sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Chuck D Solta o Verbo com Otis Puxando a Orelha de Jay-Z e Kanye!

Chuck D, principal figura do aclamado grupo de rap Public Enemy, soltou o verbo usando sample da canção Respect (1965) do cantor de soul Otis Redding. Com o título de Notice-Know This a faixa pede para que artistas multimilionários como Jay-Z e Kanye "Mala" West sejam mais substanciais em seus trabalhos não se deixando levar pelo o que a mídia valoriza. Chuck D lembra que é totalmente fora de contexto MCs  escrever letras falando de riqueza e abundância quando a maior parte da população pobre, negra e hispânica sofre com problemas como a depressão econômica e são vítimas do complexo industrial carcerário (nome dado ao fenômeno relativo ao aumento vertiginoso nas duas últimas três décadas de presídios que possuem uma suprarepresentação de negros e latinos em suas fileiras). 
 

Nas palavras de D “In these difficult times for many people (especially of color), this is a call to artists to continue to inspire, but to reflect the people better than the media does. Here’s to hoping that the Jay-Z & Kanye supergroup can elevate the masses to try a little bit more to reflect Otis’ heart rather than swag, because they’re too good to be less.” (Nesses tempos difíceis para muita gente (especialmente as de cor), isto é um chamado para os artistas continuarem a nos inspirar, mas para representarem o povo melhor do que midia faz. Aqui há a esperança de que o supergrupo Jay-Z e Kanye possam elevar as massas a tentar um pouco refletir mais como o coração de Otis do que se gabar, porque eles são bons demais para menos." Confira o video de Chuck D logo abaixo. Lembrando que o MC ainda é autor do livro Fight the Power: Rap, Race and Reality lançado em 1998 (imagem acima).

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

De Passagem

Aqui em Washington DC faz calor! No meio do mormaço eu tento resolver pepinos, estudar, ler por prazer e escrever algo que valha. Saudades do Brasil, de amig@s, de Dona Joana e Sô Jão. Assim caminha a humanidade. Andei fuçando nos inBLÓGios que gosto de ler habitualmente descobri que boa parte das pessoas não tem escrito: falta tempo, deve rolar desânimo e, vez ou outra, ausência de assunto para ser publicado, eu acho. Muita gente também simplesmente desistiu de escrever. Pena. Mas nessas horas dou uma olhada nos textos antigos d@s meus/minhas trutas e sempre encontro umas pérolas que não tenho a mínima cara de pau de roubar para exibir por aqui.
 
Pois bem, a assaltada de hoje então é a minha amiga Katia Costa-Santos que possue o inBLÓGio WebNeguinha  Já falei da moça por aqui ano passado quando ela lançou o seu livro que retrata a vida da cantora Dona Ivone Lara (leia meu post AQUI).  Hoje li um trecho traduzido por ela de um clássico da literatura afro-americana e que ela postou no inBLÓGio dela há um bom tempo atrás. A propósito, foi um dos primeiros posts dela. Okay, sem mais delongas leiam a parada logo abaixo. O texto reflete sobre o processo conhecido nos EUA como passing na qual uma pessoa negra possuidora de fenótipos brancos decide mudar de lado em termos raciais (entendeu o porquê da foto acima agora?). Ah, ia esquecendo: sista Katia é PhD em literatura por uma universidade norte-americana e mora atualmente no Rio de Janeiro.

Obrigado Katia!

Beijos do Márcio/Kibe. 

Saturday, November 13, 2004

De Passagem


Esta é uma tradução minha do texto original, Passing, extraído do livro The Ways of White Folks, lançado pela primeira vez em 1934, do renomado poeta e escritor Langston Hughes [foto ao lado], um dos principais personagens do movimento historicamente conhecido como Harlem Renaissance (Renascença Negra do Harlem) promovido pelos Afro-Americanos.

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De Passagem
Langston Hughes (1902-1967)

Chicago,
Domingo, 10 de Outubro.

