domingo, 30 de outubro de 2011

Michael Muhammad Knight: Hip-Hop, Nação do Islã e os Five Percent.

Tradução do artigo Convert Straddles Worlds of Islam and Hip-Hop publicado no jornal New York Times no último sábado, 29 de outubro de 2011.

Convert Straddles Worlds of Islam and Hip-Hop
Mark Oppenheimer



Ele era um "garoto branco de 15 anos de idade com um pai diagnosticado com esquizofrenia, estuprador e separatista racial e mãe enfrentando seu segundo divórcio,"Michael Muhammad Knight escreve em suas mémorias de 2006, "Blue Eyed Devil: A Road Odyssey Through Islamic America." (Diabo dos Olhos Azuis: Uma Estrada de Odisséia Através da América Islâmica). Em sua casa em Rochester, ele "ouvia muito Public Enemy e lia 'A Autobiografia de Malcolm X' e aos 16 anos tinha um enorme poster do Ayatollah Khomeini na parede do seu quarto. Aos 17, Knight, tendo se convertido ao Islão, estava "circulando no interior do Paquistão com refugiados afegãos e somalis" e estudando "na maior mesquita do mundo: Faisal Masjid em Islamabad, que se parecia a uma nave espacial."




Isto foi precisamente metade de um tempo de vida passado. Knight, agora com 34 anos, é um estudante de doutorado em estudos islâmicos na Universidade da Carolina do Norte. Ele retornou para os Estados Unidos no mesmo ano que saiu e aos 20 anos trocou seu fundamentalismo islâmico por versão mais liberal e irreverente. Escritor prolífico, ele frequentemente satiriza seus camaradas islâmicos, cutucando os tradicionalistas. Ele é um bobo da corte para o mundo islâmico, um provocador em um kufi (adorno de cabeça usado pelos muçulamos).

Knight escreveu sete livros desde 2002, incluindo um de memórias no qual ele descreve sua desilusão com o Islão ortodoxo, um romance, "The Taqwacores," sobre um fictício submundo de roqueiros punks muçulmanos, e outro, "Osama Van Halen" (2009), sobre punks que sequestram Matt Damon e exigem papéis mais favoráveis de muçulmanos em filmes. Seus escritos têm perturbado muitos muçulmanos, assim como seus ataques a hiprocrisia e rebeldia no mundo islâmico. Até agora ele é reconhecido como um praticante (e danoso) aprendiz do islamismo sunita, a maior tradição muçulmana do mundo. Mas Knight encontrou uma nova maneira de surpreender seus camaradas fiéis. No seu sétimo livro, "Why I Am a Five Percent" ("Porque Eu Sou Um Cinco Por Cento") - Jeremy P. Tarcher/Penguim, publicado este mês - Knight professa sua afinidade com a Nação dos Deuses e Terras, também conhecido os Five Percent, um rebento misterioso e mal entendido da Nação do Islã.

 
Em 2007, Knight publicou uma história dos Five Percent, os quais estavam organizados no Harlem em 1964. Eles tomaram o nome do ensinamento da Nação do Islã de que 5 por cento das pessoas são "pobres professores por direito" que devem educar as massas oprimidas. Em "The Five Percents: Islam, Hip-Hop and the Gods of New York," (Os Cinco Por Cento: Islão, Hip-Hop e os Deuses de Nova York), Knight argumenta que a reputação de criminalidade do grupo foi largamente exagerada.

No entanto, muçulmanos ortodoxos se resentem da conexão existente na mente de algumas pessoas entre o Islão tradicional e os Five Percent cuja teologia eles consideram heresia. E os Five Percent não proferem mais qualquer conexão com o Islão tradicional.

 
Ainda, o que interessa não muçulmanos não é a precisão teológica mas o fascínio único dos Five Percent. O dialeto do secto, sua obscura numerologia e excêntrica formulação de orgulho racial - na qual homens negros são considerados "deuses" (gods), mulheres negras "terras" (earths) - tem largamente influenciado a música hip-hop e, consequentemente, algo para além da América negra.  

Em seu livro anterior sobre o grupo, Knight reafirmava a profunda história dos Five Percent voltando ao seu fundador, Clarence 13X Smith, que se auto-denominava Allah. Ele também analizou mensagens dos Five Percent nas letras de artistas como Wu-Tang Clan, Busta Rhymes e 50 Cent (o qual pegou seu nome de outro 50 Cent, um trambiqueiro [hustler] de rua pertencente aos Five Percent e assassinado em 1987).

Para milhões de fãs de rap se questionado sobre aquelas letras bizarras do rapper RZA (foto acima) do Wu-Tang Clan, ou refletindo sobre as origens da afirmação de rua "Word" (palavra), ou mesmo se perguntando do porquê Erykah Badu (foto abaixo) ter nomeado seu filho Seven (sete), aqui estão no mínimo algumas respostas.

(Para os não iniciados, Seven (sete) refere-se a Deus.

