quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Personalidades Negras


 
Quero fazer um post rápido hoje. Basicamente, estou morrendo de vontade de ler todos os livros da coleção Personalidades Negras da editora Garamond. Não sei como anda a divulgação dessa coleção em jornais e revistas aí no Brasil, mas que ela deveria merecer atenção especial isso deveria. Fiquei sabendo da parada meio que por acidente. Dias desses conversava com Fabiana Lima que estava lendo uma biografia de Dona Ivone Lara escrita por nossa amiga em comum Kátia Santos. Quando visitei o blog de Kátia, o WebNeguinha, vi que a capa do livro que ela tinha escrito era bastante parecida com a de um livro sobre Emanoel Araújo e que tinha tomado ciência lendo o blog da escritora Cidinha da Silva. Mais alguns minutos xeretando e descobri que os mesmos faziam parte de um coleção que conta com 11 interessantíssimos títulos. Além do livro de minha amiga exposto ao lado e intitulado Ivone Lara: a dona da melodia a coleção conta com os títulos Aleijadinho: homem barroco, artista brasileiro, de Maria Alzira Brum Lemos, Carolina Maria de Jesus: uma escritora improvável, de Joel Rufino dos Santos, Cruz e Souza: o poeta alforriado, de Godofredo de Oliveira Neto, Emanoel Araújo: o mestre das obras,  de Nelson Inocêncio, José do Patrocínio: a imorredoura cor de bronze, de Uelinton Farias Alves, Machado de Assis: num recanto, um mundo inteiro, de Dau Bastos, Mãe Beata de Yemonjá: guia, cidadã, guerreira, de Haroldo Costa, Mestre João Grande: na roda do mundo, de Maurício Barros de Castro, Pelé: estrela em campos verdes, de Angélica Basthi e Tia Carmen: negra tradição da Praça Onze, de Yara da Silva.

 

A chegada de uma coleção desse calibre é gratificante tanto para os pesquisadores de temáticas afro-brasileiras como o público mais amplo que deseja conhecer mais sobre negros e negras ilustres, mas que não tiveram a oportunidade de serem conhecid@s fora de seus redutos de atuação. Esse é o caso, por exemplo, de Tia Carmen, uma figura cuja trajetória está vinculada a cidade do Rio de Janeiro e área conhecida como Pequena África, simbolicamente tido como o local da formatação do samba no seu formato contemporâneo. Ainda me lembro que ao resenhar o livro Artes do Corpo em 2004, dei início ao texto da seguinte forma: "Ao atentarmos para a historiografia brasileira, percebe-se que a despeito dos afro-brasileiros terem contribuído de maneira significativa para a constituição daquilo que conceberíamos como "cultura" ou "identidade nacional", há pouquíssima produção que trate de evidenciar os negros como produtores culturais do ponto de vista individual". Espero que o livro organizado pelo meu amigo antropólogo Vagner Gonçalves da Silva sete anos atrás assim como a recente coleção Personalidades Negras sejam passos no sentido de reverter essa realidade.

Muita Paz!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

The Jolly Boys


O Caribe é uma espécie de Bahia gringa. Assim como nosso estado brasileiro, essa região é marcada pela presença negra que remonta a quatro séculos e pela existência de uma incrível quantidade de ritmos musicais. Outros elementos menos agradáveis também aproximam essas duas regiões como a pobreza e a existência de preconceito e discriminação contra os descendentes de africanos. Estou lendo um livro interessante intitulado Rastafari: roots and ideology (1994), do antropólogo Barry Chevannes, o qual afirma que as ilhas do Caribe receberam um terço de todos os escravos trazidos para as três Américas durante o tráfico negreiro. No caso da Jamaica (bandeira acima), o comércio de escravos foi responsável por aportar na ilha 700.000 africanos que foram utilizados para trabalhar nas plantations de cana de açúcar e posteriormente formaram o maior grupo racial do país.  Talvez os dois jamaicanos mais ilustres e conhecidos mundo afora até hoje sejam o líder nacionalista negro Marcus Garvey  (1887-1940) e o cantor de reggae Robert Nesta Marley, a.k.a. Bob Marley (1946-1981).

Reggae, calypso, dub, ska, rock-steady e raggamufin são ritmos jamaicanos já conhecidos do público em geral. Outro menos conhecido é o mento, business dos "nego véio" charmosos do The Jolly Boys. O grupo tem um longa história que remonta aos anos 1950. Segundo consta, mento é a base de todos os outros ritmos locais citados anteriormente e era tocado por grupos musicais nos salões de baile da ilha nos 1950 e 1960. Porém, muitas vezes o ritmo era promovido como calypso para facilitar o entendimento e atrair a atenção dos turistas. O mento foi eclipsado pela ascensão do reggae nos 1970 e passou a ser uma jóia desconhecida daqueles que não tinham oportunidade de visitar a ilha ou eram realmente entendidos de música jamaicana apesar da grande popularidade dos The Jolly Boys no país. Nos anos 1980 e 1990 o grupo finalmente conseguiu repercussão internacional na categoria de world music lançando dois discos: Pop 'n' Mento (1989) e Sunshine 'n' Water (1991). Ano passado veio a luz o novo projeto do grupo intitulado The Great Expectation: The Jolly Boys Featuring Albert Minott, álbum constando de 13 faixas e cujo carro chefe é uma regravação do hit Rehab, de Amy Winehouse. Atualmente o grupo é formado por Derrick "Johnny" Henry (rumba box), Joseph "Powda" Bennet (maracas), Egbert Watson (banjo), Allan Swymmer (percussão) além do vocalista Albert Minott com seu jeito carismático e sua voz rouca e charmosa que é uma mistura de Louis Armstrong com Nat King Cole. O resultado pode ser conferido no vídeo de Rehab, que segue logo abaixo.



O mini-documentário de sete minutos e meio The History Behind The Jolly Boys apresenta os músicos da banda.



Agradeço minha amiga Laura Moutinho por ter me enviado a dica dos velhinhos charmosos jamaicanos.

Muita Paz!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O Silêncio do Macho

Texto interessante enviado por minha amiga Fabiana Lima... Ele pode ser lido no seu link original clicando AQUI

O Silêncio do Macho
Mulheres e gays nunca falaram tanto sobre o que são e o que querem. Mas qual é o desejo dos homens heterossexuais nos dias de hoje?
Eliane Brum

ELIANE BRUM
ebrum@edglobo.com.br

Repórter especial de ÉPOCA, integra a equipe da revista desde 2000. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de Jornalismo. É autora de A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).

O sociólogo francês Daniel Welzer-Lang (foto abaixo) está no Brasil para falar de seu novo livro, ainda sem tradução para o português. Nous, les mecs poderia ser traduzido como “Nós, os machos” ou “Nós, os caras”. Nele, o sociólogo, professor titular do departamento de Sociologia e pesquisador do Laboratório Interdisciplinar Solidariedades, Sociedades, Territórios, da Universidade de Toulouse II, fala sobre algo crucial do nosso tempo. Estudioso da masculinidade e da violência, Welzer-Lang diz: “Nós estamos vivendo, hoje, uma época paradoxal: nunca antes as mulheres, ainda submetidas a formas variadas de dominação masculina, falaram, discutiram e contestaram tanto. Nunca antes os gays, lésbicas e bissexuais abordaram tanto seus modos de vida. Entretanto, os homens continuam em silêncio”. Welzer-Lang cita o sociólogo canadense Marc Chabot: “A palavra dos homens é o silêncio”.
 
O que é ser homem, hoje? Pergunta difícil. O lugar do homem no mundo contemporâneo é uma excelente pergunta ainda com poucas respostas. Provavelmente porque a crise da masculinidade levará não a um modelo fechado, mas a múltiplas possibilidades. No espaço público e privado, os homens pouco debatem suas dores, muito se debatem com as fronteiras difusas do seu papel. Tenho observado a trajetória errática de amigos e conhecidos, tentando entender o que o mundo – e as mulheres – espera deles. E sem coragem de fazer uma pergunta mais perigosa, que vai doer mais, mas talvez os leve para um lugar no qual possam se reconhecer: qual é o meu desejo?

Perguntar sobre o que somos é sempre uma indagação sobre o desejo. Penso que os homens heterossexuais têm se perguntado muito pouco sobre seu desejo. Quase como se não tivessem direito à pergunta, menos ainda à resposta. É como se, culpados por séculos de opressão das mulheres e igualmente condenados por séculos de afirmação homofóbica, não tivessem direito a querer nada. É a vez das mulheres, dos gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros pronunciarem o seu desejo – e quanto mais alto melhor. Aos homens heterossexuais coube introjetar um “cale-se, vocês já falaram durante séculos”. Resta a eles o silêncio.

