua bunda da cadeira agora e vá comprar esse livro...
 
12- O livro O Caderno Vermelho (2009, Companhia de Bolso, 96 páginas) do romancista novaiorquino Paul Auster foi uma indicação de meu truta Vanderson Silva, a.k.a. Vandão Profissa. Apesar de ter entre meu/minhas amigos grandes entusiastas de Auster (a antropóloga Silvia Aguião é uma delas!), nunca tinha ainda lido um livro do escritor que consegue transformar o Brooklyn em sinônimo de mundo. Nesse pequeno livro de situações reais o autor explora a coincidência e o inesperado. Algumas histórias são tão surpreendentes que parecem mesmo ter saído da imaginação do escritor quando na verdade ocorreram de fato. As histórias relatadas vão da infância até a vida adulta do autor que no próximo mês completará 64 anos de idade e demonstram como o escritor usa a sua vida cotidiana como matéria prima para suas obras e, ao mesmo tempo, como as obras adquirem vida própria e passam a interferir na vida do seu criador. É digno de nota também as técnicas de anotação e a habilidade em transformar situações triviais e banais em um texto que prende a atenção dos leitores mesmo que no fundo no fundo não signifiquem absolutamente. O Caderno Vermelho é um bom exemplo da capacidade de um autor renomado brincar com a língua e, numa analogia ruim minha, fazer música agradável a partir de ruídos.
 
13- Quando estive no Brasil, no meio do ano passado, tive o prazer de comparecer ao lançamento de Nas Redes do Sexo: Os Bastidores do Pornô Brasileiro (2010, Zahar, 240 páginas), livro da antropóloga colombiana María Elvira Díaz-Benitez. Conheci María Elvira em 2002 quando fizemos um curso juntos em Salvador, Bahia. O texto é fruto da pesquisa de doutoramento de Benitez defendida anos atrás no programa de pós-graduação em antropologia social do Museu Nacional, Rio de Janeiro. Na ocasião do lançamento, que se deu na Livraria da Vila situada nos Jardins, ocorreu um interessante debate no qual compunham a mesa o diretor de filmes pornô M. Max, o filósofo e ex-diretor de filmes pornô Valter José Maria e a atriz e ex-chacrete Rita Cadilac (há um vídeo do debate no YouTube, veja AQUI). O livro de Benitez explora o universo do cinema pornô no Brasil numa perspectiva histórica e antropológica. A antropóloga mostra como a produção de filmes pornográficos no Brasil pode ser traçada a partir do final dos anos 1970 e início dos 1980 com um grupo de cineastas conhecidos como Cinema da Boca devido as produções B serem produzidas e exibidas numa área de prostituição central na cidade conhecida como Boca do Lixo. Os filmes da Boca foram os primeiros a terem sexo explícito e são posteriores ao que ficou conhecido como pornochanchada nos anos 1970. Nos anos 1990 o pornô nacional começou a ser influenciado por uma nova forma de se fazer pornô criada nos EUA e conhecida como gonzo: filmes filmados em apenas uma tomada, em formato digital, sem enredos/histórias e no qual o diretor/câmera muitas vezes faz parte da cena. A partir da daí a autora apresenta dados do seu trabalho de campo, uma vez que durante a realização de sua etnografia a antropóloga acompanhou a produção de vários filmes e entrevistou diretores, atrizes, produtores e outros profissionais que compõem esse universo. Benitez mostra como há diferenças de gênero na forma como atrizes e atores que atuam nesses filmes são tratados pela sociedade (se mulheres são estigmatizadas, homens tem a sua masculinidade reforçada) e como se dão as relações entre clubes, prostituição e filmes pornôs. Uma das conclusões da pesquisadora é que mesmo sendo transgressivo em determinadas aspectos, o pornô não deixa de reproduzir valores morais entendidos como conservadores.
 
