sábado, 31 de outubro de 2009

O Pipoca!

 https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiSdt2JIoYwjSDHoXnOvw9Pt6rsAl6y7AOqTco-uopcA6vAK6x4GdB7uvcfctDaul1Og5ZStC8El3pylO1r4gGtkeS_saRU5COszifDZ3aN6BoWiISep8aisZCieYsZSOX4-xYk8ZZUagg/s1600/Barbie-Fashion-Model-Colle.jpg

"Irmã, Preta Linda, Deusa de Ébano, Filha de Oxum com Xangô, Guerreira Poderosa, Presente Meu da Mama África, Mulher Forte que Sobreviveu ao Estupro Colonial do Homem Branco e Me Traz Serenidade, Força, Axé..."

"Juca,
CARALHO, pará de falar e me beija logo, PORRA!"

"Tá bom, Marli, tá bom, amorzinho!.."

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Brasil Mostra a Sua Cara... Machista e Preconceituosa!

https://www.brooklynmuseum.org/eascfa/feminist_art_base/archive/images/610.1899.jpg
(Feminist Art Base: Helen Redman)

"Coitadinha da moça, ela tava com calorzinho....ha, ha, ha, ha, o problema é que tem uns panacas infelizmente que acham que tem o direito de fazer o que querem, eu por mim olharia dava uma babadinha se fosse gostosa (o que não é o caso, pois é feia pra cacete!!!), mas deixava pra lá, nós gostamos de olhar mas na hora de escolher uma mulher sempre escolhemos uma mais séria que realmente queira fazer uma parceria pra vida toda, essas aí a gente usa só como objeto como latrina mesmo, bom pra olhar mas depois de um tempo enjoa, e também as vezes tem outros problemas tipo ela devia estar ovulando, tava com coceirinha, ou esta desesperada pra arrumar macho (que acho que não seja o caso), enfim elas podem se vestir do jeito que quiserem, problema delas, quem quer dar uma de diferente sempre vai pagar o pato, que esteja preparado pra isso e assuma os riscos."

“Eu só quero mulher desnuda ou com roupa realçando as curvas da bunda perto de mim quando vou na zona, pois lá vou quando quero tratar de sexo. Fora de lá, seja na escola, na rua , no ônibus, no metrô, no trabalho, etc., não quero e não admito. Mulher que faz isso será sempre odiada e se tiver uma oportunidade eu agrido mesmo."

Quis ser puta, quis mostrar pra todos que é puta, foi tratada como tal. Absolutamente normal. Tem que esculachar mesmo, se o frouxo e inútil do pai não teve a competência pra ensinar valores e educação pra sua filha, outros lá fora se encarregarão disto. Foi muito bem feito, essas vadias acham que por serem mulheres podem tudo, podem andar e pisar a vontade que tudo está a mercê delas, que isso sirva de exemplo pra todos. Inconscientemente (ou não) quer sexo; e é mulher, ou seja, por instinto quer dar pra alguém, é uma vagabunda a mais, só isso. A culpada é ela." (ÊNFASES EM NEGRITO MEUS)

http://www.nodo50.org/laceiba/catalog/images/feminismo.bmp

Às vezes é difícil acreditar nas coisas que lemos pela web, mas a parada é real. O formato da rede mundial de computadores tem possibilitado que muitas vezes identifiquemos o verdadeiro pensamento de parte da população sobre determinado tema, já que é possível se expressar livremente sem ser idenficad@. O trecho acima - nojento e misôgino - foi retirado de um comentário num site que veiculou a notícia da aluna hostilizada numa universidade de São Paulo, mas li o mesmo em um blog, o Escreva Lola Escreva (muito bom e que recomendo!). Pois é, a história toda começou no dia 22 de outubro, quando uma aluna da Universidade Bandeirantes (UNIBAN) do campus localizado em São Bernardo do Campo resolveu ir à aula usando um vestido curto. No decorrer das aulas a aluna, cujo apelido seria “Loirão”, foi hostilizada pelos colegas ao ir ao banheiro e, posteriormente, sofreu uma espécie de linchamento moral de uma turba de universitários por conta de sua roupa. Os seguranças da universidade, em número reduzido, não conseguiam controlar a situação e a PM foi chamada para garantir a integridade da aluna que ficou trancada numa sala até a chegada dos policiais. A turba, pelo que consta, bradava termos como “puta” e “vagabunda”, e alguns ameaçavam estuprá-la no momento que a mesma foi escoltada da sala para fora do prédio vestindo o avental branco de um professor sobre o vestido curto que usava. Havia imagens no YouTube que registram a confusão até ontem à tarde, mas a notícia que leio nesse momento no site UOL, leia AQUI, acompanhada de um trecho de vídeo, afirma que a UNIBAN solicitou a retirada dos vídeos ao site.