Voltam-se então para o que nós, as mulheres héteros, cada vez mais verborrágicas, esperamos deles. E nós, também tão confusas sobre o que esperar de nós mesmas, diante de tantos imperativos à altura apenas de super-heroínas, os enlouquecemos. O “homem novo” seria uma mistura de ursinho puff com godzilla (meigo, mas com pegada). Potente, mas voltado apenas para a satisfação do nosso desejo, ele teria de alcançar, nos confins do nosso corpo, pontos nebulosos cada vez mais avançados no alfabeto.

O “homem novo” deve ser sensível, mas se “falhar” no sexo, algumas de nós contarão do “fracasso” para a amiga com secreta satisfação no dia seguinte. E ele nunca mais será olhado com o mesmo respeito. Enchemos a boca para falar de nossa carreira, de nossa independência e do dinheiro que ganhamos, mas não estamos muito dispostas a sustentar um marido desempregado ou num mau momento profissional, sem considerá-lo um loser. Reservamos epítetos machistas para as ex-mulheres de nossos homens, e muitas de nós competem com as filhas desses casamentos como se disputássemos o mesmo lugar.

Por outro lado, esperamos que eles sejam os pais de nossos filhos, quando soar o alarme dos 30 e poucos, mas também podemos reduzi-los a um espermatozóide anônimo num banco de esperma, se for necessário. E se eles não quiserem ter filhos, uma escolha legítima nos dias de hoje, pelo menos para nós, no caso deles é porque não cresceram, seguem estacionados na adolescência e, de novo, não conseguiram tornar-se homens.

Esse comportamento não é circunscrito às mulheres de classe média. Tenho observado e conversado com mulheres pelas periferias de São Paulo. Muitas sustentam a casa, criam os filhos e não sabem bem para que serve o homem dentro de casa. Algumas parecem manter os maridos por uma crença de que é importante, ainda que devido a um certo status na comunidade, ter um. Mas não têm muita esperança de descobrir para que mais servem. E falam deles com um desprezo acachapante.

No mesmo sentido, basta ir a qualquer bairro de periferia de uma grande cidade, para descobrir que as mulheres não estão em casa durante o dia, mas muitos homens sim. E para não assumir o território ainda tabu do lar, ficam pelos bares, pelas ruas, se alcoolizando ou se drogando. Ou arrumando briga, a violência como um espaço que ainda reconhecem como seu. Sem trabalho, sem perspectiva, sem lugar. E sem conseguir verbalizar essa dor, menos ainda elaborá-la.

Se perguntarem a nós, mulheres-alfa (!!!?), o que esperamos do novo homem, machos de todas as classes sociais vão descobrir que é muito mais fácil passar por um ritual de virilidade de alguma tribo indígena. Ou matar um lobo numa caverna, como fez Leônidas, o rei de Esparta, no filme 300. Aliás, num mundo em que todos os rituais e os privilégios do macho foram eliminados ou estão sub judice, como se reconhecer? Como não silenciar diante do barulho dos “dominados”, que invocam o direito de igualdade? Como saber o que é um homem se não é preciso mais de um nem para fazer um filho?

Em uma entrevista ao Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM), uma das entidades que o trouxe ao Brasil, Welzer-Lang diz, com muita lucidez: “Nós somos socializados, enquanto dominantes, na luta para ver quem é o melhor, o mais forte. Mas também somos socializados de maneira homofóbica e vistos como ‘os grandes incapazes afetivos’. É tempo de os héteros fazerem também seu coming out, falarem da pluralidade de seus desejos e de suas práticas”.

Sou otimista. Acredito que essa profunda crise do masculino levará a homens muito mais livres em suas possibilidades. E penso que cabe a nós, mulheres, suspender um pouco a nossa verborragia tão perto da histeria e escutar com mais generosidade nossos parceiros. Escutar sem os preconceitos dos tantos papéis que assumimos – e dos tantos que impingimos a eles. Escutar é talvez o mais profundo ato de amor. E é sempre um começo sedutor para um encontro entre corpos com alma.

Os homens não são os únicos a bater cabeça por aí. Também nós sofremos e nos confundimos o tempo todo. Assim como continua não sendo fácil ser gay, lésbica ou transgênero. Mas acho que hoje é mais difícil para um homem saber o que é, qual é o seu lugar e qual é o seu desejo. Penso que são os homens heterossexuais que hoje vivem um grau variado de repressão. E, diante de demandas tão contraditórias, sofrem sem ousar perguntar qual é o seu desejo. A esses homens, sugiro suspender por um tempo a questão do que nós, mulheres, esperamos de vocês – e passar a perguntar o que querem de si, para si.

Muita Paz!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Hip-Hop + Amor = ?

Minha geração, que já passou a casa dos trinta, cresceu ouvindo hip-hop. Meus ídolos na adolescência foram Public Enemy, Thaíde e DJ Hum e Racionais MCs. Dia desses ao ouvir raps de décadas passadas algo que me veio à cabeça foi a pergunta: por que rappers não rimam mais sobre relações amorosas? De tempos pra cá só é possível ver nossos trovadores urbanos declarando seu amor as suas mães. Mas e as outras mulheres? Sim, há outras mulheres nas canções, mas elas sempre ocupam um lugar negativado: traiçoeiras, interesseiras, depravadas e promíscuas. Resumindo: ou elas são as digníssimas mães (próximas de santas) ou são a personificação de prostitutas cujo objetivo é levar vantagem sobre homens ingênuos. A pergunta que não quer calar é: o que aconteceu com o amor romântico no hip-hop? Onde estão as mulheres que não se enquadram nos estereótipos de progenitora ou meretriz nas letras das canções? Tentarei responder essas questões ao final desse longo post.
 
Minha tese central é de que o hip-hop nunca esteve à vontade para falar de amor devido a dois motivos. O primeiro diz respeito a uma compartimentalização da música negra norte-americana no que diz respeito a tópicos. Relações amorosas sempre foi uma tema restrito ao soul, rhythm and blues e derivados contemporâneos como o neo-soul. Marvin Gaye, Barry White, Al Green eram e ainda são os grandes galãs e fazedores de ritmos que marcavam as baladinhas em que os pares dos casais dançavam coladinhos um ao outro. Por outro lado, o hip-hop ou a sua música, o rap, focavam como tópicos de suas letras temas mais diversos como festas, relatos cotidianos, brigas e disputas. Além disso, o imaginário construído em torno da figura do rapper o apresentava como uma espécie de tough guy (rapaz durão), o tipo de identidade masculina mais comum nas classes trabalhadores (meio no qual o hip-hop surgiu). Assim sendo, um homem falar em amor no contexto desse imaginário era entendido como demonstração de fraqueza e feminilidade. Sumarizando, Teddy Pendergrass sempre esteve autorizado a falar de amor, algo que não seria aceito tão facilmente vindo da parte de um Grandmaster Flash, já que isso afetaria sua credibilidade como rapper.

 File:I need Love.jpg
Well, podemos complicar a história, obviamente. A golden era do hip-hop (1986-1993) registra várias canções em que rappers falam abertamente de sentimentos. Lembro que nos idos dos anos 1990 presenteei uma paquera minha com um álbum de LL Cool J em que uma das músicas falava justamente da necessidade de amor. I Need Love (1987) pode ser considerada o primeiro rap balada e fez grande sucesso numa época em que diferentes estilos de rap ainda não estavam tão bem estabelecidos. Assista o vídeo de LL Cool J logo abaixo e confira...


O sucesso da canção de LL Cool J deixou rappers mais à vontade para explorar esse terreno e outras coisas interessantes surgiram. Um som que não me sai da cabeça é Minha Mina (ouça AQUI) música que consta do primeiro álbum de Thaide e DJ Hum intitulado Preste Atenção lançado em 1989. Thaide rima as qualidades de sua amada e a atração que sente por ela em cima de um quase break beat que no refrão é combinado ao sample de For The Love of You (ouça AQUI) um clássico de 1975 do The Isley Brothers e sucesso certo em qualquer baile nostalgia de São Paulo (beijei muita preta dançando esse som!). Ainda nesse disco do grupo de rap paulistano havia a canção Coisas do Amor (ouça AQUI), uma balada no melhor estilo black falando de separação e de um amor perdido cujo sample para a base foi retirado da canção do grupo Tavares, Never Had a Love Like This Before (ouça AQUI) de 1979.
 