14- Infiel: A História de uma Mulher que Desafiou o Islã (2007, Companhia das Letras, 504 páginas) escrito por Ayaan Hirsi Ali (foto acima) foi sequestrado da biblioteca de minha irmã, Renata Macedo, e veio parar aqui em NYC. O livro é a trajetória de vida de Ayaan Hirsi Ali, uma negra islâmica nascida na Somália em 1969 mas que foi criada entre o Quênia, a Etiópia e a Arábia Saudita. Ali ganhou notoriedade devido a ter emigrado ilegalmente para a Holanda onde pediu asilo político e posteriormente cursou graduação e mestrado em ciência política ao mesmo tempo que  trabalhava como tradutora. Nesse período, Ali passou a denunciar as situações de abuso, violência e privação de liberdade em que mulheres islâmicas estavam submetidas. Em 2003 Ali conseguiu se eleger deputada pelo Partido do Povo Pela Liberdade e Democracia (partido de direita conservador) após um período trabalhando num centro de pesquisa vinculado ao Partido Trabalhista (partido de centro-esquerda). Ali se elegeu em cima de uma plataforma voltada para denúncia do Islã e nos papéis reservados as mulheres nessa tradição religiosa. No começo dos anos 2000 a então deputada conheceu Theo van Gogh, cineasta holandês, com o qual veio a realizar em 2004 o filme Submission (assista AQUI) cujo roteiro é de sua autoria. O filme busca denunciar a situação das mulheres no islã e teve uma repercussão extremamente negativa. Em novembro de 2004, van Gogh foi assassinado por um extremista islâmico que lhe cravou uma faca no peito na saída de sua casa em Amsterdam. Ali passou a viver num regime que envolvia trocas constante de casas e vigilância 24 horas por agentes do serviço secreto holandês. Após algum tempo, devido a uma controvérsia relativa ao seu processo de asilo político e entrada na Holanda, Ali renunciou a posição de deputada. Atualmente ele vive nos EUA onde trabalha para uma centro de pesquisas conservador. Apesar de ser um ótimo relato biográfico, o livro de Ali tem um forte apelo anti-islâmico e conservador. Não é coincidência que o livro tenha sido lançado num momento em que as tensões em relação a comunidade islâmica na Europa vinha tomando contornos cada vez mais violentos uma vez que o continente se tornara alvo de ataques terroristas como os ocorridos em Madri (2004) e Londres (2005). Além disso, como tive oportunidade de ouvir de minha amiga Francirosy Ferreira (antropóloga, professora da USP e especialista em islã), Ali peca por generalizações na sua forma de abordar o islã tanto no livro como na sua atuação política/ativista. O islã, segundo a pesquisadora, é muito mais diversificado e complexo do que aquele pintado por Ali em seu livro e as possibilidades de agência feminina não são inexistentes, mas devem ser pensadas dentro do contexto cultural dessa tradição religiosa. Mas isso é conversa para várias cervejas. No geral, o livro é interessante pela história de violência e superação vivida por Ali.
 
15- Contos Negreiros  (2005, Record, 126 páginas) de Marcelino Freire era um livro que eu estava bem curioso para ler. A obra foi ganhadora do prêmio Jabuti de literatura em 2006 e minha truta Fabiana Lima sempre falava do mesmo com entusiasmo. Pois bem, cheguei em SP fui lá na Livraria Martins Fontes e comprei o dito cujo. Comecei a ler o livro tendo Angu de Sangue (2000), um dos primeiros livros de Freire, na cabeça uma vez que havia gostado do mesmo. Página 1, 2, 3, 15, 30, 40, 50 e... Não gostei! Achei chato e sem ritmo. Freire é um ótimo escritor, mas tem um texto telegráfico que, em Contos Negreiros, aproxima-se muito da poesia e pode não agradar alguns leitores (tipo eu!). Não é à toa que o livro é dedicado ao poeta Castro Alves (1847-1871) e o título da coletâneo de contos é inspirado no livro Navio Negreiro (1880). Minha impressão é que mesmo que o autor busque retratar dramas vividos por negros na vida cotidiana, ele acaba caindo numa simplificação da identidade negra e se resume a candomblé, trabalho doméstico (quase escravo), prostituição e SOFRIMENTO. Aliás, tô cansado de textos muito tristes como e vitimizadores. Ser negrão/negrona, pret@, mulat@, mestiç@, tico tico no fubá e sei lá mais o que é viver situações de discriminação, mas é tirar onda em cima delas também. E a identidade negra é muito mais complexa do que muitas pessoas pensam. Por exemplo, a junção de nordestin@s + negr@s é extremamente problemática e complexa em SP, algo que no livro de Freire é dado de barato, mas que é explorada de forma exemplar em Cidade de Deus (1997), de Paulo Lins. Mas tudo bem, pode ser só birra minha com esse livro de Freire. Já Angu de Sangue eu gostei!
 
16- Se você acompanha o blog há mais de um mês, deve saber que há uma resenha de Brother West Living and Loving Out Loud: A Memoir (2009, Smiley Books, 288 páginas) de Cornel West/David Ritz bem AQUI  Tudo o que eu tinha pra dizer desse livro está lá!
 