http://www.womens.cusu.cam.ac.uk/genderagenda/0203/1/feminism.jpg

O que o ocorrido nos ensina? Nada mais do que confirmar o que o feministas brasileiras vem repetindo durante muito tempo e a exaustão: que o machismo e a discriminação de gênero continuam firmes e fortes em nosso país. Lola, no post em seu blog, tente a desqualificar um pouco a ação da turba que incentivou o linchamento moral da aluna. Peço licença para discordar apenas nesse ponto da análise da blogueira. De minha parte, penso que interpretar a formação e ação da turba nos ajuda a entender questões/problemas inerentes a sociedade brasileira atual.

O francês Émile Durkheim (1858-1917), um dos pais fundadores da sociologia, cunhou o termo “efervescência coletiva” para classificar estados nos quais indivíduos perdem a sua individualidade para algo maior e, assim, participam e experimentam formas de pertencimento coletivo afirmando valores e a reforçando a união do grupo. Isso pode ser visto em comoções nacionais, em rituais religiosos e linchamentos. Em certa medida, um bom exemplo disso são os linchamentos de negros que ocorriam em estados do sul dos Estados Unidos durante a existência nessa região do Jim Crow (conjunto de leis vigentes entre 1876 e 1965 que estabeleciam a segregação racial e separação entre negros e brancos). Homens, mulheres e crianças brancos afirmavam valores de pertencimento e superioridade racial participando desses eventos que eram um misto de festa e lócus de aprendizado e afirmação de valores.

http://www.shelleytherepublican.com/wp-content/uploads/2007/11/lynching.jpg
(Foto de linchamento no sul dos EUA)

A turba que insultou e linchou moralmente a colega de classe na UNIBAN afirma valores retrógrados, conservadores e preconceituosos da sociedade brasileira. Somos uma população que se apresenta como simpática, possuidora de uma cultura flexível que tem uma relação peculiar com o corpo e uma forma de lidar com o sexo que nos distinguiria do puritanismo visto em lugares como os Estados Unidos. Entretanto, esse identidade, construída em parte de estereótipos sobre o corpo e sexualidade da mulher brasileira, mestiçagem e outros elementos esconde uma faceta extremamente hierarquizadora e preconceituosa no que diz respeito ao trato com as mesmas mulheres que podem ser nossas mães, irmãs, esposas, namoradas, amigas e, até mesmo, colegas de trabalho ou de classe numa universidade. O recado que a turba, que se comportou como se estivesse numa grande festa, deu é de que uma mulher, no Brasil, que saia a rua vestindo roupas curtas ou algo que, de algum modo, seja interpretado como provocativo “merece” ser insultada, xingada e, por mais absurdo que soe, ESTUPRADA!

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Essas são cenas contemporâneas de um país que tem como um dos seus grandes objetivos entrar no seleto hall dos países classificados como democráticos e desenvolvidos. Fica aqui o recado: democracia e desenvolvimento devem andar de mãos dadas com igualdade (de gênero, racial e de orientação sexual). Para isso é necessário a transformação/mudança dos valores disseminados na sociedade que enfatizam e olham para a desigualdade e desrespeito as diferenças como algo “legal” e tolerável!

MUITA PAZ E INDIGNAÇÃO!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Africanos, urgh!