Na gringa em 1989 o grupo De La Soul lançou seu álbum  3 Feet High and Rising que continha a canção "Eye Know." A letra é um cortejo em que o rapper tenta convencer sua paquera que as qualidades dele são melhores que de seus concorrentes. As referências a sexo são tímidas e passageiras. O refrão confirma isso quando ele diz que "eye know eye love you better" (eu sei que eu a amarei melhor). Esse mesmo esquema foi seguido no ano seguindo pelo grupo A Tribe Called Quest numa canção que se tornaria clássica no universo do hip-hop:"Bonita Applebum". Constando como uma faixa do álbum de estréia do grupo intitulado People's Instinctive Travels and the Paths of Rhythm, a canção é um flerte no qual os rappers do A Tribe... tentam impressionar uma suposta garota, Bonita, com o refrão "Bonita Applebum you got put me on." O sample usado na produção da faixa foi retirado da canção "Memory Band" (1967) do grupo Rotary Connection (ouça AQUI). Tanto a canção como o vídeo são leves, sem referências sexuais e lembram uma turma de adolescentes descobrindo as delícias da paquera e do amor através de flertes e festinhas. Há rumores de que a garota referida na música era amiga de Q-Tip no colégio onde ele e seus amigos estudavam. As batidas do grupo, sempre produzidas com samples de jazz e soul, dão uma noção de como era a sonoridade do hip-hop mais alternativo produzido em NYC nessa época e que tinha representantes nomes como Gangstar e Digable Planets. Assista o vídeo do A Tribe logo abaixo:


Mas estávamos nos anos 1990. Muita coisa acontecia e uma delas era a chegada de fato do gangsta rap ao mainstream com o sucesso das carreiras de rappers da costa oeste norte-americana, leia-se Los Angeles: Ice-T, N.W.A (Niggers With Attitude), C.M.W. (Compton Most Wanted), Too Short dentre outros tinham uma maneira bastante peculiar de referir as mulheres. O gangsta rap era entendido como uma espécie de hardcore rap incorporando temas como violência policial, drogas, o cotidiano e as disputas entre gangues. Termos como bitch, ho, slut, goldigger, chicken head passaram a ser formas comuns de se referir a mulheres nas letras de raps que sempre eram associadas a prostitutas, interesseiras e vistas exclusivamente como objetos de prazer sexualEm 1990 o grupo paulistano Racionais MCs lançou seu primeiro álbum intitulado Holocausto Urbano no qual a canção "Mulheres Vulgares" (ouça AQUI) já ressoava a influência e atitude gangsta (no fundo nada mais do que machismo aberto e declarado) em relação as mulheres. Nessa faixa Mano Brown (à época apenas "Brown") e Edy Rock simulam uma conversa de telefone onde conversam a respeito de mulheres, o refrão é claro "mulheres vulgares, uma noite e nada mais." Assim sendo, o amor desaparece. As únicas mulheres retratadas são aquelas moralmente equivocadas devido a sua profissão (prostitutas) ou ainda outras que não são necessariamente prostitutas mas que agem como tal dormindo com vários homens e interessadas no que eles podem lhe oferecer em termos materiais.

Um outro fato que deve ser lembrado e é notado por alguns intelectuais que tem escrito sobre hip-hop nos EUA como Cornel West (leia Questão de Raça [1994]), Paul Gilroy (leia Entre Campos [2007]), e Tricia Rose (leia Hip-Hop Wars [2008]) é que o gangsta rap incluía em sua fórmula de se fazer rap o machismo, misoginia e sexualização de corpos femininos e negr@s que permeiam toda a sociedade americana, mas que permaneciam até aquele momento numa espécie de subterrâneo ou eram um "assunto tabu" para usar uma expressão de West. Retratar mulheres como prostitutas, interesseiras ou hiper sexualizadas deixava rappers à vontade para lidar com temas que envolviam relações de gênero, uma vez que essas representações se encaixam perfeitamente à identidade masculina prevalecente entre jovens negros e latinos, pobres, da classe trabalhadora e vivendo em áreas urbanas deterioradas, as inner-cities. Mais: a mercantilização desse tipo de rap também tinha como público ávido uma classe média branca fascinada com corpos negros e histórias de violência. O processo de sexualização da música negra não se restringiu ao rap. O dancehall e o rhythm and blues também foram ritmos que incorporaram de forma crescente essa tendência. Como mostra Paul Gilroy artistas como Jodeci, R. Kelly (foto abaixo), Lady Saw, Super Cat dentre outros deram suas contribuições a essa tendência ao dois ritmos citados anteriormente e que tiveram como ancestrais o reggae, no caso do dancehall e o soul, no que diz respeito ao rhythm and blues.
 
Mas nem tudo estava perdido. Em 1991 o grupo inglês PM Dawn lançou o seu primeiro álbum Of the Heart, of The Soul and of the Cross: The Utopian Experience emplacando a faixa "Set Adrift on Memory Bliss." Essa garotada realmente representava um estilo diferente no universo do hip-hop uma vez que o visual dos irmãos Attrel e Jarret Cordes não se enquadrava em nada do que se via nos EUA à época. Nem batas afrocêntricas nem uniformes de presídios ou calças baggy, mas sim um vestimenta que poderia ser classificada como neo-hippie. Novamente a letra da canção descreve um encontro e cortejo cujo refrão deixa claro a primeira impressão deixada pela garota: "benzinho, você me joga num barco de felicidades atracado na memória." A música se enquadrava bem ao estilo dessa rapaziada: calma e estilosa, perfeita com o sample da canção True (1983), do grupo Spandau Ballet (ouça AQUI). Assista ao vídeo do PM Dawn logo abaixo...


Para não deixar nosso país de fora, vale a pena lembrar que em 1992 a dupla Thaide e DJ Hum (foto abaixo) lançou o disco Humildade e Coragem São As Nossas Armas Para Lutar que continha a balada "A Noite." A canção não é necessariamente uma balada romântica, mas se enquadra perfeitamente na forma que rappers falam de sentimentos, ou seja, comendo pelas beiradas. A letra de Thaide é, de certa forma, uma declaração de amor a noite com suas belezas e perigos (ouça AQUI)
 
Em 1992 Apache, rapper de New York City falecido ano passado,  fazia sua declaração de amor em "Gangsta Bitch", canção que iria compor seu álbum solo, Apache Ain't Shit, lançado no ano seguinte. Ou seja, de acordo com ele, para um truta gangsta nada melhor do que uma garota tão durona quanto ele próprio. A letra é clara: "I need a gangsta bitch... Puffin on a blunt, sippin on a Heineken... Give a ghetto girl, kick this Soul Train hoe..." (Eu preciso de uma puta gangsta... Puxando um baseado, tomando uma Heineken... Dê-me uma mina do gueto, dê um pé na bunda dessa vagaba Soul Train). Well well, esse era o estilo gangsta de falar de amor. Veja o vídeo aí...


Em 1993 o rapper Big Daddy Kane fez um dueto com Spinderella na canção Very Special (ouça AQUI) no que era uma das faixas do álbum Looks Like a Job For... Novamente a fórmula do encontro da mulher perfeita, cortejo e xaveco em cima de rimas. No entanto, Big Daddy se diferencia uma vez suas rimas são bem superiores em relação as letras de outros rappers. Ele consegue realizar uma cantada sem cair em frases açucaradas, mas sim se utilizando de ironia e referências a outros cantores. É possível notar isso quando ele diz "Cuz I fell straight into your trap/And since they say love is blind/I'm the Ray Charles of rap" (Porque eu me sinto preso na sua armadilha/E uma vez que dizem que o amor é cego/Eu sou o Ray Charles do rap)...


Nesse mesmo ano, Los Angeles dava provas de que mesmo sendo a capital do gangsta rap ainda havia grupos e canções que não se enquadravam totalmente nesse estilo. A canção "Passin' Me By"  consta como uma das faixas do álbum Bizarre Ride II The Pharcyde do grupo Pharcyde e descreve a história de um garoto e sua paixão platônica por sua bela professora cujo marido é um bandido. Mesmo após ele crescer, ela continua apenas "passando por ele" em sua vida, o que confirma o aspecto central desse tipo de amor: a impossibilidade dele se realizar. Na minha opinião, o videoclipe dessa canção é um dos mais belos feitos na história do hip-hop: é sexy sem chegar a vulgaridade. Assista aí e dê sua opinião...

The Pharcyde - Passin Me By from john E Njoki on Vimeo.