Querida Mãe,

Me senti um cachorro, por passar pela senhora na cidade, na noite passada, e não falar. Mas a senhora, no entanto, foi demais. Não deu o menor sinal de que me conhecia, e muito menos de que eu era seu filho. Se eu não estivesse com a minha garota, Mãe, nós poderíamos ter nos falado. Eu já não temo tanto, como antes, que alguém pense que eu sou uma pessoa de cor só por me verem conversando com um Negro na rua. Apesar do que, acho que na aparência eu estou acima de qualquer suspeita. Lembra como era difícil para mim, na escola, convencer os professores de que eu na verdade era de cor? Às vezes mesmo depois de conhecerem a senhora, minha mãe, eles ainda assim não acreditavam. Acho que eles pensavam que eu apenas tinha uma mãe mulata. Desde que comecei a me passar por branco, ninguém jamais duvidou de que eu fosse um homem branco. Aonde eu trabalho, o chefe é do Sul e sempre fala mal dos Negros na minha presença, e nem sonha que eu também seja. Dá vontade de rir!

O engraçado, Mãe, é como alguns brancos não gostam mesmo de pessoas de cor, não é? (Se não fosse assim, eu não precisaria passar por branco para preservar o meu bom emprego.) Às vezes eles perdem a linha falando coisas ruins sobre as pessoas de cor, espalhando que somos todos ladrões e mentirosos, ou temos doenças – tuberculose, sífilis e coisas assim. Sem se importarem com o fato de que ao espalharem essas propagandas falsas por aí fica mais difícil para um homem Negro conseguir um bom emprego. Eu não sabia que eles costumavam falar essas coisas terríveis de nós, até eu começar a passar por branco, ouvir as conversas deles, e conviver com eles.

Mas eu não me importo de ser “branco”, Mãe, e foi generoso da sua parte me encorajar a ir em frente e me valer da minha pele clara, e do meu cabelo bom. Isso me ajudou a conseguir este trabalho, Mãe, onde ganho 65 dolares por semana, apesar da crise. E estou para ser promovido a secretário chefe, caso o Sr. Weeks vá para Washington. Quando olho para o porteiro, um rapaz de cor, que também varre a portaria, eu acho que é isto que eu estaria fazendo se a minha pele não fosse clara o bastante para escapar dessa. Não importa o quão inteligente esse rapaz seja, eles não o admitiriam como escriturário, não se soubessem. Apenas como porteiro. É por isso que às vezes eu tenho o maior prazer em dizer uns dasaforos para o chefe, que nem imagina que tem um secretário de cor.

Mas, Mãe, me senti muito mal na noite passada. Foi a primeira vez que nos encontramos em público nessa situação. É o tipo de coisa que torna difícil essa situação de passar por branco. Ter que renegar os própios familiares quando os vê. Claro, sei que a senhora e eu compreendemos que essa é a melhor opção, mas mesmo assim é terrível. Eu te amo, Mãe, e odeio fazer isso, mesmo que a senhora diga que não se importa.

Mas o que a senhora achou da garota que estava comigo, Mãe? É com ela que eu vou me casar. Muito bonitinha, não é? Bem disposta. Os pais têm uma situação estável. A família dela é alemã-americana, e também não têm muito preconceito em relação aos negros. Semana passada eu a levei para assistir a um tetro de revista de gente de cor e ela adorou. Ela disse, “as pessoas escuras são muito graciosas e alegres”. Imagina, o que ela teria dito se eu tivesse contado para ela que eu era de cor, ou meio-de-cor – e que o meu pai era branco, mas que a senhora não era? Mas acho que não vou mexer com isso. Já que eu decidi que vou viver no mundo dos brancos, onde já consegui conquistar o meu espaço (um bom espaço), para que continuar pensando em raça? Ainda bem que não preciso mais pensar nisso, eu já sei o bastante.

Espero que o Charlie e a Gladys não me levem a mal. É engraçado apenas eu, entre os filhos, ter saído claro o bastante para conseguir passar por branco. Charlie é até mais escuro que a senhora, Mãe. Eu sei que na escola ele ficava meio chateado quando os professores pensavam que eu era branco, antes de saberem que nós éramos irmãos. Eu também me sentia mal com isso. Mas agora estou feliz por a senhora ter me apoiado, ter me dito para ir em frente e conquistar na vida tudo o que eu puder. E é isso que vou fazer, Mãe. Vou me casar com uma branca e viver como branco, e se algum dos meus filhos nascer escuro eu juro que não é meu. Nunca mais serei pego pela cor. Não eu. Estou livre Mãe, livre!