 
Mas ao oferecer sua simpática exploração dos Five Percent, Knight nunca sugeriu que ele era um deles. Ele se colocava como um muçulmano sunita estudando um grupo desconhecido. No novo livro, no entanto, as coisas mudaram

Knight escreve agora que sua imersão no mundo dos Five Percent fez dele, de certa forma, uma pessoa de dentro. Ele não aceita a verdade literal de todas as suas afirmações (e ele é cético de que todos os Five Percent o fazem também). Mas ele não é mais um estranho ao grupo buscando se inserir.

"Enquanto meu encontro com os Five Percent influenciou meu pensamento sobre raça e religião," Knight escreve, "algo mais aconteceu, algo mais profundo do que posições intelectuais." Ele se viu contemplando essas questões "em termos dos Five Percent, usando linguagem dos Five Percent." "Tornou-se completamente natural para mim refletir sobre a data do dia usando Matemática Suprema," o sistema dos Five Percent no qual números representam conceitos espirituais (um é conhecimento, dois é sabedoria e assim por diante). Algumas vezes Knight "experimentou até mesmo uma ressonância emocional mais profunda com narrativas do ex Clarence 13X e seus deuses adolescentes do que aquelas do Profeta Muhammad e seus companheiros."

Knight não vive como um Five Percent. Alguns diriam que ele nem mesmo vive como um muçulmano. Nos seus dois anos em Harvard, onde em maio terminou um mestrado, "foi a mesquita talvez duas vezes," contou-me ele essa semana. Mas essa aparente tensão somente aponta para o principal argumento de "Why I Am a Five Percent"; esta identidade religiosa não é necessariamente sobre fé, ou mesmo sobre cultura. Acadêmicos gastam uma porção de tempo rebatendo a bolinha de tênis sobre o que "religião" é; para Knight, ela é uma forma de ver o mundo. Ele chegou ao Islã não por causa de afirmações verdadeiras e específicas sobre Deus, mas porque "aquelas orações árabes me deram o sabão certo para me lavar da América, meu pai, meu padrasto, o Jesus branco, e tudo mais dos colegas de classe ignorantes e caipiras do colégio católico." Agora, ele tem uma linguagem mais nova: menos mulçulmana, mais Five Percent. Na época que ele terminou seu primeiro livro sobre os Five Percent, o Harlem estava "mais conectado" com seu mundo "do que o inimaginado quadro da Arábia pré-moderna. Parar em fente do Hotel Theresa," onde Allah, o primeiro Five Percent, foi preso em 1965,"ou visitar o parque Marcus Garvey, onde Allah estabeceu seu primeiro parlamento, me afetariam não menos como uma peregrinação [à Meca]." 

Na introdução de seu livro, Knight oferece um pouco de aconselhamento a outros acadêmicos fazendo trabalho de campo: "Mantenha sua defesa e distância. Vocês gastam muito tempo com cultura e falham ao checar a si mesmos, vocês se apaixonarão e se tornarão o seu objeto."

Mas como irá você saber se chegou perto demais do seu objeto? Para Knight houve claros sinais. Em 2008 ele fez a tradicional peregrinação a Meca. "Aqui estou eu," contou-me ele, "um quase muçulmano ortodoxo em Meca, andando ao redor da Kaaba" - o santuário que muçulmanos de todo o mundo encaram durante suas orações - "e interpretando ele através de matemática, as lições, letras do Wu-Tang. Eu tinha que dar sentido aquilo."

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Vocês Não Estão Sozinhas: Homens Negros Feministas em Ação

 

Tradução do texto You Are Not Alone: Black Male Feminists in Action de Charles H. F. Davis III publicado na Clutch Magazine em 10 de outubro de 2011. Acesse o texto original clicando AQUI

Feminismo masculino, e feminismo negro masculino em particular, são tópicos relativamente novos dentro dos discursos de gênero masculino-feminino. Com a crescente insatisfação e intolerância global por injustiça, especialmente à agora altamente visível opressão de mulheres e garotas, esta conversa é mais pertinente do que nunca.

Clutch previamente publicou um artigo sobre a aversão de um homem ao feminismo  (leia AQUI) e outro sobre a jornada pessoal de um homem em direção ao pensamento feminista (leia AQUI). Sendo assim, alguém poderia perguntar: “há ainda necessidade para outro artigo neste tópico tão cedo?” Sendo que desde a publicação de quaisquer dos artigos citados, nem depois da publicação deste, o comportamento opressivo masculino ou a adoção de auto-imagens negativas por mulheres e garotas se cessará, há certamente lugar para continuar esse diálogo.

Aqui são oferecidas algumas poucas reflexões sobre a minha epifânias em relação a idéias opressivas sobre masculinidade, pensamento negro feminista masculino e o meu próprio trabalho como o de colegas educadores de jovens homens negros. Nesse aspecto, este artigo espera não somente definir mais concretamente essa noção de pensamento [negro] feminista masculino, mas também lançar luz sobre porque ele é importante e o que esta idéia pode e deve se parecer na prática.