Ainda continuamos em 1993. "Lots of Lovin" é outra de minhas canções preferidas. Pete Rock e CL Smooth lançaram nesse ano o álbum Mecca and The Soul Brother que continha essa música como uma das faixas. Yeah, finalmente uma declaração de amor em que CL Smooth rima retratando o cotidiano de um casal e fazendo juras de amor a sua amada. O vídeo também é legalzinho, vê aí:
 

Para terminar aquele ano ainda teríamos na gringa um outro lançamento de peso com nada menos do que 2Pac (aquela época ele escrevia assim seu nome artístico) pondo na rua seu segundo álbum intitulado Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z. e contendo uma faixa que se tornou clássica, "Keep Ya Head Up." A canção, produzida em cima de um sample da maravilhosa "Be Alright" dos irmãos Zapp & Roger (ouça AQUI), não falava de amor propriamente, mas era uma espécie de mensagem aberta as mães solteiras dependentes do welfare afirmando que elas não deveriam se render as dificuldades e "manter a cabeça erguida" ao criar seus filhos com ou sem a ajuda dos pais. 2Pac ou Tupac é realmente cativante nessa canção. Em determinada altura ele se pergunta: "I wonder why we take from our women/Why we rape our women, do we hate our women?/I think it's time to kill for our women/Time to heal our women, be real to our women" (Eu me pergunto por que nós desvalorizamos nossas mulheres/Por que nós estupramos nossas mulheres, nós odiamos nossas mulheres?/Eu acho que é hora de matar por nossas mulheres/Hora de curar nossas mulheres, sermos honestos com nossas mulheres). O rapper colocava nas rimas sua própria experiência pessoal uma vez que ele também havia sido criado por uma mãe solteira. Afeni Shakur era ativista dos Black Panthers Party e soube que estava grávida de Tupac quando encontrava-se presa. A ironia dessa canção é que mesmo tendo escrito essas rimas tão engajadas e belas em novembro desse mesmo ano o rapper seria preso, e posteriormente condenado, por ter, junto com dois de seus seguranças, estuprado um fã num quarto de hotel em NYC. Assista o vídeo de "Keep Ya Head Up":


Em 1994 a onda gangsta já havia dominado New York Shit. Talvez o melhor representante da versão gangsta da Big Apple tenha sido nada mais nada menos do que Notorious BIG. Nesse ano cairia nas ruas seu álbum de estréia entitulado Read to Die e que contava com a faixa "Me and My Bitch" cuja letra estabelecia a maneira thug life de falar sobre relacionamentos. A faixa tem início com Puffy Daddy a capela perguntando a uma voz feminina se ela mataria alguém por ele. Na sequencia Notorious entra rimando e relatando a história do encontrou de uma verdadeira mina que o apoiava em todas as horas, fazia sexo como ninguém assim como brigava com ele como ninguém e o ajudava nos seus planos de gangster até ser morta por seu inimigos. A canção de BIG é a clássica história de um amor bandido numa versão feminina. Ouça a canção AQUI
 
Outra canção desse álbum que se tornaria clássica é "Big Poppa" que descreve o lifestyle de um verdadeiro player com baladas, consumo conspícuo e uma grande lábia para ganhar dinheiro, atrair e se relacionar com várias mulheres ao mesmo tempo além do convívio com mulheres espertas que tiram proveito de homens ingênuos. O sample usado na produção dessa faixa foi retirado da canção Between the Sheets do grupo The Isley Brothers (ouça AQUI).  Na minha opinião, o refrão de "Big Poppa" é um dos mais divertidos do hip-hop: "I love it when you call me Big Pop-pa/ Throw ya hands in the air, if you's a true playa/I love it when you call me Big Pop-pa / To the honnies gettin money playin fellas/niggaz like dummies uh / I love it when you call me Big Pop-pa / You got a gun up in your waist please don't shoot up the place (why) Cause I see some ladies tonight that should be havin my baby Bay-bey" (Adoro quando vocês me chamam de Big Pop-pa / Jogue suas mãos para o alto se você é um verdadeiro player/ Adoro quando vocês me chamam Big Pop-pa/ Para todas os docinhos ganhando uma grana fazendo esses trutas/pretos de trouxa uh / Eu adoro quando vocês me chamam de Big Pop-pa / Você aí que tem um cano na cintura por favor não dê uns pipocos no salão (porque?) Por que eu tô vendo umas minas essa noite que deveriam ter meu bebê).  Assista o vídeo aí...


Malcolm X disse em sua auto-biografia que a prisão é um ótimo lugar para refletir sobre a própria existência, uma vez que não há muita coisa para fazer além de ler, pensar e sofrer. É uma filosofia bastante dura, mas que tem lá a sua razão se pensarmos os livros que foram escritos ou discos produzidos na cadeia. Essa é quase a história do álbum Me Against the World, terceiro disco de Tupac lançado em 1995 quando o rapper estava preso. O artista conseguiu canalizar todas as pressões que sofria durante o processo no qual foi condenado a cumprir pena por estupro nas letras das canções de Me Against... Juntando seu talento ao trabalho a ótimos produtores (como Easy Moe Bee, Tony Pizzaro, Shock G. dentre outros) Tupac criaria um álbum que ficaria clássico. O disco continha a canção "Dear Mama" uma espécie de declaração de amor e ao mesmo tempo uma reconciliação que o rapper fazia com a mãe, Afeni Shakur, devido aos anos conturbados de juventude. A canção é também paradigmática porque seu formato se tornou recorrente na forma como rappers falavam de sentimentos, ou seja, dirigindo os mesmos a progenitora ou amigos. Veja o vídeo de "Dear Mama":


A pegada "ghetto love" bastante parecido ao "Me and My Bitch" de Notorious BIG reaparece no duo feito entre o rapper Method Man e a cantora de rhythm and blues Mary J. Blige canção "I'll Be There For You/You're All I Need To Get By." A música foi produzida usando um sample e reatulizando a canção de Marvin Gaye "You're All I Need To Get By" lançada em 1968 e cantada numa parceria com a cantora Tammi Terrel (ouça AQUI ). A fotografia do vídeo de Method Man e Mary J. Blige é fenomenal. Convido tod@s a assistirem o vídeo logo abaixo (nesse link AQUI dá pra acompanhar com a letra da canção, basta clicar nessa opção no menu).


Posso estar enganado (leitore/as me ajudem!), mas foi em 1995 ou 1996 que o grupo Ataliba e a Firma lançou o álbum que continha o som "Política", carro chefe do disco intitulado com o mesmo nome do grupo. Entre as faixas havia a mais que romântica "Feminina Mulher" com a qual sei que muita gente dançou e beijou bastante nas sessões de música lenta dos bailinhos black que os DJs anunciavam de forma bem irônica: "Chegou a hora de pegar no macio!". Ouça AQUI a canção que imortalizou o refrão "Seu olhar vai na rua um brinde a madrugada/É uma simples moldura a Lua prateada."


Uma canção que vai quase na mesma linha de "Dear Mama" é "All That I Got Is You" do primeiro álbum solo de Ghostface Killah (formalmente membro do grupo Wu Tang Clan) intitulado Ironman e lançado em 1996.  Killah descreve sua infância de pobreza e como sua mãe teve que se virar para criar os filhos sozinha após seu pai a deixá-la quando ele tinha apenas 6 anos de idade. Novamente a canção é uma homenagem e declaração de amor à aquela que enfrentou uma série de dificuldades em nome d@s fih@s. Assista o vídeo de Killah logo abaixo... Ah, a canção conta conta com a participação da diva Mary J. Blige (foto acima) que manda super bem no refrão...

Ghostface Killah - All That I Got Is You (feat. Mary J. Blige) from Tarik Azzougarh on Vimeo.

Algo interessante é que a mistura de elementos de rhythm and blues, reggae e soul aliado e uma vocal feminino foi uma fórmula certeira e manjada para falar de amor no meio hip-hop. Foi nos anos 1990 que essa rap se aproximou especialmente do R&B de forma consistente por meio de cantoras como Mary J. Blige (cuja voz fez parceira com vários rappers como já vimos) e Faith Evans (diga-se de passagem, ex de Notorious BIG) para ficar nos exemplos mais conhecidos. Entretanto, quem de fato sacralizou-se essa fórmula de maneira consistente foi Lauryn Hill em seu álbum de estréia de 1998 intitulado The Miseducation of Lauryn Hill  emplacando o hit  Doo Woop (That Thing) cujo vídeo é uma obra-prima (a letra não fala necessariamente de amor, mas vale a pena assisti-lo AQUI ) O álbum de Hill está cheio de canções românticas como "When It Hurts So Bad", "I Used To Love Him" (com a participação de Mary J. Blige), "To Zion", "Ex-Factor", "The Miseducation of Lauryn Hill", a faixa escondida "Can't Take My Eyes Off You"e "Sweetest Thing (Mahogany Mix)." Esse é um ponto interessante uma vez que The Miseducation... é um disco de uma rapper cuja produção levou a um estilo híbrido entre rap, reggae e soul ao mesmo tempo em que as letras de mais da metade das faixas falam de amor. Na verdade, essa fórmula já havia sido testada quando Hill ainda estava no grupo The Fugees através da regravação de Killing Me Softly With His Song no segundo disco do grupo, The Score (1996), canção clássica gravada por Roberta Flack em 1971, e ainda a linda e pouco conhecida The Sweetest Thing, incorporada a trilha sonora do filme Love Jones (1997). Resumindo, rappers femininas que soubessem cantar em cima de bases cuja produção misturava batidas de hip-hop com elementos melódicos de outros ritmos negros era a forma mais comercial e viável de vender canções de amor no universo hip-hop.
 