Bom mesmo seria se eu pudesse sair de Chicago, fosse transferido para o escritório de Nova Iorque, ou de São Francisco – algum lugar onde o que aconteceu ontem à noite jamais acontecesse de novo. Foi horrível passar pela senhora e não falar. Se fosse a Gladys ou o Charlie que passassem por mim na rua, talvez não tivessem a mesma descrição da senhora – porque eles não parecem muito satisfeitos com o fato de eu estar me passando por branco. Mas eu não vejo o por quê. Eu não estou fazendo nada contra eles, e mando dinheiro para a senhora toda semana e ajudo tanto quanto eles, ou mais. Mãe, diga a eles para não me hostilizarem caso esbarrem comigo e com a minha namorada por aí. Talvez tivesse sido melhor que a senhora e eles dois tivessem ficado em Cincinnati e eu tivesse vindo sozinho quando decidimos nos mudar, depois da morte do velho. Ou pelo menos, deveríamos ter ido para cidades diferentes, não é?

Meu Deus, Mãe, quando eu lembro que o pai deixou tudo para a família branca dele, e que legalmente a senhora não pôde fazer nada pelos filhos, meu sangue ferve. Eu sei que a senhora não teria a menor chance num tribunal de Kentucky, mas se a senhora tivesse pelo menos tentado, os filhos brancos dele poderiam ter dado um cala-a-boca qualquer a senhora. Acho que eles não iam querer que se espalhasse por aí que eles têm irmãos de cor. A senhora foi orgulhosa demais, Mãe, num foi? Eu nao teria sido tão orgulhoso.

Bem, ele comprou uma casa para a senhora e colocou todos nós na faculdade. Ainda bem que eu terminei a faculdade em Pittsburgh antes da morte dele. Pena que o Charlie e a Gladys tiveram que trancar, mas eu espero que Charlie consiga algo melhor para fazer do que trabalhar em uma garagem. E pelo que a senhora me disse sobre a Gladys na última carta, a senhora tem razão de estar preocupada com ela – querer fazer parte do coro de um daqueles cabarés do Sul. Meu Deus! Mas sei que realmente está difícil para as moças conseguirem qualquer tipo de trabalho nesses tempos de crise, principalmente moças de cor, até mesmo a Gladys, que é mulata bem clara, e inteligente. Mas espero que a senhora consiga segurá-la em casa, e longe daqueles chiqueiros do Sul. Aquilo não é lugar para uma moça decente.

Bem, Mãe, fico por aqui porque prometi levar minha perdição ao cinema hoje à noite. Ela não é Linda de se ver, bem loirinha de olhos azuis? Estamos fazendo planos para a nossa casa para quando nos casarmos. Vamos morar em um pequeno apartamento na Zona Norte, em um bom bairro, lá naquelas agradáveis e tranqüilas ruas arborizadas. Eu vou manter uma caixa postal nos correios para as suas correspondências. Felizmente não há nada que impeça as cartas de cruzarem as fronteiras raciais. Mesmo que não possamos nos encontrar com freqüência, podemos nos escrever, não é, Mãe?