Enfatizar questões entre grupos e sub-grupos oprimidos é a tarefa do ativismo. Geralmente mal interpretado, ativismo não é meramente as muitas e várias vozes em primeira pessoa de vítimas assumidas falando sobre a posição daquelas vozes sendo articuladas por todas as pessoas em nome da humanidade. Isto dito, o feminismo para além dos mitos sensacionalistas do final dos anos 1960 e início dos 1970, muitos dos quais ostensivamente brancos, é uma forma de pensamento que apóia as vozes de mulheres mais do que silenciá-las em um mundo de dominação masculina. Por esta razão, e apoiado pelos recentes trabalhos de Deborah MacDowell e Michael Awkward, eu – um homem negro heterossexual – acredito que cabe aos homens negros tomar a responsabilidade de serem defensores e aliados das mulheres negras por uma justa percepção, enquadramento e tratamento das mulheres por nossos colegas homens, predecessores e contemporâneos.

Se incumbir do papel de defensor e aliado é uma ação participativa. Muitas críticas vindas da academia e blogosfera geralmente de maneira acurada sugerem que não há lugar mais para um “ativismo de armário” no século XXI. Eu, ocupando ambos lugares, tenderia a concordar que a maior parte da retórica sem agência – a intencional habilidade para intervenção e ação – está sujeita a debate. Tal como, o que ocorre na frente das mesas de comentadores, sábios, acadêmicos e escritores é tão importante quanto o que ocorre por trás delas. Para mim e vários outros homens, este é precisamente o trabalho no qual estamos engajados.

No final dessa semana estarei na Syracuse University para falar com a fraternidade dos homens de cor sobre humanidade e masculinidade. É minha esperança que através de nosso diálogo coletivo como homens nós possamos começar a desafiar e mudar nosso entendimento sobre não somente sobre o que significa ser um homem, mas também pessoas vivendo vidas válidas de se lembrar da oportunidade de mudar o mundo. Através do entendimento de questões de misoginia dentro da vida da faculdade e fraternidade e seus efeitos não somente sobre mulheres mas homens também, esses estudantes podem começar a agir. Este tipo de trabalho é imensuravelmente importante no que diz respeito a tarefa de auxiliar e assistir a desconstrução de masculinidades destrutivas – idéias e performances de masculinidade – muitas das quais oprimem diretamente mulheres. 

De workshops de larga escola como essa a conversas diárias com homens negros em meu campus, o trabalho de construir uma grande comunidade de homens negros progressistas está sendo feito. Não somente na área do feminismo masculino engajado, mas também nos tópicos de heterosexismo e homofobia; contudo, isto é outra conversa para outro dia. Similarmente a mim, a retórica e ação participativa com jovens homens negros e garotos de Jonathan Berhanu, Frank Harris, Tyrone Howard, David Ikard, Howard JeanDumi Lewis, Keon McGuire e incontáveis outros é um testemunho que meus esforços não são e nem deveram ser uma exceção.

Cada um de nós tem uma única chance de replicar a nós mesmos nas vidas dos outros. Em entender a longa história da dominação masculina, e resistência feminina/feminista a esta dominação, nós devemos compreender que a luta por igualdade e equidade nem começa nem termina conosco. Para estes jovens homens negros e garotos, sendo influenciado pelo contágio de uma idéia – construindo uma realidade melhor para esposas, mães, irmãs e filhas ainda não nascidas –, ótimos avanços podem ser feitos. Deixe este artigo de algum modo e em termos inequívocos re-inspirar esperança e fé para as mulheres negras saberem que elas não estão sozinhas; nós estamos com vocês e em oposição a todas as coisas que estão contra vocês. Nosso comprometimento como inovadores, educadores e motivadores é de criar novas gerações de “novos homens negros” de Mark Anthony Neal, os quais são conscientes do seu papel no avanço das mulheres como meios de avançar a si mesmos. O artista/ator Common nos lembra que, “quando nós diminuímos nossas mulheres nossa condição parece piorar.” Este é o nosso grito de batalha, que vitória possa ser conquistada.

sábado, 8 de outubro de 2011

O Menelick 2 Ato


Há tempos que eu venho reclamando da chatice que a Revista Raça se tornou (leia AQUI) e da falta de veículos de informação, seja na mídia escrita, televisionada ou virtual, voltados para um público preto, jovem, urbano e antenado produzido por gente do mesmo naipe.  Os grandes jornais e revistas ainda continuam com uma mentalidade retrógrada que estabelece uma representação de preto/as como não consumidores, pouco sofisticados e destituídos de demandas diferenciadas em relação a jovens de outros perfis raciais. Pois bem, “até agora você não disse nada de novo, Márcio Macedo”, a sua pessoa deve estar pensando. Infelizmente, é verdade.  Mas surpresas acontecem…

Ano passado, ao visitar o Brasil, peguei uma pequena revista informativa em algum show, loja de disco ou lançamento que fui em São Paulo. Sou daqueles que vai jogando as coisas na mochila e deixa pra ler depois. Apenas folheei a revistinha que mais se parecia a uma versão mais arrojada, bonita e bem produzida dos velhos fanzines. Mas eis que a dita cuja da revistinha se perdeu no meio da bagunça em que vivo em NYC e, a essa hora, deve estar jogada em algum canto de um depósito do Queens onde guardo minhas coisas durante as visitas de férias e/ou trabalho ao Brasilzão.  Mas coincidências também acontecem. No meio deste ano novamente em visita a terrinha peguei vários números da tal da revistinha em algum lugar de SP que não me lembro e depois fui presenteado com mais um exemplar da mesma por minha amiga Valéria Alves que assina um texto no último número de O Menelick 2 Ato: Brasilidades e Afins.
 