A senhora de cabelos grisalhos sentou no banco do ponto de ônibus enquanto esperava sua neta sair da livraria na fresca tarde de sábado. 17 horas e a Avenida Paulista emitia uma tranquilidade impossível de se ver durante a semana. Até os seguranças do Conjunto Nacional vigiavam os traseuntes demonstrando certa preguiça. Tranquilamente, a mulher, já beirando seus 80 anos, começou a verificar os objetos comprados naquela tarde e que se encontravam em duas sacolas. Entretanto, um barulho de madeira batendo contra o chão perturbou sua concentração.
http://www.onbeingablacklawyer.com/wordpress/wp-content/uploads/2009/02/black-power.jpg
Ao lado no banco sentou um rapaz alto, magro e pele cor de chocolate. Os cabelos compridos batiam no meio das costas, num penteado que ela só havia visto na TV. A calça, que com certeza que não era dele, estava caindo mostrando suas roupas de baixo e tinha sua barra - ou que fora dela - toda rasgada. Camiseta larga, tênis sujo e um fone de ouvido pelo qual vazava uma música esquisita. O garoto, sentado no banco e inquieto, apoiava os pés numa tábua de madeira com rodinhas que, assim como seu penteado exótico, ela também jurava já ter visto na TV. Depois de algum tempo a mulher esqueceu o jovem e voltou sua atenção para as duas sacolas cheias de objetos. Um abajur comprado numa loja de antiquidades, roupas a serem dadas de presente aos netos e bisnetos, livros e uma jóia. Apreciava tudo detidamente quando, de repente, quase pulou de susto... Ouviu um estampido e levantou a cabeça para verificar de onde vinha o som. Foi aí que viu outro rapaz também alto, pele cor de chocolate usando uma espécie de pente em forma de garfo enfiado no meio do cabelo crespo levantado. As roupas dos dois garotos eram parecidas e o estampido tinha surgido do encontro das mãos de ambos. Um cumprimento, ela supôs. O último garoto sentou do seu outro lado e ela ficou bem no meio dos dois.

http://rapnews.co.uk/images/cartoons/3.jpg

"Porra, tru! Miliano que num te trombo, mano!"
"Pode crê muleke, variás fita rolando ó"
"Mas então, e aquela pule, lá?"
"Mó da hora, mano! Vários rolê e tal, se pá é nóis no baguio"
"Oh muleke, liga nóis qualqué coisa aí, tá ligado?"
"Firmeza total tru, nóis é nóis jacaré é um bicho, tá ligado?'"
"E aí nego, pego aquele pisante lá?"
"Nem mano, 500 conto num 12 mola?... Xá pra lá, mó preju, tá ligado? Mais 100 cruzeiro e eu meto um iPhone tá ligado, vô paga de gringo no rolê!"
"Pior hein, mano! Mó função hein, loko loko loko!"
"Tô na pegada de uns mano correria aí que vai passa um pra mim, tá ligado? O baguio é quente!"
"E as mina, tru?"
"Tô suavão, ó! Tava com uma Dona Maria aí, mas cê tá ligado né, mano, nóis é vida loka, né?! Vários perdido e tal, tá ligado?"
"Pior! Eu também tô a pampa... Só curtindo, tá ligado?"
"E aí, bem loko esse seu bléqui, hein mano? Deu um tapa onde? Galeria?"
"Lá memo. Tem um vagabundo lá que domina as arte das tesoura, manja? Mas aí, o teu dread tá mó da hora tamem, hein?"
"Vários anos cultivando o baguio né, tru?... Vixe, meu buzo, mano. Aí é nóis, bate um fio pra nóis fazê aquele rolê, hein?"
"Ô demorô, é nóis! Vamos chegá chegando no baguio, tá ligado?"
"Sumemo, tru! Fuiiiiii"
"Firmeza total vagabundo! Vô dá linha na pipa tamem!"

Enquanto um rapaz de pele cor de chocolate subiu no ônibus que estacionara no ponto o outro deu um salto e saiu pela calçada se equilibrando em cima da tábua de rodinhas. A senhora, ainda atordoada pela conversa que ouvira, pensava com seu botões: "Essa gente, viu? Vem pro Brasil e nem fala português direito! Africanos, urgh!".

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Deus Está Vivo, é Negrão e Mora nos EUA!

http://top-people.starmedia.com/tmp/swotti/cacheC3RLDMLLIHDVBMRLCG==UGVVCGXLLVBLB3BSZQ==/imgStevie%20Wonder3.jpg

Simples aula de lógica, car@s...