Com amor, do seu filho,

Jack.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Rolês em Washington DC


O inBLÓGlio anda meio devagar! Preguiça, pepinos para resolver e falta de inspiração. Focar outras coisas de vez em quando faz bem, né? Pois bem, quando as outras começam a dar errado voltamos pro inBLÓGlio. Escrevo diretamente de Washington DC onde passo uns dias na casa de uma amiga. Calor infernal, mas não reclamo já que odeio o frio da terra do mel e do ouro. By the way, estou nessa exato momento trabalhando no meu café predileto aqui em DC (os gringos pronunciam "'díci"): O Tryst Coffeehouse (visita o site AQUI). Lugar legal (região da Adams Morgan, uma espécie de Vila Madalena daqui), ambiente agradável, café gostoso, cerveja gelada, vinho, sandubas relativamente baratos e outros quitutes. Entretanto, o mais importante de tudo é o wifi na faixa: dá pra trazer o laptop, livros, cadernos e trabalhar à vontade. Outro lugar bastante recomendável por aqui é BusBoys And Poets (xereta AQUI), um misto de coffehouse, restaurante e livraria com espaço para pocket shows e saraus literários. Há dois deles em DC, um em Arlington, Virginia e outro em Baltimore, Maryland (VA e MD são os dois estados que circundam o distrito federal). Em DC recomendo o Bus situado na 14th Street que é mais legal e sempre tem uma negrada bonita e descolada. Também fica próximo da U Street, uma região tradicionalmente negra, mas que vem sofrendo um processo de gentrification vertiginoso nos últimos anos. Andando um pouquinho mais pela U St você passa pelo Ben's Chilli Bowl (site AQUI), uma lanchonete que serve vários sanduíches de chilli (uma espécie de carne moída apimentada!). O estabelecimento faz parte ainda da história negra da região. Adentrando o local você irá se deparar com uma fotografia enorme de Obama tirada na ocasião em que o presidente foi fazer um lanchinho no estabelecimento. Um pouquinho mais à frente, na Shaw Metro Station (linhas amarela e verde do metrô), está situada a mais importante universidade negra dos EUA: Howard University. A U Street tem vários cafés, restaurantes etíopes, barzinhos com música ao vivo e outras paradas. Vale a pena chegar! Minha dica é uma baladinha jamaicana chamada Patty Boom Boom (site AQUI). A casa é voltada para as diversas vertentes da música jamaicana e tem eventos diferentes a cada noite de terça a domingo com DJs e bandas tocando ao vivo. Dá ainda pra tomar a famosa cerveja jamaicana Red Stripe e comer uma empada jamaicana (jamaican patty) bem apimentada! Bom para dançar, mas não pra encontros românticos.  Fazer rolê em DC é legal, mas o metrô não ajuda muito se você estiver fazendo balada entre domingo e quinta: nesses dias ele pará por volta da meia-noite. Nas sextas e sábados a bagaça funciona até as 3 da matina facilitando a vida dos baladeiros. Contudo, táxi por aqui é um pouco mais barato do que NYC e SP, é possível pegar um sem ser "assaltado" pelo taxímetro (há menos que você vá pra algum lugar muito distante, obviamente!). Os taxistas também são mais simpáticos do que os novaiorquinos e adoram um boa tip!

Muita Paz!
PS: a foto lá de cima é do meu café predileto no Tryst Coffehouse, o Cuban!