17- The Dew Breaker (2005, Vintage/114th Edition, 256 páginas) escrito por Edwidge Danticat foi um presente da professora Keisha Khan Perry quando estive na Brown University em agosto passado. Danticat é uma das novas sensações da literatura afro-americana. Suas histórias exploram o cotidiano e a história da comunidade haitiana vivendo em NYC. Nesse livro a autora conecta diferentes histórias curtas pelas quais é possível revisitar o ilha caribenha nos anos 1970 e 1980 através das memórias dos personagens. O cotidiano de violência, mortes, instabilidade e disputas políticas além do peso e o horror do passado vividos por aqueles que migraram é retratado de forma admirável nesse livro. Algumas histórias são por demais longas e acabam por dispersando a atenção do leitor, outras, no entanto, tem uma delicadeza na forma de retratar personagens e situações só vista em grandes autores. Exemplo disso é a história do soldado de uma milícia assassina partidária do governo no Haiti que, momentos antes da queda do governo, mata o irmão de sua futura esposa. Mesmo que o casal compactue com a história esse fato é escondido da filha americana até que essa se torne adulta, quando é chegada a hora de encarar o doloroso passado que nunca os deixa em paz.

Muita Paz!

* Post escrito ao som de Ziggy Marley and The Melody Makers, álbum Joy and Blues (1993).

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Cabelo Natural, Beleza e Classe


 stylelikeu:

“I used to wear my hair straight when I started college. My sophomore year of college I moved to Brooklyn and just saw all of these fabulous black women embracing their natural hair.” - Kimberly Sumner
To view more images from Kimberly’s closet and watch her video interview with StyleLikeU go to http://stylelikeu.com/closets/kimberly-sumner/

Mais uma vez o cabelo alisado/relaxado encontra-se sobre fogo cerrado. Mais e mais mulheres negras optam por deixar de usar produtos químicos para alisar seu cachos crespos e passam a cultivá-los de forma natural. É meio irônico o fato do termo “natural” ter sido incorporado na forma politicamente correta de se referir a cabelos crespos destituídos de intervenção química. Nos 1960 e 1970 o termo para se referir ao cabelo da negrada sem química era “black power”. O “black” também era incorporado as todas as coisas que eram negras, descoladas e tinham um “Q” de internacional. Vem daí o termo “baile black”, “salão black” e “música black”. Nos anos 1980, 1990 e parte dos anos 2000 o termo étnico tornou-se comum entre mulheres que tinham um visual mais afrocêntrico com tranças (naturais, postiças [o chamado canecalon] e dreadlocks [na época ainda chamadas de trancinhas rastafari]), batas,  vestidos e turbantes feitos com tecidos de origem ou inspiração africana. O estilo usado pela cantora de neo-soul Erykah Badu, no início de sua carreira nos anos 1990, é a personificação do que falo.
 


Mais eis que estamos no início da segunda década do século XXI. Fomos no banheiro dar uma mijadinha e descobrimos que já é 2011... A mulher preta, bonita, descolada, social e ecologicamente responsável não tem mais cabelo “black” ou “étnico”, que eram termos politicamente engajados uma vez que sinalizavam para o cabelo sem intervenção química como uma forma de aceitação da negritude. A mulher preta contemporânea antenada usa cabelos naturais e a justificação é muito mais individualista do que político coletiva. Parte das mulheres evita colocar muita ênfase na idéia de autenticidade que o cabelo crespo sem química traz, uma vez que isso a associa diretamente ao ativismo negro/político que é muita vezes entendido como radical em seus posicionamentos. Há também o incomodo de, uma vez afirmando o cabelo crespo como um símbolo dos “verdadeir@s” ou “autentic@s” negr@s, alocar de forma involuntária @s patríci@s que ainda se utilizam dos produtinhos químicos como fals@s ou men@s autênticos man@s.  Daí a praticidade do termo natural, uma vez que o uso do cabelo sem intervenção química pode ser explicado de forma aracializada ou política. A justificativa é de que o não uso de produtos químicos para alisar os cabelos é saudável devido a quantidade de substancias tóxicas (como amônia) que esses contem e que podem danificar o couro cabeludo e o corpo em geral.