God is Love, Love is Blind, therefore, Stevie Wonder is God!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O Agente do Serviço Secreto no Jantar de Bacana!

http://blog.oregonlive.com/opinion_impact/2008/11/large_luckturk.jpg
Sempre que recebo emails das organizações que administram minha bolsa fico de cabelo pé. Já começo a pensar no que foi que fiquei devendo ou qual deadline perdi. Creiam: sou uma pessoa extremamente desorganizada que se encontra na sua bagunça, mas às vezes me perco nela e fica difícil de me encontrar novamente. Quando morava no Brasil, Dona Joana, senhora minha mãe, era a responsável por lembrar datas de coisas importantes como imposto de renda, justicativas por ter deixado de votar entre outras coisitas.

Há um mês atrás recebi um email da instituição que administra minha bolsa aqui nos EUA e pensei duas vezes antes de abrir o mesmo. Entretanto, relaxei bastante quando li a mensagem. Tratava-se de um convite para participar de um jantar de gala em comemoração aos 90 anos de existência da instituição. De acordo com a mensagem, eu era considerado um proeminente fellow e seria um prazer contar com minha presença no evento. Por fim, solicitavam confirmação de minha presença e, no caso de resposta positiva, a mensagem deveria ser encaminhada com um texto de uma página com informações sobre minha trajetória. O code dress da festa seria black tie e eu compartilharia a mesa de jantar com outros convidados me dispondo a conversar com os mesmos passando informações sobre o programa de bolsa a que estou vinculado, sobre meu país e meus interesses acadêmicos/profissionais. Pois é, quando a esmola é demais, já sabe, né?... Mas se há alguma coisa que um estudante duro não recusa é boa comida e bebida na faixa. Mandei minha mensagem de confirmação quase na mesma hora!

A noite chegou... Tirei meu costume do armário, comprei um camisa e gravata novas, engraxei o sapato e cortei o cabelo. Showtime! Deveria estar no Mandarim Hotel, Midtown Manhattan, por volta das 18 horas para participar do coquetel que rolaria até às 19 horas precedendo o jantar e entrega dos prêmios. Porém, difícil perder o costume de me atrasar. Peguei o metrô (vestindo terno, gravata, barbeado e perfumado) por volta das 17:50 e ainda na dúvida sobre qual baldeação deveria fazer. Sentei num banco e ao meu lado havia um rapaz com claros tiques nervosos. Primeiro, ele me perguntou se aquele trem passava em determinada estação. Respondi que sim e voltei a checar meus emails no celular. Entretanto, notei que o rapaz - alto, branco e usando óculos de grau - continuava a me observar. Depois de alguns minutos ele me olhou detidamente e perguntou: "Are you service secret?" "What?..." Respondi meio incrédulo do que tinha ouvido e ele repetiu, "I'm asking if are you in service secret?" Dei uma risada meio sem querer do absurdo da pergunta e respondi, "No sir, I'm not from service secret!"... Voltei a mim e fiquei pensando que mesmo que fosse do serviço secreto não faria sentindo me identificar. Entretanto, a situação me fez admitir que passei por um processo de mobilidade social ascendente, já que no Brasil iriam me confundir com segurança de casa noturna.

Cheguei em Midtown por volta das 18:25, mas ainda demorei mais uns cinco minutos para localizar o Mandarim Hotel. Carros de polícia, carros do serviço secreto (os verdadeiros!) e confusão de gente na frente do hotel. A confusão toda se dava devido a presença de representantes do corpo diplomático de alguns países. Entrei, me identifiquei e ganhei um crachá ridículo (odeio crachás, nunca uso...). O evento seria no 35 andar do prédio e já no elevador procurei por alguma face conhecida, mas nada. Continuaria por não encontrar nenhum rosto conhecido pelo resto da noite.
http://www.archives.gov/exhibits/running-for-office/assets/images/artifacts/39-zoom.jpg
Ao chegar no andar do jantar e ver a porta do elevator se abrir dei de cara com uma multidão que se apertava numa espécie de lounge. Como não conhecia ninguém resolvi agarrar uma taça de vinho e simplesmente observar o ambiente. Ao chegar no barman, mudei de idéia diante da pergunta do rapaz: "What are you want sir?" Havia de tudo no esquema desde um suquinho de laranja, passando por água, vinho (branco e tinto), uísque e... Foi aí que lembrei de meu truta Mano Brown "...Champanhe pra abri nossos caminho!..." A propósito, acho que não havia cerveja disponível. Festa de bacana tem corte de classe sutil. Tomei umas duas taças de champanhe e umas duas de vinho e finalmente as portas do salão onde seria servido o jantar foram abertas.