domingo, 3 de julho de 2011

A Moça do Caderninho

 
Lá em Sun Paulu havia uma moça preta grande grande grande que andava com um caderninho bem pequenino dentro da bolsa. Nas páginas brancas do caderninho de capa preta ela tomava notas das coisas grandes e pequenas desse mundo que ela via: a borboleta, o cravo, a rosa, o homem da gravata florida e de sorrisso com dente cariado (dentista é caro em Sun Paulu!). Mas a moça grande grande grande do caderninho de capa preta não mostrava seus rabiscos pra ninguém pois, segundo fofocas das amigas, as notas faziam parte de um projeto grande grande grande de dominar o mundo com todas as suas coisas grandes e pequenas através da sua beleza e simpatia. Um dia a moça grande grande grande perdeu o caderninho de capa preta na saída de um baile nostalgia no qual ela tomava nota das músicas e casais de gente preta que dançavam e faziam falsas juras de amor uns aos outros em sessões de melodia. Um moço baixinho e meio míope que usava um óculos antiquado pisou no caderninho e olhou pro chão animado pensando que fosse uma carteira cheia de dinheiro. Mas não. Era o caderninho bem pequenino de capa preta da moça grande grande grande. A moça grande grande grande só deu falta do caderninho quando chegou em casa de manhã e foi tomar nota de mais uma idéia para dominar o mundo com sua beleza e simpatia. Ficou desesperada! Se alguém tomasse ciência de seus planos de dominar o mundo com sua beleza e simpatia ela estaria perdida. Quatro estações se passaram e moça grande grande grande se desesperava cada vez mais numa busca obstinada pelo caderninho, mas ninguém sabia dele. Fez promessa pra São Longuinho, simpatia, foi pra Tietê pedir graça pra São Benedito, jogou búzios, consultou os pais véios e caboclos na umbanda e até contratou um detetive picareta que acabou com o pouco dinheiro que ela ainda tinha. A moça grande grande grande aprendeu inglês, francês, árabe e mandarim pra facilitar a busca, mas nada disso adiantou. Nem sinal do caderninho filho da puta com seus planos de dominar o mundo por meio da sua beleza e simpatia. Um dia chuvoso a moça grande grande grande se embelezou toda colocando o seu melhor vestido, sapato e arrumando o cabelo. A moça grande grande grande estava linda, mas estava triste. Seu caderninho se perdera pelo mundo das coisas grandes e pequenas e a cada dia que passava ela sentia menos vontade de viver, pois seus planos de dominar o mundo por meio da sua beleza e simpatia não existiam mais. Ela ia desistir de tudo e arrumar um emprego de burocrata tomando notas das coisas que ainda faltavam serem inventadas nesses mundo das coisas grandes e pequenas. Quando ela abriu a porta, se deparou com um negro baixinho, roupa surrada, míope usando óculos antiquado. Esse indivíduo era tido como louco, pois há exatamente um ano vinha batendo de porta em porta perguntando coisas sem sentido as moças bonitas. Quando a moça grande grande grande olhou para ele (de cima para baixo) notou que o maltrapilho segurava um caderninho preto nas mãos magras e delicadas. "Você é a moça grande grande grande que quer dominar o mundo com sua beleza e simpatia?" Quase sem reação a moça grande grande grande se engasgou toda e disse de supetão, "Sim, sou eu! Esse caderninho é meu?", "Não, não é mais, pois achado não é roubado!" A moça grande grande grande olhou com fúria para o homem baixinho e tomou o caderno dele de forma brusca. Bateu a porta na cara do vagabundo e se jogou no sofá para ler seus planos e notas no caderninho. Mas quando abriu o mesmo, percebeu que as páginas estavam em branco, ainda por serem escritas. Apenas uma página estava preenchida com letras de formas infantis: "Moça grande grande grande quer casar comigo? Meu nome é Mundo e eu sou um preto baixinho, míope e de óculos de grau antiquado!" Mundo, conquistado/apaixonado, esperava cabisbaixo e debaixo de chuva quando a moça grande grande grande abriu a porta novamente: "Caso mais tarde. Entra para evitar um resfriado".

sábado, 2 de julho de 2011

The Art of Rap

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Arma Branca

 

SAMPA. Alguma noite de 1975... ou 6... ou 7...

"MÃO NA CABEÇA, NEGÃO FILHO DA PUTA!"

Duas horas depois Gerson encontrava-se parado em frente ao delegado com um olho roxo, o black cheio de laquê todo desarrumado e o motivo da prisão postado em cima da mesa do delegado a sua frente. "Puta que pariu! Já falei que essa negrada num aprende mesmo. Porra, quer ir pro baile balançar a bunda com essa música esquisita ainda vá lá, mas sair armado de casa é cana, meu!", dizia a “otoridade” irritada se dirigindo a um policial enquanto manuseava um garfo encontrado no bolso da calça do meliante, Gerson.

"MÃO NA CABEÇA, NEGÃO FILHO DA PUTA!"

Uma hora depois Gerson estava de volta ao barraco descalço e perdendo pela segunda semana consecutiva o baile do Palmeiras. O pente flamengo lhe salvou da cana dessa vez, mas se encheu de cólera quando o PM abriu um sorriso lhe dizendo com a boca cheia, “E a nota fiscal desse tenão novo aí, hein negrão??”

Uma semana depois. Ginásio do Palmeiras. Gerson no canto do salão olhava para as pretas enormes que passavam a sua frente, mas nenhuma correspondia aos seus olhares. Já estava de saco cheio... “Também”, pensou ele com seus botões, “que nega vai dar bola pra um neguinho de chinelo de dedo e cabelo raspado!”