Foi em 1999 que Xis, ex-rapper do grupo DMN, lançou seu álbum solo Seja Como For, álbum produzido pelo DJ dos Racionais MCs, meu truta KL Jay. A música que estourou nas rádios foi a famosa "Us Mano As Mina". Entretanto, o disco ainda trazia uma faixa intitulada Só Por Você produzida em cima de um sample da canção Luther Vandross, "Don't You Know That" (ouça AQUI). Xis provou que sabia falar de amor sem deixar a malandragem de lado, grande som! Na gringa a fórmula do dueto voltaria em grande estilo com um casal que formou um verdadeiro casal romântico na vida real: Common e Erykah Badu. Na canção "The Light" o rapper faz rimas amorosas numa suposta carta endereçada a sua amada. Badu cantou o refrão numa versão remixada da canção que entrou na trilha sonora do filme Bamboozled (2000) de Spike Lee. Ouça a versão remixada AQUI da bagaça e assista logo abaixo o vídeo da versão de "The Light" que saiu no álbum Like Water for Chocolate lançado por Common em 2000!


Pois é, mas nos anos 2000 as coisas mudaram. Canções falando sobre amor romântico ficariam cada vez mais raras no universo hip-hop e seriam substituídas pelas que retratavam festas, flertes com fortes apelos sexuais e a capacidade de conquista de players. Esse estilo era na verdade uma espécie de gangsta chic que tinha mais haver com sexo sem compromisso do que amor propriamente e tão bem retratado nas canções "Girls Girls Girls" (do álbum The Blueprint, 2001) e "Excuse Me Miss" (do álbum The Blueprint 2, 2002) ambas de Jay-Z. Assista os vídeos aí logo abaixo.  Snoop Dog ainda em 2003 lançaria"Beautiful" (do álbum Paid tha Cost to Be da Bo$$) que, assim como em "Excuse Me Miss" de Jigga, contava com o vocal de Pharrel e colocou de vez a cidade do Rio de Janeiro, com suas favelas, praias e mulheres no imaginário do hip-hop norte-americano como uma espécie de segundo Caribe



E...


  
Well, daí em diante é história. Sexo e sexualização dos corpos negros, masculinos ou femininos, vem desde então tendo muito mais espaço na indústria fonográfica e vendem mais discos do que a temática amorosa. A crítica cultural Tricia Rose, em seu livro Hip-Hop Wars (2008), defende o argumento de que as transformações que a indústria fonográfica e as mídias de comunicação como rádio, TV passaram nas últimas duas décadas além do advento da Internet são responsáveis pela formatação de um hip-hop comercial que exploram unicamente temáticas focadas em violência, drogas e sexo. Outros estilos alternativos seriam deixados de lado ou não teriam espaço em grandes gravadores, majoritariamente controlados por empresários (e não músicos) mais preocupados com o número de discos vendidos do que propriamente com a qualidade e estilo das músicas. Esse é um argumento também defendido no documentário de Andrew Shapter intitulado Before The Music Dies (assista AQUI) e lançado em 2007. A nova audiência do hip-hop também seria um fator decisivo, uma vez que jovens e adultos jovens brancos de classe média moradores de subúrbios seriam grandes consumidores de um gênero musical que transforma em mercadoria um estilo de vida marcado pelo cotidiano muitas vezes violento e disfuncional das inner-cities (áreas centrais e deterioradas das cidades onde se localizam a maior parte dos guetos negros e latinos). Assim sendo, rappers, que já não se sentiam muito à vontade para falar de amor em suas canções, não tem mais nenhum estímulo para fazê-lo uma vez que é mais fácil falar de relacionamentos superficiais que se resumem ao sexo, festas além de sexualizar e objetificar corpos femininos. Assim sendo, só há espaço para duas representações de mulher no imginário dos rappers: aquela com a qual se faz sexo ou aquela que lhe deu a luz. Mesmo assim, há ainda exemplos de canções e músicos criativos que tentam fugir desses lugares comuns. Mano Brown escreveu e gravou recentemente (talvez não muito!) Mulher Elétrica e na gringa Q-Tip  com sua já famosa elegância gravou a charmosa We Fight/We Love com a participação de Raphael Saadiq. Entretanto, minha suspeita é de que o hip-hop, mesmo que o faça poucas vezes, lida com a temática amor de uma forma muito mais complexa que outros ritmos que apenas reproduzem a fórmula do amor romântico.

Muita Paz!

PS: toda seleção é pessoal e a minha, no que diz respeito as músicas aqui listadas/comentadas, não foi diferente, caso você se lembre de uma outra canção de amor (ou com um assunto correlato) no hip-hop joga no comments e divide com nóiz! Valeu...

sábado, 15 de janeiro de 2011

Raça, Sexualidade e Juventude.

Tempos atrás comentei aqui que havia participado de uma pesquisa internacional coordenada por Laura Moutinho (professora de antropologia na USP) que cruzava questões relativas a raça, gênero, sexualidade, lazer e juventude em seis cidades de três países (África do Sul, Brasil e EUA). Parte dos resultados da pesquisa pode ser verificado no último número da revista acadêmica Cadernos Pagu  (número 35, dezembro de 2010) que traz um dossiê intitulado "Raça e Sexualidade em Diferentes Contextos Nacionais." Nele é possível ler textos focados nas investigações realizadas em São Paulo, Rio de Janeiro e Cidade do Cabo. As outras cidades cobertas pela pesquisa foram Joanesburgo, Chicago e São Francisco e outros textos com mais resultados serão publicados futuramente.

Júlio Simões (professor de antropologia na USP), Isadora Lins França (doutora em ciências sociais pela Unicamp) e eu dividimos a autoria de um artigo intitulado "Jeitos de Corpo: Raça, Gênero, Sexualidade e Sociabilidade Juvenil no Centro de São Paulo."  O número da revista pode ser acessado clicando AQUI

Muita Paz!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Baloji, Pensamentos, Van Peebles e Basquiat...

Ando meio cansado e de saco cheio. Na última terça-feira fui ao Harlem jantar e assistir ao show do rapper Baloji (congolês radicado na Bélgica exposto na foto abaixo) bem no meio de uma tempestade de neve e foi relativamente divertido. Baloji sounds fresh numa cena hip-hop que está ficando cada vez mais ridícula (leia texto de minha Valerie Ellois sobre ele AQUI). Talvez eu esteja me tornando tiozão (o que tem o seu lado positivo também!) e antiquado com meus pares de All Star, mas ando meio sem saco para as frescuras de artistas que querem ser mais celebridades do que músicos de fato. Porém, isso é conversa para outro post, talvez para quando eu finalmente criar coragem (e estômago!) para fazer uma resenha do último álbum de Mister Kanye "Mala" West, maybe...
 
By the way, estou trabalhando em dois posts (um sobre os livros que li ano passado e outro sobre canções de amor no hip-hop) que estão ficando absurdamente longos e tenho idéias para outros "trocentos", mas cada texto que escrevo aqui envolve um mínimo de pesquisa e ocupa o meu tempo de forma absurda. Mas é esse o preço que se paga quando se busca fazer um blog que não seja mera reprodução (ou control V control C) de notícias publicadas em outros lugares, que não se mantenha focado na vida daquele que escreve o blog (a minha não daria mais do que dois posts), que não seja voltado para apenas um tópico/tema (rap, por exemplo!) e que seja minimamente bem escrito. Esses são problemas que me afastam de ler outros blogs, porque muitos não apresentam nada de novo. Well, já apresentei minhas impressões sobre a prática de blogar num post antigo (leia AQUI ). Vamos falar sobre o que me trouxe ao blog hoje: documentários.

Devido a minha renite, o frio e o cansaço por conta do final de semestre devo ter assistido uns 30 filmes via NetFlix nas últimas duas semanas. A maioria foi blaxploitation farofa dos anos 1970 com os quais dei várias risadas vendo a negrada dando tiro, lutando kung fu e karatê, fazendo piadas ridículas e admirando beldades pretas como Pam Grier, Tamara Dobson e Gloria Hendry semi-nuas. Também assisti vários documentários sobre os quais falarei aos poucos. O primeiro é um documentário de 2005 sobre a vida de Melvin Van Peebles (foto acima) intitulado How to Eat Watermelon in White Company (and Enjoy It) e dirigido por Joe Angio. O filme acompanha a trajetória de Peebles, uma das figuras mais emblemáticas das artes afro-americanas. Estudante brilhante e jovem oriundo de classe média, Peebles entrou para a força aérea norte-americana treze dias depois de concluir sua graduação na Ohio Wesleyan University. Após atuar três anos e meio como piloto, se desligou da forças armadas e casou-se com uma alemã indo morar no México. Algum tempo depois, mudou-se para San Francisco onde foi trabalhar como condutor de bondes e escreveu um livro sobre o cotidiano do bonde que lhe rendeu algum sucesso e notoriedade, mas lhe custou o emprego.
 