O salão era circundado por janelas de vidro que iam do chão ao teto. Dali era possível ver parte do Central Park e vários prédios da Midtown Manhattan. O palco foi montado tendo como pano de fundo essa vista. Enquanto apreciava a paisagem troquei umas palavras com um senhor que me explicou as mudanças que haviam ocorrido naquela região da cidade nos últimos 10 anos e ainda tivemos tempo de falar sobre a economia do Brasil (todo mundo quer saber ou conhecer o Brasil). Todas as mesas eram numeradas e cada convidado tinha um lugar reservado. Achei a minha, 18, na qual sentei com um empresário americano que, ao saber que eu era brasileiro, disse ter ido a uma recepção em homenagem a Lula na noite anterior (nosso presidente estava de rolê pela cidade devido a um encontro de pica grossas na ONU), dois bolsistas - uma moça da Indonésia e um rapaz russo - de um outro programa e mais uma senhora que fazia parte da burocracia de alta escalão da instituição aniversariante.

Pois é, e lá se foram duas horas de premiações, discursos que reconstruiam histórias de vida, palmas e solicitações de contribuições filantrópicas. Cada convidado tinha junto a seu nome na mesa um pequeno formulário pelo qual era possível fazer doações com cartão de crédito. Como sou estudante, decidi que seria melhor esperar me formar para começar minha carreira na filantropia. Além do mais, não sei como a instituição reagiria a uma contribuiçao de US$ 5 e o abatimento deles na minhas taxes seria ridículo. No problem, outros já haviam cobrido a minha parte. Fiquei surpreso, feliz e aliviado ao ouvir o anúncio pela hostess do jantar que já haviam atingido a pequena soma de US$ 900.000 em doações naquela noite. E olha que estamos em crise!

E esse foi o jantar de bacana. A comida não foi aquelas coisas, mas se tratando de algo na faixa, já dizia o velho e bom Tim: vale-tudo! E na volta de casa, felizmente, ninguém me confundiu com um agente do serviço secreto novamente. Vai ver porque eu já estava bêbado e agentes do serviço secreto nunca bebem em serviço e/ou demonstram estar chapados!

sábado, 24 de outubro de 2009

Push Precious, Push... (Estante de Maloqueiro 2)

"It's Sunday, no school, meetings. I'm a dayroom at Advancement House, sitting on a big leather stool holdin' Abdul. The sun is coming through the window splashing down on him, on the pages of his book. It's called The Black BC's. I love to hold him on my lap, open up the world to him. When the sun shine on him like this, he is an angel child. Brown sunshine. And my heart fill. Hurt. One year? Five? Ten years? Maybe more if I take care of myself. Maybe a cure. Who knows, who is working on shit like that? Look his noise is so shiny, his eyes shiny. He my shiny brown boy. In his beauty I see my own. He pulling on my earring, want me to stop daydreaming and read him a story before nap time. I do." (Sapphire, 1997: 139)

http://hankrion.com/sitebuildercontent/sitebuilderpictures/41RNFGPAPYL__SL500_.jpg

Em fevereiro fiz um post aqui no NewYorKibe intitulado Book, Books and Malcolm no qual escrevi que "um livro realmente te agrada quando você se sente transformado após a leitura dele. Seu humor melhorou, piorou, resolveu prestar vestibular ou dar um basta na sua vida?... Bang! O livro tocou em pontos cruciais da sua biografia, personalidade e subjetividade!" O trecho em inglês no início desse post é o último parágrafo do livro Push cuja autora é Sapphire. Lançando há 12 anos atrás o livro conta a história verídica de uma adolescente negra moradora do Harlem nos anos 1980. O texto é um baque e, sinceramente, durante vários momentos me senti extremamente mal e depressivo ao lê-lo. Não consigo imaginar o impacto de um livro como esse para leitoras, uma vez que o mesmo lida com temas tão complexos e delicados para o universo feminino. Na verdade, comprei Push por acaso. Estava na livraria Barnes and Noble comprando coisas para um curso e vi o livro exposto com um selo de que se tratava da obra cuja os produtores do filme Precious (2009) se basearam para criar o roteiro da película que faturou o Grand Jury Prize e Audience Award no Sundance Festival desse ano.