 

Nessa perspectiva, o termo natural está alocado historicamente a um contexto mais amplo em que vivemos onde o culto ao corpo e a diferença toma ares ecologicamente corretos e de classe. O uso do cabelo natural envolve, muitas vezes, o consumo de uma série de produtos orgânicos que são produzidos livres de intervenções químicas e cuja a fórmula não agride a natureza (a maioria deles, diga-se de passagem, mais caros também que a média dos produtos normais). O mesmo discurso aplica-se para o que se entende como viver bem, de forma saudável e ecologicamente correta através de um estilo de vida que incorra no não consumo de carne (vegetarianismo), prática de exercícios (dando preferência as técnicas alternativas orientais como pilates e yoga) e meditação. Em suma, a mulher preta que usa cabelo natural e que explica sua opção nesses termos constrói aquilo que o finado sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) chama de “posição de classe” alocando-se medianamente ou no topo de um espaço social que é multidimensional. Traduzindo em termos mais palatáveis, isso significa dizer que mulheres pretas que usam cabelo natural conseguem criar um estilo esteticamente apreciado devido não só por consumirem produtos mais caros para tratar dos seus cabelos, mas por justificarem suas opções de consumo de forma intelectualmente sofisticada deslocando o cabelo crespo do espaço social de estigmatizado, feio e sujo e incorporando no mesmo capital simbólico. Ou seja, "cabelo natural" é algo que mulheres distintas, seja pela beleza ou classe ou ambos, usam!


O mais interessante é que o consumo de produtos químicos em alguns contextos passa a ser patologizado e visto na forma de dependência similar a drogas. Conversando com minha amiga Fabiana Lima (que possui um canal no YouTube intitulado Beleza de Preta, visite clicando AQUI) ela comentou comigo de alguns sites e blogs nos quais mulheres fornecem testemunhos de quando usavam o cabelo alisado. O processo de “desintoxicação” é registrado através de fotos nas quais o cabelo que sofreu intervenção vai aos poucos sendo retirando através de cortes e, por fim, já com todo o cabelo natural, passa a se comemorar ou contar o tempo em que não se alisou mais o cabelo. Não é preciso ser gênio para sacar que esse é o mesmo método de trabalho dos alcoólicos anônimos ou grupos de ajuda a dependentes químicos e outras formas de vício. O relato das mulheres sempre resvala para a descrição de uma transformação sofrida e o (re)encontro com o seu corpo/cabelo.

 

Pensando nisso tudo, fico imaginando como seria legal fazer um trabalho analisando a corporalidade negra numa perspectiva histórica. Lembro aqui do comentário feito ontem à tarde pelo meu professor Terry Williams no seu curso Youth Culture: Sex, Drugs, Comedy. Williams descrevia como a cultura ocidental tradicionalmente tende a visualizar/olhar as pessoas frontalmente e como o hip-hop, oriundo de outras tradições culturais, desloca essa forma de olhar alocando como forma de beleza e desejo a parte de trás dos corpos: a bunda. Mas, saindo da bunda e voltando pros cabelos, acredite em mim: uma preta que usa cabelo natural não é qualquer preta!

Todas as imagens exibidas nesse post foram retiradas do blog Natural Hair Rules!, cujo arquivo de imagens é fantástico e pode ser visitado AQUI (ótimas dicas para quem busca por novos visuais!). Agradeço a minha amiga Élida Batista por ter publicado essa dica no mural do seu profile no Facebook. Para fechar com chave de ouro esse post, clique AQUI e ouça um som que é um clássico brega e DJs fizeram dele um clássico do samba-rock. Essa canção também resume um pouco da história aqui: "Deixa o Meu Cabelo em Paz" de Osvaldo Nunes

Post escrito ao som de Van Hunt!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

457 Anos de São Paulo


 

Gostaria de estar em São Paulo hoje. Sim, um pouco por conta do feriado, mas sinto muitas saudades dessa megalópole cheia de problemas, mas também abundante em coisas agradáveis. Não posso me gabar de ser paulistano. Nasci em Limeira, cidade do interior do estado, e me mudei para a capital quando fui estudar na USP. Entretanto, desde criança sonhava em morar na "cidade grande". Isso ocorria por conta da influência de um tio já falecido chamado Messias (o nome já é sintomático de algo) que morava no fundão da zona leste paulistana. Messias, irmão mais novo de meu pai, havia migrado do sul de Minas Gerais para São Paulo no começo da década de 1970. Após poucos anos morando na Terra da Garoa, meu tio possuía um carro, uma casa própria e trabalhava numa indústria que produzia rodas para carros. Para uma família de negros cuja até aquela geração todos haviam nascido na região rural e poucos se quer completavam o ensino fundamental (naquela época, da primeira a quarta série), meu tio significava o sucesso em pessoa, pois incorporava os símbolos de status social  que o poderiam diferenciar do restante da família (um emprego estável, casa própria e carro). Toda vez que meu tio nos visitava no interior eu tinha oportunidade de passear de carro (algo que raramente fazia) e ver meu pai agindo de uma forma que quase nunca presenciava no cotidiano. Ele estava entre irmãos, podia deixar de lado seu ar contido e severo que exibiam austeridade e autoridade para os filhos e estranhos. Meu tio era alto, escuro, carismático e de riso fácil. Foi por influência dele que me tornei corintiano (não um dos mais devotados!) e ainda devo a ele meu amor pela cidade de São Paulo. Minha devoção e esse time e essa cidade já haviam sido antecipados numa foto do final dos anos 1970 em que eu, por volta dos meus cinco anos, estou no Viaduto do Chá vestindo um camisa do Timão. Minha melhor foto até hoje!