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Fotos e Andaças Pela Big Apple

Como em NYC é mais difícil de rolar uns assaltos, é possível andar pelas ruas da cidade a qualquer hora do dia ou da noite falando ao celular tranquilamente e tirando fotos com máquinas digitais meio carinhas.  Um dos meus hobbies prediletos vem sendo clicar a cidade... As fotos aí debaixo foram tiradas no trajeto que faço voltando para casa geralmente às 3 ou 4 da manhã da Bobst Library (NYU) até a estação de metrô West 4th no West Village.  Nos fones de ouvindo rola Maxwell e a cabeça pensa alguma besteira...





quarta-feira, 29 de junho de 2011

O/As Preto/as Gringo/as São Mais Bonito/as?

Lembro-me bem de uma amiga brasileira negra que me visitou em NYC tempos atrás e ao andar pelas ruas da Big Apple não se cansava de se encantar com a beldade dos pretões americanos. "Ai, mas eles são tão lindos, né? No Brasil a gente não vê preto assim..." Pois bem, algumas senhoritas irão afirmar que minha dignidade como negrão brazuca havia sido ofendida e eis o motivo do meu incomodo com as afirmações de minha trutona. Digamos que em parte sim, não é nada fácil ouvir esse tipo de comentário e não sentir uma pontinha de despeito no bico do beiço preto. Felizmente, para salvar a honra de patrício/as de cor oriundos da terra brasilis tenho argumentos para afirmar que meus/minhas trutinhas gringo/as não são nem mais bonitos ou evoluídos do que as versões sul-americanas da diáspora africana. Talvez os vagabundos do norte possam ser mais cheirosos, bem vestidos e produzidos. Vamos lá, espero ser convincente!
 
A melhor definição que já tive a respeito da população negra ao redor do mundo veio a mim por meio de um brother bêbado em um fim de noite numa festa no Brooklyn: "Black people man, same shit different toilet". Okay, tradução não é necessária, não? Junte essa pérola a definição uma vez dada pelo antropólogo brasileiro Roberto DaMatta a figura do turista: um digníssimo "palerma cultural".  Enfim, turistas, na maioria das vezes, se deixam se levar pelos estereótipos e primeiras impressões daquilo que veem nos lugares que visitam. Eles não tem tempo e nem interesse de chegar a uma representação um pouco mais precisa da realidade. Nesse processo, a comparação do local visitado com o lócus de origem do "palerma cultural" é inevitável. É tudo fica numa lógica de melhor ou pior do que meu país, mais bonito ou mais feio.  Já ouvi as mais absurdas e variadas explicações para justificar uma suposta maior beleza dos meus/minhas patrício/as gringo/as. Dessas a mais comum, culturalista e sofisticada é aquela que afirma que a negraiada nos EUA é mais bela devido aos grupos étnicos que para lá foram levados no período do tráfico negreiro e escravidão. Well, sinceramente esse argumento não me convence uma vez que ele parte da suposição que existem grupos étnicos que são mais belos do que outros e que ocorreria a predominância de determinados grupos em certas regiões da diáspora africana. Mais e mais historiadores tem demonstrado que a prática vigente entre os traficantes de escravos era justamente de misturar indivíduos de grupos étnicos distintos e que falavam línguas diferentes visando evitar a comunicação entre os escravos e frustrando a organização de levantes/revoltas.
 