http://z.about.com/d/movies/1/0/U/I/U/precious1.jpg
(Cena de Precious)

Precious Jones é uma garota negra, nascida em 1970, obesa, dark-skinned (termo usado dentro da comunidade afro-americana para se referir a negr@s com pele de matiz mais escura) moradora da Lenox Avenue no Harlem, abusada pelo pai desde os sete anos. Aos 12 anos, após ser espancada pela mãe, deu a luz ao primeiro filho do pai que nasceu com Síndrome de Down. Aos 16 teve o segundo filho do pai. Jones é explorada pela mãe que recebe o dinheiro do welfare state que deveria ir para a filha e o neto doente que na verdade é cuidado pela avó da garota. Além de ser abusada pelo pai com a condescendência da mãe, Precious é obrigada fazer todo o serviço doméstico e cozinhar. Mesmo freqüentando a escola e estar prestes a ir para a high school (equivalente ao ensino médio no Brasil), Jones é analfabeta.

A vida de Jones começa a mudar pouco antes de ela dar a luz ao segundo filho, uma vez que é encaminhada a um programa de ensino alternativo para adultos: Each One Teach One. Ali ela conhece a professora Blue Rain e tem contato com várias outras alunas que tem histórias parecidas a sua: a garota porto-riquenha que viu o pai matar a mãe ao 7 anos de idade e acabou nas ruas se prostituindo e contraindo AIDS, a outra amiga jamaicana que era abusada pelo irmão e foi expulsa de casa pela mãe que não acreditou na sua história e investia todas as fichas na carreira de dentista do filho e ainda outra garota negra homossexual cuja orientação sexual não é aceita pela família e foi estuprada pelo pai da namorada que queria lhe mostrar como uma mulher devia ser portar. Pelo visto, não são histórias nem um pouco fáceis, mas estão todas registradas em Push. A leitura do livro também muitas vezes é difícil já que ele, em várias partes, é escrito no vernáculo negro e é necessário pronunciar o que está escrito em voz alta para entender o significado das palavras. Quando a passagem é muito complicada, há a ajuda da escritora. Veja as partes abaixo:

who tech mi who hep me I don no whut
(who teach me who help me I don't know what)
to sa it hard to xplxn i nver tel mi hole store. Yes I
(to say it hard to explain i never tell my whole story. Yes I)
need tess four AID I skred thas ALL four nov
(need test for AIDS. I scared that's ALL for now)
pane
(pain)
Precious Pane
(Pain)
2/1/89 (pág. 93)

* Quem me ensina? Quem me ajuda? Eu não sei o que dizer, que é duro explicar que eu nunca tenha contado minha estória inteira. Eu preciso fazer teste de AIDS. Eu estou toda assustada agora. Dor! Precious Dor. 1 de fevereiro de 1989.

http://wetprints.files.wordpress.com/2009/02/push_based_on_the_novel_by_sapphire_movie_image__4_.jpg
(Cena de Precious)

Tenho conversado com várias pessoas sobre o livro e como o mesmo me chocou. Duas noites atrás tomava um café com minha amiga de New School, Elisabeth Fallica. Lis é professora de high school no Bronx e é oriunda de uma família de intelectuais de Long Sland: o pai é professor do departamento de mídia na NYU e a mãe antropóloga formada pela New School. Para minha surpresa ela me disse que, apesar de não ter lido o livro, sabe que boa parte dos seus alunos leem e adoram o mesmo. Conclui isso por mim mesmo. Ontem, voltando para casa no metrô, abri o livro e comecei a lê-lo. Havia duas garotas hispânicas na casa dos 18 anos à minha frente e uma delas ficou olhando para a capa do livro. Depois de uma troca de olhares ela comentou: "It's such a good book!", "Yeah, but it's very painful", respondi. "This is reality!" ela retrucou. Enfim, não foi um livro fácil para mim. Como já disse, confesso que em alguns momentos tive vontade de parar de ler tamanho sofrimento que fora experimentado por uma garota de apenas 16 anos ainda mais considerando que o lugar em que ela experimentava esse martírio era seu próprio lar.