O nome é inspirado em um jornal - O Menelick – vinculado ao que se convencionou chamar de “Imprensa Negra” e que circulou em São Paulo nos anos 1910. Seu idealizador à época foi o poeta Deocleciano Nascimento. Atualmente, quem está por detrás da empreita do 2 Ato do Menelick é o jornalista e fotógrafo José Nabor Jr. que de 2007 a 2010 desenvolveu o projeto da agora revista impressa num blog homônimo.

Dos seis números lançados até agora devo ter uns quatro. A proposta do projeto é interessante justamente por não se fechar em nenhuma manifestação cultural ou artística específica, mas sim querer da conta do universo das manifestações culturais afro-brasileiras e da diáspora negra como um todo. Contudo, mesmo que esse seja o objetivo, pela leitura dos textos fica claro (ou escuro!) uma predileção por temas mais relacionados as manifestações negras da cidade e do estado de São Paulo, o que acho um ponto positivo da revista. Outro ponto visível ao folhear os números, obedecendo a sua cronologia, é um arrojamento e melhoria dos textos – assinados em sua maioria por jornalistas, artistas e cientistas sociais em geral – e do projeto gráfico.

  EDIÇÃO #06

Por outro lado, penso que ainda falta uma revista eletrônica negra decente e que seja alimentada diariamente por textos de diferentes escritores discutindo assuntos polêmicos, apresentando novidades, fazendo resenhas de livros, discos, exposições de arte além de explorar temas políticos relacionados a população negra e jovem sem a caretice de textos militantes. Um bom exemplo disso pode ser visto na revista Clucth (visite AQUI o site dos caras e leia AQUI um post meu sobre a revista). O Menelick 2 Ato segue um bom caminho, mas pode se expandir e melhorar ainda mais. Hoje à noite rola o lançamento do seu oitavo número em SP. Se você não tiver nada pra fazer e se interessar pela parada cola lá. Mais informações no flyer abaixo ou no blog O Menelick 2 Ato.

Muita Paz!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Professor Derrick Bell (1930 - 2011)

 
 
Não vou falar de Steve Jobs (1955-2011), pois é covardia concorrer com os grandes jornais. Sem dúvida que o cara foi a grande figura do mundo dos negócios e tecnologia nos últimos 10 anos e, de alguma forma, mudou a forma como vivemos. Entretanto, ontem também faleceu nos EUA uma grande figura do movimento pelos direitos civis e do mundo acadêmico afro-americano: Derrick Bell (1930-2011). Bell (foto acima), assim como Jobs, foi vítima de câncer e faleceu num hospital da região Upper West Side de Nova York ontem à tarde. Ele foi o primeiro negro a receber um cargo vitalício de professor no curso de direito da Harvard University e, posteriormente, tornou-se o primeiro diretor da escola de direito da mesma instituição acadêmica. Mas Bell ficou também conhecido por seu ativismo, por rejeitar cargos de prestígio em favor de seus posicionamentos políticos e por ser um dos percusores do que viria a ser conhecido como critical race theory: um conjunto de estudos, inicialmente desenvolvidos na área do direito, que evidencia como o racismo é parte integrante da engrenagem de funcionamento de várias instituições.

Uma faceta interessante da perspectiva elaborada por Bell é o uso de "storytelling", ou seja, o uso de parábolas ou histórias para exemplificar ou reforçar pressupostos teóricos.  Mas isso ocorreu lá pelos anos 1970, muito antes que livros como It Was Like a Fever: Storytelling in Protest and Politics (2006), da professora de sociologia na University of California, Irvine, Francesca Polleta, fossem lançados evidenciando os usos políticos desse método que se disseminariam na política e no ativismo.

Nos anos 1990, o público americano não acadêmico teve um contato mais íntimo com o trabalho de Bell. O filme Cosmic Slops, produzido e lançado por um canal de TV em 1994, é uma trilogia de três pequenas histórias. A primeira delas é "The Space Traders", baseada num conto do livro Faces at the Bottom of the Well: The Permanence of Racism (1992) de autoria de Derrick Bell. Nela o autor descreve alienígenas que visitam o planeta e fazem uma oferta aos EUA: ouro suficiente para sanar o dívida nacional, uma porção química mágica que limparia céus e rios poluídos do país e uma ilimitada fonte de energia limpa e segura para substituir as já escassas reservas de energia da América. Em troca disso tudo, as criaturas pedem por apenas uma coisa: tomar posse de toda população negra dos EUA, que seria levada para o espaço. O governo norte-americano resolve convocar um referendo público para decidir sobre a oferta e... Veja o desfecho da história no filme que pode ser assistido por inteiro clicando neste link AQUI.  Lembrando que o título da película é baseado numa canção homônima do músico de funk George Clinton de 1973.