 

As duas fotos que ilustram esse post são da antiga Estação Rodoviária de São Paulo (demolida ano passado) que funcionou em frente a Praça Júlio Prestes entre 1961 e 1982 tendo sido construída na administração do prefeito Adhemar de Barros. O prédio foi alocado naquela área sem nenhum planejamento e foi em parte responsável pela deterioração dos seus arredores. Entretanto, o design do prédio, de arquitetura kitsch, sempre exerceu fascinação sobre mim com suas bonitas placas coloridas. Leia reportagem sobre a demolição do prédio clicando AQUI. A rodoviária velha foi a porta de entrada de São Paulo para meu tio, para mim e várias outras pessoas que hoje amam a cidade como se tivessem nascido nela.

PARABÉNS SÃO PAULO!

Muita Paz!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Negr@s Metid@s



Negr@s Metid@s (da série “Grandes Figuras da Negritude Brasileira: ensaios em densa profundidade do Doutor Altamiro Brandão, Ph.D. em Negrologia”)
 
O negro ou negra metida é o oposto do negro ou negra normal, aquele ou aquela negra que conhece o seu lugar. O negro metido ou negra metida é o tipinho que se veste bem e fala corretamente sem o uso de gírias como “mano”, “truta”, “é nóis” e por aí vai, certo? Eles são gente metida à besta que usa termos como “hipoteticamente”, “paradigma”, “indubitavelmente”, “perspectiva”, “procrastinação” e “postergando” cujo significados eles provavelmente não sabem, mas devem achar bonito a sonoridade e um "Q de gente inteligente com um QI superior que elas carregam ao serem pronunciadas. Geralmente o negro ou negra metida diz ter um emprego estável e dirige um carro nacional caro ou importado, mas vive reclamando que é constantemente parado pela polícia e confundido com bandido. Que neurose! Freqüentemente o negro ou negra metida se apresenta como médic@, advogad@, empresári@, professor/a universitário/a e outras profissões em que raramente se vê um/uma negro normal. Negros ou negras metidas tem mania de falar sobre a universidade pública ou privada de elite que cursaram e como ele/ela era o/a únic@ negr@ da turma, fato que fazia tudo ser mais difícil de acordo com o/a mesm@. O negro ou negra metida domina, por razões profissionais, outro idioma além do português, algo como inglês, francês, espanhol (alguns ousam até o alemão!) e vive com um livro a tiracolo fazendo de conta que o lê como se estivesse na recepção de um psicólogo onde faz terapia por conta da esquizofrenia que diz sofrer devido sua condição de negr@ metid@. Cômico! Você já viu um negro normal lendo ou indo ao psicólogo? O negro metido ou negra metida não quer morar na periferia, subúrbio ou favela e matricula os filhos em uma instituição de ensino particular a qual se refere como “colégio” e não “escola” só para o/a filha ter a experiência de ser o/a únic@ negrinh@ metidinh@ da classe. O negro ou negra metida viaja muito, geralmente de avião, e sente-se ofendid@ quando nas aeronaves ou no saguão do aeroporto alguém pergunta a ele/ela se o mesmo é pagodeiro, boleiro, atriz, ator ou dançarina de show de mulatas como o do saudoso Sargenteli: “Mas eu já te vi na televisão?” é a pergunta que sempre enfurece negros ou negras metidas. Que coisa, todo mundo quer ser confundido com gente famosa menos essa categoria ingrata dos negros ou negras metidas. Mas a negra metida fica de fato PUTA da vida quando acham que ela é uma PUTA PUTA MESMO disfarçada de profissional liberal circulando por um hotel cinco estrelas numa região nobre de São Paulo que sedia um seminário internacional. Você sabe como essas PUTAS são uma PUTA FODA que na verdade estão na captura de um gringo! Há negros e negras metidas que são tão atrevidos ao ponto de apreciar música clássica deixando de lado a batucada dos nossos tantans. Em termos musicais há ainda os negros metidos entendidos de jazz, ritmo importado dos patrícios upitty niggers