O filme entra em cartaz dia 6 de novembro aqui, irei assistí-lo. Meu exemplar do livro já está prometido para Willie, meu truta negrão que trabalha na manutenção da New School. Após lhe contar sobre a estória do livro, Will, que mora na 140 Street do Harlem, ficou mais que empolgado em lê-lo. Fiz esse post rapidinho, já que prometi lhe dar o livro na segunda. Assista o trailer do filme abaixo, cuja direção é de Lee Daniels e que conta com a participação de Mariah Carey e Lenny Kravitz.

Muita Paz!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Viva a Sociologia de Botequim de Magnoli!

http://ghiraldelli.files.wordpress.com/2009/09/capa-gota-de-sangue_web1.jpg

E a sociologia de botequim está de volta! Como se não bastasse coisas a la Não Somos Racistas do amigão Ali Kamel temos agora Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial, que acabou de sair do forno do "sociólogo" Demétrio Magnoli. Aliás, me pergunto porque nosso caro truta Magnoli se apresenta como "sociólogo" se a sua formação é geografia? Também não entendo porque alguém que não tem nenhuma produção relevante na área de relações raciais, estudos étnicos e/ou afro-brasileiros é, de uma hora para outra, vista como autoridade nesses temas? Vou te falar viu, meus 5 anos de graduação em ciências sociais, 4 de mestrado e mais 1 de PhD de sociologia não tá valendo nada mesmo...

Muita Paz à tod@s e vida curta as picaretagens intelectuais e ao reducionismo "sociológico"!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Vale a Pena Ir...


Pra quem estiver em SP no próximo dia 30/10, vale a pena dar uma colada no Museu do Futebol e assistir o filme de Cao Hamburguer, O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias.

É na faixa e tem debate com o diretor após a exibição.

Mais informações no flyer ao lado, clique na imagem para uma melhor visualização.

One Love!

Márcio/Kibe.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Emory Douglas e o Black Panthers Party

Domingo à tarde, 18/10, fui dar um xeretada num exposição num museu próximo ao SoHo, já que queria dar uma relaxada da rotina chata de leituras, leituras e mais leituras. Era o último dia da exibição Emory Douglas: Black Panther no New Museum (Bowery Street, 235). A foto ao lado foi tirada no meu iPhone e é do hall de entrada da mostra onde os caras reproduziram num mural uma obra do artista.

Para quem não sabe, o Black Panther Party For Self Defense foi uma organização negra criada em Oakland, Califórnia, que atuou nos EUA de maneira efetiva entre 1966-1980. Suas figuras de frente foram Bobby Seale e Huey P. Newton. A analogia à Pantera foi incorporada devido a mesma ser, de acordo com os fundadores, um animal que só ataca como forma de auto-defesa. Os Panthers surgiram no contexto dos assasinatos das duas grandes lideranças negras contemporâneas - Malcolm X (1925-1965) e Martin Luther King Jr. (1929-1968) - e incorporavam paradigmas ideológicos que passavam pelo marxismo, maoismo, nacionalismo negro e pan-africanismo. Na exposição havia uma cópia da lista de leituras obrigatórias de um militante panther, que, segundo depoimentos de participantes, tinha um programa intensivo de leitura entre 6 a 8 semanas antes de se juntar a organização. Na lista constavam autores como Frantz Fanon, Marcus Garvey, W.E.B Du Bois, Kwane Kruman, Malcolm X, John Hope Franklyn, C.L.R James, Karl Marx entre outros.

http://www.theotherjournal.com/article_files/EmoryDouglas_Photoby_SeanRoberts.jpg