Um obituário mais completo de Bell, publicado pelo New York Times, pode ser lido AQUI.

Derrick Bell, rest in peace!

domingo, 25 de setembro de 2011

If Beale Street Could Talk

If Beale Street Could Talk é o décimo terceiro livro de James Baldwin (1924-1987), lançado em 1974, e meu romance predileto dele.  Ironicamente, o li apenas uma vez há pelo menos oito anos atrás num exemplar da biblioteca da FFLCH/USP. Mas desde que fui para NYC já comprei três exemplares dele, em diferentes ocasiões, que nunca ficaram na minha estante: foram dados, com amor e carinho, a pessoas especiais.



O livro conta a história de uma garota negra de 19 anos apelidada Tish cujo nome verdadeiro é Clemetine. Ela está apaixonada por um escultor de 22 anos, Fonny, cujo nome original é Alonzo. Ambos moram no Harlem e amor vivido pelo casal os protege de suas respectivas famílias problemáticas e o complexo mundo em convulsão que o cerca. No entanto, logo após o noivado do casal Fonny é falsamente acusado de estuprar uma mulher porto-riquenha, Victoria Rogers. Ele é acusado por um policial racista (Officer Bell) and e é imediatamente preso o que, de certa forma, coloca seu noivado em compasso de espera. Rogers, a vítima de estupro, deixa os Estados Unidos voltando para Porto Rico e a mãe de Tish, Sharon, viaja de Nova York a San Juan buscando reunir provas que possam libertar Fonny. A narrativa de Baldwin alterna os pontos de vistas tanto de Tish como de Fonny. Desde o primeiro capítulo a história é uma combinação entre partes extremamente doces e delicadas com tristeza, amargura e melancolia. Passagens com vívidas descrições de relações sexuais se transformam numa sutileza sem tamanho devido ao talento e capacidade de Baldwin em criar imagens e trazer alegria e humor onde alguém só veria dor e obscenidade. Assim ocorre quando ele narra a  primeira vez em que Tish e Fonny transam e ela perde a sua virgindade ou o sexo dominical (e hilário!) que os pais de Fonny sempre fazem após o retorno de sua mãe da igreja em graça com o Espírito Santo. A narrativa de Baldwin concentrasse no esforço da família Rivers (Tish) em se manter unida até o final do drama vivido por Fonny. Embora a mãe e as irmãs de Fonny não se preocupem em salvá-lo, os Rivers o tomam como seu próprio filho. Eles passam a fazer hora extra no trabalho para juntar dinheiro que é usado para arcar com as despesas com advogado e também pagar a fiança de Fonny, caso ela venha a ser estipulada. Ao final, Fonny consegue sair da prisão sob fiança para ver seu filho nascer, mas não antes de seu pai cometer suicídio.

 
Infelizmente, não há traduções para o português de If Beale... como acontece com The Price of the Ticket (1948), Giovanni's Room (1952), Another Country (1962), The Next Time Fire (1963) e outros que não me lembro agora. Mas se você encarar o idiomazinho imperialista vai só lucrar na leitura desse belo e curto romance. Meu amigo Alex Ratts, professor de antropologia na Federal de Góias, disse que está tirando do forno um texto no qual analisa os livros de Baldwin traduzidos para o português. Estou curioso e ansioso para ler. Enquanto isso, vale a pena dar uma xeretada nesse artigo de Caryl Phillips escrito para o jornal inglês The Guardian em julho de 2007 (leia AQUI). Para uma resenha (em inglês) mais completa do romance If Beale... clique AQUI

Finally, dear Jimmy, thanks a lot for your inspiring books! 

Muita Paz, Bom Domingo!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Minha vidinha interiorana 1: uma visita a livraria e encontro com John Updike

Limeira Limeira (foto abaixo da gruta da praça central)... Dois dias atrás ia passando em frente a uma das poucas livrarias que há na cidade (acho que são duas!) e resolvi entrar e dar uma xeretada nos livros. Leitore/as assíduo/as de livros estão sempre em busca de uma pechincha e pensei que essa seria a minha chance. Livrarias aqui são um misto de banca de revistas, papelaria e, finalmente, livraria. A moça, negra e com sotaque que remete ao nordeste, me atendeu com um sorrisso e o clássico "posso ajudar."  Abri outro sorrisso e disse que estava apenas dando um olhada. Não havia quase ninguém no local no final da tarde, algo beirando às 17 horas.