da América, mas atualmente só apreciado por brancos além de negros metidos, é claro. Negr@s metid@s gostam de comprar roupas e sapatos em lojas de shopping centers caros que geralmente não estão preparados para lidar com a categoria de negr@s metid@s uma vez que lá, como ainda em vários outros lugares, só existe a categoria dos negros normais com sua vocação natural para a área de segurança e limpeza. O negro ou negra metida não é patriota ou nacionalista, já que diz ter se sentido muito bem na sua viagem aos Estados Unidos da América, um país RACISTA em que brancos e pretos até bem pouco tempo atrás viviam separados e lugar onde o presidente é um negro metido com nome esquisito. Ora bolas! A única raça existente é a humana e nós, como bons e felizes brasileiros mestiços, NÃO SOMOS RACISTAS que nos deixamos levar por UMA GOTA DE SANGUE para fazer a diferença. É ou não é, Mané? Mas de acordo com o negro ou negra metida nos States ele/ela pode se encontrar com a versão gringa do negr@ metid@, o upitty nigger, e trocar figurinhas sobre o que é ser um negr@ metid@ dentro de uma dimensão global articulando-se com negros e negras metidas de outras partes do mundo. Enfim, negros e negras metidas são uma epidemia de ordem nacional e é preciso fazer algo para conter a expansão desse grupo. Afinal, se a Terra Brasilis foi construída com o trabalho e energia de negros e negras normais, o que faremos sem eles? Meu Deus! Como viveremos sem nossas mucamas modernas e capitães do mato contemporâneos? Ou o que será da seleção brasileira de futebol sem novos Pelés, Garrinchas, Diamantes Negros e Didis? Imagine se todos os negros e negras normais aspirarem se tornarem negros e negras metid@s indo para universidades por meio dessa estapafúrdia idéia de cotas ou ação afirmativa tornando-se todos profissionais liberais, engenheiros, embaixadores?  Perderemos mais uma Copa do Mundo? Quem cuidará da faxina de casa ou da molecada? Não... Negros e negras metidas go away: nossos japoneses são mais criativos e o problema aqui é de classe, coisa que negros normais ainda não possuem e negros e negras metidas tem em demasia!

sábado, 22 de janeiro de 2011

STROMAE

Sim, preguiça de escrever, mas vontade de postar uma coisinha. Assim sendo, enquanto meu post sobre os livros que li em 2010 não sai (tá longo pacas!), vai pipocando uns textos curtinhos escritos por mim mesmo ou roubados aqui e ali. Hoje quero recomendar o site super charmoso de duas irmãs etíopes que residem em Oakland, California, intitulado Afro Urbanites. Cheguei até ele por intermédio de minha amiga Ogonnaya Dotson-Newman, uma californiana moradora de Bed-Stuy (Brooklyn, NYC). A proposta da parada é próxima de uma revista eletrônica focada na experiência de ser um "novo africano" ou descendente de africanos vivendo em qualquer canto do mundo. Aqueles temas que todo já sabe entram na pauta: moda, música, comportamento, vida saudável, ativismo, comida e outras paradinhas. Tem até umas dicas de como fazer um rango etíope. Já pensou trutão, você surpreendendo a nega véia com uma comida da terrinha? As garotas mantêm também um blog bem legalzinho e foi de lá que roubei o que estou postando aqui hoje. Vai lendo aí, o texto original em inglês tá AQUI Ó... (porque aqui no NewYorKibe a gente mata a cobra e mostra o pau!)

STROMAE

O cantor belgo-ruandês Stromae encarna aquilo que significa ser um "New African". Sua canção "Alors sobre Danse" (Então Eles Dançam) já conseguiu um imprevisível sucesso mundo devido a ele mesclar suavemente hip-hop e música eletrônica para criar seu próprio som. Stromae criou seu nome pela inversão das sílabas da palavra "maestro". Nascido de pai ruandês e mãe belga, Stromae descobriu uma maneira de integrar a identidade africana num contexto europeu. Sua música é um belo exemplo do que parece vir a ser o "New African".



Muita Paz!