Emory Douglas (nego véio da foto aí de cima) foi ministro da cultura do grupo (ele se apresentavam como um Estado e cada militante tinha uma posição dentro do grupo) e se juntou aos Black Panthers vindo do Movimento de Artes Negras que abateu os EUA nos anos sessenta. Foi o momento em que temas como a descolonização do continente africano e a renovação da estética negra teve um impacto direto nas produção de artistas afro-americanos. Na poesia e literatura apareceram nomes como Maya Angelou, Nikki Giovanni e James Baldwin ao ponto que jazz vivia experimentações profundas através de músicos da avant-garde como Mile Davis, John Coltrane e Charles Mingus, a soul music que incorporava elementos mais críticos nas letras e cuja sonoridade ia se radicalizando por meio de James Brown. Gil Scott-Heron cantava The Revolution Will Not Be Televised e dava, junto com os The Last Poets, os primeiros passos no canto falado que anos mais tarde, juntando-se a ritmos jamaicanos com o toast, formaria o que se conhece hoje por rap. No Harlem (com o bicho pegando devido a vários riots), foi o momento que houve o estabelecimento do The Studio Museum in Harlem local de encontro e produção de artistas negros da Big Apple e de regiões próximas.

http://artnews.org/files/0000042000/0000041262.jpg/Emory_Douglas.jpg

A produção de Douglas tem uma pegada, como pode ser vista em algumas imagens aqui do post, de art pop, algo que iria se estabelecer com força na cena artística e tomar as galerias do gentrificado SoHo nos anos 1970 e 1980 através de figuras como Andy Warhol (1928-1987) e seu pupilo Jean-Michel Basquiat (1960-1988). Douglas, por sua vez, tinha objetivos políticos muito mais claros. Pensava a revolução não só como state of mind, mas como realidade. Entretanto, os desenhos do artista não deixam de ter muito humor, algo que me lembra um pouco Ernesto "Che" Guevara (1928-1967): "Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás!". No caso do truta Douglas, seria "não perder o humor"... Veja o quadro dos Pigs (maneira como os Panthers se referiam aos brancos imperialistas do poder nos EUA e na Europa) abaixo...

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhTPQDw_-90y9YUDhkRD3WomVNJYTrw-oK4ufrJE7UHgf8DOogqjVQyyx9Nii7wD22r6eKaoXlPMOPYK8UvrqQud4G2O_-vJ-WPsTyBKzwXFr6WAQbgEjZSMQbJDIm6KOxVy0obJiAXQsY/s400/Pig+by+Emory+Douglas.jpg

Em um outro quadro que vi na exposicão há um pig falando ao telefone e segurando um livro intitulado "Manual Para Sequestro do F.B.I.". Ironicamente ele está numa ligação com os Panthers dizendo: "Alô Black Panthers, eu estou muito grato em lhe informar que teremos um grande prazer em marcar uma reunião com o presidente da sua organização". Hilário! Infelizmente, a história da conspiração armada pelo governo americano para o desmantelamento dos Panthers não é nada engraçada. Por volta de 25 lideranças foram mortas em condições suspeitas até o final dos anos 1970. Muitos outros foram presos e alguns continuam na prisão ou no exílio até hoje.

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Felizmente, Douglas ainda está aí para contar histórias e produzir mais coisas legais em nome da libertação negra. A imagem abaixo é a capa de um álbum do grupo de rap Digable Planets, Blowout Comb (1994), e foi inspirada no layout do jornal dos Panthers elaborado por Douglas e onde sua produção circulou majoritariamente nos anos 1960/1970.

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Pois é, vida longa a Douglas e Muita Paz Rapaziada!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Cascão Não é Patrício!

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Vale a pena ler a notícia do lançamento do livro de história em quadrinhos Negrinha no site do Estadão. A obra foi produzida por uma autora francesa e revive o Rio de Janeiro pré-bossa nova revisitando ainda a clássica ditocomia "morro x asfalto". A matéria do jornal paulista termina com uma pérola do cartunista Mauricio de Sousa: "A propósito: Cascão não é negro, informa Mauricio. Ele lembra que, em uma de suas aventuras, os amigos o limparam com um aspirador de pó e descobriram que não só ele é branco, como tem olhos azuis." Ou seja, Cascão não é patrício, rapaziada. Não adianta chorar (na verdade, tô é morrendo de rir)!

Vibrações positivas pro Cascão aí na caminhada, mesmo ele não sendo um "irmão" de cor!