Novamente solteiro, Peebles aportou em Paris no início dos anos 1960, cidade que desde o início do século XX foi visto como refúgio para artistas e intelectuais norte-americanos que tinham um posicionamento crítico em relação aos EUA. A capital francesa também teve uma relação próxima e positiva com ilustres afro-americanos, pois o ambiente francês era visto como menos racista e mais tolerante do que o norte-americano além das manifestações culturais afro-americanas, como o jazz, terem sido sempre celebradas vivamente na cidade. Por lá passaram ou moraram os escritores James Baldwin, Richard Wright e Chester Himes, a dançarina, atriz e cantora Josephine Baker além de vários músicos de jazz como Miles Davis, John Coltrane e outros. Na França Peebles se ligou a uma revista de esquerda e pouco tempo depois de chegar ao país sem dominar francês, tornou-se escritor e lançou vários romances na língua local. Após algum tempo teve sua primeira experiência cinematográfica dirigindo um filme contando a história de um soldado negro americano que se envolve com uma francesa. O filme teve repercussão nos EUA e Peebles foi convidado a participar de uma mostra de filmes voltando para a sua terra natal como um desconhecido ilustre que poucos sabiam que era americano. Nos EUA o diretor foi convidado a trabalhar em Hollywood onde filmou Watermelon Man (1970), filme baseado no livro de Herman Raucher intitulado The Night the Sun Came Out on Happy Hollow Lane cuja história descreve a experiência de um branco racista vendedor de seguros que acorda negro numa manhã.
 

Contudo, apesar de já gozar de certa notoriedade no meio cinematográfico, foi um filme independente de 1971 que tornou Peebles popular e conhecido: Sweet Sweetback's Baadasssss Song. A película foi produzida com recursos do próprio diretor e outra parte (US$ 50 mil) emprestada do ator Bill Cosby, utilizou atores que não receberam quase nada para atuarem e a edição/montagem foi realizada pelo próprio Peebles que quase ficou cego no processo. O diretor ainda atuou como personagem principal e enfrentou barreiras burocráticas para lançar o filme que foi classificado na mesma categoria de filmes pornográficos devido as cenas de sexo e conteúdo polêmico o que, junto com outras questões, fez com que a maior parte dos cinemas se recusassem a exibi-lo.  Mesmo assim o longa de Peebles estourou, em muito devido a aprovação do seu conteúdo pelos Black Panthers que o viram como um resumo de sua ideologia, e fez a maior bilheteria de um filme independente nos EUA lucrando US$ 10 milhões à época. O filme conta a história de um cafetão negro perseguido pela polícia após matar, com as próprias algemas, dois policiais que espancavam um jovem negro na sua presença. A história é repleta de uma iconografia vista como subversiva e transgressora a época, pois negros são vistos em papéis que exageram estereótipos aos quais estava submetidos, exemplo disso pode ser visto na forma como a sexualidade é retratada no filme. Ao mesmo tempo, o filme coloca no centro da trama um negro que atua desafiadoramente na tela agredindo policiais e fazendo sexo com mulheres brancas. Sweet foi o filme que forjou a fórmula utilizada pelos filmes blaxploitation mais comerciais dos anos 1970 como Shaft (1971), Super Fly (1972) Cleopatra Jones (1973), Foxy Brown (1974) dentre outros. Após Sweet Peebles escreveu peças de teatro, gravou discos de canto falado na mesma linha de Gil Scott-Heron e foi até mesmo corretor de seguros na bolsa de New York. Todas as histórias descritas acima são contadas detalhadamente por amig@s, filh@s, personalidades que foram influenciadas por suas idéias ou obra como o cineasta Spike Lee e outros no documentário de Joe Angio cujo o trailer segue logo abaixo.



Outra personalidade importante e icônica para o mundo artístico afro-americano é o pintor Jean-Michel Basquiat (1960-1988). O documentário Jean-Michel Basquiat: The Radiant Child lançado ano passado e dirigido por Tamra Davis tem uma história bastante peculiar. O centro do filme é uma entrevista gravada pela diretora com o pintor em 1986, dois anos antes de sua morte. Intercalando a fala de Basquiat nessa entrevista com entrevistas realizadas com amig@s, ex-namoradas, artistas, historiadores e curadores de arte que trabalharam com o artista, Tamra consegue expor a complexidade da curta vida daquele que hoje é entendido como um dos grande artistas contemporâneos das artes plásticas.

Basquiat era filho de imigrantes emergindo a posição de classe média negra de New York e que moravam no Brooklyn. Seu pai era de origem haitiana e trabalhava como contador enquanto a mãe era uma dona de casa porto riquenha que levava Basquiat a museus e exposições de arte desde de quando o garoto tinha 3 anos de idade. A formação do pintor foi auto-didata, absorvendo o ambiente familiar intelectualizado que os pais ofereciam. No final dos anos 1970, ainda adolescente, Basquiat saiu de casa indo morar na ruas e tornando-se um frequentador do Village e arredores, região que concentra uma série de espaços culturais,  intelectuais e artísticos como a New York University, o SoHo além dos bares, cafés, clubes e inferninhos ponto de encontro de artistas underground e intelectuais alternativos. Nessa época Basquiat fez fama como pixador e cunhou o termo S.A.M.O (same old shit) que era rabiscado em vários lugares ao lado de outras mensagens e referências.  Basquiat fez ainda parte de uma banda, na qual tocava clarinete e passou a vender cartões postais que continham desenhos seus com mensagens abstratas. Um desses cartões foi vendido certa ao artista pop Andy Warhol (1928-1987) com o qual desenvolveria uma amizade até a morte desse último. A cidade de NYC vivia um momento de transição no final dos anos 1970 e com uma crise econômica e fiscal afetando o município, era possível viver de forma barata e/ou alternativa em Manhattan presenciando as novas linguagens que surgiam à época com a cena punk,  o hip-hop e a nova produção de artistas alternativos que ainda possuíam seus atelies em lofts situados no SoHo.

Basquiat foi estimulado a pintar por amigos e não demorou para que seus quadros começassem a ser valorizados no mercado de arte. Em pouco tempo, o jovem classe mediano que vivia como mendigo pelas ruas do Village e bancos da Washington Square circulava por galerias de arte e viajava para a Europa abrindo exposições com seus quadros. E ele trabalhou de forma compulsiva. Mesmo que se sua carreira artística tenha sido curta (em torno de 7 anos), Basquiat produziu mais de 2000 obras entre pinturas e desenhos.  Entretanto, mesmo para os anos 1980, o pintor do Brooklyn ainda era uma novidade exótica: negro, sofisticado, crítico, irônico, auto-didata, e avant-garde. Essa mistura bombástica tinhas seus prós e contras e mesmo que se seus quadros significassem o futuro das artes plásticas, despontando para uma proposta que hoje pode ser chamada de neo-expressionista, sua antecipação o fazia pouco entendido e aceito nos círculos mais mainstream de arte. Esse fato incomodava o pintor e depois de algum tempo, principalmente após a morte do amigo Warhol em 1987, passou a significar um problema que afetou psicologicamente o artista. Basquiat sentia-se pressionado a produzir e cada quadro deveria ser um masterpiece, desconfiado d@s nov@s "amig@s" que o cercaram após o sucesso e, de certa forma, sufocado pelo ambiente social novaiorquino. Assim sendo, as drogas (especialmente heroína), que sempre foram algo comum na vida do artista, passaram a cumprir um papel de refúgio e, ao mesmo tempo, forneciam uma forma de inspiração. O resultado foi uma morte de overdose em 12 de agosto de 1988, quando ainda contava com apenas 27 anos. O documentário de Davis lança luz sobre a trajetória de Basquiat e os dilemas que o artista teve que enfrentar em sua curta e ao mesmo tempo profícua carreira artística. Assista o trailer do documentário logo abaixo.

Muita Paz!

sábado, 8 de janeiro de 2011

Black and Sexy!