Na verdade, minha curiosidade era descobrir que tipo de livros são expostos nas prateleiras de uma livraria de minha querida cidade natal. Pois bem, descobri. Basicamente as obras de indivíduos cujo os nomes tem algum tipo de repercussão na TV ou revistas de grande circulação como a jornalista Miriam Leitão, o escritor/jornalista Fernando Morais e outras figuras que não preciso citar aqui, são aqueles que estão expostos na, digamos, prateleira principal. Na segunda prateleira há uma série de livros embrulhados em sacos plásticos transparentes - para evitar a poeira - e que já evidenciam o peso da idade devido as capas e páginas amareladas por conta da ação do tempo. A solícita atendente caminha até a minha pessoa e, apontando a prateleira citada, explica que os livros dali estão em promoção: metade do preço original. Animo-me e vou checar os valores que, mesmo com a promoção, não soam nada apetitosos para um estudante de doutorado quebrado como eu. Os títulos são os mais variados e prevalecem os romances. Muita coisa velha das editoras Companhia das Letras e Record, mas títulos que não me agradam muito (leia-se "não ando a fim de ler") no momento como Milan Kundera, Gore Vidal, John Updike, Rubem Fonseca e por aí vai.

Em outra prateleira, já próxima das revistas, é possível ver a coleção Folha Explica na qual especialistas de várias áreas são convidados a escrever e explicar temas complexos contemporâneos de forma sintética. Gosto dessa coleção e noto como a mesma foi inspirada pela famosa coleção Primeiros Passos, da saudosa editora Brasiliense. A propósito, essa série foi idéia de Luiz Schwarcz na época que trabalhou na Brasiliense e alguns anos antes de fundar sua própria editora, a Companhia das Letras, com sua esposa Lilia Moritz Schwarcz. Vejo vários títulos que fico com vontade de ler, mas o preço não é nada convidativo. E eis que mais uma vez a atendente amiga me auxilia...



Dessa vez sem se aproximar muito de mim ela aponta uma prateleira localizada no alto de sua cabeça e diz que os livros ali, também embrulhados em sacos plásticos transparentes, estão numa promoção especial: R$ 9.90. Ok, acho que finalmente achei algo que se encaixe em meu bolso humilde, mas seletivo. Caminho até a prateleira e começo a verificar os títulos. Logo de cara encontro um clássico da antropologia perdido: Sexo e Temperamento, de Margared Mead (que algum estudante de ciência sociais deve ter encomendado e esquecido de ir buscar). Fuço mais um pouquinho e encontro um Charles Baudelaire, A Arte da Crítica. E, por fim, para ganhar o dia, um livro desconhecido do sul-africano J.M. Coetzee. Olha Limeira aí fazendo a minha alegria. Mas o que me chama a atenção tanto nessa prateleira de livros a R$ 9.90 como na outra que eles custam do seu preço original é a quantitade de títulos do escritor norte-americano John Updike (1932-2009). Updike ganhou notoriedade por ser um fiel observador da classe média norte-americana entre as décadas de 1960 e 2000, um tema que acho extremamente chato. Ele fez fama com os "romances coelhos": uma série de livros cuja as publicações vão de 1960 à 2001 e nos quais Updike explora a vida do personagem Harry "Rabbit" Angstrom do seu nascimento a sua morte. Na minha adolescência li dele Brazil (1994), um livro que foi escrito por conta de uma visita do autor a nossa querida pátria varonil. Nessa obra o escritor norte-americano se utiliza do trama da tragédia grega Tristão e Isolda para contar a história de amor entre um rapaz negro/mestiço oriundo das classes populares com a garota branca e loira pertencente a uma família das elites dominantes. E a história se passa num período bastante especial: momentos antes do golpe militar de 1964. Eu, sinceramente, hoje acho o livro bastante clichê e com um olhar distanciado do Brasil, um Brasil com "z" mesmo, para um autor rotulado como realista.  Entretanto, confesso que quando li o livro pela primeira vez gostei: luxos e ingenuidades da mocidade. Mas ainda me pergunto: porque tantos Updikes para Limeira, hein? A classe média daqui gosta de música sertaneja, rodeio e é católica.

Pois bem, assim que tiver um din din voltarei a livraria e pegarei os meus três achados - Mead, Baudelaire e Coetzee - já que tenho certeza que ninguém irá comprá-los. Há muitos Updikes na frente deles.

Muita Paz!

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Realmente Precisamos de Misses Universo?

Alguém por aí deve ter se perguntado o por quê de eu não ter me pronunciado sobre a conquista do título de Miss Universo semana passada por uma negra angolana, Leila Lopes. Well well, é meio difícil explicar as razões do meu silêncio, mas digamos que eu precisava de um pouco de distanciamento temporal do evento para decidir se escrevia ou não o texto que sai agora das teclas do meu laptop. Para início de conversa quero deixar claro que não tinha a mínima idéia de que o concurso de miss universo estava ocorrendo em São Paulo. Só fiquei a par disso através da manifestação das pessoas via Facebook e Twitter durante a realização do evento. Logo após o resultado final do concurso meus/minhas amigo/as começaram a postar mensagens nas redes sociais sobre o fato de uma negra, pela primeira vez, ter vencido a competição. Eram pequenos textos emocionados de gente que até mesmo chorou ao ver a coroação da beleza de uma negra.
 