Mas minha explicação para a "suposta" maior beleza dos preto/as gringo/as está vinculada a uma representação criada a respeito dos afro-americanos e que é produto da posição estratégica dos negros norte-americanos ou de fala inglesa como um todo na geografia do capitalismo mundial. Primeiro, é necessário afirmar que a lógica do racismo norte-americano é segregacionista, ou seja, ele forçou uma separação histórica entre negros e brancos. A segregação dos negros foi responsável pela etnogênese de uma subcultura afro-americana na qual floresceram elementos culturais como o blues, o jazz, uma forma específica de se falar inglês e uma corporalidade diferenciada. A segregação e a cultura afro-americana também forjaram estratégicas de atuação política entre as lideranças negras e noções de orgulho racial. Pari passu a isso, afro-americanos e vários elementos da sua cultura tiveram e tem um papel proeminente na indústria cultural que se expandiu no pós-guerra e que teve como epicentro os Estados Unidos. Em outras palavras, muito do que foi e é classificado como cool (legal/descolado) nas últimas décadas foi e é associado as populações negras de fala inglesa que estão alocadas no eixo Nova York-Kingston-Londres. Alguns autores falam até mesmo de uma globalização negra que viria ocorrendo nos últimos 20 anos. Assim, a experiência de se chegar a Nova York e se deparar com negros andando pelas ruas do Harlem ou Bed-Stuy em um país onde o acesso ao consumo é a porta de entrada de participação na sociedade fornece a impressão de que nossos patrícios gringos são os portadores de um estilo de vida mais evoluído ou, ainda, de que são mais bonitos e descolados. Contudo, a experiência afro-americana expõe as contradições de ser uma população explorada e marginalizada no centro do capitalismo mais avançado do mundo e numa nação que os padrões de pobreza são relativamente diferentes dos vistos em lugares como a América do Sul ou continente africano (pense na experiência de ir numa favela no Rio de Janeiro, nos antigos bantustões em Joanesburgo e num project em Nova York). Toda vez que ando por esses bairros de maioria negra na Big Apple tenho a impressão de estar me deparando com meus/minhas amigo/as preto/as e familiares que deixei no Brasil tamanha a semelhança. Por fim, concordo com a sabedoria alcoolizada de meu brother: "Black people man, same shit different toilet". 

Paz e Amor!

terça-feira, 28 de junho de 2011

SuruBlack

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A idéia lhe martelava constantemente a cabeça e o libido, mas não tinha coragem de ir em frente e expô-la a sua namorada. Não que achasse imoral, mas o que Marli iria pensar? Tinha receio que ela encarasse aquilo com uma forma de traição mais do que perversão. Deu mais tragada no cigarro e olhou para a sua mulher deitada nua e sonolenta na penumbra ao seu lado. Via-se apenas a silhueta de seu corpo. Voltou para o seu lado e fez círculos com a fumaça do cigarro ao expeli-la pela boca. O pós sexo era o melhor momento para falar daquilo com a mulher, tinha certeza disso. Juca pensou, refletiu e matutou até criar coragem para dar início a conversa no momento em que sua Marli despertava.

“Amor?”, disse timidamente.
“Oi?”, respondeu Marli com voz sonolenta e preguiçosa.
“Você sabe que eu te amo, né?”, prosssegui ele.
“Umhum...”, resmungou enquanto bocejava.
“Amor, então... Bem... Você sabe que eu te adoro, te amo e sinto muito prazer quando a gente transa, né?”
“Umhum...”, respondeu Marli sem abrir os olhos.
“Pois é, eu tava pensando... Sei lá, eu tava pensando numa coisa, sabe? Assim, eu sei que isso pode parecer uma coisa errada, mas não é necessariamente, entende? Porque, bem porque, eu te amo, né? Mas então... Tem esse lance de que às vezes a gente tem certa fantasia, sabe? E....”

Minutos depois Marli ria de forma quase convulsiva o que deixava Juca ao mesmo tempo encabulado e irado, sentimentos que podiam ser notados na expressão de seu rosto. Marli ria tanto que foi preciso ir até a cozinha e pegar um copo de água para beber. Ao voltar ela sentou a beira da cama. Vestia apenas uma calcinha branca e os seios nus estavam a mostra algo que junto com os cabelos alisados desegrenhados deixariam qualquer homem fora de si. Entretanto, Juca, seu homem, deitado na mesma cama a poucos centímetros dela estava encabulado e irado. Após o acesso de riso passar Marli se recompôs e olhou de maneira marota para seu marido abrindo um sorriso malicioso.