 
A Good Day To Be Black And Sexy (2008) é um desses filmes alternativos sem muita pretensão que acabam agradando pela forma simples e criativa de contar eventos vistos como banais. O que liga todas as curtas histórias do filme é o fato delas falarem sobre relacionamentos envolvendo, em sua maior parte, casais negros. Sexo é um elemento presente e condutor, mas, de certa forma, secundário. Aliado a esse fato, o diretor/roteirista Dennis Dortch (foto abaixo) teve sensibilidade suficiente para falar de um tópico escorregadio sem cair na vulgaridade. Ao assistir o filme lembrei em muito outra película independente também produzido em 2008 e sobre o qual já falei aqui no blog: Medicine for Melancholy, do diretor/roteirista Barry Jenkins (leia meu post sobre o filme clicando AQUI )

 

Uma das coisas mais legais tanto de A Good Day quanto Medicine é a trilha sonora. A pegada e estética jovial do filme, em sintonia com a sofisticação do neo-soul de Jill Scott, John Legend e Erika Badu trazem um ar de novidade como podia ser visto no início da carreira de Spike Lee em filmes como She's Gotta Have It (1986) e Do The Right Thing (1989).

A Good Day é composto por cinco histórias. A primeira, "Reciprocity", discute o que é prazer mútuo no sexo. "Her Man", que vem na sequência, se passa na manhã de um casal que vive um triângulo amoroso entre amante, marido e esposa. "Tonight", dividia em parte I e II, se passa na noite de aniversário de uma jovem que repentinamente se vê diante de uma velha e clássica frase tão escutada por mulheres até hoje: "Ou dá ou desce!" "Reprise" explora o terreno de práticas sexuais vistas como "interditas". "American Boyfriend" fecha a película com uma engraçada situação vivida por um casal inter-racial.  Enfim, o filme deve ser assistido e apreciado porque é singelo. Não há apelos políticos, raciais, manifestos e as situações vividas pelos personagens poderiam ocorrer com qualquer pessoa, algo que deixa o filme extremamente atraente.  Tente assistir ou baixar o filme nesse endereço AQUI  O trailer do mesmo segue logo abaixo.

Muita Paz!

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

"The Strip Game": documentário de Method Man

Strip clubs... Well, os famosos inferninhos que sempre apareciam em filmes policiais dos anos 1980 como escritório dos vilões do filme mudaram e muito. Bakari Kitwanaex editor da revista The Source,  faz uma pequena análise desse fenômeno em seu livro Hip-Hop Generation (2002) mostrando com um dos responsáveis pela popularização e disseminação dos strip clubs nos últimos anos é justamente a cultura hip-hop. Dados apresentados pelo autor afirmam que strip clubs são um negócio de 3 bilhões de dólares anuais. A expansão desse tipo de empreedimento está associado ao crescimento da indústria de entretenimento adulto como um todo desde a década de 1990. A popularidade de strip clubs entre rappers pode ser notada pelo constante aparecimento desses espaços e stripers nos videoclipes de música além da produção de filmes como The Players Club (1998) dirigido pelo rapper Ice Cube.

Kitwana ainda afirma que a idade com que homens, casados ou solteiros, começam a frequentar esses espaços vem diminuindo. De acordo com o jornalista, homens também tem gastado mais dinheiro em strip clubs do que em dates (encontros amorosos). O que é preocupante, na opinião do autor, é que isso evidencia uma atitude cada vez mais comum na sociedade americana em geral e na comunidade afro-americana em particular de tratar mulheres apenas como objeto sexual. O documentário The Strip Game: Who Are the Judge? Raw. Revealing. True! (2005), dirigido pelo rapper Method Man, tenta apresentar um olhar (ou vários olhares!) sobre esse universo. Não espere nada muito crítico. Man viaja por cinco cidades (New York City, Los Angeles, Atlanta, Houston e Miami) visitando clubes, conversando com strippers, frequentadores e intercalando as falas dos mesmos com comentários seus e de outros rappers como Scarface, Redman, o grupo de R&B Jagged Edge, Keith Murray, Travis (da banda de rock Blink 182), Warren G., Ghostface Killah e Mr. Cartoon. Desnecessário dizer que o filme é recheado de imagens de strippers seminuas dançando. Não farei uma resenha do filme, mas você pode ler uma em inglês AQUI

Para quem está dentro dos Estados Unidos, o documentário pode ser assistido por inteiro (com uns comerciais no meio) clicando nesse endereço AQUI  Infelizmente não há essa opção para quem está fora dos EUA. Abaixo segue o trailer do filme.

Muita Paz!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Adoniran Barbosa: 100 Primeiros Anos

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Penis Passion

 
bell hooks (foto acima) é uma de minhas feministas negras prediletas. Há mais ou menos dez anos atrás tive o prazer de ter meu primeiro contato com seus escritos através da leitura de um ensaio no qual ela defendia a necessidade de uma vida simples, aveza a impulsos consumistas. Fui apresentado ao texto dela que segue abaixo ano passado por intermédio de minha amiga Fabiana Lima e desde então passei a nutrir a vontade de traduzi-lo para postar aqui no blog.  Eis que é chegada a hora. A versão em inglês do texto pode ser lida AQUI Decidi por não completar esse post com imagens, uma vez que penso que o texto pede uma reflexão conjunta a um esforço de visualização de imagens realizada por cada leitor/a individualmente. Também optei por manter o título original e alguns termos, mais complicados de se encontrar similares em português, em inglês.

Muita Paz e Boa Leitura!


PENIS PASSION

bell hooks argumenta que nossas vidas melhoram quando homens e mulheres podem celebrar o pênis de formas que não apoiem estereótipos machistas.

Trabalhando num poema inspirado pela alegria de fazer sexo no menor estúdio do mundo sentada sobre um velha poltrona pintada de vermelho onde passo a maior do tempo escrevendo, busco por palavras para descrever a sensação de sentar ao colo da doce luxúria movendo meu corpo para trás e para frente contra o delicioso, quente e úmido pênis de meu amante A. Entre os pênis que vi e toquei neste mundo, o dele é que me dá maior sensação de prazer. No entanto, é difícil encontrar palavras para descrever o prazer que sinto que não perpetuem o convencional pensamento sexista sobre o pênis.

Mulheres encontrando e expressando prazer no corpo masculino durante muito tempo foi um tabu completo. Antes do movimento feminista e da liberação sexual contemporâneos, nós mulheres não falávamos muito a respeito de nossos sentimentos sobre o pênis. Sem dúvida então que quando nós finalmente demos a nós mesmas permissão para falar o que quiséssemos sobre o corpo masculino – sobre a sexualidade masculina – nós ficávamos ou em silêncio ou meramente ecoávamos narrativas que já estavam em uso.

No final dos anos 60 e início dos 70, mulheres heterossexuais ativas no movimento feminista falavam frequentemente de forma corajosa e orgulhosamente sobre o pênis, usando a mesma linguagem de conquista sexista que homens usavam quando falavam de suas caçadas sexuais. Naqueles dias nos grupos de elevação da consciência feminista, nós não somente conversávamos a respeito de como mulheres tinham se tornado mais confortáveis com palavras como “boceta” e “xoxota”. Desse modo, homens não poderiam nos estarrecer ou nos envergonhar ao manejar essas palavras como armas, nós também tínhamos que ser hábeis em falar sobre “paus” e “pintos” com a mesma facilidade. A liberação sexual já tinha nos dito que se quiséssemos satisfazer um homem tínhamos que nos tornar confortáveis com “chupetas”, de ir fundo com o pau em nossa garganta até o ponto que machucasse. Desistindo de nossa agência sexual, tínhamos que aceitar a dor a fingir que ela era na verdade prazer.

Intervenções feministas sobre a questão da sexualidade, junto com sofisticadas formas controle de natalidade, mudaram isto. Era dito as mulheres que queriam ficar com homens que nós tínhamos o direito de definir o lugar do prazer para nós e a vontade de afirmar nossos direitos sexuais. Isto nos fez entender que não tínhamos que consentir com a força ou fingir apreciar dor. Isto nos fez entender que o pênis não era uma cobra de um olho só saindo do bolso de uma calça no jardim do júbilo sexual, ameaçando transformar nossos corpos em um lugar em que a dor define, penetra e pune. Não precisávamos vê-lo [o pênis] como inimigo.

Como muitas jovens que chegaram à idade naquele intenso e extasiante momento quando liberação sexual e movimento feminista convergiram, eu também deixei de lado o medo do pênis que assombrou minha infância. Esses medos estavam enraizados não em inveja do pênis ou do corpo masculino, mas na raiva de que ele tinha que ser temido. Naqueles dias a mensagem sobre o corpo masculino que mulheres recebiam alto e claro era que, quisessem ou não, a penetração poderia mudar a vida de uma garota para sempre. Ela nunca mais seria a mesma; ela nunca seria boa/pura outra vez. Lembro-me da pura felicidade que o controle de natalidade nos ofereceu. Ele significava que não tínhamos que temer o pênis. Podíamos aceitar nossa curiosidade sobre ele, nossas dúvidas e nossa paixão.