Pois bem, não quero ser desmancha prazeres, mas minha mais sincera pergunta é: realmente precisamos de misses universo? Em pleno século XXI ainda não conseguimos nos libertar de uma forma de competição e entretenimento que celebra a exploração do corpo feminino e, ao mesmo tempo, impõe padrões de beleza ao restante das pobres mortais mulheres. Alguns irão dizer: "Mas Senhor Márcio Macedo, com a coroação de uma mulher negra esse padrão de beleza foi ampliado." Sim, ampliado em termos raciais. Mas o que percebo mesmo é a necessidade, por parte de nós negros, da legitimação/aprovação da beleza negra por meio de instâncias que remetam a sociedade como um todo. Porém, mesmo Leila Lopes sendo negra, ela é magra, alta, jovem, educada e possue rosto com formatos delicados que, diriam os mais cínicos e irônicos, pouco lembra os traços de seu grupo racial. E o que diremos as mulheres, negras/brancas/asiáticas, que não possuem necessariamente as mesmas formas de Lopes? Mais: indo um pouco além é possível notar como os elementos estéticos valorizados naquilo que alguns autores chamam de branquidade são preponderantes no julgamento da beleza de mulheres negras. E tudo que fugir a isso será entendido como uma "beleza exótica." Well well...
 
Outro ponto que me incomodou nas reações diante da vitória de Lopes foi a impressão de que somente após o resultado do Miss Universo as mulheres negras se tornaram dignas de serem vistas como belas. Ora ora... Concursos de beleza entre a população negra brasileira não são eventos novos. Há quase um século, numa tentativa de emulação da sociedade dominate, a comunidade negra vem realizando seus próprios concursos de beleza. No início do século em São Paulo eles levavam nomes como Bonequinha de Café, nos 1940/1950 os ativistas negros Abdias do Nascimento e Guerreiro Ramos realizavam dois concursos vinculados as atividades do Teatro Experimental do Negro (TEN). Eram eles o Rainha das Mulatas e o Boneca de Pixe. Nos anos 1960/1970 o Renascença Clube localizado no Rio de Janeiro, fundado e frequentado por famílias negras afluentes, ficou famoso por organizar concursos de beleza de mulheres negras e mestiças que acabaram por lapidar a alcunha de "Academia de Mulatas" ao clube. O Renascença foi responsável por revelar Vera Lúcia Couto (foto abaixo) que, após ser eleita Miss Renascença, conquistou o título de Miss Guanabara e segundo lugar no Miss Brasil de 1964. Entretanto, o Miss Brasil só seria de fato conquistado por uma negra vinte anos mais tarde com Deise Nunes (foto acima). Desde os anos 1980 em Salvador o bloco afro Ilê Ayê realiza a Noite da Beleza Negra: um concurso de beleza entre mulheres negras. Mesmo durante minha adolescência nos anos 1990 aqui no interior de São Paulo era comum a comunidade esperar com ansiedade a realização de concursos de beleza nos clubes recreativos que são remanescente da Frente Negra Brasileira (FNB). Em Limeira, por exemplo, ocorria no saudoso Grêmio Limeirense os concursos Miss Pérola Negra e Negro Lindo, esse último uma versão masculina da competição.
 
Os concursos de beleza femininos tem em comum um elemento de gênero: todos eles visam celebrar um modelo de beleza feminino e um padrão de femininilidade. A partir disso, o corpo feminino acaba sendo utilizado como locus de evidenciamento e disputa de projetos políticos alheios as mesmas e que vão muito além da exaltação da beleza. Os corpos das misses legitimam a violência simbólica de estabelecer modelos/formas que devem ser seguidos pelo restante das mulheres, ou seja, uma normatividade (norma/padrão) pois correspondem ao belo e desejável. No caso de concursos de beleza da comunidade negra especificamente, o corpo da mulher negra/mestiça é utilizado como representante do que há de "melhor" da "raça", ou seja, frente aos estereótipos e imaginário negativo que se associa a população negra como um todo é necessário lançar mão de exemplos (de carne e osso) que combatam essas representações. Ironicamente, essas mesmas figuras emblemáticas não deixam de reproduzir certos padrões - que vão além do aspecto racial - que são acriticamente aceitos e, consequentemente, legitimados. Mulheres gordas, baixas, de cabelos crespos, curtos ou raspados (alguém aí já viu alguma miss que não tenha cabelos longos e lisos?) entre outras caracterísitcas que não irei enumerar aqui, são vistas como indesejáveis, pouco belas e fora do padrão. Daí eu pergunto novamente: realmente precisamos de misses universo? Pois bem, caso ainda necessitarmos já temos uma representante negra: Leila Lopes.

Muita Paz!