“Safadinho você, né Seo Júlio Carlos? Quer dizer então que o Juca Júnior”, maneira jocosa como ela se referia ao pênis de Juca, “quer comer a preta gostosa aqui e uma outra vagabunda loira ao mesmo tempo?” Juca sentiu o rosto arder. Era como se a mulher já soubesse de sua fantasia do marido há muito tempo e estivesse apenas esperando o momento certo para jogar aquilo na sua cara. Ele ficou sem fala. Não podia negar, era verdade. Há tempos sonhara com aquilo: foder a sua mulher preta e outra mulher loira. Ele, Juca, o rei da cocada preta. “Se você não quiser eu entendo, Marli. Mas não precisa ficar rindo da minha cara desse jeito. Eu sou palhaço agora, é? Todo mundo sabe que essa é fantasia de todo homem” Marli se recompôs novamente. “Não preto, você não é palhaço, não! Eu te amo, viu?” Marli deu mais um gole na água que havia trazido da cozinha e olhou para a virilha de Juca. Num movimento delicado ela abriu a cueca samba-canção do marido e avistou o membro flácido no seu descanso merecido. Juca não entendeu nada, mas não esboçou reação. Ela continuo olhando para o pênis do marido e começou sua fala de forma carinhosa. “Juca Júnior, avisa o seu pai que eu aceito a proposta!” Juca sentia uma súbita ponta de prazer enquanto a esposa continuava a falar. “Mas tem uma condição: a mamãe aqui também vai querer uma suruba!” Juca arregalou os olhos enquanto Marli continuava olhando para o seu pau, como se Juca Júnior fosse uma pessoa de verdade. “E pra pretona aqui”, continuou ela, “o outro gostosão que vai fazer par com o seu pai não precisa ser loirinho não, ele só tem que ter um pau maior do que você, tá?”

terça-feira, 24 de maio de 2011

Abdias se vai, deixando um Brasil melhor.

Os Estados Unidos tiveram Malcolm X e Martin Luther King Jr., o Congo teve Patrice Lumumba, a África do Sul teve Steve Biko e ainda tem Nelson Mandela, a Jamaica e os EUA tiveram Marcus Garvey, o Senegal teve Leopold Senghor, a Martinica teve Aimé Cesairé, a Guiana Francesa teve Léon Damas, Gana teve Kwane Nkrumah e o Brasil teve Abdias do Nascimento.
 
Abdias nos deixou nessa manhã para entrar no seleto grupo de líderes negros que, por meio de suas ações, fizeram do mundo um lugar melhor. Aos 97 anos, nosso guerreiro se vai já cansado de tantas guerras, mas com a certeza de dever cumprido. Afinal, tudo aquilo que se refere a luta política contemporânea do/as negro/as brasileiro/as teve a participação desse pequeno grande homem. Seja na distante Frente Negra Brasileira (FNB) dos anos 1930, no Teatro Experimental do Negro (TEN) nos anos 1940, no jornal Quilombo entre final dos 1940 e início dos 1950, nos congressos, seminários, debates e plenárias (foram tantos e em lugares tão diversos), na luta por ações afirmativas da qual ele já esbravejava nos anos 1950, no exílio nos EUA na década de 1970, no Movimento Negro Unificado (MNU) dos final dos anos 1970 e início dos 1980, no mandato de Senador dos anos 1990, nos escritos de dramaturgia, nas pinturas, nos textos políticos, nas mulheres que amou, nos filhos e filhas que elas lhe deram e ele amou e lhe amaram... Em todos essas ocasiões, lá estava o negro Abdias com sua revolta, seu amor, sua sabedoria, seu humor, sua indignação, seu charme, suas contradições e seu comprometimento. Abdias foi um visionário e guerreiro incansável das causas que afetavam negros e brancos num país que, na maioria das vezes, tem vergonha de assumir sua herança africana, quer embranquecer, não quer ter nariz chato, beiço, cabelo crespo e pele escura.

Nosso guerreiro se vai, mas o Brasil está melhor por conta de suas ações, de sua audácia e da sua revolta. Para mim, Abdias sempre será um negro revoltado, pois sua revolta foi criadora, gerou frutos que hoje todos nós colhemos: igualdade, orgulho, auto-estima, risos, amor e o prazer de viver cada vez entre iguais respeitando suas diferenças de cor, raça, gênero, etnia, religiosidade, orientação sexual e classe. Nessa convivência entre diferentes e iguais aprendemos mais, nos doamos, discordamos e muitas vezes nos revoltamos para criar e aperfeiçoar. Pois a revolta, como Abdias mostrou através de sua vida, é criadora. Obrigado por tudo, meu guerreiro!

Márcio Macedo (Kibe)
Ph.D. student at New School for Social Research
IFP Fellow