Quando garotinha eu pensava no pênis como uma varinha mágica. Mágica porque ele poderia se mover e mudar a sua forma; sementes poderiam sair dele e chegariam a vida dentro do corpo de uma mulher. Eu só tinha visto o pênis de um bebê – não era inveja que eu sentia, mas curiosidade. Eu temia por ele e sua varinha mágica, tão exposta, tão fácil de ferir e machucar. E como tantas garotas já testemunharam, eu estava aliviada que meus genitais femininos não eram para fora, expostos, visíveis.

Este senso de fascinação e apreciação infantil do pênis mudou quando avisos sobre o perigo sexual e a ameaça que o corpo masculino destruiria a inocência feminina tornou-se a norma.  Naqueles dias não havia nenhuma discussão sobre paixão feminina. Em meu imaginário sexual a varinha se transformou em arma, somente homens a usavam para nos rebaixar, nos destruir.

Sem dúvida que mulheres se maravilharam quando controle de natalidade e a insistência feminista sobre agência sexual feminina tornaram possível para nós refletir sobre o pênis de uma nova forma. Nós podíamos vê-lo como  um instrumento de poder e/ou prazer. Podíamos nos abaixar entre pernas masculinas, nos abandonarmos em mistérios e levantarmos saciadas e satisfeitas com o entendimento que podíamos dar e receber prazer sexual. Podíamos expressar nosso incomodo em expressões como “chupetas” (blow job), a qual assumia que toda vez que chupássemos um pinto isso era uma espécie de trabalho que fazíamos somente para agradar aos homens.

Uma geração posterior, mulheres vivendo na nova cultura de liberdade que o feminismo e a liberação sexual produziram, iriam de início abordar o pênis ausentes de medo. Escrevendo sobre a chegada ao poder sexual na sua puberdade em Promiscuities, Naomi Wolf se recorda como rapidamente ela e suas amigas deixaram de pensar em “chupar pintos” como algo estúpido para passar a um interesse apaixonado: “Dentro de um ano, nós estávamos obcecadas. Nem tanto com o pênis em si... mas muito mais com o que eles eram – a improbabilidade deles, a bela bizarrice, a maneira que eles estranhamente cresciam por vontade própria e estranhamente desafiavam a gravidade, sua insondável responsividade.” Mas a conversa feminina sobre fascinação com o pênis frequentemente se limita as recordações da infância e puberdade. Não porque cessa-se de se encantar, mas porque os aspectos de encantamento do pênis perdem seu charme quando vinculados a estratégias de dominação masculina.

Embora feministas contemporâneas tenham trabalhado duro nos anos 70 para chegar a novas maneiras de falar a respeito de agência sexual feminina em relação ao pênis, novas palavras não caíram no uso geral. Mulheres individualmente davam engenhosos e bonitinhos nomes aos pênis de seus parceiros, mas no final de tudo, não houve uma revisão largamente aceita de como nós todas poderíamos ver e experienciar o pênis.

Naquela época e agora, mulheres falam sobre como as palavras usadas para descrever a genitália feminina são muito mais variadas e interessantes do que aquelas usadas para descrever os genitais masculinos. Lendo muita literatura erótica, tanto gay como heterossexual, fiquei decepcionada ao descobrir que ao final das contas, o pênis é ainda representado como uma arma, como um instrumento de indelicada e dolorosa penetração. Pensado em termos de força, seja em descrições de sexo consensual prazeroso ou sexo forçado e bondage (servidão/dominação), nenhum deles parece ter muito a dizer sobre o pênis que questiona e transforma a representação sexista. Identificar o pênis sempre e unicamente com força, como sendo um instrumento de poder, uma arma primeiro e acima de tudo, é participar no reverenciamento e perpetuação do patriarcado. É a celebração da dominação masculina.

Sem dúvida então que enquanto o feminismo progrediu, muitas mulheres anti-sexistas sentem ainda que não há formas de engajar o pênis que não reforcem a dominação masculina. Enquanto muitas feministas num ato político escolheram o lesbianismo ou o celibato como uma forma de resistir a subordinação sexual sexista e, consequentemente, não tem interesse no pênis, aquelas de nós que apreciam a paixão pelo pênis frequentemente nos encontramos silenciadas pela suposição que a mera nomeação de nosso prazer é traiçoeiro e apoia a tirania do patriarcado. Isto é simplesmente um erro lógico. Submeter-se ao silêncio nos torna cúmplices. Nomear como nos comprometemos sexualmente com corpos masculinos, e mais particularmente o pênis, em formas que afirmem a igualdade de gênero e posterior liberação feminista de homens e mulheres é um ato essencial de liberdade sexual.

Quando mulheres e homens podem celebrar a beleza e poder do falo em formas que não apoiem a dominação masculina, nossas vidas eróticas são melhoradas. Em um ensaio publicado na antologia Transforming a Rape Culture, escrevi como tive que mudar meu pensamento sexista a respeito do pênis – deixando de lado a fetichização erótica do pinto rígido penetrador, para abraçar uma erotização do pênis que era mais holística. Minha paixão pelo pênis se intensificou quando parei de pensá-lo somente em relação a performance, a penetração. Apreciei aprender como ser sexualmente despertada pela visão de um pênis não ereto. 

Dando continuidade a tradição das primeiras feministas contemporâneas que eram defensoras da liberdade sexual, acredito que ainda precisamos ver mais imagens do pênis na vida cotidiana. Em uma contexto de prazer sexual mútuo enraizado na igualdade de desejo, há espaço para uma política da sexualidade que é variada, que possa incluir pintos eretos/duros, rough sex e penetração como demonstração de poder e submissão, porque estes atos não são intencionados a reforçar a dominação masculina. Mas sem este contexto sexual progressista nós acabamos sempre criando um mundo onde o pênis é sinônimo de negatividade e ameaça.  

O presente risco à vida das doenças sexualmente transmissíveis tem sido usado por conservadores sexuais para reforçar sentimentos anti-pênis. Muitas mulheres voltaram a um temor do pênis que é praticamente vitoriano. A despeito da revolução sexual e da prevalência do pensamento feminista, não foi  necessário muito tempo para que convenções sociais sexistas triunfassem sobre as novas maneiras de refletir sobre sexualidade introduzidas pelo feminismo e movimento gay. A visão do falo, sempre e unicamente, como um instrumento de força é conservadora e falha. Mas ela ainda reina suprema.  Sinto-me desanimada quando leio literatura erótica lésbica onde todos os falos simbolicamente usados no jogo sexual são descritos usando um vernáculo sexista, reforçando a noção do falo, seja ele real ou simbólico, como uma arma. Claramente, nós devemos continuar o trabalho de criar uma fronteira sexual libertária, lugares onde o pênis seja apreciado e estimado.

Mudar a forma como falamos sobre o pênis é uma poderosa intervenção que pode questionar o pensamento patriarcal. Muitos homens sexistas temem que seus corpos percam significado se nós avaliarmos o pênis mais pela sacralidade da sua existência do que pela sua capacidade performática. Depois de um refeição romântica com um homem que capturou meu interesse sexual, enquanto estávamos sentados na minha sala de estar ouvindo música, pedi a ele que me mostrasse seu pênis. Ele respondeu em alarme. Encontrávamos completamente vestidos. Não estávamos engajados em preliminares sexuais, mas o clima era erótico. Ele pareceu alarmado ao pensamento do seu pênis sendo observado fora de um contexto de performance e quis saber porque eu queria vê-lo. Respondi que queria vê-lo para saber se iria gostar dele. Ele perguntou: “Você vai saber se vai gostar olhando pra ele?” Respondi: “Eu vou saber olhando.”

Compartilhei essa história com amigo/as, e todas às vezes homens e mulheres respondiam o quanto duramente eu tinha ameaçado a sua masculinidade. Creio que a noção de ameaça surgiu simplesmente porque eu estava reivindicando a primazia do olhar feminino, uma agência sexual feminina não informada por condicionantes sexistas que separaram prazer, no corpo masculino, da performance do pênis.
 
Retornando para a bem-aventurada noção de sacralidade do corpo, de prazer sexual, nós reconhecemos o pênis como um símbolo positivo da vida. Seja ele ereto ou não, o pênis pode ser sempre uma maravilha, uma vontade, uma varinha mágica. Ou ele pode ser associado a uma lagarta, como Emily Dickinson ternamente afirma: “Tão suave uma lagarta caminha - / Encontro uma sobre minha mão / Que mundo de veludo”

bell hooks é autora de Wounds of Passion, publicado pela Henry Holt and Company.

Penis Passion, bell hooks, Shambhala Sun, julho de 1999.