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Namorado: ter ou não, é uma questão

A coisa que mais gosto de fazer quando acordo é tomar um banho e, logo em seguida, passar um bom café preto que tomo numa enorme caneca preta reluzente enquanto jogo conversa fora com minha mãe (ela toma o mesmo café numa xícara branca), leio minhas mensagens no laptop e xereto as notícias do dia. Logo depois me mando para alguma parte da casa com uns cinco livros dos quais leio umas cinco ou dez páginas de cada, dependendo do tamanho do conto, do capítulo ou ritmo da leitura. Hoje (escrevo ainda na segunda!) acordei cedo (por volta das 10 horas) para quem foi dormir às 5 da manhã. Meu livro predileto de literatura nos últimos dias tem sido Beethoven Era 1/16 Negro e Outros Contos (Companhia das Letras, 2009) da escritora sulafricana Nadine Gordimer, indicação e empréstimo de meu brother Vandão. Pois eis que hoje, ao que começar a leitura do livro, sou estapeado pela frase de abertura de um conto: "Caixas de papéis velhos são como túmulos, nós nunca deveríamos abri-las." Ri alto e corri mostrar a frase para minha mãe que abriu um sorrisso. O motivo: meu quarto extremamente zoneado cheio de caixas abertas com papéis velhos. Estava há mais de uma semana prometendo a minha mãe que iria arrumar o quarto e, finalmente, comecei a arrumação na noite de domingo. Há dias que muitas vezes me demorava quinze minutos antes de dormir devido ao trabalho de tirar de cima da cama um porção de livros, CDs velhos (quem ainda compra CD?), disquetes (quem ainda usa disquetes?), CDs e DVDs regraváveis sem rótulo (que não tenho a mínima idéia do que possuem, talvez um filminho de sacanagem!), trabalhos de faculdade antigos (achei minha primeira resenha musical de 1997), Hip Olívia me olhando com cara de poucos amigos (ela quer voltar para NYC!), revistas velhas e remédios para renite além de ter que mandar embora um dos gatos de minha mãe que habitualmente dorme comfortavelmente em cima de uma pilha de textos fotocopiados e roupas (sujas e limpas).
 
Mas fuçar em "túmulos" também nos recompensa com coisas que vão muito além de "ossos" (lembrei do título do livro de Pedro Nava, Baú de Ossos [1972] que cai aqui como uma luva por se tratar de literatura memorialística). Tenho uma série de cadernos, algo próximo de diários, nos quais rabiscava coisas num passado longínguo em que a Internet não interferia tanto na minha vida. Hoje não escrevo mais a mão, somente anotações rápidas em cadernetas pretas charmosas compradas em papelarias vagabundas novaiorquinas. A tecnologia me deixou orfão nesse aspecto ao perder meu iPhone. Mas eis que no meio de meus rabiscos velhos achei algo fenomenal: um texto bonito pacas de Drummond copiado a mão de sabe-se lá de onde. By the way, o texto cairia muito bem pra um dia dos namorados, mas como essa data está distante para ser novamente comemorada subo ele hoje mesmo. Já vou avisando que não estou apaixonado nem necessariamente procurando namorada (e isso se procura? *rs*), mas achei o texto do grande poeta mineiro válido de uma postagenzinha...

Muita Paz!


Namorado: ter ou não, é uma questão

 

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação de pele, de saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa de filosofia. 
Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil. 
Namorado não precisa ser o mais bonito, mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda, decidida ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo aflição. 
Quem não tem namorado não é quem não tem um amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes, mesmo assim pode não ter namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo de pai, sanduíche da padaria ou drible do trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem se ama sem alegria. Não tem namorado que faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com felicidade ainda que rápida, escondida, fugida ou impossível de durar. Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes e Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer cesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhado de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, shows do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.



Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, que não chateia com o fato de ser bem paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curti sem profundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou no meio dia de sol em plena praia cheia de rivais.  Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar que o outro vá junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho em paz. Não tem namorado que não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de afetivo.
Se você não tem namorado porque descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e de medo, ponha a saia mais alegre, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leve fricção de esperança. De alma escovado e coração estourado saia do quintal de si mesmo e descrubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para passar debaixo de sua janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas. Cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio. Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido.

Carlos Drummond de Andrade

PS: obrigadinho a minha amiga Élida Aquino pelas fotos sempre inspiradoras...

sábado, 17 de setembro de 2011

Repensando Masculinidades

Esse vídeo foi roubado de um post do blog Blogueiras Feministas. Numa semana em que tivemos o horrível caso de uma mulher que foi mantida em cárcere privado e torturada pelo ex marido que, diante de seu filho, a queimou em várias partes do corpo com um ferro de passar roupas e escreveu seu nome nas costas da mesma se utilizando de uma faca aquecida (veja AQUI), é mais do que necessário que reflitamos sobre a misoginia e homofobia que afeta nossa sociedade e é, de forma nada silenciosa, tolerada por todo/as nós. No vídeo abaixo (com legendas em português) o ativista Tony Porter faz uma reflexão a respeito da construção de uma masculinidade pautada por elementos equivocados no que diz a representação do gênero masculino. Um imaginário que reforça e legitima a violência contra mulheres, crianças e homossexuais além de privilégios masculinos. É necessário mudar isso. Muita Paz!



quarta-feira, 14 de setembro de 2011

80 Anos de Frente Negra Brasileira